MÚSICA

Entre lobos e cordeiros: Taylor Swift e o que significa ser uma mulher sob os holofotes do mundo

Da escolha de seu nome, passando por mudanças de sonoridade até o uso das redes sociais: nada a respeito de Taylor Swift é por acaso. A escolha da capitalização das letras no encarte dos seus discos é a chave para mensagens secretas, seus clipes são carregados de simbolismos, 13 é o número de sua vida e ele está em todos os lugares, mas não é só isso. Seus pais escolheram lhe dar um nome sem gênero definido porque imaginaram que, caso ela resolvesse seguir carreira no mundo dos negócios, as pessoas não saberiam se Taylor fazia referência a um homem ou a uma mulher ao ver seu nome num cartão, lhe poupando, pelo menos no início, de ser subestimada apenas por ser mulher. 

Aos 27 anos e com cinco discos lançados, hoje ela é vencedora de 10 Grammys dos 29 aos quais foi nomeada, sendo dois deles na categoria Álbum do Ano. Taylor Swift foi a primeira mulher a vencer esse prêmio mais de uma vez – feito repetido apenas por Adele. Ela também foi a artista mais jovem a receber o prêmio, por Fearless, em que ela assina todas as composições e foi lançado quando Taylor tinha apenas 19 anos. Em 2015, ela foi a mulher mais nova a aparecer na lista da Forbes das 100 mulheres mais poderosas do mundo e no ano seguinte ficou em primeiro lugar na lista da publicação das 100 celebridades mais bem pagas do mundo. É difícil medir talento quantitativamente, mas no nosso mundo capitalista esses são alguns indicadores de sucesso e prestígio, ainda que estes sejam conceitos subjetivos. Independente da sua opinião pessoal sobre Taylor Swift, um fato não podemos negar: ela chegou lá.

Num perfil publicado sobre ela em 2009, pouco tempo depois do lançamento de Fearless, Vanessa Gregoriadis escreve que a cantora parece operar em três diferentes marchas: “risonha e bobinha; preocupada com garotos, colocando toda essa emoção na música; e insanamente determinada, em um hiper-autocontrole perfeccionista”. É esse último estado que parece tomar conta quando pensamos nos caminhos que Taylor Swift trilhou ao longo de sua carreira e que a trouxeram até aqui. Um sucesso resultado de privilégios e talento, é claro, mas também de visão e estratégia.

Tudo isso não foi o suficiente para poupá-la do ódio de uma grande parte do público, que aumenta na mesma proporção que as conquistas de sua carreira. Esse tratamento não é novidade para mulheres que alcançam esse tipo de destaque, o que indica que o incômodo das pessoas está menos nas particularidades de cada artista, mas direcionado ao fato de que são mulheres de sucesso. Ponto. No caso de Taylor Swift, não estou falando da crítica mais óbvia, que vem da leitura simplista que se faz de suas músicas só porque o foco principal delas é relacionamentos e sentimentos, mas de como esse lado perfeccionista, estrategista, competitivo e ambicioso da artista é visto como algo negativo, que beira – e muitas vezes é lido como – o desonesto.

Uma análise de Ellie Woodward, do Buzzfeed US, supostamente desmascara Taylor ao expor a maneira como ela se apropria das narrativas midiáticas que são criadas a respeito de sua vida para o próprio benefício, uma coisa que de fato ocorre e… é genial. O que acontece é uma disputa sofisticada entre ela e a imprensa que nos ensina muito sobre construção de imagem, marketing pessoal e opinião pública num mundo capitalista. Sua vida é escrutinada publicamente em todos os aspectos, e é na frente de todo mundo que ela pega isso, reverte ao seu favor e transforma em dinheiro. Taylor Swift não inventou nada disso, esse é um jogo que começou com os meios de comunicação de massa e a indústria cultural, e tudo que ela fez foi aprender as regras e jogar de acordo – e até agora é ela quem está ganhando.

Ela é uma mulher ambiciosa que é uma cantora e compositora que quer ganhar prêmios e ser bem sucedida, e não se acanha em dizê-lo. Ela joga pesado com a indústria e faz um uso ativo da própria imagem para lucrar em cima do uso predatório que fazem dessa mesma imagem, para assim ter alguma forma de controle. Ela quer receber o que acha que merece por seu trabalho e desafia pilares de sua indústria para isso. Ela quer mais e sem entrar no mérito de julgar todo o sistema que cria essa situação, é preciso questionar por que esse esforço incomoda tanto e por que olhamos para ele como se fosse algo ruim. Se Taylor Swift fosse homem, sua biografia faria parte da biblioteca cativa de todo empreendedor que já teve (ou pensou em ter) uma foto do Steve Jobs na parede do quarto.

