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The Handmaid’s Tale: Nolite te bastardes carborundorum

The Handmaid's Tale

Quando a plataforma de streaming americana Hulu anunciou que tinha uma adaptação do livro de Margaret Atwood, O Conto da Aia, em andamento, foi dada a largada para os leitores e seriadores mais ávidos se situarem do enredo da história e contarem os dias para conferir o que a série poderia oferecer.  Com Elisabeth Moss e Alexis Bledel no elenco, entre outros grandes nomes, a premissa parecia ser fiel ao livro que a originou: num futuro distópico, os Estados Unidos haviam caído e em seu lugar foi criada a nação de Gilead – um lugar onde a adoração religiosa parecia ser a base da salvação do mundo. Para isso, homens e mulheres teriam de se posicionar e assumir seus deveres, mas apenas uma parte fez isso voluntariamente. Consegue adivinhar qual? É, você acertou.

Quando Gilead foi formada, os princípios que foram impostos para reger a nação eram baseados na fé e subserviência para que Deus olhasse para os humanos com benevolência e salvasse o mundo da catástrofe que o havia atingido: no futuro, o impacto ambiental causado pelos humanos atingiu a população com força e uma das maiores consequências foi a infertilidade em homens e mulheres. Com a baixíssima taxa de natalidade, as crianças se tornaram o bem mais valioso do mundo. E, para obtê-las, as mulheres férteis também. No entanto, à medida que o novo governo tomava o país e fazia a reforma no sistema, os direitos das mulheres foram cruelmente ceifados e a onda de medo se alastrou com intensidade e rapidez, de forma que quando as famílias se deram conta de que precisavam fugir, era tarde demais. Todos aqueles que demonstravam resistência, todos aqueles que um dia exerceram “pecados” de acordo com a Bíblia, foram executados. Um movimento errado e você poderia ser o próximo.

Atenção: este texto contém spoilers!

The Handmaid’s Tale, a série, visa, então, contextualizar o funcionamento de Gilead a partir do ponto de vista de June (Moss), e alterna os acontecimentos presentes com flashbacks de “antes”. Há três anos ela fora capturada quando tentava atravessar a fronteira com seu marido, Luke (O-T Fagbenle), e sua filha, Hannah (Jordana Blake), mas eles foram encurralados pelos Olhos de Deus, guardas que ficam de sentinela por todos os cantos a fim de se certificar que ninguém está sequer respirando de forma suspeita. Na fuga, Luke fora baleado e deixado para trás, Hannah fora levada para um destino incerto e June fora levada para o Centro Vermelho para ser treinada como Aia. As Tias, mulheres de meia idade responsáveis por “educar” as “meninas”, faziam questão de convencê-las de que era uma honra a posição que elas ocupariam na sociedade: trazer novos bebês ao mundo em famílias poderosas. Mas a suposta honra vinha com o altíssimo preço da submissão e repressão de autonomia que nenhuma dela se propôs a pagar, mas foram forçadas a aprender sob tortura. Bendito seja o fruto.

“Eu sei que isso deve parecer muito estranho. Mas ‘normal’ é somente aquilo a que você está acostumada. Isso pode não parecer normal para vocês agora, mas depois de algum tempo será. Isso vai se tornar normal.” – Tia Lydia (Ann Dowd)

No presente, June, agora Offred (Of-fred – privadas até mesmo de seu nome, as aias respondiam pelo nome do patriarca da família designada), está iniciando um novo período como aia na casa do Comandante Waterford (Joseph Fiennes), e é recepcionada pela frígida esposa dele, Serena Joy (Yvonne Strahovski). A partir deste ponto começamos a conhecer o dia-a-dia das aias e o funcionamento de Gilead, bem como pontuais flashbacks de como era a vida dos personagens antes da tomada do governo e quais suas verdadeiras ambições por trás do posicionamento nesse tabuleiro de xadrez. Às aias cabe a função de fazer as compras no mercado e se fazer invisível enquanto estão em casa. Fora isso, durante seu período fértil elas são o centro da Cerimônia – basicamente um estupro formalizado aos moldes de um ritual, onde a Aia deita entre as pernas abertas da senhora de sua casa, com a cabeça apoiada no ventre e os pulsos firmemente segurados por esta, enquanto o Comandante a penetra na beirada da cama, todos completamente vestidos. Ainda que invasivo e ofensivo, o ritual é o propósito de todo o esquema da nova nação, e por isso é aceito pelas esposas estéreis que ignoram seus sentimentos feridos. Já para as Aias, não existe opção além de se submeter a esse roubo de dignidade, pois embora já tenham saído do Centro Vermelho, qualquer denúncia pode submetê-las à tortura ou punição pior.

