LITERATURA

Caitlin Doughty e as Confissões do Crematório: vamos todos morrer mesmo

“Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler.” Essa era uma das frases promocionais que instigava os leitores a ler A Menina que Roubava Livros, um dos grandes bestsellers do início dos anos 2000. O livro, de ficção, se passa na Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial e é narrado pela Morte, ela mesma, com sua capa, sua foice, e seu carinho inesperado pelas cores e pelos humanos. É uma Morte que sente, que lamenta, que acredita ser agradável apesar de sua má fama, e que promete que vai nos tratar com cuidado quando a hora chegar.

Mas, por melhor que seja o trabalho do autor Markus Zusak na construção da personagem, essa Morte não existe. Ela é mais uma das tantas histórias que a gente conta pra tentar ignorar o nosso fim inevitável ou, pelo menos, romantizá-lo. A negação da morte é um problema estrutural do nosso mundo moderno, e é em cima dessa tese que Caitlin Doughty – agente funerária, ex-funcionária de um crematório, blogueira, youtuber (!) e fundadora da Ordem da Boa Morte – escreve Confissões do Crematório, com histórias dos anos que trabalhou em um crematório, queimando, preparando e transportando cadáveres por aí. No livro, ela descreve a rotina dessa indústria bilionária que funciona de forma quase escondida na nossa sociedade, ainda que uma das poucas certezas que temos na vida é a da morte que nos aguarda e nunca falha. Quando uma profissional da morte conta uma história, aí sim nós temos que parar para ler.

O interesse da jovem havaiana pelo tema surgiu, como muitas vezes acontece, de um medo paralisante: quando, aos 8 anos, ela viu uma criança cair do segundo andar do shopping, Caitlin descobriu que as pessoas morriam – inclusive ela morreria um dia. Ao contrário de seu peixe beta – que morreu enquanto ela estava na escola, dando tempo suficiente para seu pai comprar outro igual e fingir que nada tinha acontecido – pessoas não são substituíveis e não há nada que possamos fazer com relação à morte. Essa verdade aterradora lhe rendeu problemas com ansiedade e um transtorno obsessivo compulsivo que lhe atormentou na forma de pensamentos intrusivos que lhe diziam que qualquer coisa que ela fizesse que desviasse de um padrão acabaria na morte de alguém próximo. Ela conta que precisou desenvolver uma forte camada de negação em sua cabeça para conseguir sobreviver, mas como Doughty também escreve logo no prólogo do livro, “a ignorância nada mais é que uma forma mais profunda de pavor.”

Na infância e na adolescência, a morte ocupava a cabeça de Caitlin, num movimento que oscilava entre o medo e uma enorme curiosidade sobre tudo relacionado ao tema. Foi para tentar se curar de seu trauma de infância que, na faculdade, ela resolveu estudar História Medieval, o que lhe rendeu uma tese cujo título foi “A supressão dos nascimentos demoníacos na teoria da bruxaria do fim da era medieval”. Por conta dessa formação, o livro é todo pincelado de dados e curiosidades históricas sobre concepções e rituais de morte ao longo do tempo, em diversas culturas e religiões. Caitlin é realmente uma entusiasta e pesquisadora, além de divertida e ótima contadora de histórias, de modo que anedotas do cotidiano do crematório se misturam tranquilamente a informações técnicas e referências acadêmicas – detalhadas no final do livro em uma gorda e interessante bibliografia. Ler seu livro é como conversar com uma amiga realmente empolgada sobre seu assunto favorito, o que não deixa de ser exatamente o caso de Caitlin.

Aos sair da faculdade aos 23 anos, Caitlin conseguiu um emprego como operadora de crematório. Durante o tempo que passou na Westwind Cremation & Burial, Caitlin barbeou, maquiou e penteou cadáveres. Ela colou suas bocas com supercola para que elas permanecessem fechadas durante os velórios e realizou impensáveis experimentos de alquimia misturando bases e conservantes para disfarçar o tom alaranjado do apodrecimento na pele dos mortos. Caitlin moeu ossos, raspou restos de seres humanos de chapas, drenou o sangue dos seus corpos – para ser substituído por uma solução cor-de-rosa de formol e outros produtos químicos – e andou por aí com caixas cheias de cabeças decepadas e bebês mortos. Embora pareçam procedimentos sórdidos e chocantes, sobre os quais não se conversa com naturalidade na mesa do jantar e que provavelmente está te deixando ligeiramente desconfortável ao ler sobre eles agora, eles compõem o nosso ritual ocidental, pagão e industrial de morte, e provavelmente farão parte da trajetória de qualquer pessoa que planeja morrer um dia. A gente realmente não fala o suficiente sobre isso.

