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Marina Ruy Barbosa e o olhar masculino

Há duas semanas estreou Justiça, nova minissérie da Globo. Com um formato diferenciado para o canal, a série é uma aposta que tenta aproximar as produções brasileiras da linguagem de televisão americana, que tem dado o tom do que é fazer bom entretenimento nos últimos anos. A trama gira em torno de quatro histórias sobre quatro crimes, num universo de personagens que estão mais ou menos conectados e cujas histórias compartilham uma base que vai discutir diferentes noções e nuances do que é justiça.

Parece diferente, parece ousado, parece realista, e em vários pontos realmente é. Só que, numa das primeiras cenas do primeiro capítulo, constatei que antigos hábitos são duros de matar: Isabela, personagem de Marina Ruy Barbosa, é introduzida à trama de costas, na ponta de uma lancha de frente pro mar, usando um maiô todo recortado por baixo de uma saída de praia transparente. Ela rebola ao som de Candy e às vezes olha languidamente para trás, fazendo charme para alguém.

Para quem ela olha?

Em poucos minutos, sem querer, a minissérie me ofereceu um exemplo simples e bem claro para explicar o conceito de male gaze, o olhar masculino. O termo apareceu pela primeira vez no trabalho da teórica americana Laura Mulvey, no seu trabalho Prazer Visual e Cinema Narrativo. Feminista da segunda onda e crítica de cinema, Mulvey usa conceitos da psicanálise* para descrever e explicar a forma como o cinema reproduz o olhar masculino – e heteronormativo – sobre as mulheres através das imagens que forma.

O cinema (quando digo cinema, falo de narrativas visuais de modo geral) é um sistema de representações, e o male gaze é modo-de-fazer que coloca na tela a representação do olhar do homem sobre seu objeto de desejo, que é a mulher. A mulher está sempre sendo olhada e representa a fantasia masculina de algo que existe, antes de qualquer coisa, como um símbolo de prazer.

Para quem ela olha?

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Quando a personagem da Marina Ruy Barbosa aparece dançando seminua e lança um furtivo olhar para trás, é como se ela estivesse dando um aceno de reconhecimento para esse homem hipotético que a observa do outro lado da tela ou para um personagem (masculino) da trama – provavelmente para os dois. Não é raro que eles coincidam.

Freud explica (na verdade é Lacan): pela identificação narcisista, o espectador – seja ele homem ou mulher – procura aquele personagem ativo, complexo, que controla a narrativa, para se projetar. Na maior parte das vezes, esse personagem é masculino, já que, nesse sistema, a mulher não tem uma história realmente sua. Então a gente enxerga a trama pelos olhos do homem, e que bom que deve ser para alguns quando eles recebem de volta esse olhar da mulher, um espetáculo acontecendo todinho para eles.  

Em Justiça, Isabela é assassinada no primeiro capítulo por seu namorado, depois de ser flagrada por ele no chuveiro com seu ex. Assinada por Manuela Dias, roteirista jovem que é uma das apostas da Globo para trazer frescor e atualidade às suas produções, a história felizmente dá nome aos bois e logo coloca na boca do assassino a verdade sobre os fatos: sete anos depois, ao sair da prisão, Vicente (Jesuíta Barbosa) reconhece que o “crime passional” que cometeu foi motivado por uma só coisa, o machismo.

O que poderia ser mais uma história herdeira de Nelson Rodrigues, dessas em que a mulher é punida com a morte para expiar o pecado de exercer sua sexualidade, acabou sofrendo uma virada inesperada com esse reconhecimento (pelo menos até o fechamento desse texto). Isso muda o significado da forma como a personagem é representada: me parece que a ideia era mesmo colocá-la como esse objeto masculino que perde a vida a partir do momento que “seu homem” percebe que perdeu o poder sobre ela. A gente assiste a história do ponto de vista de Vicente e é assim que ele a enxerga. O olhar masculino faz isso, se impõe sobre todo o resto, e aí não importa a história de Isabela, seus sentimentos, sua vida interior, mas sim o que ela representa para ele.

