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Bon Appétit e o que esperamos da comida

A fascinação com o ato de comer para além de algo necessário para a sobrevivência parece ser um fenômeno dos anos 2000. A insurgência de reality shows e programas de TV focados no processo de preparo e subsequente degustação da comida transformaram o alimento em uma espécie de produto — ou fetiche, de uma maneira que o ressignifica baseando-se em seus atributos chamativos aos sentidos, e não em suas características reais. É nessa nova interpretação da relação entre o alimento e o consumidor (o foodie) que se apoia o canal do YouTube Bon Appétit, que, além dos tópicos padrões dos canais de culinária, como dicas de cozinha e receitas práticas, oferece, nas figuras de suas personagens mais importantes, Claire Saffitz e Carla Lalli Music, uma simulacra da inserção dos espectadores na cozinha e, consequentemente, no processo de consolidação do fetiche. 

A geração das redes sociais transfigurou completamente a comida. Se, desde a existência do ser humano, o objetivo principal do alimento era satisfazer as necessidades energéticas do corpo, proporcionando combustível suficiente para atravessar um continente, trabalhar em fábricas ou aguentar mais um dia de guerras, o que o mundo vive hoje em dia é a era do food-pørn. Nada é mais importante do que o aspecto visual da comida, e é por isso que vídeos de 30s no Instagram em que duas mãos desconhecidas transformam ingredientes em pseudo-gastronomia fazem tanto sucesso — o Buzzfeed Tasty, por exemplo, tem quase 33 milhões de seguidores, e mais de 500 milhões de visualizações mensais.

É inegável que o Bon Appétit também se fez valer da saturação do apelo visual do alimento, mas algo sobre seus vídeos parece mais natural, como se o objetivo do canal fosse fazer quem assiste acreditar que está batendo um papo com um amigo sobre o ato de cozinhar ou está em casa, sendo alimentado por aqueles por quem tem afeto e confia. Na era do Masterchef, do Hell’s Kitchen e do Great British Bake-Off, programas que, ainda que ofereçam uma espécie de conforto para quem assiste, estão pautados na competição e na crítica, o trabalho que Claire e Carla fazem no Bon Appétit ajuda a trazer a cozinha para um patamar mais humilde, que traz a lembrança das raízes e a procura do conforto pessoal por meio da alimentação.

A dualidade da inserção de mulheres na cozinha também é colocada em jogo no universo do Bon Appétit. Ainda que o preparo alimentar doméstico seja, geralmente, associado à figura feminina (de tal forma que mandar uma mulher “voltar para a cozinha” é sempre com a intenção de desmerecê-la), o mundo da cozinha profissional ainda é dominado por homens, que administram um ambiente predominante misógino e agressivo, como contou a chef indiana Asma Khan em entrevista à BBC. Mesmo que essa situação esteja lentamente mudando, graças à importância no cenário de mulheres como Julia Childs, Martha Stewart e Christina Tosi, a mesma reportagem da BBC apurou que apenas 17% dos chefs profissionais no Reino Unido são mulheres; similarmente, somente após reclamações do público acerca da falta de mulheres e pessoas de cor em Chef’s Table — indiscutivelmente, a série documental mais bem-sucedida da Netflix —, que, em sua primeira temporada de seis episódios, apresentou apenas uma cozinheira mulher, branca assim como os outros cinco chefs, o programa consertou sua line-up para incluir mais diversidade. Mesmo assim, dos 30 participantes das seis temporadas, apenas nove são mulheres, e ainda menos são não-brancos — somente seis.

A cozinha do Bon Appétit, contudo, é liderada por três mulheres. Gaby Melian, argentina, é a diretora culinária que supervisa as receitas e os vídeos para a internet; Carla Lalli Music, nascida no Brooklyn em uma família de ascendência latino-americana, gerencia os editoriais culinários, além de estrelar o segmento Back to Back Chef; Claire Saffitz, por fim, com sua mecha de cabelo descolorido no centro da cabeça, amontoa quase 10 milhões de visualizações em cada vídeo de sua série Gourmet Makes, sendo o rosto do canal e a chef mais emblemática do Bon Appétit.

