LITERATURA

O que Nora Roberts tem a nos ensinar

Talvez você já tenha visto, ao visitar uma livraria, alguns livros de J. D. Robb. Esse é um dos pseudônimos da escritora Eleanor Marie Robertson, mais conhecida por Nora Roberts e sucesso literário. Ela foi a primeira autora a figurar no Hall da Fama do Romance Writers of America, ganhou vários prêmios da mesma instituição e da Fundação Quills, até o momento já escreveu mais de 200 livros e vendeu mais de 400 milhões de cópias. Combinados, seus volumes passaram mais de 176 semanas no primeiro lugar da lista de mais vendidos do New York Times.

Tanto sucesso vem atrelado a críticas, desde especulações sobre a produtividade acima da média da autora até o conteúdo dos seus livros. Em fóruns de leitores e resenhas na Amazon, não são poucos os comentários sobre a utilização de ghost writers – escritores contratados para escrever livros no lugar de autores consagrados. A postura de Nora é bem assertiva em relação ao assunto: já tendo respondido a isso tantas vezes, ela afirma escrever todos os seus livros, respeitar seus leitores e saber que não agrada a todo mundo, considerando as insinuações ofensivas.

Por que escrever muito é considerado uma questão? Aparentemente, publicar muitos livros ao ano é tão problemático que a adoção do pseudônimo J.D.Robb foi uma sugestão da própria editora de Nora, que achou melhor ter nomes diferentes no mercado em vez de vários livros da mesma pessoa num curto período de tempo. É uma questão que envolve não só o mercado editorial, a dificuldade de publicação (a própria escritora teve os primeiros manuscritos recusados no começo da carreira), mas também uma espécie de aura que envolve o trabalho criativo de maneira geral – e, claro, o ato de escrever está incluído nisso.

É só retomarmos o Romantismo, movimento que marcou uma geração na literatura, no cinema, filosofia, música e artes de maneira geral e se caracterizou entre outros aspectos pela valorização do indivíduo e das emoções. Nesse contexto do Romantismo, a idealização (da pátria, por exemplo, ou das relações amorosas) era um recurso fortemente utilizado pelos artistas. É um momento também de valorização de temáticas como a depressão, o sofrimento, a morte, os sonhos, as drogas, que compõem um cenário para os sujeitos se expressarem. Os escritores – em sua maioria homens – então, encarnavam de certa forma o estereótipo do artista que precisa sofrer por sua arte, pois só assim ela vale a pena e é boa o suficiente.

A construção dessa imagem em nosso repertório cultural é muito marcada e ao falarmos de trabalhos criativos normalmente os relacionamos à inspiração, àquele momento glorioso onde tudo se encaixa, faz sentido e fica magicamente pronto. Mas sabemos que não é bem assim. Quando falamos de escrita, são vários os textos (e toda sorte de conteúdos) nessa internet ajudando a lidar com os temidos bloqueios criativos ou com a procrastinação. Um conselho recorrente é encarar a escrita, seja ela literária ou acadêmica, como um trabalho formal, que tem horários definidos e uma rotina. Essa é a estratégia utilizada pela autora, que diz trabalhar todos os dias, às vezes mais de oito horas, entre pesquisas e rascunhos, até ter um manuscrito em mãos.

“Write, write, write — no excuses.
You don’t find the time, you have to make time for it,”

Escreva, escreva, escreva – sem desculpas.
Você não encontra o momento, você deve criar o momento para isso.

Ao despir a atividade de escrever do glamour e desse ar de mistério que por vezes ronda as vidas de escritores famosos, Nora se aproxima da realidade de várias mulheres que, através de sua força de trabalho, conseguiram mudar o rumo de suas vidas. A biografia da autora condiz bastante com a imagem de mulher determinada e forte que dá o tom de suas protagonistas. Ela se casou bem cedo e se dedicou aos filhos e ao importante e desvalorizado trabalho doméstico. Começou a escrever já adulta, durante uma nevasca, sem poder sair de casa, romances que gostaria de ler, pois segundo ela, só assim as pessoas iriam gostar dos seus livros.

