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A trajetória de Jenny Lee em Call the Midwife

“Por que comecei isso?” é o primeiro entre os muitos escritos que compõem a abertura de Call the Midwife, série britânica livremente baseada na trilogia de livros escrita por Jennifer Worth (Lee, antes do casamento) sobre seus anos de trabalho como parteira em uma das regiões mais pobres de Londres. Entregue ao espectador sem cerimônia, a frase adianta as primeiras impressões de uma jovem privilegiada e inexperiente que tem seu primeiro contato com a pobreza — por vezes extrema — e condições precárias de subsistência. “Podia ter sido comissária de bordo, podia ter sido modelo, podia ter me mudado para Paris ou virado pianista. (…)”, relata a narração de Vanessa Redgrave ainda no primeiro episódio, enquanto uma jovem Jennifer (Jessica Raine) presencia a briga entre duas mulheres — uma delas, grávida — que trocam tapas e ofensas por um homem que sequer está presente. É uma cena breve, mas marcante, que fornece um primeiro vislumbre de um cenário no qual Jenny, com suas roupas bonitas e limpas e uma maquiagem impecável, é tão obviamente contrastante.

Atenção: este texto contém spoilers!

A imagem funciona como prenúncio: em 1957, quando Jenny decide aceitar o emprego em Poplar, fica claro que ela não sabe o suficiente sobre o novo trabalho (a descoberta de que sua nova residência é um convento é particularmente marcante). Acostumada ao ambiente asséptico dos hospitais e ao uso de materiais descartáveis, o trabalho na Nonnatus House é um desafio em si mesmo, no qual teoria e prática encontram-se em constante conflito — adaptar-se à nova realidade, portanto, é um dos grandes desafios norteadores de sua jornada, ao menos em seus primeiros anos. A um nível pessoal, contudo, Jenny também possui angústias, e são elas que a levam a Poplar em primeiro lugar. Call the Midwife não dedica muito tempo às suas motivações pessoais para aceitar um trabalho tão distante de suas experiências anteriores, em partes porque esse não é o elemento mais importante em sua trajetória. Sabe-se apenas que ela chega até a Nonnatus House em busca de um recomeço depois de se apaixonar por um homem casado, mas esse é apenas o ponto de partida de uma história muito mais rica do que sugere o clichê da jovem mulher que foge de um amor proibido.

Jenny Lee

Mais próxima das jornadas de amadurecimento do que das histórias sobre grandes paixões a serem superadas, Call the Midwife constrói para Jenny uma narrativa que tampouco centraliza temas como ambição e carreira, embora o trabalho seja o principal catalisador das experiências que a permitem enxergar o mundo — e as pessoas que a cercam — com outros olhos. Durante três temporadas, Jenny precisa ultrapassar muitos dos seus limites; e ultrapassar limites, nesse contexto, também significa ser capaz de abandonar preconceitos e expectativas, um processo constante, que continua a acontecer mesmo depois de adquirir maior experiência e se tornar uma parte da comunidade.

Desde o primeiro dia, Jenny é levada a situações que testam a prática da enfermagem e da obstetrícia tanto quanto a colocam em um lugar de desconforto. Conchita Warren (Carolina Valdes), sua primeira paciente, é uma imigrante espanhola que foi levada ainda criança para a Inglaterra após o fim da Guerra Civil Espanhola, por um homem muito mais velho do que ela, e que viria a se tornar seu marido. Quando Jenny conhece o casal, eles já somam 24 filhos, o primeiro deles tendo nascido quando Conchita tinha cerca de 14 anos, e sua pouca idade em relação ao número de filhos não deixa de chamar a atenção da parteira (a palavra “estupro”, no entanto, nunca é utilizada).

As problemáticas decorrentes do casamento precoce são extensas. Para além da dependência financeira, comum à muitas mulheres da época, Conchita vive em um país estranho, longe de sua cultura, limitada ao ambiente doméstico e a uma língua que desconhece. Len (Tim Faraday), seu marido, tampouco fala espanhol, de modo que cabe a Maureen (Hayley Squires), a filha mais velha do casal, intermediar a comunicação entre a mãe e o mundo que a cerca. A forma como vive a família também salta aos olhos. Famílias mais necessitadas aparecem ao longo da série, muitas das quais sofrem com a fome e com doenças que se alastram pela falta de acesso à higiene básica. Não é o caso dos Warren. Ainda assim, é evidente que, mesmo em um lar modesto, a família poderia viver de forma mais confortável, não fossem tão numerosos. O afeto, entretanto, está sempre presente e, embora Jenny se espante com algumas situações — como quando é convidada a jantar com a família e todos têm apenas uma colher para comer, pegando a comida diretamente da panela —, ela nunca questiona o amor que existe ali. Se os caminhos que levaram Conchita até a Inglaterra são questionáveis (e eles são), a maternidade e o casamento são coisas que inegavelmente a realizam.