Esse cenário onde as mulheres são desprovidas de liberdade e qualquer direito torna-se, então, a nossa pior história de terror. Não bastasse isso, elas não podem confiar sequer uma na outra para não arriscar serem deduradas, caso se comuniquem com alguém que compactua com a crença (chocante, porém possível). Tanto que, por muito tempo, Offred desgostou de sua companheira de compras, Ofglen (Bledel), até descobrir que, assim como ela, Ofglen também odiava o sistema e não acreditava que aquela situação a qual elas estavam submetidas poderia ser chamada de vida. Comunicando-se aos sussurros, Ofglen conta a Offred sobre uma operação em andamento que visava livrar as mulheres daquela situação em que foram postas: Mayday. As informações sobre a operação são transmitidas entre as aias envolvidas em fragmentos, por sua circulação ser demasiadamente perigosa para elas. No entanto, Offred concorda em participar e passar adiante qualquer informação que ela obtivesse dentro de sua casa – aquela posição era demais para ela aguentar, e Offred tem um desejo muito forte de voltar a ser June, embora falte certeza a respeito do futuro.

Mas a missão se mostra difícil quando o sofrimento das mulheres fica cada vez mais evidente.

NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM

Essa expressão em latim aparece no quarto episódio da primeira temporada, quando Offred, deitada dentro de seu armário, encontra as palavras gravadas na madeira do rodapé. Possivelmente, a aia anterior gravara aquelas palavras de forma a confortar, ainda sem saber, qualquer pessoa que viesse a encontrá-las – ou, simplesmente, como um lembrete para si mesma. A expressão, como explicado mais adiante no mesmo episódio pelo Comandante, nada significa. A expressão sequer faz parte do latim em sua totalidade. Fora do contexto da série, NOLITE TE BASTARDES CARBORUNDORUM era uma piada interna nas aulas de latim de Margaret Atwood, e pretende significar “Don’t let the bastards grind you down” [“Não deixe os bastardos te oprimirem”]. Tomada como um mantra para que Offred não desista de demonstrar resistência, ainda que nas camadas internas de seu ser, a expressão acaba se refletindo nas trajetórias pessoais de cada personagem da série enquanto estão cumprindo seu destino forçadamente na esperança de que um dia terão seus pulsos soltos da amarra. Que o Senhor o abra.

Mergulhando nas memórias de June, de volta ao Centro Vermelho, é quando somos introduzidas pela primeira vez a Janine (Madeline Brewe), uma moça que foi capturada no mesmo momento que June e encarou o Centro inicialmente com a audácia que lhe cabia diante daquela circunstância. Contudo, naquele local, o cenário já era outro e aquele ato de rebeldia custou-lhe literalmente um olho. Enquanto Janine era trazida de volta ao dormitório com um tapa-olho, e June pergunta a Moira (Samira Wiley) o que acontecera, ela responde: “‘Se meu olho direito te ofende, arranque-o’. Somos reprodutoras. Não precisamos de olhos pra isso”. Uma cena que, no episódio piloto, transmite claramente a mensagem de como as coisas funcionavam para as mulheres em Gilead. O retrocesso imposto era a maior causa de tortura para elas, e continuamos a perceber isso em outra cena em que Janine, no centro de um círculo, é obrigada a compartilhar sua história de “antes” perante as outras “meninas”, e revela ter sido estuprada coletivamente, apenas para que as Tias obrigassem todas as aias a apontarem para ela e dizer em uníssono que fora sua culpa. Quem não fizesse isso, poderia apanhar, levar um choque, ou quem sabe coisa pior. Em pouquíssimo tempo, o trauma modificou a personalidade de Janine, e aquela garota que chegou bradando um “foda-se” para Tia Lydia, agora era a garota que chorava nua em frente à janela do dormitório chamando pela mãe.