Se orientar visando objetivos práticos, visão estratégica, ambição por dinheiro e reconhecimento profissional… todas essas características são tradicionalmente atribuídas aos homens, que sempre fizeram parte do universo do trabalho, da política, dos negócios, o âmbito público da vida em sociedade – um espaço que, historicamente, sempre foi negado às mulheres. Esse é o mundo dos homens e homens com essas características são admirados, respeitados, vistos como modelos a serem seguidos. Afinal, vivemos num mundo capitalista e (cof cof) queremos triunfar nele, não é mesmo?

Vamos usar como exemplo Mark Zuckerberg, criador do Facebook. O filme A Rede Social mostra como o Facebook surgiu numa noite em que Mark e seus amigos estavam entediados em seu dormitório em Harvard e resolveram criar um jogo para dar nota para as mulheres do campus baseadas em suas aparências. Mark teve a visão de enxergar como aquilo poderia evoluir para um perfil pessoal na internet e o modo como as pessoas se apropriariam dele, uma ideia que foi crescendo até ser ampliada e monetizada, gerando lucros e se tornando um modelo de negócios de sucesso extremo. Existem milhares de controvérsias sobre o funcionamento do Facebook, desde sua criação até a conversa muito mais séria sobre o uso deliberado de dados, mas não se vê textos na internet tentando destrinchar como Mark Zuckerberg usou estratégias dúbias a partir da sua imagem construída de nerd que acredita estar acima de tudo para ter a ideia de uma nova plataforma que mudou a forma como usamos a internet. Ninguém duvida da capacidade de Zuckerberg. Ninguém passa horas na internet discutindo a existência ou inexistência de sua ética. Ninguém criticou negativamente sua visão e posição durante todo processo de criação e estabilização do Facebook. Não sabemos quem foram suas namoradas – não nos interessamos por isso –, e mesmo depois que o filme foi lançado, difundindo o golpe jurídico que ele deu no amigo co-criador da plataforma, ninguém postou emojis de cobra no perfil pessoal de Zuckerberg.

Somos capazes de compartimentalizar sua pessoa física da pessoa jurídica, digamos assim, extraindo o que de bom pode nos servir e deixando o resto pra lá. E isso não acontece apenas com ele. No meio artístico, por exemplo, o cineasta Stanley Kubrick ficou famoso pelo seu perfeccionismo no set, a ponto de levar atores e equipe à loucura por exaustão, tamanha era sua obsessão por repetir um mesmo take até que estivesse perfeito – e esse seu traço de personalidade é sempre associado à qualidade de seus filmes. Jay-Z criou seu próprio serviço de streaming porque também não concordava com o sistema de remuneração do Spotify e afins, além de ser um produtor e um empresário de sucesso, mas ninguém chama ele de rei dos boletos por causa disso. Todos nós somos capazes de entender que a vida profissional e a vida pessoal desses homens se diferem e uma não afetam uma a outra, mas o mesmo raramente pode ser dito sobre uma mulher.

É difícil pensar num equivalente masculino de Taylor Swift no âmbito da capitalização em cima da narrativa pessoal, mas isso é porque, bem, a narrativa pessoal de artistas homens jamais renderia tanto debate como acontece com as mulheres. Eles têm o privilégio de ter o trabalho em primeiro plano. A única pessoa que soube manipular o jogo tão bem quanto Taylor Swift, numa dimensão bem parecida, foi, ironicamente, Kim Kardashian, mas não faltam exemplos na mídia, na história, e no cotidiano, de mulheres que tiveram a ambição, o desejo por mais, e o esforço determinado para consegui-lo recebidos como uma característica negativa. Isso acontece porque o exercício dessas áreas significa uma ruptura com a ideia que o território de atuação da mulher se limita ao âmbito privado da vida social. Com o passar dos anos nossa presença no mercado de trabalho foi aceita, mas em cargos menores, ganhando menos. No discurso Sejamos Todos Feministas, a escritora Chimamanda Ngozi Adichie sintetiza bem: as mulheres aprendem “que você pode ter ambição, mas não muita; você pode desejar ser bem sucedida, mas não bem sucedida demais, senão você ameaça o homem”. Ou seja, ocupamos espaços que até pouco tempo nos eram restritos, mas ainda somos lembradas de que aquele não é o nosso real lugar.

