CINEMA

Uma defesa apaixonada das comédias românticas

Ou: Ode à Nora Ephron

Uma coisa que digo constantemente é que eu queria que minha vida fosse uma comédia romântica, e acho que já chegou a hora de admitir que esse é meu gênero cinematográfico favorito. Sempre que ensaio dizer isso, sinto logo um impulso ridículo de emendar que também sei apreciar filmes sérios e que meu amor por comédias românticas é seguido bem de perto pelo meu amor por filmes de terror — o que inicialmente pode parecer um contraste, mas se a gente pensar bem existem muito mais coisas em comum entre A Bruxa e Sleepless In Seattle (o título em português é Sintonia do Amor e eu me reservo o direito de terminantemente me recusar a utilizá-lo) do que a gente imagina.

Filmes de terror e comédias românticas se sustentam a partir de um princípio que em ficção a gente chama de suspensão da descrença: isso quer dizer que para apreciá-los, para realmente apreciá-los, você precisa se soltar das amarras da realidade e acreditar. Você pode passar vinte e duas horas do seu dia não acreditando em bruxas, fantasmas e encontros de alma no topo do Empire State Building, mas o que bons filmes de terror e boas comédias românticas fazem é garantir que naquelas duas horas de duração você vai esquecer tudo isso e simplesmente acreditar.

Isso não é fácil. Muito se especula a respeito dos motivos que levaram as comédias românticas a desaparecer depois do seu boom nos anos 90 e início dos anos 2000, e basta uma volta pelo Google e você vai encontrar vários artigos que tentam responder o que aconteceu com a descendência de heroínas interpretadas por Meg Ryan ou Julia Roberts, ou o que fizeram com o coração do espectador médio, que parece incapaz de bater na mesma frequência em que operam os filmes do Billy Wilder. São muitas teorias, num bate-boca eterno em que os estúdios culpam as audiências e o elenco, diretores e produtores culpam os estúdios, e o público culpa quem quer que seja o responsável pelos filmes tão ruins que têm sido lançados. Esse artigo do LA Weekly investiga os principais suspeitos como se resolvesse um mistério num romance da Agatha Christie e, dentre todas as hipóteses, minha favorita (e a mais triste delas) é que as pessoas simplesmente pararam de acreditar. De repente, ficamos cínicos.

Ou pelo menos isso é o que Hollywood acredita.

Nos últimos anos, os lançamentos mais próximos que tivemos de comédias românticas ou se enveredam pelo lado do realismo, entregando histórias de amor sem final feliz, uma proposta pós-felizes para sempre que inclui um profundo senso de desesperança misturado a personagens sendo horríveis uns com os outros (meu exemplo favorito é Blue Valentine, que estreou no país no dia dos namorados traduzido como Namorados Para Sempre e provavelmente azedou alguns namoros na data mais romântica do ano); ou então comédias que pendem para o besteirol, numa abordagem mais focada em sexo, bebedeiras, conteúdo gráfico e piadas de pum.

São filmes cuja proposta é válida: o papel da arte também é o de desconstruir ilusões, mostrar que relacionamentos são difíceis e às vezes nos transformam em pessoas horríveis; há quem aprecie o humor vulgar, obsceno, e, ainda que definitivamente não seja meu tipo de filme, eu realmente acho importante que existam trabalhos como Missão Madrinha de Casamento ou Trainwreck, com mulheres subvertendo o lugar comum de mocinhas bem comportadas que normalmente cabe a uma heroína de comédia romântica. No entanto, acreditar que essas são as únicas perspectivas que nossos tempos pós-modernos permitem sobre o amor é perder totalmente o ponto. Acho que se as comédias românticas não vendem mais como antigamente não é porque as pessoas não acreditam mais no amor, mas sim porque elas não acreditam mais nas histórias de amor que estão sendo exibidas. O coração dos filmes é que está no lugar errado.

2016-06-06-2

“Esse é o seu problema, você não quer estar apaixonada. Você quer estar apaixonada dentro de um filme.”