Ao longo dos acontecimentos presentes, Janine (ou Ofwarren) comporta-se bem como aia, chegando, inclusive, a conceber e dar a luz a uma menina, demonstrando muito amor por ela. Só que a filha não lhe pertence, e o Comandante Warren, com quem vinha tendo encontros fora da cerimônia, fazia-lhe falsas promessas. Muitas consideram Janine uma desvairada, quando ela é, na verdade, vítima da condição em que a puseram. Seu consequente estado psicológico não altera a noção de que ela tem da tortura por que passou e continua passando, física e emocionalmente. O suicídio que tentou cometer mais adiante na temporada é a saída que não só ela como outras aias optaram para se libertarem das normas de Gilead. O desespero supera a esperança em algumas delas, o que é compreensível embora desolador. A amizade protetora e paciente que June tem com Janine reflete a de uma irmã mais velha tentando acalentar a mais nova contando histórias de um futuro melhor que ainda está por vir, mesmo que a própria não tenha certeza das promessas que faz.

Ofglen, por outro lado, tivera mais autocontrole para suportar sua condição como aia e participar de Mayday até ser descoberta pela sua homossexualidade (na linguagem deles, “traição de gênero”) e duramente punida assistindo à execução de sua parceira, uma Martha, na forca e posteriormente sendo submetida a uma circuncisão genital para privá-la de qualquer prazer futuro. No “antes”, Emily era professora universitária de biologia, casada e tinha um filho pequeno chamado Oliver – sua família tentara fugir para o Canadá, mas sendo a única sem o passaporte canadense, Emily foi capturada no aeroporto. Após ter retornado do hospital, ela foi mandada para uma nova casa onde recebeu a designação de Ofsteven. Apática, e privada da operação de resgate por ser considerada um contato perigoso, Offred não conseguiu alcançar a ex-companheira de compras, e agora amiga, que outrora lhe causava desconfiança. Mas ela observou com satisfação quando num ato de impulso, Emily roubou um carro enquanto fazia compras na feira, e por alguns minutos dirigiu sem rumo e furiosamente sobre os guardas que as vigiavam. A confusão voltou os olhos de todos para aquele momento, armas foram apontadas para o carro blindado, e eventualmente Ofsteven foi parada e capturada. Seu futuro é até hoje incerto, mas, como June disse: por um momento ela pareceu invencível.

Moira, melhor amiga de June desde os tempos da faculdade, é uma força por si só que nunca compactuou com a ideia de ter seus direitos reduzidos a nada e se tornar aia, e, de fato, nunca chegou a sê-la, por seus incontáveis atos de resistência e tentativas de fuga. Com a ajuda de June, ambas fugiram até uma estação de trem, onde Moira conseguiu embarcar, mas June, infelizmente, não conseguiu fazer o mesmo. O caminho das duas foi separado com a promessa de que um dia elas encontrariam Hannah e sairiam de Gilead. A relação de June e Moira sofreu reviravoltas quando surgiu um boato de que Moira havia sido morta nas Colônias – um lugar decadente para onde todas as mulheres descartadas eram enviadas –, só para depois June reencontrá-la no Jezebel’s, um bordel secreto que os homens de alto escalão frequentavam para “sair da rotina” (mesmo numa nação regida por preceitos religiosos, tudo pode o sexo masculino – os tempos mudaram, mas nem tanto assim), e com a perspectiva inteiramente alterada pelas tentativas frustradas de fuga. É necessário uma conversa em privado regada a lágrimas e repreensões para que June a lembre da promessa que fizera e volte a ser a Moira de antes. O que ela faz. Com sucesso. “Praised be, bitch”.