Até hoje, a base da educação social de mulheres continua sendo relacionada ao fato de que nunca podemos tomar o lugar de um homem. Nossa existência ainda é vista como parte de um entretenimento masculino. Assim, mulheres não são donas de si próprias ou de suas escolhas – seus corpos são públicos e suas vidas podem ser debatidas por toda e qualquer pessoa. Não há qualquer compartimentalização: quando ocupam os espaços públicos, as mulheres são forçadas a se confrontar com suas vidas privadas, seja através da maneira como a maternidade ainda limita as oportunidades de trabalho, ou então como discussões sobre aparência física e assédio sexual se fazem presentes para qualquer mulher que trabalha fora, seja numa empresa, numa casa de família, ou em cima de um palco cantando para multidões. Na vida pública, as mulheres se tornam objetos e, como esse ser inanimado, não é possível que elas tenham ambições, desejos ou vontades. Essas são características de agentes – e, historicamente, os únicos agentes que podem existir são os homens.

No entanto, desde que o patriarcado foi sutilmente instaurado e difundido mundialmente, muita coisa mudou no mundo. A partir do momento que nossa sociedade deixou de ser pautada em uniões matrimoniais como parte essencial do núcleo de seu funcionamento, as mulheres precisaram entrar no mercado de trabalho para que pudessem se sustentar no meio capitalista. Acontece que para sobreviver ao capitalismo selvagem que se instaurou e ganhar o famigerado pão nosso de cada dia, tendo inclusive a perspectiva de ascensão social – o eterno mito da nossa sociedade – é preciso de… ambição. Ainda mais com salários menores, cargos de menor importância e a eterna necessidade de se provar capaz de fazer seu trabalho, mulheres, muito mais do que homens, precisam de extrema ambição e controle para conseguir não apenas espaço, mas respeito e chances de crescer em suas carreiras.

Trabalho duro, visão, estratégia, plano de negócios e tudo regado à ambição de fazer algo – nos contaram que é essa a receita do sucesso profissional e é assim que reza a lenda do mito da meritocracia. É isso que faz de um homem um empreendedor ou artista de sucesso, como Zuckerberg, Kubrick ou Jay-Z. Mas se estamos falando de Taylor Swift, Kim Kardashian ou qualquer outra mulher de negócios – que é o que elas são –, tudo de positivo some e nos resta apenas acusações de control freaks, gananciosas e falsas. Isso é porque, no fim das contas, nós mudamos as estruturas sócio-econômicas de nosso mundo, mas não as sócio-culturais. Mulheres, por mais que ocupem 43% do mercado formal de trabalho de acordo com os dados de 2015 do IBGE, continuam sendo vistas como objetos de entretenimento, sem poder de escolha sob nada, nem mesmo seus corpos. E, assim, uma mulher claramente no controle de sua vida por completo é, necessariamente, uma ameaça à ordem vigente.

Taylor Swift faz tudo isso e ainda sustenta sua imagem em símbolos tradicionalmente femininos, algo que, grande novidade, não é bem visto por aí. Quando dizemos que vivemos em uma sociedade estruturalmente misógina, que odeia mulheres, estamos falando sobre a forma em que tudo que é associado ao universo feminino – que nos é imposto desde o nascimento – é tratado como inferior, menor. No início de sua carreira, Taylor Swift aparecia em tapetes vermelhos com vestidos de baile e maquiagem cintilante cafona típica de garotas adolescentes; ela está sempre de batom vermelho, adora falar sobre suas gatas (que têm nomes de personagens de TV), e seu Instagram está cheio de fotos suas fazendo cookies com as amigas. Ela gosta de dar grandes festas temáticas e usar fantasias, e deixa claro o esforço que faz para agradar as pessoas, principalmente os fãs. Suas músicas falam sobre relacionamentos, amor, sentimentos, experiências que ela viveu a partir de uma perspectiva que é sua e vem carregada de uma honestidade, para o bem e para o mal, que não pede desculpas por estar ali.

Foi com 1989, seu primeiro trabalho abertamente pop, que Taylor Swift chegou no ponto mais alto de sua carreira até então. A mudança de sonoridade foi também uma escolha calculada e ela escolheu ocupar esse gênero extremamente popular, majoritariamente feminino e, muito por causa disso, também menos prestigiado – foi preciso que Ryan Adams regravasse suas músicas para uma parte da crítica admitisse que suas letras eram boas.  A imagem de Taylor Swift reforça um padrão de beleza que é branco e magro, e isso ainda significa privilégio sobre outras mulheres, mas ser quem é ela também quebra outros tantos padrões, e é relevante reconhecer todas essas nuances. Da mesma forma que a história de Kim é subversiva pela forma como ela se apropriou de uma narrativa que poderia ser mais uma história de slut shamming, construindo seu legado a partir da agência sobre coisas que até então eram manipuladas – seu corpo, sua sexualidade, sua vida pessoal –, Taylor Swift se fez mulher de negócios e marketeira brilhante usando a seu favor tudo que poderia ser usado para derrubá-la.

