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Anne With an E: mais alcance para a imaginação

De autoria da escritora canadense Lucy Maud Montgomery e publicado originalmente em 1908, o livro Anne of Green Gables já recebeu inúmeras versões cinematográficas, mas isso não impediu a Netflix de fazer sua própria versão intitulada de Anne with an E, em 2017 – e que sorte a nossa! A história da órfã Anne Shirley, enviada por engano para a fazenda dos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert, cativou gerações de leitores ao redor do mundo desde seu lançamento – a obra já foi traduzida para mais de 20 idiomas além de ter vendido cerca de 50 milhões de cópias – e retorna com outra roupagem por meio do serviço de streaming para encantar novos fãs. Com criação de Moira Walley-Beckett, responsável por alguns episódios de Breaking Bad, a nova Anne veio para ficar.

“Prefiro imaginar a lembrar.
Por que as piores memórias permanecem?”

Os sete episódios que compõe a primeira temporada de Anne With an E narram as aventuras e o crescimento de Anne (Amybeth McNulty), uma menina que perdeu os pais quando ainda era um bebê e que, desde então, é levada de orfanatos para lares que não a desejam como filha, mas apenas como uma ajudante nos afazeres da casa. Quando um engano a faz ser enviada para os Cuthbert, Anne mal pode acreditar em sua sorte – e, exatamente por isso, passa todo o percurso até a fazenda dos irmãos se beliscando para conseguir crer na realidade do que está vivenciando. Na ocasião em que Matthew Cuthbert (R.H. Thomson) chega à estação de trem e encontra Anne, ele logo se dá conta do mal entendido, mas não menciona nada a ela: ele e sua irmã, Marilla (Geraldine James), desejavam receber um garoto e não uma garota. A ideia era que o menino pudesse ajudar nas tarefas de Green Gables, fazendo parte do trabalho que Matthew, por conta da idade, não consegue mais fazer.

Anne permanece inocente de toda a confusão até chegar à sede de Green Gables, e seu entusiasmo diante a perspectiva de ser desejada por uma família acaba por cativar Matthew. A menina, dona de uma mente inventiva e uma tagarelice sem igual, passa todo o caminho até a fazenda falando sobre o quanto se sente feliz por estar na Ilha do Príncipe Eduardo, como a paisagem é bela e como será feliz vivendo em Green Gables. No entanto, quando Matthew apresenta Anne a Marilla, todos os sonhos da menina são desfeitos em um segundo: a mulher não vê serventia para Anne, afinal, como uma menina poderia dar conta das tarefas pesadas de uma fazenda?

É nesse momento que o gênio de Anne começa a brilhar e ela diz para Marilla – e a quem mais interessar – que uma menina pode fazer tudo o que um menino faz, e ainda mais. Anne sabe que ser menina não deveria impedi-la de fazer o que quer que fosse, seja realizar tarefas na fazenda ou conquistar o mundo se assim desejar. Matthew, já cativado por Anne, não se opõe a permanência dela em Green Gables, mas Marilla, por outro lado, não está tão certa de que essa seja a melhor opção. Sendo assim, com o intuito de descobrir o que aconteceu para Anne ser enviada por engano para os Cuthbert, Marilla planeja uma visita à responsável pelo ocorrido na manhã seguinte, a fim de devolver Anne para o orfanato. A primeira noite de Anne em Green Gables é banhada por lágrimas, e todos os seus sonhos são estraçalhados em mil pedaços com a negativa de Marilla. Anne tem uma grande imaginação e um vocabulário extenso, recheado de palavras grandes para descrever coisas importantes, mas nesse instante ela não tem o que dizer. Ao amanhecer, Marilla leva Anne até a responsável pela confusão, mas basta alguns momentos a sós com a menina para que a mulher note o quanto ela é especial.

Anne conquista os dois irmãos Cuthbert e sua estadia em Green Gables, mas não sem antes passar por uma série de acontecimentos de apertar o coração. A vida de Anne, antes de ser enviada aos Cuthbert, foi uma repetição de abusos e provações, e Anne With an E se utiliza de alguns flashbacks pontuais para nos lembrar disso. O período em que passou com a família Hammond, por exemplo, foi repleto de abusos físicos e verbais – Anne não era desejada como uma filha, mas apenas como um par de mãos extras para ajudar Mrs. Hammond (Edie Inksetter) com seus vários filhos. No orfanato não era diferente, e Anne sofria nas mãos das outras crianças que não suportavam “sua tagarelice” e sua maneira diferente de pensar. Mesmo vítima de constantes maus tratos, Anne foi capaz de manter-se verdadeira a si mesma, retirando de sua imaginação a força necessária para não sucumbir; Anne adquiriu o hábito de se perder em pensamentos fantasiosos, guiada por sua imaginação, quase como uma maneira de escapar de sua dura realidade.

Ainda que atualmente Anne of Green Gables seja considerado um livro para crianças, essa não foi a intenção da autora ao escrevê-lo. A história de Anne é repleta de tons escuros, mesmo que Lucy Montgomery não tenha sido tão explícita ao contá-la, mas Anne With an E, enquanto isso, decide não deixar dúvidas quanto ao passado difícil de sua protagonista. A vida de uma menina órfã pode ser complicada além do que podemos imaginar, e no século XIX a realidade conseguia ser ainda pior. Para sorte de Anne, ela pôde ter a chance de um recomeço na companhia de Matthew e Marilla, mesmo que os moradores da fictícia comunidade de Avonlea não a aprovem de início.