Emily e Moira são duas personagens cuja existência, atuação e consequências são significativas para a mensagem que a série transmite, pois, como mulheres lésbicas a “penitência” é psicologicamente perpétua. Os episódios de resistência de ambas são altamente arriscados, tanto que a fuga de Moira termina com ela se tornando prostituta, e o relacionamento de Emily é punido com a remoção de seu clitóris, seguido por outra possível punição desconhecida após seu comportamento na cidade. É verdade que, na hipótese de ambas vencerem a batalha, a vitória terá um gosto excepcionalmente doce, mas enquanto isso não acontece, cada derrota tem também um gosto excepcionalmente amargo, e por isso a causa para ambas deve ser atentamente observada e apoiada.

Em contrapartida, também devemos observar o papel das mulheres da série que compactuam com o funcionamento dessa sociedade por desfrutarem de algum tipo de privilégio ou proteção, e por isso se colocam contra seu próprio gênero e ajudam a disseminar uma doutrina que as prejudicam. Serena Joy, esposa do Comandante Fred Waterford e senhora de Offred, é um claro exemplo desse grupo de mulheres. Embora fosse religiosa antes da guerra, Serena Joy tinha autonomia e força de caráter que contradiziam a posição que ela parecia não se importar em ocupar no novo sistema. Acadêmica, autora de um livro fictício chamado O Lugar de Uma Mulher que argumentava a favor do feminismo doméstico (?!), Serena Joy teve uma ativa participação no domínio de Os Filhos de Jacob sobre Gilead, apesar de os créditos irem diretamente a Waterford. O ponto é que a verdadeira motivação de Serena está no seu profundo desejo de ser mãe, contra o castigo de ser estéril. É por isso que ela engole seu orgulho ao assumir um papel de coadjuvante que não condiz com o seu potencial: egoísmo. Seu amor por crianças e o sonho de ter e criar uma é o que a faz apoiar a ideia de escravizar milhares de mulheres e reduzi-las a nada. Sua ojeriza à Offed rapidamente se transforma numa – falsa – doçura a cada possibilidade de Offred estar grávida. Serena quebra as regras da própria nação que ajudou a construir desde que seus interesses estejam a salvo. Infelizmente, essa posição é comum entre muitas mulheres que não refletem sobre a essência do que é ser feminista e não percebem que estão esfaqueando as próprias costas ao apoiar a sociedade patriarcal e os valores tradicionais. Se Serena Joy receberá algum tipo de castigo ou pedirá sua redenção ainda não sabemos, mas enquanto The Handmaid’s Tale se desenvolve ela ainda terá sua representação na série.

Tia Lydia, em destaque às outras Tias que controlam as aias dentro e fora do Centro Vermelho, é uma personagem que apresenta um perfil dúbio em relação a concordar com as normas do sistema ou só agir de acordo para proteger as mulheres que foram capturadas e privadas de opção. Ao mesmo tempo que ela não hesita em levantar a arma de choque no pescoço de qualquer aia que sai do perfil desejado, ela também sente o sofrimento delas – ou, pelo menos, o de Janine.

O tom apático na voz de June ao contar sua história combina com a tensão inerente à atmosfera da série. O retrocesso dos direitos das mulheres tem um impacto negativo muito forte não só no funcionamento da sociedade (embora a distopia seja situada no futuro, a sensação é de estarmos assistindo a um drama de época), como também no psicológico dessas mulheres, que, muitas vezes, sofrem com depressão e ansiedade tendo em vista tudo que perderam e tudo que precisam esconder ou reprimir. June e Janine representam a maioria de nós, especialmente, como protagonistas. The Handmaid’s Tale acaba tendo a função de nos servir de aviso, muito mais do que apenas entreter, do que pode acontecer se perdermos nossos direitos. Mas acaba também servindo de aviso para todos que não importa o quão destruídas estivermos, nós não vamos deixar de lutar. Por nós, e por todas as mulheres que ainda tem a sua chance.

“Eles não deveriam ter nos dado uniformes, se não queriam que nos tornássemos um exército.”

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