Caitlin e o famigerado forno crematório

Em Confissões do Crematório aprendemos que é recente essa coisa da morte não fazer parte da vida das pessoas. Por causa das epidemias – influenza, difteria e varíola na época da colonização dos Estados Unidos; a peste bubônica e a gripe espanhola na Europa – e guerras, pessoas morriam massivamente, e não era incomum encontrar cadáveres apodrecendo nas ruas das cidades. Cabia às famílias o trabalho de lavar seus mortos e velá-los em casa, e a morte solitária nos hospitais era um destino triste reservado aos indigentes – uma realidade que só começou a mudar entre o fim do século XIX e início do século XX, numa espécie de revolução que trouxe aquilo que a autora chama de “medicalização da morte”, um processo que dissocia os mortos da religião e do seio familiar e torna-os competência dos médicos, no ambiente asséptico dos hospitais.

O hospital era um lugar onde os moribundos poderiam passar pelas indignidades da morte sem ofender a sensibilidade dos vivos. (…) O mundo industrializado estabeleceu sistemas para impedir esses encontros desagradáveis com os mortos. Nesse exato momento, cadáveres seguem por estradas e rodovias em vãs brancas comuns como a dirigida por Chris. Corpos atravessam o planeta nos compartimentos de carga dos aviões enquanto passageiros de férias viajam em cima. Nós colocamos mortos embaixo. Não só debaixo da terra, mas também debaixo de tampos falsos em macas falsas de hospital, dentro das barrigas das aeronaves e nas profundezas de nossa mente consciente.

Essa transição está diretamente relacionada ao modo como nossa sociedade se organiza atualmente: por conta da globalização, é muito raro que uma pessoa permaneça a vida toda ligada a um mesmo lugar, numa só comunidade e temos construído nossas vidas longe de nossos pais, nossas famílias e, consequentemente, dos preceitos religiosos que acompanhavam gerações antigamente. As grandes religiões organizadas têm perdido espaço na vida das pessoas, principalmente entre os mais jovens, e a ampliação do acesso à informação permite que numa mesma família existam pessoas com diferentes visões religiosas, às vezes com religião nenhuma, dissolvendo a importância dos rituais de morte tradicionais. Médicos e hospitais aumentam a participação em nossas vidas e, à medida que a medicina avança, não só nossa percepção da morte se torna enevoada, como também passamos a nos esquivar dela além da conta, graças a tratamentos e aparelhos que mantêm vivas pessoas que, de acordo com a ordem natural das coisas, já teriam morrido há muito. A essência delas não está mais lá, os médicos garantem que eles não sentem nada, inconscientes em leitos de UTI, isolados de seus familiares que permanecem “protegidos” de todo o inconveniente que envolve a morte, alheios numa sala de espera.

A imagem do nosso trauma é a descrita pelo historiador Phillipe Ariès em seu livro O homem diante da morte: “A morte no hospital, eriçado de tubos, está prestes a se tornar hoje uma imagem popular mais terrífica que o trespassado ou o esqueleto das retóricas macabras”. Pensávamos que podíamos escapar disso e cuidar da morte como parte da vida, mas a lógica do sistema nos esmagou. Lembro de uma mulher que entrevistei para uma das minhas reportagens sobre o morrer. Ao perceber o que fariam com seu marido, além da possibilidade de cura, ela e um filho fugiram com ele do hospital numa cena cinematográfica. Ela conseguiu encontrar um lugar em que ele pôde morrer em paz, mas ter de fugir para fazer isso revela o tamanho da distorção. Naturalizamos essa lógica perversa em que se morre não como gente, mas como objeto. A assepsia do processo, os jalecos brancos, a linguagem que torna a maioria analfabetos, a informação que não é compartilhada, o poder da medicina sobre os corpos em nossa época histórica encobrem a perversão de um sistema em que bem no fim nossos direitos são suspensos. Se já não há história, não há sujeito. Se não há sujeito, não há direitos.