As batalhas travadas por Anne são muitas e constantes, e mesmo adotada por Matthew e Marilla, Anne ainda precisa lidar com o preconceito dos vizinhos que não conseguem entender o motivo que os levou a ficar com uma menina ruiva, magricela e feia – mesmo que a intérprete de Anne, a atriz Amybeth McNulty, seja adorável. A melhor amiga de Marilla, Rachel Lynde (Corrine Koslo), não hesita em dizer, na frente da menina, o quanto ela é inadequada com todas aquelas sardas e cabelo ruivo, o que magoa Anne profundamente. Em Anne With an E não fica tão evidente o preconceito com meninas ruivas de olhos verdes – azuis, no caso da série –, mas em Anne of Green Gables a protagonista é constantemente chamada de bruxa devido às suas características físicas. Na crendice popular do final do século XIX, meninas ruivas de olhos verdes eram vistas como bruxas, e Anne, com sua imaginação fértil e falta de papas na língua, só reforçava ainda mais essa visão da comunidade de Avonlea.

E não são apenas os adultos a emitir comentários maldosos a respeito de Anne, mas também as crianças. Mesmo uma órfã vivendo em situações de risco, Anne sempre cultivou o gosto pela leitura, então quando a oportunidade de frequentar a escola surge, ela não hesita em se jogar nessa nova empreitada. Aprender é algo que a menina verdadeiramente ama e, empolgada a respeito das aulas, não poderia imaginar que sofreria tanto nas mãos dos colegas de classe. Anne, que nunca frequentou aulas antes, precisa aprender a sobreviver em um ambiente com regras muito específicas, além de ter que lidar com os comentários maldosos de seus colegas, sejam meninas ou meninos. As meninas a acham estranha, com maneiras e comentários difíceis de acompanhar, enquanto os meninos implicam com ela por conta de sua cor de cabelo ou simplesmente por ser órfã.

Em meio a tudo isso, no entanto, Anne conquista a amizade de Diana Barry (Dalila Bela), mesmo que em um primeiro momento a menina fique dividida entre acolher Anne por verdadeiramente gostar de sua companhia ou seguir o restante das meninas da escola, que preferem excluí-la. A mãe de Diana, Mrs. Eliza Barry (Helen Johns), também não vê com bons olhos a amizade da filha com Anne, e só muda de opinião quando a menina toma parte em uma situação de vida ou morte, e salva Minnie May (Ryan Kiera Armstrong), sua filha mais nova. Ainda que a maior parte das crianças não demonstre interesse em Anne para além da zombaria, o mesmo não acontece com Gilbert Blythe (Lucas Jade Zumann), que se esforça para ser amigo da menina, embora ela, por outro lado, evite seus avanços com medo de ferir os sentimentos de Ruby Gillis (Kyla Matthews), que é apaixonada por ele, e ficar em situação mais difícil ainda entre as colegas.

O desenvolvimento da relação entre Anne e as outras crianças é um ponto interessante na trama de Anne With an E. Por ter sofrido nas mãos das crianças do orfanato, é natural que Anne tente seguir o ritmo de seus novos colegas, tentando se encaixar. Anne se esforça para ser incluída como parte do grupo, mas quando as outras meninas se afastam dela, além de sofrer reprimendas do professor, Mr. Phillips (Stephen Tracey) – que soa bastante como um pedófilo ao se encontrar às escondidas com outra aluna, Prissy Andrews (Ella Jonas Farlinger) –, ela se retrai, entristecida por não conseguir se encaixar e fazer parte de algo que tanto desejou. O que Anne aprende com tudo isso, no entanto, mostra-se ainda mais valoroso: ela começa a se entrosar com os colegas justamente quando deixa de tentar, oferecendo por meio de ações os motivos que a fazem tão única e especial.

Em outras tramas, uma das personagens mais interessantes de Anne With an E é revelada: Miss Josephine Barry (Deborah Grover), tia de Diana. Introduzida em um primeiro momento como mais uma pessoa a antagonizar a pobre Anne, aos poucos Miss Josephine nos entrega sua história e o motivo de seu luto: a perda de sua companheira de vida. O enredo da série acerta ao não fazer estardalhaço em volta da história, e nenhum dos personagens envolvidos na trama parece surpreso ao saber que Miss Josephine se relacionava romanticamente com outra mulher, e isso é digno de nota. Anne, inclusive, toma a mulher mais velha como um exemplo de vida e modelo a ser seguido – junto de Matthew e Marilla – por sua força e independência de fazer o que bem entende com sua vida, não se importando com o que os outros vão pensar. 

De maneira geral, Anne With an E vem para jogar nova luz à história de Anne Shirley, o que consegue fazer por meio de episódios bem trabalhados e uma trama coesa, com personagens carismáticos e atores perfeitamente integrados a seus papéis. Ainda que soe diferente do material original em alguns momentos – principalmente quando mostra de maneira crua o passado de Anne –, isso não desmerece a série, muito pelo contrário. Mesmo que Anne seja uma personagem intensa e com uma enorme alegria de viver, mostrar seu passado de abuso, mesmo que de maneira rápida, apenas acrescenta à sua trajetória, dando mais força ao seu modo cativante de ser. Todos os episódios de Anne With an E são belamente fotografados e contam com paisagens de tirar o fôlego, o que serve para somar ao imaginário que a série vai criando aos poucos, uma história por vez. 

Anne With an E é uma série doce que conta com uma protagonista cativante, um modelo de heroína para muitas meninas – principalmente aquelas que se sentem diferentes, sozinhas e fora do lugar. Anne demonstra perseverança e presença de espírito ao combater as eventualidades que aparecem em seu caminho, mostrando como ser verdadeira e ainda assim encontrar seu lugar no mundo. Anne With an E possui uma bela mensagem de esperança e amor, duas características intrínsecas a Anne, que nunca deixa de lutar.

“Serei a heroína da minha própria história.
Eu escolho a mim mesma, e assim nunca me decepcionarei.”

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