As obras de Nora Roberts e a atualização de arquétipos como recurso criativo

Edgar Morin, filósofo francês, ao refletir sobre a cultura de massa, tenta explicar uma contradição que existe nos produtos culturais: nos livros, filmes, séries e músicas observamos alguns padrões, elementos que se repetem ao lado de algumas inovações. Pense em nas novelas, em que vemos sempre a mesma história encenada de maneira diferente mas com finais bem parecidos, por exemplo, ou nas distopias como Jogos Vorazes, Divergente, A Coroa Cruel ou nos filmes de super-heróis – são histórias muito parecidas na essência e que trazem alguns pontos de novidade. Segundo Morin, essa padronização viria da própria Indústria Cultural, que, inserida no sistema capitalista, possui uma divisão do trabalho determinada, domina certa técnica e visa o lucro. As forças de inovação, por sua vez, vêm de três lugares: da atualização dos arquétipos; do papel dos criadores e das celebridades; e dos anseios do público.

No caso dos livros de Nora Roberts, é fácil identificar certos temas recorrentes e construções narrativas que funcionam e estão sempre ali, mas podemos perceber como alguns arquétipos foram se atualizando ao longo do tempo na escrita da autora a partir de representações diferentes.

Os arquétipos são grandes estruturas simbólicas referentes a temáticas como o amor, a morte, a figura paterna ou a figura da (o) heroína/herói e que fazem parte do nosso inconsciente coletivo. A partir de representações nuançadas de relacionamentos amorosos heterossexuais, que compreendem homens e mulheres em papeis mais igualitários, a autora atualiza representações antigas do amor romântico. Suas protagonistas são mulheres fortes, que não esperam ninguém salvá-las e constroem relações de parceria com seus interesses amorosos, não de dominação. Se em livros antigos traduzidos (publicados pela Harlequin Books) como a série dos O’Hurley ou dos McGregor, observamos alguns estereótipos masculinos – o pai provedor, o protagonista mais controlador e ou protetor – nos livros recentes, esses lugares são tensionados.

Na série Mortal vemos a protagonista Eve Dallas, policial de uma Nova York do futuro que a cada livro busca resolver um caso de homicídio, enquanto lida com questões do próprio passado e o amadurecimento de seu relacionamento com Roarke. A profundidade da personagem pode ser desenvolvida ao longo de muitos livros, Eve não é uma heroína no sentido esperado da palavra. Vemos não só sua dedicação ao trabalho de tenente, como a construção de laços familiares pouco usuais – dado que Eve é órfã, sua família são suas amigas e seus colegas da corporação, além de Roarke.

Na trilogia mais recente lançada no Brasil, sobre três amigos de infância que fazem um pacto e liberam um demônio numa cidade pacata dos EUA, a autora aborda outra temática que lhe é cara: o sobrenatural. Apesar de passear em muitos lugares, a estrutura dos livros é basicamente a mesma, algum mistério a ser solucionado através de muito trabalho e disposição dos casais protagonistas. Bem humorada e ágil, a narrativa da autora consegue construir na imaginação dos leitores histórias muito plausíveis e que geram identificação em certa medida, com os protagonistas, mas também trabalham com a projeção, o desejo de ser/ fazer/ ter algo que vemos naquelas personagens.

Em tempos de modas literárias, editoras fechando e discussões sobre o futuro do livro de papel, Nora Roberts permanece impassível, produzindo um livros a cada 45 dias e vendendo mais de 34 cópias por minuto. Podemos até não gostar do estilo da autora, mas é inegável que Nora é fenômeno e tem algumas coisas a nos ensinar, basta prestar atenção. Apesar do sucesso de público, a autora não é sucesso de crítica, pois é uma mulher escrevendo livros de romance para outras mulheres – segundo a própria. No perfil de Nora feito pelo jornal The Guardian, ela comenta o descaso da crítica especializada em torno de seus livros, destacando não só o preconceito literário em torno do gênero como o machismo que privilegia autores homens, dando maior credibilidade ao trabalho deles e encarando o trabalho das mulheres como superficial. Assumidamente feminista, Nora Roberts encontrou na escrita a independência financeira para criar seus filhos e se sustentar após o divórcio, além de um propósito claro, contar histórias. É aquele recado, que Anitta e Taylor Swift também dão diariamente, não se importe com os haters, só continue a produzir um sucesso atrás do outro.

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