“Só estou aqui para ajudar”

Em um dos diálogos mais bonitos da série, ocorrido ainda no primeiro episódio, Jenny e Trixie (Helen George), com quem Jenny divide um quarto na Nonnatus House, conversam sobre as dificuldades de se trabalhar em um lugar como Poplar. Mais experiente, Trixie não invalida as impressões iniciais de Jenny, mas lhe fornece um ponto de vista diferente.

“Jenny: Você achou difícil logo que começou?

Trixie: Eu achava que merecia todo tipo de medalha. Passava noites em claro, pedalava por quilômetros (…). E então, um dia, percebi que não merecia nenhuma medalha. As mães é que são corajosas. Elas têm bebês e mais bebês em condições precárias e continuam seguindo em frente. Elas são as heroínas. Só estou aqui para ajudar.”

Porque o maior desafio de Jenny é justamente assimilar essa nova realidade e as particularidades que dela provém, a fala de Trixie adianta uma percepção que eventualmente seria compartilhada pela própria Jenny. Não é apenas Conchita que a faz ver aquele mundo de forma diferente, mas também Pearl Winston (Lorraine Stanley), uma de suas pacientes da clínica que perde o bebê em decorrência da sífilis (antes disso, Pearl protagoniza a briga de rua que surpreende Jenny em sua chegada).

Jenny Lee

Durante o atendimento de Pearl, Jenny deixa o consultório após constatar os sinais de sífilis, e não retorna, deixando a paciente sozinha e desassistida. Mais tarde, quando o diagnóstico é confirmado pelo médico e Pearl é enviada para casa, Irmã Julienne (Jenny Agutter) encontra Jenny ainda lavando as mãos, sendo necessário que a freira a lembre que aquilo não era necessário: não havia risco de contaminação. Não deixa de ser frustrante para Jenny, no entanto, que uma pessoa pudesse chegar a tal estado sem sequer desconfiar que estivesse doente. Irmã Julienne, então, explica a ela que pessoas como Pearl nunca tiveram alguém que se importassem com elas e, talvez por isso, nunca tivessem aprendido a cuidar de si mesmas — e era por essa razão que pessoas como ela e Jenny estavam ali.

Quando Pearl perde o bebê devido ao estado avançado da doença e Jenny vai até sua casa, a imagem entre as duas mulheres, e também de Jenny em relação ao ambiente, continua tão contrastante quanto no dia da chegada da enfermeira a Poplar. Mas a postura de Jenny muda, em grande parte porque a maneira como enxerga e reage àquelas pessoas também muda. Assim, quando Pearl lhe pergunta se ela acha que todas as pessoas ali são desleixadas, Jenny recorre à fala de Trixie e afirma que, pelo contrário, acredita que as mulheres de Poplar são verdadeiras heroínas. Ainda que as palavras não fossem propriamente suas, elas não deixam de fazer sentido e sua sinceridade é o que, por fim, arranca um sorriso da paciente.

Conchita e Pearl seriam dois casos em muitos e, episódio após episódio, Call the Midwife comprova que cada um permaneceria um desafio à sua maneira. Se a pobreza e a ausência de recursos são um obstáculo inescapável à maioria, historicamente, o período retratado na série também coincide com o chamado baby boom, expressão utilizada para se referir ao súbito aumento de natalidade ocorrido nos anos subsequentes ao fim da Segunda Guerra Mundial, particularmente em países da Europa e nos Estados Unidos. Somente na área de atuação das parteiras da Nonnatus House estima-se que 800 partos fossem realizados por mês, fora pacientes não-natais que também necessitavam de atendimento domiciliar. Jenny não criaria laços com todos, tampouco o fazem suas amigas e colegas de profissão, mas existem pessoas que a marcam para sempre e é ao se permitir criar algum tipo de conexão com elas que ela tem a chance de experimentar uma verdadeira transformação.

A mudança, claro, não é desprovida de dor. Como ocorre aos mais tradicionais romances de formação (é preciso lembrar que Jenny não pertence à faixa etária que compõe o gênero, no entanto), a tomada de consciência e o amadurecimento a alcançam no decurso dos anos vividos na Nonnatus House, mas isso não acontece sem algum custo. É verdade que, com o tempo, ela se torna uma pessoa mais confiante, dinâmica e independente, mas nenhuma dessas características a protegem da mágoa, da decepção ou da perda.