Nora Ephron era uma pessoa que dominava perfeitamente a arte de escrever histórias de amor que tinham o coração no lugar certo. Escritora, diretora, roteirista e minha heroína pessoal, ela é a responsável pela trindade sagrada das comédias românticas: Sintonia do Amor, Harry & Sally e Mensagem Pra Você. Nora Ephron acreditava no amor, nos encontros e em mágica, uma mágica discreta das coisas banais, mas ainda assim, MÁGICA — aquilo que é capaz de fazer duas pessoas se apaixonarem através da tela do computador, ou por um programa de rádio, ou ainda por anos de convivência que misturam atrito, amizade, medo e, por que não?, amor verdadeiro. Embora eu tenha usado várias vezes a palavra mágica nesse texto (e, acredite, eu vou usá-la de novo), isso não quer dizer que os filmes da Nora Ephron sejam ingênuos ou delusionais. Pelo contrário.

Seus filmes e sua vida particular nunca foram um sonho colorido em que todos são felizes, conflitos não deixam marcas e tudo dá certo no final. Um perfil publicado no Guardian alguns dias depois de sua morte conta que na infância seu ambiente familiar era do tipo que ou quebraria pra sempre uma criança, ou transformaria ela numa escritora. Seus pais eram roteiristas de sucesso na Hollywood dos anos 50 e muito da inspiração dos dois vinha do fato de eles serem também alcoólatras. Em um dos seus ensaios ela compara sua família a uma savana, onde um leão mata uma zebra e vários outros leões aparecem para devorá-la, enquanto são assistidos por coiotes e hienas.

Heartburn, sua autobiografia, é uma versão ficcionalizada do fim de seu segundo casamento, uma história de traição, dor, ressentimento e coração partido de forma bem pública. Nos anos 70, Nora foi casada com o jornalista Carl Bernstein, aquele Bernstein da dupla Woodward & Bernstein, responsável por revelar o escândalo de Watergate, que levou à renúncia do então presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Quando descobriu a traição, ela estava grávida do segundo filho.

O livro foi um estouro na época e ganhou uma adaptação pro cinema, com Meryl Streep e Jack Nicholson nos papéis principais e assinatura de Nora Ephron no roteiro. O filme também foi um sucesso, e foi a partir dele que a carreira de Nora no cinema foi alavancada. É uma história triste e em momento nenhum ela disfarça ou esconde sua dor, mas é um livro com senso de humor, que ri da própria tragédia — um tom que se tornaria comum em seus outros trabalhos, e é isso que faz dela tão especial e transforma seus filmes nos melhores filmes. Nora Ephron acredita no amor e na mágica na mesma medida em que ela acredita na tristeza e num mundo imperfeito.

Essa conclusão não foi minha, mas da Kerry Winfrey, uma escritora que escreve sobre YA e é também apaixonada por comédias românticas, tanto que resolveu assistir a uma por semana e relatar a experiência no excelente A Year Of Romantic Comedies. Sem muita surpresa, o que ela descobriu ao final do projeto foi que, duh, os filmes da Nora Ephron são os melhores.

Nora Ephron entendia, talvez mais do que qualquer outro roteirista, que o amor não conserta tudo. Ele não pode trazer de volta esposas ou mães, nem recuperar negócios falidos ou te transformar numa pessoa diferente. Mas o que ele pode é fazer tudo valer a pena, apesar de toda a dor e coração partido e solidão. O que fazia Nora Ephron tão, tão especial era o fato dela não amenizar as coisas. Assisti a muitas comédias românticas esse ano que não chegam nem perto abraçar a tristeza de verdade, e tudo bem. Mas Nora Ephron nunca teve medo de explorar a escuridão para nos mostrar por que a luz é tão importante. Ela nunca teve medo de nos mostrar que a esperança pode nos manter de pé numa realidade que às vezes parece muito mais do que conseguimos suportar. (tradução livre)

É essa esperança inabalável que me faz amar as comédias românticas, é essa crença quase desesperada de que a vida é horrível, mas que ela também pode ser muito boa. Tragédias inexplicáveis podem dividir o espaço com alegrias, sortes e encontros improváveis, como uma pitada de mágica na arbitrariedade do universo. Comédias românticas, principalmente as boas, são importantes não porque nos vendem uma ilusão de felizes para sempre ou de relacionamentos que não existem na vida real, mas porque são filmes que escolhem acreditar que, apesar de todo o cinismo, o amor existe. Às vezes não pra sempre, às vezes só por dois minutos, mas não é isso que o Vinícius que dizer com seu eterno enquanto dure? A gente sempre vai ter Paris, e não é à toa que Casablanca aparece como referência sendo o filme favorito de Harry e Sally.

