CINEMA

Tomates verdes fritos: uma história sobre amizade

Tenho lembranças afetuosas da época em que fazia faculdade e, ávida por cultura, assistia mais filmes do que tinha costume. Minhas escolhas eram baseadas em recomendações e, muitas vezes, passavam longe dos lançamentos recentes. Foi nesse período que assisti Tomates Verdes Fritos (1991) pela primeira vez, um filme que antecede meu nascimento, mas que conta uma história, eu diria, atemporal.

Situado nos arredores do Alabama, o filme começa quando Ed (Gailard Sartain) e Evelyn Couch (Kathy Bates) vão visitar a tia de Ed em uma casa de repouso. Mas a senhora não gosta da presença de Evelyn, e condescendente ela vai esperar o marido terminar a visita na sala de espera da recepção. Lá ela é abordada pela gentil Ninny Threadgoode, interpretada pela incrível Jessica Tandy, uma senhora de 82 anos de idade que está ali para fazer companhia a uma amiga. Sem cerimônias, Ninny puxa conversa mencionando o Whistle Stop Cafe, um estabelecimento, agora abandonado, perto dos trilhos do trem que outrora foi um ponto movimentado e cenário de uma instigante história.

O chamativo para essa trama foi Ninny ter mencionado o absurdo que era as pessoas acreditarem que Idgie Threadgoode (Mary Stuart Masterson), sua parente por casamento, fora a pessoa que assassinou Frank Bennet (Nick Scearcy). Com a menção de tal ato, Evelyn parou de levar a barra de chocolate que tinha em mãos à boca para dar ouvidos àquela senhora.

Há muito tempo, um pouco depois da Primeira Guerra Mundial, quando Idgie era uma menina, ela e seu irmão mais velho Buddy (Chris O’Donnell) eram incrivelmente unidos. Ele era a única pessoa capaz de fazer Idgie se render quando ela ficava emburrada com as provocações que recebia pelo seu jeito tomboy. Além disso, tinha charme e era extremamente gentil com todos – o que chamava a atenção de muitas garotas, mas ele só tinha olhos para Ruth Jamison (Mary-Louise Parker). No entanto, no fatídico dia do casamento da Threadgoode mais velha, Buddy sofreu um acidente e acabou falecendo, o que despedaçou a pequena Idgie. Ela passou a viver isolada, e os anos se passaram.

Sua mãe, preocupada com o seu comportamento distante que permanecia ao longo dos anos, recorreu a Ruth para alcançar a filha, e talvez, trazê-la de volta. E, quando aceitou a missão, Ruth não tinha muita confiança no que estava fazendo. Suas tentativas de se aproximar de Idgie não pareciam bem-vindas, e não custou até ela se frustrar com a teimosia de Idgie: ela não era a única que havia perdido Buddy. Foi então que Idgie disse que aquele não era o problema, virou as costas e saiu andando. Mas Ruth não desistiu, e pediu para uma oportunidade para conhecê-la melhor. Idgie abriu essa porta para ela, e a introduziu em seu mundo de loucuras: saqueamento de cargas de trem, jogos de pôquer, e mel fresquinho tirado de uma colmeia cheia de abelhas.

Nunca diga “nunca” pra mim. – Idgie

A personalidade das duas não poderia ser mais distinta: Idgie sempre destoou dos padrões femininos; tinha uma personalidade forte e um espírito livre, e era respeitada dentro do círculo masculino que frequentava. Ruth era uma boa moça, que tomava conta de todos, fazia o que lhe pediam e nisso acabou por casar-se com o homem que lhe designaram: Frank Bennet. Mas não sem antes desfrutar do mundo pela perspectiva da “encantadora de abelhas”, apelido carinhoso que ela dera a Idgie, e criar um forte vínculo entre si.

A amizade que um dia Idgie pensou ter sido terminada pelo casamento da amiga, foi, na verdade, apenas o começo de uma relação ainda mais estreita quando ela descobriu que Frank Bennet era um abusador e agredia Ruth sem ao menos disfarçar. Idgie o enfrentou e o ameaçou, e viu nos olhos dele o quanto era perigoso. Então, o falecimento da mãe de Ruth e a descoberta de uma gravidez foi o estopim para que ela fizesse as malas e saísse daquele casamento horrível. Juntas, Idgie e Ruth abriram o Whistle Stop Cafe – o estabelecimento que levou a essa história em primeiro lugar – cuja especialidade eram os tomates verdes fritos fresquinhos.

Poderia ter sido uma vida perpetuamente tranquila, se Frank Bennet não viesse para aqueles lados fazer ameaças às moças e tentar sequestrar o bebê de Ruth. Em uma noite dessas foi quando ele foi misteriosamente assassinado, seu caminhão jogado no rio, e seu corpo desaparecido. Houve um julgamento, é claro, e Idgie cumpriu seu papel, embora todos duvidassem de sua culpa. A questão é que ela protegeria Ruth com unhas e dentes, porque a amizade que elas tinham era única, tal qual a amizade que Ninny construiu com Evelyn por causa dessa história.

No presente, quando Evelyn conheceu Mrs. Threadgoode, ela era uma mulher extremamente bondosa e até submissa. Ela era negligenciada pelo seu marido e estava tentando a todo custo salvar seu casamento, frequentando aulas para aprender a “apimentar a relação” e mimando o marido com seus pratos favoritos. Suas tentativas, porém, eram frustradas, e ela descontava toda sua mágoa em barras de chocolate. Estava desmotivada, acima do peso, e ainda por cima, naquela fase de transição por qual toda mulher passa (if you know what I mean). À medida que ela visitava Ninny e ouvia mais um capítulo da história de Idgie e Ruth, ela encontrava inspiração para melhorar a própria vida por si mesma. Ela tinha naquela doce senhora alguém para conversar e trocar afeto. E essa foi uma mudança deveras significativa para ela.

Uma pessoa me ajudou a colocar um espelho na frente do meu rosto e eu não gostei nem um pouco do que eu vi. Sabe que o eu fiz? Eu mudei. E essa pessoa foi a Mrs. Threadgoode. Ela precisa do meu amor e cuidado agora, e eu vou dar isso para ela. – Evelyn

Tomates Verdes Fritos é um conto em forma de filme. Com seu cenário interiorano e personagens seletos que dividem um espaço por igual e mostram que seus papéis são importantes, sejam mulheres ou negros – tão discriminados naquela (e na nossa) época. E, ao passo que o filme também transmite uma ótima mensagem sobre pregar a moral e a virtude versus praticá-la e sê-la, o tema principal é, sem sombra de dúvidas, a amizade. E a amizade incondicional entre duas mulheres acima de tudo. A ponto de uma das falas mais marcantes do filme ser “Ela é minha amiga, e eu a amo”.

Amor. Uma declaração de amor dita em alto e bom som, porque essa é a única definição para um relacionamento entre duas pessoas que decidem permanecer na vida uma da outra apesar de tudo, só porque elas se importam. Uma amizade tão forte assim é capaz de fazer você tirar forças do âmago pela sua amiga ou por você mesma – porque você é importante para ela e isso torna a vida digna de ser celebrada. Em tempos em que a rivalidade feminina é utilizada como artifício para desenvolver tramas ou criar conflitos sociais, é mais do que necessário enaltecer tal história, e multiplicar esses sorrisos compartilhados.

Você me lembrou qual é a coisa mais importante da vida. Sabe o que eu acho que é? Amigas. Melhores amigas. – Mrs. Threadgoode

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