Jenny Lee

Muitos de seus pacientes não têm um bom prognóstico e a morte é uma realidade próxima. Mas o distanciamento tampouco é uma possibilidade. Jenny é humana e é essa humanidade que a leva a acolher pessoas como Mary (Amy McAllister), uma prostituta de 15 anos que foge do seu cafetão com medo de que ele a obrigasse a realizar um aborto. Após se conhecerem brevemente e por acaso, Jenny a leva até a Nonnatus House, onde Mary recebe cuidados e permanece até que encontre um lugar para se estabelecer. Eventualmente, ela é enviada para um abrigo de mulheres, onde dá à luz uma menina, a quem chama de Kathleen, mas a bebê lhe é tirada poucos dias após o nascimento e encaminhada para a adoção sem o seu consentimento.

A doação forçada ou coagida de bebês não foi uma prática incomum nos anos pós-guerra. Normalmente criadas pelo governo, mas administradas por igrejas de diferentes religiões, as chamadas casas de amparo maternal existiram, em seus antigos moldes, como uma ponte entre mulheres grávidas, brancas e solteiras (mulheres não-brancas não costumavam ser enviadas a essas lugares uma vez que seus bebês não eram considerados adequados para adoção), e casais brancos e heterossexuais que desejavam ter filhos, mas não conseguiam concebê-los. Em alguns casos, mesmo durante a gravidez, mulheres eram abusadas física e psicologicamente, e seus bebês eram vendidos à famílias adotivas. Estima-se que, somente no Canadá, 300 mil mulheres tenham sido forçadas a entregar seus filhos para adoção por essas instituições, que também foram identificadas no Reino Unido, na Austrália, na Nova Zelândia e nos Estados Unidos.

A história de Mary não é uma exceção. Em sua narração, Jenny conta que mãe e filha jamais se veriam novamente: uma vez que Kathleen é adotada, o sistema garantiria que fosse impossível encontrá-la. E a violência, tanto quanto a ausência da filha, é o que por fim levam Mary à loucura. De volta à prostituição e vivendo nas ruas, o caminho das duas mulheres se cruza novamente quando Mary sequestra uma bebê recém-nascida, mas o caso não é levado adiante (os pais da criança decidem não prestar queixa) e o futuro de Mary se torna incerto. Em sua última aparição, ainda na cadeia, Jenny lhe faz uma visita, mas não consegue estabelecer uma comunicação com ela; de fato, Mary parece muito além da interação humana. Sua história, no entanto, continua a ecoar pela narrativa. Para Jenny, o caso é um ponto de ruptura que a obriga a ver através das instituições e mecanismos de ajuda — pelo o que verdadeiramente são e não pelo o que deveriam ser — e, em consequência, a levam à quebra de inocência. Se, apesar de tudo, é possível dizer que Mary dificilmente teria encontrado o acolhimento e cuidado que lhe foi dispensado por Jenny, é verdade que Jenny também não seria a mesma sem Mary.

Ela tampouco seria a mesma sem Joe (Roy Hudd), um senhor viúvo que recebe atendimento domiciliar para o tratamento de úlceras. Jenny é um ponto fora da curva no dia a dia solitário de Joe (sabe-se que seus filhos foram mortos em combate na Segunda Guerra Mundial, enquanto sua esposa fora vítima da Blitz — campanha alemã de ataque aéreo ao Reino Unido), mas é preciso algum tempo para que Jenny ultrapasse as barreiras impostas por suas realidades tão discrepantes.

Ao contrário de Pearl, não é o diagnóstico que causa repulsa à Jenny, mas o ambiente em que Joe vive: os objetos entulhados, a água turva do chá, os insetos que infestam o apartamento. Mas, a partir do momento que passa a conhecê-lo, ela também o humaniza; deixa de enxergá-lo pelo lugar onde vive e entende que aquele lugar e aqueles objetos possuem um significado e contam uma história; que são, acima de tudo, o resquício de uma vida que já não existe. Para alguém tão solitário, Jenny acaba se tornando uma companhia muito bem-vinda, disposta a ouvir memórias e dividir uma bebida com ele em suas noites de folga, mas ele não é o único: se Jenny cativa o coração de Joe, o oposto também acontece. Com o tratamento, as úlceras apresentam evidente melhora, mas quando isso acontece, o tratamento é uma parcela muito pequena daquilo que os mantêm juntos — o cuidado deixa de ser apenas um trabalho para ser, também, uma demonstração de afeto.

