Categorias: CINEMA

Não quero acreditar: a sátira do negacionismo em Não Olhe Para Cima

As sátiras, críticas que exploram com tom de humor e sarcasmo questões sociais, políticas e culturais, são comuns há séculos, principalmente quando mobilizações mais radicais eram (e são) freadas. E em uma situação extremamente absurda, como a realidade de crise e negacionismo que estamos vivendo, o exagero, criado pelo absurdo ridicularizado, parece ser a forma mais fiel de retratar o presente. E são esses elementos que são explorados em Não Olhe Para Cima, filme que estreou na Netflix na véspera do Natal de 2021, a época perfeita para acalorar as discussões polarizadas entre familiares.

No longa acompanhamos a descoberta de um meteoro pela cientista Dibiasky (Jennifer Lawrence), aluna do cientista Mindy (Leonardo DiCaprio). O meteoro está vindo em direção à Terra, e o impacto, junto com as suas dimensões, representa um perigo concreto de destruição total e iminente do planeta. Contudo, assim como a personagem mitológica Cassandra, que possui o dom da profecia, mas ninguém acredita em suas palavras, os dois são negligenciados pelas autoridades políticas e pela mídia, que transforma o fim do mundo em um meme.

Enquanto Dibiasky é retratada como uma paranoica, ridicularizada de forma profissional e pessoal pelo público, Mindy é engolido pelos holofotes da mídia, que o transformam em um símbolo sexual cujo objetivo é retratar a realidade do fim iminente de forma palatável para todos. Pois, em uma realidade na qual os celulares são capazes de detectar sentimentos ruins e automaticamente mostrar vídeos fofos para as pessoas, o tom pesado e mórbido nunca é bem-vindo. A história retrata um fim perfeitamente evitável, caso não fosse acompanhado de uma gestão incompetente e oportunista, manifestada na figura da presidenta dos EUA, Orlean (Meryl Streep), da censura da desinformação e da manipulação de magnatas.

não olhe para cima

Indicado ao Oscar 2022 nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição, o filme também conta com um elenco de peso. Além dos já citados Leonardo DiCaprio, Meryl Streep e Jennifer Lawrence, temos a presença de Cate Blanchett, Timothée Chalamet e a participação de Ariana Grande como a celebridade fictícia Riley Bina, responsável pela música tema da trama. As atuações retratam de forma muito realista como diferentes tipos de pessoa reagiriam ao iminente fim do mundo e, embora possua tons de comédia, representa a incapacidade coletiva de ouvir os alertas da ciência e distinguir fatos de mera opinião. A vida imita a arte e a arte imita a vida, às vezes simultaneamente.    

“Look up
What he’s really trying to say
Is get your head out of your ass
Listen to the goddamn qualified scientists”
(“Just Look Up”, Ariana Grande feat. Kid Curi)

Semelhanças com o nosso fim

Embora  escrito antes da pandemia, as semelhanças com o momento que estamos vivendo foram ressaltadas por muitas pessoas. Com a inspiração inicial nos impactos ambientais, há muito negligenciados pelo mundo, Não Olhe Para Cima mexe no ponto essencial que foi responsável pelo resultado de muitos conflitos durante a pandemia: a mídia e as relações de poder, e a banalização do colapso.

não olhe para cima

Feito um casamento entre Trump e Bolsonaro, a presidenta dos EUA, Janie Orlean, não dá ouvidos aos avisos dos cientistas, muito mais preocupada com polêmicas pessoais que certamente influenciarão sua candidatura. Suas decisões também são afetadas pela influência do homem mais rico do mundo, Peter Isherwell (Mark Rylance), dono da fictícia empresa de tecnologia BASH, um magnata que enxerga no meteoro uma possibilidade de lucro a partir da extração de minérios. As semelhanças com líderes de grandes empresas, como Bezos e Musk, são grandes, e foram apontadas pelo público da obra.

Nas redes sociais, cientistas como Átila Imarino e Natália Pasternak expõem como a obra se assemelha ao que o Brasil vivencia hoje, com o negacionismo em alta. Pasternak relembra o episódio em que se revolta em uma reportagem de jornal, que trata com humor a recusa de muitos ao usar máscara, semelhante ao que ocorre com a personagem Dibiasky no filme. O mesmo com o descaso dos dados apresentados pelo cientista Mindy, com suas porcentagens sendo ridicularizadas pelo público, como o que ocorre com os dados e estudos que Iamarino divulga. Em uma cena, a porcentagem de 100% de destruição da terra é alvo de brincadeiras cruéis ao ser apontado que nenhum cientista trabalha com uma porcentagem tão redonda, mas que as chances eram totalmente corretas. E com 99% de chance de destruição, as pessoas se agarram ao 1%, e o que antes era um fato vira opinião.

Por fim, o ponto mais alto de semelhança é o negacionismo, que está presente desde o título. Quando o meteoro pode ser visto a olho nu, por todos, a campanha “não olhe para cima” é incentivada pelas autoridades, em contraposição à campanha “olhe para cima”. Aqui o negacionismo daqueles que escolhem não olhar para o problema pode ser comparado ao movimento antivacina, contra o uso de máscaras e isolamento social, como as mobilizações que carregaram o lema “O Brasil não pode parar”. Está presente naqueles que não distinguem fato de opinião, ou simplesmente os que seguem suas vidas em uma falsa normalidade, como se nada estivesse acontecendo. Ou simplesmente a negação do aquecimento global e da exploração desenfreada da Terra, que segue em um ritmo irreparável.

não olhe para cima

Outro ponto bastante explorado pela trama é a comunicação. Uma das principais críticas que os cientistas do filme escutam trata da sua “dificuldade de se expressar”, como se eles não falassem a língua de todos. O filme explora as redes sociais para contar a sua narrativa, e com isso reflete uma realidade cercada de muitas informações, de muitas pessoas que leem como nunca se leu antes, com muita quantidade e pouca qualidade, pouco filtro de relevância. Além disso, podemos comparar à dificuldade que comunicadores têm ao tentar alertar a sociedade acerca de problemas iminentes sem “politizar” ou “polarizar” seu discurso, pois no momento em que “apontam dedos”, eles são silenciados.

A recepção do filme dividiu opiniões. Embora muitos não tenham achado a construção da sátira de Adam McKay forte o bastante a ponto de explorar de forma crítica o mercado do entretenimento, ela certamente explorou paralelos muito presentes em nossa realidade, principalmente a naturalização do colapso mundial e a leveza com que é tratado, feito assunto cotidiano. Contudo, ela ainda é entretenimento, sem causar uma mobilização maior que a identificação daqueles que estão assistindo o fim do mundo em suas casas, tornando-se o terceiro filme mais assistido da Netflix até então. 

A sensação é que o filme sabe exatamente como será recebido pelo seu público, que é o mesmo que estabelece as conexões na metalinguagem da obra. Junto com a incredulidade de encarar o fim, Não Olhe Para Cima deixa um leve, porém amargo gosto de pessimismo. Aquela sensação de que não há o que ser salvo nas pessoas, porque elas “sempre estragam tudo”. Tal qual aqueles memes de “vem, meteoro”, toda vez que algo de ruim acontece no mundo.

Don’t Look Up recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora Original e Melhor Edição.  


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