Eliane Brum – Morrendo como objeto

O objetivo maior de Caitlin Doughty ao entrar na Westwind era conseguir experiência suficiente para um dia abrir sua própria casa funerária, ou melhor, um novo projeto de funerária chamada La Belle Mort, em que a morte não seria chorada, mas sim celebrada como um espetáculo extravagante, em que os restos mortais de entes queridos poderiam ser transformados em diamantes, tintas de tatuagem ou enviados para o espaço em uma grande festa. Caitlin tinha uma  motivação sincera em transformar a morte em algo limpo, bonito e menos assustador para as pessoas, mas depois de poucos meses trabalhando no crematório ela percebeu a ingenuidade de seus planos porque aprendeu que a morte não é bonita, muito menos limpa. A solução também não parecia estar na forma higienista e plastificada de tratar do assunto escolhida pela indústria funerária moderna, que cobra milhares de dólares para afastar as pessoas o máximo possível da realidade da morte, transformando seus familiares mortos em bonecos conservados, maquiados, vestidos a rigor colocados em um caixão caro e sofisticado, a ser posto na terra em proteções de concreto retardando em alguns muitos anos o processo – que deveria ser natural e direto – da decomposição – um problema filosófico e também ambiental.

A única forma de tornar a morte menos assustadora seria encará-la como ela é, de forma honesta. Se somos uma das poucas espécies que possuem consciência da própria mortalidade, a proposta de Caitlin é que lidemos com esse peso através de uma cultura que transforma a morte em algo bonito porque é aceito, não escondido ou disfarçado.

Nós não conseguimos fazer o descarte dela ser limpo, apesar de todas as ferramentas da indústria moderna da morte, das centenas de milhares de dólares de maquinário industrial. Eu não sabia se devíamos estar nos esforçando tanto pela morte perfeita. Afinal, “sucesso” significava utilizar um monte de plástico e fios para apresentar o cadáver idealizado. “Sucesso” significava cadáveres sendo retirados de famílias por profissionais cujo emprego não era ritual, mas pura ofuscação para esconder a verdade do que os corpos são e o que os corpos fazem. (…) A morte devia ser conhecida. Conhecida como um árduo processo mental, físico e emocional, respeitada e temida pelo que é.

Smoke Gets In Your Eyes é o título original do livro, uma referência à famosa canção romântica de mesmo nome e também à fumaça literal que corpos queimados produzem, carregada de cinzas que embaçam a visão e grudam na pele, uma consequência de se trabalhar como operadora de um crematório. Caitlin conta que estava sempre suja, suja de restos humanos grudados no seu corpo, e esse era o seu trabalho. Smoke Gets In Your Eyes também é o título do primeiro episódio de Mad Men, uma série que, de forma bem grosseira, pode ser resumida nas vidas e cotidianos dos publicitários da Madison Avenue nos anos 60. Todd VanDerWeff, do AV Club, escreve, de forma mais sofisticada, que a série navega essencialmente entre duas perguntas: Quem é Don Draper? O que queremos? Ou melhor: Por que queremos o que queremos?

Em poucos episódios aprendemos que a publicidade não nos vende um produto, mas sim uma ideia, um sonho – e a ilusão de que podemos conquistá-lo através de determinado produto. Essa ilusão é como fumaça sobre os nossos olhos. Ao longo da série vemos os personagens se confrontarem com essas mesmas questões – Quem eles são? O que eles querem? Por que eles querem o que eles querem? – e caírem nos contos modernos que dizem que dinheiro, prestígio ou casamento vai lhes trazer essas respostas, mas isso também é poeira em seus olhos para distraí-los de questões mais profundas e assustadoras, e não é à toa que todos ali flertam com o abismo. Em Confissões do Crematório, Caitlin Doughty usa das cinzas grudadas em sua pele para chamar atenção para a fumaça nos nossos olhos, a névoa de negação que nos afasta da consciência da mortalidade e como esse véu é frágil e falho assim como a ideia de que determinada marca de margarina transformará nossa casa num lar feliz; e como o capitalismo transformou essa nossa angústia essencial numa indústria bilionária, num jogo de ilusões que faria inveja no universo da publicidade.