Quando Joe é transferido para uma casa de repouso, Jenny deixa de ser a enfermeira responsável por seus cuidados, mas continua a visitá-lo. A negligência de suas necessidades e a falta de cuidados, no entanto, levam a uma piora em seu quadro: suas úlceras gangrenam e, embora passe por uma cirurgia, Joe falece pouco tempo depois. Em seu enterro, Jenny é a única presente. “Não houve uma última mensagem, nenhum rufar solene de tambores, nenhuma saudação final”, ela diz. Mas a amizade e o carinho não seriam esquecidos. Em seu testamento, Joe deixa uma pequena lembrança para ela, desnecessária na medida em que Jenny seria incapaz de esquecê-lo (“Ele não tinha que fazer isso, porque eu não iria esquecê-lo.”), mas um último gesto que marca aquela que seria uma das relações mais bonitas da série.

O primeiro ciclo de aprendizados de Jenny — e a primeira parte de sua trajetória — é concluído com o belo especial de Natal da primeira temporada, quando conhece Mrs. Jenkins (Sheila Reid), uma senhora em situação de rua que vive nas proximidades e se encanta com os bebês que chegam para serem atendidos na clínica. Destratada pela mãe das crianças, Mrs. Jenkins é acolhida pela Nonnatus House, que a inclui nas rondas domiciliares como uma forma de lhe devolver certa dignidade. O trabalho, contudo, não é fácil: designada para atendê-la, Jenny encontra resistência por parte de Mrs. Jenkins, que se sente ameaçada por sua presença. Conforme é revelado mais tarde, antes de viver nas ruas, a senhora tivera uma família, era casada e tinha cinco filhos — Rosie, Alice, George, May e Percy. Com a morte do marido e sem meios de garantir a subsistência familiar, mãe e filhos foram separados, sendo enviados a um asilo, onde eram mantidos em alas separadas e proibidos de manterem qualquer contato. Mrs. Jenkins conseguiu deixar a instituição em meados de 1936, mas nunca foi informada sobre o paradeiro dos filhos, mortos a essa altura, vítimas de doenças infecciosas como tuberculose e pneumonia.

Para Mrs. Jenkins, cuidado era sinônimo de sofrimento e crueldade — daí a resistência tão grande em recebê-lo. Quando bate em Jenny ou dá um soco em Irmã Evangelina (Pam Ferris), não se trata, portanto, de uma questão pessoal, mas de quão profundas eram suas marcas. Mrs. Jenkins literalmente uiva de dor, um som que permanece entre o animalesco e o fantasmagórico, mas inegavelmente assustador, que Jenny não consegue compreender totalmente, mas Irmã Evangelina sim.

Eventualmente, a resistência é quebrada e não é uma surpresa que, uma vez recebidos os cuidados adequados, a aparência de Mrs. Jenkins e sua condição de vida melhorem tão drasticamente. A ausência dos filhos, no entanto, continua um questionamento recorrente, do qual a própria Mrs. Jenkins parece incapaz de se desvencilhar. Seja pela idade avançada ou como resposta ao trauma, a verdade é que a melhora não a impede de apresentar momentos de confusão (confunde Jenny com sua filha Rosie ou diz estar guardando comida para os filhos), e, embora não seja seu trabalho encontrar respostas ou fornecer qualquer tipo de conclusão ao caso, Jenny decide rastrear os registros de óbito das crianças e descobrir o local onde foram enterradas. Mais tarde, ela leva Mrs. Jenkins até o local e revela o lugar de cada um deles: Percy e May deitados um ao lado do outro; Alice sob a sombra de uma grande árvore; George sob uma lápide em forma de cruz; e Rosie, sempre tão mencionada, logo abaixo de seus pés.

No fim, as crianças não conseguiram um desfecho satisfatório: não viram novamente a mãe e não encontraram o amor que mereciam. Mesmo assim, Mrs. Jenkins reconhece que elas estão seguras e é capaz de colocar um ponto final em suas histórias e seguir adiante.

Jenny Lee

“Eu já tinha visto tantas vidas começarem, mas foi o fim dela que abriu meu coração”

No âmbito pessoal, Jenny também sofreria desencontros e perdas. Após a desilusão amorosa que a leva até Poplar, leva algum tempo até que se sinta livre para envolver-se romanticamente outra vez, o que ocorre quando seu amigo de infância, Jimmy (George Rainsford), a procura após chegar a Londres e iniciar uma carreira como arquiteto. Relutante no início, a química entre Jenny e Jimmy é inegável, mas após alguns desencontros, o flerte termina quando Jimmy engravida outra mulher, com quem acaba se casando. A amizade, porém, continua e é através dele que ela conhece Alec (Leo Staar), também arquiteto, com quem vive um breve romance.