Então é isso. Meu gênero cinematográfico favorito é a comédia romântica. Sem correções ou complementos, sem mas, apesar de, ainda que. Eu amo comédias românticas e queria que minha vida fosse uma, porque entendo que o único jeito de sobrevivermos nesse mundo é acreditando, e pra mim nada pode ser mais sério que isso.

Obrigada, Nora Ephron, por essa lição de vida. 

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8 Comentários

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    Sofia
    6 de junho de 2016 at 21:39

    Que texto maravilhoso, Anna!

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    Juliana de Paiva Ferreira
    7 de junho de 2016 at 01:41

    amei o texto! também sou apaixonada por comédias românticas (por menos cheias de “comédia” que sejam) e, de fato, parece que as atuais não se levam muito a sério. de fato, muita piada de pum. haha.
    acho que nunca assisti aos filmes da Nora, e agora mal posso esperar pra vê-los!

    esse foi o primeiro texto que li aqui na Valkirias, e ó: adorei. parabéns. 🙂

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      Anna Vitoria
      9 de junho de 2016 at 00:39

      Juliana, primeiramente (fora Temer) seja bem-vinda <3
      segundamente, você PRECISA conhecer os filmes da Nora. Se você já é fã de comédia romântica, vai ficar 3x mais fã depois de conhecer o trabalho dela. São filmes lindos e sensíveis, e também muito divertidos.
      um beijo!

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    Nay
    9 de junho de 2016 at 11:26

    Me identifiquei em níveis nunca dantes vistos com esse texto. Só que no meu caso eu trocaria filmes por livros. Sempre rola esse “sorry not sorry” por estar lendo “livros de mulherzinha”, o que é absolutamente ridículo. Eu amo histórias de amor e continuarei amando.

    Estou num relacionamento amoroso e feliz a 9 anos e ler e ver histórias assim sempre me trazem de volta àqueles primeiros momentos de frio na barriga e expectativa que já foram há muito tempo vividos.

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    line
    9 de junho de 2016 at 18:16

    Primeiro tenho que dizer, FORA TEMER GOLPISTA!!

    Depois quero dizer que amo a maneira que você escreve. Sérião, seus textos são gostosos de ler pfvr escreva um livro <3

    Eu amo uma mensagem pra você, os outros confesso que não vi, pois não gosto muito da megan, hahaha. Mas aquilo, acho que comédias românticas são de 'tendências' sabe? Hoje hollywood se preocupam mais com bilheterias e filmes em 3d com efeito especial. O que é uma pena, sinto falta de comédias românticas novas, pois adoro, mas já vi a maioria haha

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    Gabs
    26 de novembro de 2016 at 12:41

    Que texto adorável! Me identifiquei absurdamente com ele. Sou cineasta e vivo nesse meio onde DEUSOLIVRE-VOCÊ-GOSTAR-DE-COMEDIA-ROMANTICA-TARKOVSKI-PRA-SEMPRE e confesso, pode ser bem sufocante. Partindo da premissa que é possível apreciar tudo, a gente sempre tem uma quedinha por algo específico e a minha são as comédias românticas e os musicais (inclusive ouso dizer que musicais são comédias românticas com canções, hehe).
    Obrigada por esse texto. Nora Ephron pra sempre. Não sou Taylor Swift mas posso ser sua amiga. 😉

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    Letícia Ferreira
    20 de julho de 2017 at 16:30

    Parabéns pelo texto maravilhoso, Anna! Concordo com tudo o que você disse e sinto muita falta de comédias românticas como as dos anos 1990, principalmente dos filmes da Nora Ephron. A leva de romcoms atuais deixa um bocado a desejar, mas pelo menos a gente ainda pode reassistir essas preciosidades pra recobrar a fé na humanidade e no amor e se pegar sorrindo feito boba no final, rs.

    Uma pequena correção: o presidente dos Estados Unidos que renunciou por causa de Watergate foi o Nixon, não o Regan (que foi presidente bem depois, e por dois mandatos).

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