LITERATURA

O poder do amor feminino: Amora

Amora Natalia Borges Polesso

Em Um Teto Todo Seu, a escritora Virginia Woolf menciona de passagem que a diferença que ela observou entre uma determinada obra escrita por uma mulher (obra fictícia usada para fins didáticos dentro do ensaio) e as obras escritas por homens em geral é que essa obra representava uma relação positiva e complexa entre duas mulheres. Até então, todas as obras retratavam a mulher a partir do referencial masculino, em suas relações com os homens; as poucas relações entre mulheres que podiam ser encontradas eram negativas e de competição.

“Todos os relacionamentos entre mulheres, pensei, repassando rapidamente a esplêndida galeria de mulheres ficcionais, são muito simples.  Muita coisa foi deixada de fora, sem ser abordada.” (Um Teto Todo Seu)

No epílogo da edição de 1989 do livro Carol (originalmente publicado como The Price of Salt), da escritora Patricia Highsmith, lançado em em 1952, a autora conta que por muito tempo depois da publicação do livro ela recebeu centenas de cartas de lésbicas e gays agradecendo por ter permitido que as personagens principais, Therese e Carol, tivessem um final feliz. Apesar de ter minhas ressalvas quanto ao romance com claros indícios de abusividade representado nesse livro, seus méritos na representação de um grupo social que até então (e, em grande medida, até hoje) permanecia silenciado precisam ser reconhecidos.

Como ressaltado por Woolf no livro já mencionado, ainda sobre o livro fictício A Aventura da Vida, mas que se aplica a todos os livros já escritos por mulheres, “é preciso lê-lo como se fosse o último volume de uma série razoavelmente longa, em continuação a todos aqueles outros livros que andei vendo”. Toda a história e as conquistas da literatura feita por mulheres faz parte de Amora, que segura o bastão de forma maravilhosa e emocionante. Amora é um livro de contos, escrito pela gaúcha Natalia Borges Polesso, que reúne histórias que giram em torno de relacionamentos lésbicos.

O diferencial de Amora é justamente a sua diversidade. A diversidade de personagens, personalidades e histórias, que nos afasta um passo mais do perigo da história única sobre o qual nos alertou a também escritora Chimamanda Ngozi Adichie. Desfilam em frente aos nossos olhos histórias de início, relacionamentos antigos, términos, traições, personagens crianças, adolescentes, adultas e idosas, lésbicas e bissexuais. O amor não obedece a moldes e se não existe uma única trama para relacionamentos heterossexuais, não tem porque haver para relacionamentos lésbicos.

“Não havia maneira fácil de fazer aquilo, eu teria que submergir no meu próprio inferno para depois quem sabe chegar à outra ponta mais clara da vida, no centro quente de quem eu queria ser.” (“O Interior Selvagem” – Amora)

Dizer que relacionamentos lésbicos são relacionamentos como quaisquer outros e merecem o mesmo respeito, porém, não é a mesma coisa que dizer que esses relacionamentos não têm suas especificidades. Nós não vivemos no vácuo, vivemos em uma sociedade com as suas próprias regras sociais e todo um contexto patriarcal*, tudo o que desvia do que é considerado normal é socialmente punido, e um relacionamento entre duas mulheres, rejeitando toda influência masculina, não é considerado normal. A punição social tem muitas formas, desde a marginalização, até violências físicas e estupro corretivo. Amora é especialmente sensível ao representar os relacionamentos lésbicos em toda a sua variedade, mas também em toda a sua especificidade.

A importância da representatividade para a identidade e para o fortalecimento psicológico de grupos “minoritários” (politicamente, e não quantitativamente falando) é imensa e amplamente discutida. Por um aspecto externo, essa representação vem em auxílio à humanização e naturalização do comportamento que por questões arbitrárias foge à regra. O medo do outro, do diferente, tem uma relação muito forte com o medo do desconhecido, e obras que aproximem esse outro e o mostrem de forma fiel e humana podem, progressivamente, contribuir para a construção de um diálogo e a redução da intolerância.

No pequeno espaço de um conto, a autora consegue construir personagens complexas e profundas, com personalidades próprias e que passam ao leitor um amplo espectro de sentimentos. Um conto é um recorte muito pequeno de uma vida, se comparado com um romance, mas se bem trabalhado pode estabelecer uma relação tão forte quanto esse entre o leitor e a história. Cada uma das histórias de Amora contém todo um microcosmo tão envolvente que foi impossível para mim escolher um ou alguns favoritos. Todos os contos que compõem o livro merecem estar ali, e merecem ser lidos e apreciados em todo o seu valor.

“Então eu tenho vontade de mergulhar para me curar do amor que ainda não tenho e não sentir a saudade que nem existe.” (“Wasserkur ou alguns motivos para não odiar dias de chuva” – Amora)

Não só as histórias e os pontos de vista de Amora são muito variados, como o próprio estilo narrativo usado pela autora assume muitas formas — da mais realista à mais abstrata, da narrativa tradicional à troca de e-mails. A escrita da Natalia tem sempre um traço poético muito característico, mas sem nunca perder a conexão com o rumo da narrativa e a história que está sendo contada.

Amora é um livro que me tocou muito profundamente e que faz jus em cada linha ao prêmio Jabuti que conquistou em 2016, na categoria de contos. A soma dos fatores de ter sido publicado por editora independente — a Não Editora, de Porto Alegre –, tratar de um tema ainda polêmico e, de certa forma, tabu, ser constituído quase unicamente por personagens femininas e ainda assim ter conquistado um prêmio literário importante fala muito mais sobre os méritos de Amora do que essas quase mil palavras que eu acabo de rascunhar.


*O conceito de patriarcado faz referência a um sistema hierárquico de dominação masculina e submissão feminina que afeta todos os aspectos da vida das pessoas inseridas na sociedade patriarcal.

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