Posso estar extrapolando minha análise, mas a escolha de Marina Ruy Barbosa para esse papel não me parece aleatória. Não é a primeira vez que ela é destinatária desse olhar masculino: desde que é maior de idade e foi promovida ao escalão nobre da Globo, a atriz encarna papéis que são arquétipos femininos clássicos, que têm em comum o fato de representarem fantasias específicas dos homens. Nicole, de Amor à Vida, era a menina rica e doente, romântica e virginal, que foi conquistada por um cara que queria roubar sua herança (depois morre no dia do casamento e fica até o final da novela assombrando todo mundo vestida de noiva). Eliza, de Totalmente Demais, foge de casa por causa dos assédios do padrasto, vai morar na rua, ganha um concurso para ser modelo e acaba se envolvendo com seu mentor, um homem mais velho. Maria Ísis, de Império, começa a novela confinada em um apartamento, pra lá pra cá usando lingerie fina ou babydoll enquanto espera o Comendador, seu amante, chegar.

Fico pensando em qual é a necessidade de colocá-la de lingerie em todas as cenas a não ser a de constituir a realização de uma fantasia que não está só no apelo sensual da coisa, mas também no de ela ser uma garota mais nova (na época ela tinha 19 anos, contra os 44 de Alexandre Nero, seu par romântico), com cara de menina e corpo de mulher, que vive em função da atenção de seu homem. Branca, ruiva, rosada e de sutiã azul bebê, Marina é a imagem perfeita dessa mulher idealizada, ao mesmo tempo etérea e sexualizada, representando ideais não apenas machistas, como também heteronormativos e racistas, já que opressões estruturais costumam andar de mãos dadas.

A culpa, obviamente, não é da atriz. Acredito que ela faz o melhor que pode e está tentando sobreviver em uma indústria que não é nada gentil com a figura feminina. Se Marina Ruy Barbosa não fosse uma garota talentosa, o pouco espaço que suas personagens têm para crescer seria menor ainda. Suas personagens acabam ganhando alguma vida própria ao longo da trama – porque estamos em 2016 e isso tem que significar alguma coisa -, mas ainda não é o suficiente. Atores bem mais velhos continuam sendo escalados como seus pares românticos e sua apresentação inicial continua sendo a de um receptáculo do olhar desses homens, ainda que de forma crítica. Ao digitar “Marina Ruy Barbosa + Justiça” na busca do Google, a maioria dos resultados não destaca a trama ou a atuação, mas sim o fato da atriz aparecer nua em várias cenas. Os esforços de progressão ou de superação dessas velhas formas ainda me parece fraco quando se insiste em uma fórmula tão antiga.

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Enquanto sistemas de representações, o cinema e a televisão devem refletir tudo aquilo que as mulheres podem ser. É por isso que o male gaze precisa acabar. Marina Ruy Barbosa e todas as outras atrizes que estão aí, sejam elas símbolos sexuais ou não, merecem ser olhadas de outra forma. Elas têm o direito de olhar de volta e de ser vistas como são.

Do contrário, as personagens acabarão caindo na mesma armadilha de Harley Quinn, do Esquadrão Suicida: ela pode até dizer que só transa quando quer, onde quer e com quem quiser, mas, enquanto ela diz isso, existe um olhar superior mais preocupado em enquadrar seu corpo, e especialmente a sua bunda, sempre que possível. O nome disso é male gaze e ele não presta atenção no que as garotas têm a dizer. Alguns hábitos são duros de matar.

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Diz-se que, ao analisar o prazer, ou a beleza, os destruímos. Esta é a intenção deste artigo. A satisfação e o reforço do ego, que representam o grau mais alto da história do cinema até agora, devem ser atacados. Não em favor de um novo prazer reconstruído que não pode existir no abstrato, nem de um desprazer intelectualizado, e sim no intuito de abrir caminho para a negação total da tranquilidade e da plenitude do filme narrativo de ficção. A alternativa é a emoção que surge em deixar o passado pra trás sem rejeitá-lo, transcendendo formas já desgastadas ou opressivas, ou a ousadia de romper com as expectativas normais de prazer de forma a conceber uma nova linguagem de desejo.

Laura Mulvey – Prazer Visual e Cinema Narrativo

* Não tenho formação na área e nem leitura necessária para discutir os conceitos apropriadamente, por isso vou me limitar a citá-los e aconselhar a leitura do artigo completo, disponível online em inglês e português para quem se interessar (yay internet!).

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