Taylor gosta de vestidos rodados, roupas brilhantes, batom vermelho e gatinhos; ela fala muito sobre namoros  e se esforça para parecer legal, educada, agradável. Todos esses são comportamentos tradicionalmente femininos e, por isso, tradicionalmente vistos como fraqueza, mas ela não é fraca. Ela é obcecada por controle, compra suas brigas e não é bobinha e inocente como a construção de uma imagem tipicamente feminina sugere. Ela usa da mesma forma como é usada, e pode ser que isso signifique que a gente nunca realmente saiba quem ela é por trás dessa imagem habilmente construída, mas para mulheres em sua posição, sujeitas a uma exposição dessa ordem, é preciso fazer isso para sobreviver e sair por cima. Porque ainda não conseguimos o direito de separar nossa vida em caixas, menos ainda conseguimos que os outros aceitem que podemos ser algo mais complexo e sofisticado do que apenas um cordeirinho inocente ou um lobo mau e maquiavélico.

A intenção desse texto não é redimir Taylor Swift de todos os seus possíveis pecados, menos ainda alçá-la a um pedestal, blindada de qualquer questionamento. O que buscamos é refletir sobre o que o ódio a uma figura pública como ela pode significar. Apesar de termos desenvolvido muito em relação às nossas percepções sobre as mulheres ao longo dos séculos, nossas visões ainda estão enraizadas em questões sociais mais profundas do que um simples emoji de cobra ou mesmo um complexo textão de Facebook nos diz. Como sociedade, continuamos a subestimar e suspeitar de mulheres que usam símbolos tradicionais de feminilidade como forma de controle e poder. Ariana Grande é colocada como uma menina bobinha que só liga para o Snapchat, mesmo sendo uma das divas pop com maior controle vocal e instrumental atuais. Kim Kardashian é tida como o símbolo da futilidade, independentemente da genialidade por trás de toda sua construção de persona pública. Nicki Minaj é sempre escrita como a mulher negra e brava que não tem controle de si, não importa o quão racional e calmo seja seu discurso em entrevistas. Mesmo Beyoncé, ao construir sua imagem aproximando sua própria maternidade à própria Oxum, orixá da fertilidade, foi criticada porque “ser mãe não te faz uma deusa”. Além disso, ela é questionada até hoje por usar seu corpo da forma como bem entende, com roupas e coreografias sensuais e letras que celebram sua vida amorosa e sexual.

Taylor Swift não é e nunca foi um caso isolado, mas sua carreira definitivamente é um bom exemplo para se pensar o que significa ser uma mulher poderosa, com controle de sua vida, que escolhe, deliberadamente, ser tradicionalmente feminina na esfera pública. É claro que toda escolha na construção de uma imagem pública importa – seja refutando ou tomando para si as marcações históricas de gênero que nos foram colocadas. Mas cabe a nós perceber as nuances que seguem cada caminho, entendendo que cordeirinhos inocentes e lobos maus só existem em ficções infantis. No nosso mundo capitalista, machista e racista, todos nós alternamos entre caça e caçador. As identidades com as quais nascemos e aquelas que abraçamos ao longo de nossas vidas nos fazem, necessariamente, representantes de uma série de debates histórico-sociais que não podemos ignorar. Mas podemos escolher pensar sobre elas e seus significados, aceitando esse eterno conflito de intersecções que somos e continuaremos a ser até que conquistemos a igualdade e liberdade plena entre todas as pessoas em nossa sociedade globalizada. Até lá, nossa identidade sempre será nosso maior conflito, e ter o direito de vivê-lo também de forma pública ainda é uma luta para as mulheres, ainda é o que nos impede de simplesmente fazer um texto que se limita a dizer que a carreira da Taylor Swift é engenhosa e interessante, sem precisar esquadrinhar sua vida inteira só para concluir que ela é cheia de erros e acertos, e que eles podem coexistir. Destacar isso ainda é importante porque não podemos esquecer que essa é a parte fundamental que nos faz o que somos – humanos. Precisamos dar isso a ela, e a nós mesmas.

Texto escrito em parceria por Anna Vitória e Clara Browne

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2 Comentários

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    Ana Beatriz
    3 de maio de 2017 at 21:12

    QUE TEXTO SENSACIONAL! Eu sou muito fã da Taylor desde 2010 e simplesmente fiquei sem palavras. Vocês conseguiram descrever de maneira brilhante, o que as pessoas tanto acham de “defeitos” nela, e na verdade, tem muito a ver com o mito de que as mulheres, se são ambiciosas, só ligam para o dinheiro ou status.

  • Responda
    Hanna
    13 de maio de 2017 at 10:48

    QUE TEXTO QUE TEXTO !!! Não sou a maior fã da Taylor Swift porém uma coisa que não podemos negar é a inteligência e talento dela !!

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