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Do que aprendi sobre maternidade assistindo Gilmore Girls

Toda vez que penso em me inspirar em uma história de ficção para escrever sobre maternidade, penso em Gilmore Girls. Sou um clichê? Com certeza, e não nego mais essa verdade. É que Gilmore Girls conversa muito comigo. Acho legal escrever sobre as coisas que conversam comigo.

Maternidade é um dos meus assuntos preferidos, não é de hoje. E essa é a minha série queridinha do coração, um conforto que assisto quando quero cheiro de casa. Eu não digo casa como algo que me desperte memórias de todos os tempos; não faço parte do grupo que viu a série na televisão, porque só fui me interessar em realmente assistir uma série do início ao fim depois que conheci o Netflix, mas isso não me impediu de criar laços com aquelas pessoas ficcionais — tão reais — desde o primeiro episódio. Me refiro a casa como um lugar em que eu sei que, por mais que hajam desavenças e pontos para reclamar, a gente pode sentar no sofá para ver um filme, comer besteiras e criar o nosso próprio cosmos enquanto o mundo se acaba lá fora — pelo menos até o dia seguinte, quando somos obrigadas a sair porta afora e lidar com todo tipo de gente ao redor. Existem muitos desses momentos na série, e foi assim que também construí parte do meu refúgio, assistindo aquelas vidas enquanto fingia por uma noite (e depois outra e mais outra) que a minha estava inteira dentro do esperado.

Gilmore Girls

Eu era mãe há menos de dois anos quando conheci as garotas Gilmore. Pensei que fosse ter a Rory (Alexis Bledel) como minha melhor amiga de infância, mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Lorelai (Lauren Graham) também tinha muito a me dizer. Principalmente ela. A relação com a sua própria mãe, todos os sentimentos, o fugir, o construir outra dinâmica, outro tipo de ambiente com sua filha, os jantares na casa dos pais toda sexta à noite. Não afirmo nem nego que tudo isso tenha me poupado alguns anos de terapia, pois me mostrou o cenário por outra perspectiva, fora de mim.

A gente cresce e nem percebe. A maternidade faz isso muito bem. Fico com a sensação de que um dia eu era a pessoa que tinha questões com escola e faculdade, namoros e as certezas da adolescência e juventude. No dia seguinte eu já estava com uma bebê no colo querendo fugir desesperadamente da casa onde havia morado até então, nem que fosse para a cidadezinha ao lado, para viver a minha vida, assim com pronome possessivo mesmo, do jeito que eu bem quisesse. Ao assistir Lorelai criando uma adolescente, abrindo uma pousada, namorando e falando tão rápido sem perder o bom humor, é possível acreditar com mais afinco que pode dar pé essa coisa de ser mãe e tanto mais. Com alguma rede de apoio e batalhando todo santo dia, mas dá.

Se considerarmos que, quando a história de Gilmore Girls tem início, já se passaram quinze anos desde que ela era aquela adolescente com um bebê nos braços, isso se torna ainda mais crível. Muita coisa já havia passado por baixo daquela ponte, pensando em termos de vida real. Pra mim, que estava saindo há pouco do puerpério, aquele lugar pós nascimento do bebê em que você não sabe direito quem é e nem quando vai descobrir a resposta, ver uma relação mãe e filha já construída foi como um lembrete de que todo caos passa, e que a gente se acha no meio disso. Eu gostaria de ter visto a pequena Rory na primeira infância para pegar umas dicas, mas foi ótimo assim. Me ajudou a lembrar da leveza — uma possibilidade real.

Gilmore Girls

Na primeira temporada, quando Rory e Dean (Jared Padalecki) terminam pela primeira vez, em “Star-Crossed Lovers And Other Strangers”, e Rory se recusa a dar o braço a torcer e admitir que está sofrendo, que precisa lamentar e sentir o fim daquele relacionamento, e inventa uma lista de coisas pra fazer em pleno sábado, às seis da manhã, adoro ver como a Lorelai embarca com ela, mesmo não concordando ou sabendo que aquilo não vai acabar tão bem. São momentos como esse entre elas que fazem a relação mais forte, como elas escolhem passar por tudo que passam. “É uma coisa de mãe e filha”, Rory vai dizer no mesmo episódio, e é bonito ver isso acontecer de forma tão natural, tão delas. É o que elas fazem juntas que contorna a série inteira e acho muito legal como a relação é moldada e mantida dia após dia.

O que também acontece com todos nós, inclusive; e algo que aprendemos, como mães, tão logo o bebê faz suas primeiras investidas em direção ao mundo — para não parar nunca mais. Não adianta muita coisa ter um discurso ótimo na ponta da língua quando a verdade é que eles só vão aprender quando viverem na própria pele. A gente aprende a se divertir e pegar leve, e isso é bom. Não levar tudo tão a sério é libertador e é o que salva a sanidade mental de uma mãe — até mesmo naquilo que incomoda muito ou nos pontos que temos que prestar mais atenção.

Também aprendemos a olhar para as nossas próprias vontades e questões, como Lorelai faz no mesmo episódio, indo bater na porta do seu ex-namorado assumindo que ainda sentia algo. Sem entrar no mérito do que acontece ser certo ou errado, nem nenhum juízo de valor; me refiro aqui a ser leal ao que sentimos e ter coragem de bancar não apenas nossas palavras, mas principalmente o que fazemos a partir dela. É tudo um aprendizado diário, no fim das contas. Ao menos, tem sido assim comigo — e posso afirmar que Lorelai Gilmore tem sua parcela de crédito nisso.

Marina Matos é escritora, mãe e está em constante movimento. Acredita no poder curativo da palavra escrita, na meditação como pílula da calma e na maternidade como ferramenta de transformação. Anda descalça, come sanduíche depois das onze da noite e tem um desejo constante de ajudar as pessoas a gostarem de ser quem são. Siga-a no Instagram e leia mais em Travessia Materna e em Ressignificância.


** A arte de destaque é de autoria da editora Thayrine Gualberto

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1 comentário

  1. Que texto maravilhoso!! Sou fã de Gilmore Girls, assisti quando passava na tv e depois quando entrou no catálogo da Netflix e sinto que cada vez me trouxe esse conforto de casa mas de forma diferente. Nunca pensei com seria assistir à série pelo ponto de vista de uma mãe, até pq não sou uma kkkk.