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A força das mulheres em Las Chicas del Cable

A série espanhola Las Chicas Del Cable mostra um grupo de mulheres tentando sobreviver em um mundo machista, na década de 1920. Nos primeiro momentos do episódio-piloto já fica claro que a vida não era muito fácil na época, as mulheres eram vistas como esposas e mães e a liberdade era uma meta inatingível. Vemos duas mulheres preparadas para dar uma guinada em suas vidas, mas são impedidas quando um homem que não supera o fim do relacionamento decide pôr um ponto-final na ilusão de liberdade da ex-companheira.

Depois disso, a jovem Alba (Blanca Suarez) se vê na cadeia e com apenas uma saída para atingir a tão sonhada liberdade: roubar. Para isso, ela muda sua identidade, transformando-se em Lidia, e é uma das selecionadas para integrar a equipe de telefonistas de uma grande companhia telefônica. Lá ela conhece outras mulheres em busca de seus sonhos, inclusive a liberdade, mas encontra também rivalidade e muito machismo. O que Alba não podia prever, na verdade, é um reencontro com seu amor do passado, um homem poderoso que chegou em Madrid com Alba dez anos antes, mas elas se perderam na ocasião e cada um fez a sua própria vida conforme pôde. Francisco (Yon González), claro, sendo homem, recebeu mais e melhores ofertas, enquanto Alba teve que se virar como podia para sobreviver.

A jovem precisa controlar as emoções do reencontro, lidar com outro homem poderoso que fica enfeitiçado por ela e, ainda, não esquecer que sua liberdade depende do roubo que lhe foi imposto. Porém, é fotografada com Francisco durante um beijo apaixonado, o que tem como consequência uma nova extorsão, agora para proteger a imagem do ex-namorado. No meio de uma trama intricada e contagiante, o que faz Las Chicas del Cable girar é, de fato, suas personagens maravilhosas, mulheres completamente diferentes entre si mas que encontram na amizade a força de que precisavam para mudar suas vidas.

Ángeles

Mãe, esposa, apaixonada e devota ao marido. Ángeles (Maggie Civantos) trabalha há alguns anos na companhia telefônica e se destaca entra as funcionárias por ser eficiente e responsável. Tudo parece ir bem em sua vida, mas o marido (funcionário da mesma empresa) é promovido e não quer mais que Ángeles trabalhe. Seus motivos? O frágil ego masculino que se vê diminuído quando o marido não é o único provedor do lar. Ángeles não acredita na infidelidade do marido, mesmo tendo sido informada por suas amigas, mas aos poucos, se vê em um relacionamento marcado por violência física e manipulação. Como se não bastasse, a Madrid dos anos 1920 não permite divórcios.

Ela precisa também lidar com a gravidez inesperada e descoberta no pior momento do seu casamento e não aceita a sugestão do aborto, porém suas atitudes seguintes nos permite fazer o questionamento: Ángeles realmente não concorda com o aborto ou, assim como muitas pessoas, foi criada em uma sociedade que a levou a acreditar que essa opção é errada? Afinal, quando Alba sugere essa providência, Ángeles não explica bem o motivo para rejeitar essa opção, apenas diz que não faria isso. Entretanto, dizer que não resistiu “o suficiente” na hora de apanhar do marido porque dessa forma sabia que teria um aborto espontâneo deixa ainda mais evidente as escolhas dolorosas e descabidas que as mulheres precisam fazer diariamente. Se submeter a uma surra do companheiro porque o aborto é condenado nos faz perceber que para ter opções ainda precisamos ter muita coragem e nos deixarmos vulneráveis em momentos difíceis.

Carlota

É uma mulher rebelde nascida em família rica que escandaliza os pais por seu comportamento feminista e vontade de trabalhar. Consegue e mantém o emprego contra a vontade dos pais, por isso precisa fazer algumas escolhas ao longo da temporada. Namora um engenheiro que também é funcionário da empresa telefônica e que aparentemente admira o temperamento e as convicções da namorada.

Ao longo dos 8 episódios, Carlota (Ana Fernández) faz descobertas pontuais sobre a sua sexualidade quando percebe que sua chefe, Sara (Ana Polvorosa), não está interessada em seu namorado, mas na própria Carlota, que não se mostra muito relutante às investidas. Podemos perceber através da personagem o tabu da bissexualidade. A jovem é bastante companheira e confidente das colegas de trabalho, não esconde que vai em reuniões de conteúdo democrático e feminista, mas não se permite confidenciar a ninguém a experiência que vive com outra mulher ou quando passa a incluir o namorado na relação. Será que, mesmo sendo moderna e forte, Carlota tem medo da reação de suas amigas sobre sua forma de explorar o sexo? Quando é apresentada a este universo, a jovem fica sabendo pela parceira que o costume é não acreditar que havia também essa possibilidade de prazer. É uma personagem bastante real que é constantemente podada pela família, mas que não se permite ser domada facilmente, a não ser que a liberdade de alguém importante esteja em jogo. Descobre que as reivindicações por direitos igualitários podem ser perigosas e constantemente lembrada do fato de que manda quem tem mais poder.

Marga

É a garota tímida e inocente de cidade pequena que descobre como é ser uma mulher que vive em uma metrópole, fica com a parte cômica da história e se impressiona fácil. Marga (Nadia de Santiago) fica em dúvida sobre como proceder ao descobrir a infidelidade do marido de Ángeles. Ela comenta com as amigas, mas não tem coragem de contar a esposa traída e isso é bastante compreensível. Quantas de nós também não ficariam sem saber como reagir a isso? A reação da própria Ángeles justifica os medos de Marga, pois a telefonista não acredita em Alba e até lhe estapeia.

Isso nos leva a diversos questionamentos. Por que uma mulher mentiria para a outra sobre um assunto tão delicado? Por que ela inventaria a traição do marido de sua amiga? Se a esposa traída acredita que o marido não faria algo do tipo e se vira contra a amiga, está tratando o marido como uma vitória que deve ser preservada? Ou o medo de precisar tomar uma atitude lhe cega? É um comportamento que perdura ainda hoje, quase 90 anos após os eventos ocorridos na série.

Sara

É a chefe das telefonistas e se mostra bastante rígida e controladora, mas precisamos entender que em um mundo dominado pelo sexo masculino, ela precisou se impor. Frequenta reuniões onde questões feministas são discutidas e sabe muito sobre a empresa. Pouco sabemos sobre seu passado e origem, o que lhe dá um certo ar de mistério. Também é responsável pelas escutas ilegais feitas pela companhia telefônica, e isso não é muito bem explicado na série, mas percebemos que é algo que pode ser melhor explorado na segunda temporada.

É Sara quem coloca em pauta a bissexualidade na série. Ela trata o assunto com muita naturalidade, o que a torna uma mulher à frente de seu tempo. Todas essas personagens vão enfrentar difíceis situações ao longo da primeira temporada de Las Chicas del Cable. São situações que enfatizam a diferença de tratamento dado às mulheres, retratado há quase 100 anos, mas que ainda perdura.

Graciela Paciência nasceu e cresceu em São Paulo. Por muito tempo acreditou que seu futuro estivesse na direção de videoclipes, mas agora prefere gastar seu tempo livre no cinema, em frente à TV ou na companhia de um bom livro. Gosta de Agatha Christie, Gillian Flynn, clássicos e cinema europeu. Publicou, em 2016, seu primeiro livro, “Confissões de uma Adolescente Grávida”.

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