Gourmet Makes

A premissa do Gourmet Makes é simples: uma confeiteira é encarregada de refazer guloseimas industrializadas, como Kit Kats e Oreos, tentando transformá-las em versões menos calóricas e mais saborosas do que aquelas que os americanos cresceram comendo. Em vídeos de, antes, 15 minutos, ou, mais recentemente, de quase 1 hora, o espectador acompanha a jornada de Claire Saffitz para adaptar ou recriar organicamente marshmallows, coberturas de chocolate, caramelos e — no episódio mais longo do programa, em que ela tenta fazer Doritos — tortillas com a curva e a crocância perfeitas. Muito além do elemento culinário, porém, a magia que carrega Gourmet Makes é a personalidade de Claire, e sua interação com seus colegas de trabalho, como Chris Morocco e a também estrela do BA, Brad Leone, é o verdadeiro destaque do segmento.

A energia caótica de Claire, que se dispõe a usar desidratadores de alimentos sempre que a necessidade apita, se recusa a temperar chocolates por não ver precisão — para o desespero de Chris Morocco — e que tem na fabricação de pequenas embalagens de papel para seus caramelos um ponto de paz, torna a série de vídeos fascinante graças a um vínculo afetivo criado entre a confeiteira e o espectador. A química e a simpatia inerente aos apresentadores do Bon Appétit suscitou a criação de outro segmento juntando todos os chefs mais populares — na primeira temporada do Making Perfect, Claire, Carla, Brad, Chris, Molly Baz e Andy Baraghani unem-se com a intenção de criar a pizza perfeita. Assim, a experiência de acompanhar Claire lutando contra xaropes de milho e açúcar branco na confecção de um Peeps, espécie de marshmallow que nem existe no Brasil, amplifica-se pelo sentimento de aproximação e camaradagem fabricado pelo programa.

É graças a isso que criou-se quase uma subcultura relacionada ao Bon Appétit, com páginas de memes honrando seus apresentadores e postagens no Tumblr com quase 200 mil compartilhamentos que referenciam piadas internas nascidas dentro dos vídeos. Assim, está tudo bem assistir a uma chef americana fazer um doce que a gente nunca viu, porque o prazer de vê-la repetir uma receita 10 ou 15 vezes, e rir de suas desventuras, é uma experiência muito mais interessante do que se imagina. O programa chegou em um ponto que o interesse de quem assiste não é necessariamente replicar tais receitas no conforto de sua casa, mas apenas acompanhar a chef obstinada provar que ela é capaz de fazer esses doces.

Além de tudo isso, o Gourmet Makes trabalha na intenção de desmistificar a ideia de perfeição dentro da cozinha, criada exatamente pelos realities shows culinários. Nos 20 minutos de programa, vemos Claire errar mais de uma vez, e implorar a ajuda e a consulta de seus amigos mais próximos. Quando, no episódio em que tenta recriar o Kit Kat, Claire pede para seus colegas experimentarem sua mais nova tentativa do chocolate, e logo avisa que “não é capaz de aceitar nenhum tipo de crítica no momento”, o espectador é inserido em primeira mão na rotina trabalhosa e árdua da cozinha profissional, geralmente repleta de repetições e tentativas e erros. Os melhores momentos do programa são quando Claire começa a se cansar da tarefa em mãos — quase sempre, no terceiro dia de experiências —, lamentando as dificuldades e implorando para que seus diretores a deixem desistir. É logo depois desse período de decadência que Saffitz emerge como uma fênix, criando estratégias mirabolantes imediatamente para resolver o problema que a estava atrasando antes, ou tendo um insight que, finalmente, a faria descobrir como criar a onda perfeita para seu macarrão instantâneo ou como equilibrar a quantidade de biscoito e caramelo dentro de um Sneakers.

Back to Back Chef 

Em Back to Back Chef, Carla Lalli Music desafia celebridades a copiarem, com a sua instrução e em cerca de 20 minutos, receitas que variam desde uma dificuldade fácil — cabe a Antoni Porowski fazer um sanduíche com ovos fritos — até um nível verdadeiro de requinte — Tiffany Young, por exemplo, fica encarregada de reproduzir um complicado omelete francês. O conflito do segmento acontece a partir do momento que descobrimos que os convidados ficam de costas para Carla, sendo guiados a finalizar a receita apenas por seus próprios instintos e pela voz suave da chef. Essa característica traz um ar hilário ao programa — como quando a drag queen Shangela confessa, desesperada, que não sabe identificar uma panela —, que é balanceado agilmente pela rapidez e simpatia de Carla.

