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Em Hometown Cha-Cha-Cha, Yoon Hye-jin é uma protagonista completa

Hometown Cha Cha Cha é um k-drama exibido originalmente pela emissora TVN na Coreia do Sul no final de 2021. Aqui no Brasil, o drama foi comprado e exibido semanalmente pela Netflix. Em linhas gerais, a produção não poderia ter chegado em um momento mais propenso: com uma trama “slice of life” (como os sul-coreanos chamam as produções que mostram parte da vida comum) cheia de romance, cura e aconchego, Homecha é basicamente sobre se permitir apoiar nos outros e a importância de criar uma comunidade ao seu redor. No ano dois da pandemia, a necessidade de contato humano e conexão estavam no auge, e apesar dos episódios não tocarem no assunto covid-19 sequer uma vez, a mensagem em si foi muito bem-vinda.

Atenção: este texto contém spoilers!

O drama está longe de ser perfeito. Não gosto, por exemplo, do trabalho feito com os personagens secundários. Apesar de serem todos carismáticos (ou quase todos, pelo menos), falta certo desenvolvimento na maneira como são abordadas as vidas de cada uma das figuras que estavam presentes na pacata cidade de Gongjin; o objetivo era, obviamente, explorar como eles, assim como os protagonistas, tinham uma vida mais complicada do que aquela mostrada no socialmente. Por vezes isso funcionou, e às vezes o k-drama apenas mostrava o passado muito traumático de alguém sem realmente desenvolver esse trauma para além do primeiro momento. Apesar deste ser o caso com muitos dos coadjuvantes, felizmente não é o que acontece com os dois protagonistas, que tem seus traumas, inseguranças e problemas trabalhados de forma paralela — e mais tarde, quando o romance se aprofunda, de forma conjunta.

Hometown Cha Cha

Tanto Du-sik (Kim Seon-ho) quanto Hye-jin (Shin Min-a) são protagonistas completos: eles são pessoas com qualidades e defeitos, sendo que suas dificuldades nasceram de eventos que mudaram a forma com que eles olham para o mundo. Apesar do romance que nasce entre eles ser genuíno e interessante de acompanhar — justamente pelos fatores apontados —, a trajetória de Hye-jin se mostra a mais interessante. O trauma de Du-sik é maior e usado como um grande catalisador da trama, mas a jornada da sua companheira é mais quieta e talvez até mais lenta, mas tão instigante e importante para os dois personagens quanto a do primeiro.

A história do drama começa contando um pouco sobre a personalidade de Hye-jin: apesar de trabalhar como dentista em uma clínica de elite, ela se recusa a cobrar um valor absurdo de uma senhora humilde que precisa de tratamento. Seus chefes, obviamente, não gostam da sua decisão e ela acaba sendo mandada embora. A questão é que Hye-jin está inserida em um contexto de pessoas obcecadas por dinheiro e status. Quase todos os seus amigos, conhecidos e ciclos sociais fazem parte desse contexto e, como consequência, a protagonista é uma mulher com poucos confidentes, sendo que ela acaba incorporando alguns dos valores daqueles ao seu redor a sua filosofia de vida.

É preocupada com o que os outros vão pensar se ela ficar muito tempo sem emprego que Hye-jin resolve mudar de Seul e abrir uma clínica em Gongjin, que fica no litoral. Lá, ela conhece uma comunidade completamente diferente daquela com a qual está acostumada: as pessoas ali se cuidam e se amam, criando um lugar que é o oposto daquele com que Hye-jin conhecia. No centro de tudo isso, está o faz-tudo (literalmente) Chief Hong — também conhecido como Hong Du-sik. O embate entre os dois quando a protagonista chega na cidade é quase instantâneo. Hye-jin não está acostumada a viver da forma que os habitantes de Gongjin vivem e demora para se inserir dentro do contexto mais “simples” das pessoas que povoam o litoral. Sua atitude no começo é esnobe e um pouco distante, sendo que é Du-sik que passa a entender e ajudar Hye-jin a triunfar naquele ambiente.