O relacionamento com Alec floresce aos poucos, em parte porque o amor não é uma prioridade para Jenny naquele momento e é preciso tempo para que ela possa abrir espaço para ele em sua vida. No meio tempo, Alec se prova um homem educado e amoroso, preocupado com Jenny e as pessoas que a cercam, o que aos poucos lhe rende mais espaço em sua vida e, eventualmente, parece encaminhá-los a um compromisso mais sério. É uma infelicidade, então, quando Alec sofre um grave acidente em uma das construções em que trabalhava, o que lhe rende múltiplas fraturas, uma amputação e, posteriormente, uma embolia, o que o leva à morte pouco tempo após ser submetido a uma cirurgia.

A morte de Alec representa outro ponto de virada na trajetória de Jenny: incapaz de retornar ao trabalho e habitar os mesmos espaços, ela deixa momentaneamente a Nonnatus House para viver plenamente o luto. Antes da partida, em um momento bastante sensível, uma paciente que não saía de casa há anos e há pouco conseguira voltar a ter uma vida normal, graças ao trabalho oferecido pelas enfermeiras, diz aquela que se tornaria uma das mais famosas citações da série:

“Você vai se sentir melhor. Talvez não agora, mas vai. Só continue vivendo até se sentir viva outra vez.”

Ironicamente, é na morte que Jenny encontra um recomeço. Seu retorno ao trabalho coincide com o diagnóstico de câncer terminal da mãe de Chummy (Miranda Hart), sua amiga e também colega de trabalho, em uma época em que a doença sequer era nomeada. Em sua breve conversa com Dr. Turner (Stephen McGann), Lady Browne (Cheryl Campbell), a paciente, pergunta o por quê de tantos floreios para falar de uma doença, ao que ele responde que aquela “é a coisa que mais tememos”. Mais madura, no entanto, Jenny abraça a perspectiva certa da morte e oferece seu suporte à mãe e filha em um momento tão delicado.

“O fim da vida eclipsa tudo. Quando uma morte é tranquila, o ambiente se enche de paz e toda a dor que veio antes dela é esquecida. Onde havia mistério passa a haver conhecimento, onde houve medo, há amor.”

Quando é chegado o momento da partida de Lady Browne, é Jenny e a Irmã Monica Joan (Judy Parfitt) que fazem companhia a Chummy, transformando um instante de extrema tristeza em um ritual sensível e de muito amor. Poucas horas antes, Jenny havia se frustrado por não conseguir concluir o parto de uma paciente, mas, apesar da exaustão, quando questionada pelo primo da paciente se gostaria de retornar até a Nonnatus House, ela responde que não, que precisava estar em outro lugar. Depois de trazer tantas vidas ao mundo, o falecimento de Lady Browne estabelece definitivamente o seu desejo de trabalhar não com quem estava chegando nele, mas com quem estava partindo. Ela consegue, então, uma posição no Hospital Marie Curie, especializado no tratamento paliativo de pessoas com câncer e outras doenças terminais. A organização foi criada em 1948 e continua em atividade até hoje.

Jenny casou-se com Philip Worth em 1963, o primo da antiga paciente que havia se oferecido para levá-la até em casa no dia da morte de Lady Browne, e com ele teve duas filhas: Suzannah e Juliette. Permaneceu como enfermeira até 1973, quando decidiu dedicar-se à música e, mais tarde, à escrita. Embora não tenha tido tempo para assistir a série inspirada em suas reminiscências (ela faleceu em 2011, aos 75 anos, vítima de um câncer de esôfago), Jenny foi responsável por jogar luz às muitas vidas que existiam em Poplar, em toda a sua complexidade, e não apenas a registrar uma parte de sua existência ou o avanço da medicina em determinado período da história. Suas memórias são parte de algo maior do que ela mesma, mas o que permanece, no fim das contas, é algo muito mais básico e humano: o amor.

“Eu estava deixando a obstetrícia para trás, mas a Nonnatus House era onde minha família vivia e eu a amaria para sempre. Meu tempo lá me moldou, como moldou cada vida que tocou. (…) Os jovens não podem ver o que reserva o futuro. E talvez, essa seja sua benção e sua maldição. Nunca perdi contato com o convento ou os amigos que fiz lá. Suas histórias continuaram, assim como meu desejo de contá-las ao mundo. Para que serve a alegria se não forem registradas? E o que é o amor se não compartilhado?”