Não é somente uma metáfora quando um comentário no vídeo de Carla com a cantora Alessia Cara refere-se a ela como “a tia favorita de todo mundo”. Carla traz para jogo um ar de paciência e calma dignos de uma professora de primário, instruindo seus convidados acerca da maneira perfeita de fritar ovos para que eles fiquem crocantes na lateral ou como abrir uma massa fresca com as pontas dos dedos. Com uma confiança invejável, ela permanece imperturbável ao lado de celebridades como Elizabeth Olsen, Nina Dobrev e Natalie Portman, comandando sua estação tal qual os atores comandam suas cenas, carregando o programa com fluidez e sem se deixar intimidar pela receita, por seus convidados ou pela bagunça e confusão feita por eles.

Esse ar naturalmente espontâneo de Carla permite que o espectador acredite em sua capacidade de transformar qualquer situação em algo nada constrangedor ou forçado. Facilmente, Carla reage a Antoni Porowiski falando francês acelerado com apenas uma risada divertida, concorda quando Miz Cracker pergunta para ela se “sal é aquele que parece com açúcar”, e, em uma tentativa de passar firmeza para seu convidado, diz que ele é capaz de fritar um ovo pois “o ovo não é seu chefe”. Music (e nem vamos começar sobre quão incrível é esse sobrenome) assume para si mesma o papel de deixar o convidado o mais confortável possível em um ambiente que ele desconhece (e que, geralmente, o faz masterizar aquele sentimento de “olhar para a câmera como se estivesse em The Office”); então, é comum vê-la entretendo atores e cantores com papos sobre signos ou animais de estimação enquanto orienta-os acerca da melhor maneira de desmembrar uma lagosta ou como utilizar uma chave de fenda para abrir um coco.

Esse calor humano propiciado por Carla torna a chef uma figura facilmente identificável, e talvez seja esse o sucesso de seu programa. Ao final de cada episódio, o espectador fica com a sensação de que poderia não somente ser um cozinheiro do mesmo calibre daqueles do Bon Appétit, mas também ser uma celebridade de costas para uma chef, fingindo ser um chef por aproximadamente 15 minutos, ainda que, no fundo, saiba que não é.

O século XXI e os problemas advindos dele trouxeram para os millenials uma necessidade excessiva de bem-estar e consolo, o que serve quase sempre como uma fuga da nossa dolorosa realidade. É com esse intuito que se popularizam os segmentos culinários on-line, bem como os programas competitivos na televisão, que, sob essa perspectiva, tem quase o mesmo objetivo dos vídeos ASMR — trazer uma espécie de afago a quem acessa; dessa vez, contudo, o alívio está presente na simulação dos verdadeiros benefícios psicológicos de se cozinhar para o outro. Mesmo que pesquisas indiquem que essa é a geração que menos cozinha em casa, nunca o consumo de mídia culinária foi tão alto, e isso pode ser porque nossa geração entendeu que não é estritamente necessário fazer uma coisa com as próprias mãos para aproveitar as vantagens psíquicas trazidas por ela.

Assim, a nossa exposição e subsequente contentamento com essas experiências está ligado a um impulso hedônico essencialmente relacionado com uma necessidade de prazer sem limite e excessivo, ainda que seja impossível de alcançar. Esse desejo intrínseco ao ser humano — e aqui manifestado na forma do food pørn e da culinária — populariza programas além do Bon Appétit e do Masterchef: no YouTube apenas, segmentos como Binging with Babish, em que um cozinheiro recria comidas famosas de séries de TV e filmes, e Buzzfeed Worth It, em que dois apresentadores se aventuram pelo mundo em buscas de versões baratas, acessíveis e caras de lanches populares, se alimentam (sem trocadilho) da ideia de que, às vezes, ver alguém comendo é tão prazeroso quando comer.

Bon Appétit também faz isso — e muito bem. O canal é repleto de outros segmentos que se aproveitam dessa fascinação alimentar — há vídeos em que os chefs experimentam comida vendados, ou descobrem 50 maneiras de cozinhar um legume, ou tentam recriar às cegas uma receita famosa de outro chef. Contudo, a sensação que fica depois de assistir a um vídeo deles é que a experiência vivida ali ultrapassou o propósito mecânico da culinária, e são nas figuras de Claire e Carla que se guarda maior bem-querer. Muito além de oferecer apenas uma perspectiva estética do gourmet, o Bon Appétit prova, parafraseando uma fala da chef argentina Paola Carosella, que o objetivo da comida está muito além de alimentar apenas o estômago ou oferecer energia para os processos metabólicos; comida boa e agradável é aquela que, sobretudo, alimenta a alma.

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