Hometown Cha Cha

O que faz Hye-jin ser uma personagem tão absurdamente interessante é a forma como ela é escrita: ao mesmo tempo que tem uma vida mais regrada pelo status social, como foi instruída a fazer depois de sofrer bullying por suas roupas simples e família com histórico complicado em Seul, ela também é leal, gentil, carinhosa e até mesmo um pouco solitária. É difícil entender Hye-jin e suas motivações no começo, mas na medida em que ela vai conhecendo as pessoas e se abrindo, a moça se torna alguém fácil de estar ao redor e alguém com quem todo mundo pode contar. Confortável no ambiente em que estava inserida, Hye-jin se torna um membro valioso daquela sociedade, ajudando e guiando os idosos, oferecendo conselhos para outras mulheres ou simplesmente oferecendo seus serviços como dentista. Isso tudo sem tirar da sua essência o fato de que ela gosta, sim, de sapatos caros e muito conforto. Ela demora para demonstrar sua vulnerabilidade e adota uma postura defensiva, mas consegue se abrir completamente quando se sente confortável para fazê-lo.

Nesse aspecto, Du-sik é seu extremo oposto. Se Hye-jin demora para se abrir, mas, quando segura, consegue fazer isso sem maiores problemas e deixar que as pessoas a conheçam completamente, Du-sik é uma pessoa receptiva desde o começo. Ele é simpático, prestativo e uma figura muito importante na sua comunidade, mas não consegue conhecer ninguém para além das linhas gerais. Nenhum dos moradores de Gongjin o conhecem, ou sabe dos seus medos e desejos mais profundos. Existe, inclusive, boatos sobre o tempo em que ele desapareceu de Gongjin e passou vários anos fora, apenas para voltar e começar a viver sua vida como se nada tivesse acontecido. Sua vida é simples e desprovida de qualquer expectativa social e de status, que vem com dinheiro, família e todas as concepções pré-estabelecidas pela sociedade.

Mesmo com todas as diferenças na forma que eles veem o mundo, os dois acabam se aproximando. Hye-jin consegue transmitir seus sentimentos de forma clara, assim como deixar claro suas dificuldades e solidão. Com ele, no entanto, a história é outra. Se no começo da trama, Du-sik vê algo em Hye-jin e decide ajudá-la a se inserir em Gongjin, fazendo com que ela prospere cada vez mais naquele ambiente, depois é a vez da protagonista retribuir o favor. Quando eles já estão apaixonados e ela percebe a profundidade do seu drama, é Hye-jin que o incentiva a falar sobre seus problemas, procurar ajuda e tentar trabalhar a sua dor. Em nenhum momento Hye-jin força ou exige que Du-sik explique tudo de uma vez, mas se propõe a esperar e ajudá-lo nessa missão.

Hometown Cha Cha

Na definição do romance perfeito (na perspectiva de alguém que consome muito do gênero), o ideal é que aconteçam muitos conflitos nas histórias, mas também evolução, que o casal também possa se comunicar e criar conexões profundas e verdadeiras, que só podem vir e nascer de uma conversa honesta e aberta sobre aquilo que nos faz perder o sono. Se para Hye-jin faltava alguns trejeitos sociais e para Du-sik a força para se deixar ser vulnerável, os dois se ajudam de maneira a sair mais fortes depois dos problemas que enfrentaram em seus outros relacionamentos. Na terceira temporada de Nancy Drew, a protagonista (vivida por Kennedy McMann) diz que é necessário muita coragem para formar “laços profundos”. Se tem uma coisa que Hometown Cha Cha Cha prova ao longo da sua jornada de 16 episódios, é exatamente isso. É saudável, romântico e, principalmente, muito satisfatório de ver.

Hye-jin encontra amor e segurança em Gongjin, o lugar em que decide se esconder e fugir das expectativas cruéis de um mundo que nem sempre foi gentil com ela. Lá ela aprende que é importante fazer parte de uma comunidade e ao mesmo tempo que não deixa seus gostos luxuosos de lado, também aprendendo que tem muito a oferecer. Para si mesma, para seus amigos e colegas, para sua família e para Du-sik. Ela é muito mais do que aparenta ser à primeira vista, assim como todos os habitantes daquela cidade do litoral, como Du-sik e como todos nós. Sua evolução é ao mesmo tempo tímida e incrível, uma que com certeza vai ficar comigo durante um bom tempo.


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