Alguns anos depois de sair da Westwind Cremation & Burial, Caitlin Doughty fundou a Ordem da Boa Morte, uma comunidade que reúne profissionais da indústria funerária, pesquisadores, artistas e pessoas que acreditam, assim como ela, que é possível construir uma sociedade mais informada e consciente das realidades da morte. O grupo foi inspirado por alguns conceitos históricos da chamada boa morte, e o título foi inspirado na Irmandade da Boa Morte — confraria religiosa afro-brasileira (!) composta por mulheres negras durante o século XIX, no Recôncavo baiano. No site, é possível encontrar desde dados sobre a morte em diferentes culturas, informações burocráticas sobre a morte, até artigos sobre os benefícios de enterros ecologicamente sustentáveis – e por que deveríamos optar por um. Faz parte também do esforço de conscientização de Caitlin o seu canal no youtube, Ask a Mortician, onde ela responde dúvidas variadas sobre tudo relacionado à morte de forma descontraída e muito sincera e também promove discussões e reflexões.

O livro, publicado no Brasil pela editora DarkSide, é também um produto desse trabalho e cumpre com louvor sua missão. Ele foi para mim uma leitura realmente transformadora, que me deixou sem dormir, mas que também me fez pensar, me fez crescer e, acredito, me tornou uma pessoa mais em paz com minha própria mortalidade e também com a dos outros. Terminei de ler com vontade de escrever um e-mail para a autora (algo que ainda pretendo fazer!) agradecendo pelo seu trabalho, porque senti tanta honestidade em sua missão – Confissões do Crematório pode ser considerado uma belíssima carta de princípios – que senti necessidade de dizer que, pelo menos comigo, ela conseguiu o que tanto queria.

Confissões do Crematório chama a atenção naturalmente pelo tema e vai atrair com facilidade tanto aqueles interessados na morte pela perspectiva histórica e cultural – meu caso – como quem está atrás dos detalhes mórbidos e sórdidos que envolvem o morrer. O livro atende ambos interesses de forma bem completa, mas sua maior força está na sensibilidade e no respeito que Caitlin Doughty possui com o tema e com o seu trabalho. Apesar de não recorrer a eufemismos ou sentimentalismos baratos, a morte e os mortos nunca são tratados de forma leviana, muito menos sensacionalista ou debochada. Ela não ignora o humor inevitável de certas situações – você sabia que cadáveres soltam pum? –, não suaviza (e nem escandaliza) o impacto de certas revelações – o capítulo sobre bebês mortos é particularmente perturbador – e em seu canal não há perguntas proibidas e nem julgamentos pelas dúvidas mundanas ou excêntricas demais de sua audiência. O maior pecado ainda é não questionar.

E porque esse é um site feminista e o ofício em um crematório não parece a ocupação mais feminina do mundo, torna-se inevitável questionar como é ser uma mulher nesse meio, mais ainda uma mulher como Caitlin, com sua franja retrô ao estilo Bettie Page e os vestidos coloridos que ela frequentemente se diz usuária no livro. Apesar de ficar claro que ela era a única mulher no crematório em que trabalhava, e de observar que a faculdade funerária era um ambiente dominado por mulheres, em sua maioria negras e latinas, Caitlin em momento algum se dirige à questão de Como É Ser Uma Mulher na Indústria Funerária. Não me parece um descuido, muito menos ignorância sobre o tema, mas sim um vislumbre do que seria viver numa sociedade igualitária, em que esse tipo de coisa não é uma questão. Não somos todos futuros cadáveres? Caitlin Doughty não fala muito sobre ser mulher, mas é uma mulher que fala muito sobre um tema que entende muito e ideias que significam muito para as quais ela trabalha de forma incansável e acredita radicalmente – e acredito que poucas coisas sejam mais feministas que isso.

Caitlin surge como uma baita personagem inspiradora em sua própria história pela forma como acredita naquilo que faz, naquilo que defende e naquilo que escreve, e é uma baita injeção de ânimo ler sobre uma pessoa que descobriu sua vocação, sua missão no mundo, e mergulhou fundo naquilo, com dedicação, pesquisa e trabalho duro – por mais estranho que fosse aos olhos dos outros e também por mais pesado que aquilo fosse, e é, para ela. Essa consciência aparentemente iluminada não afastou Caitlin de seu próprio abismo e ela não omite a passagem em que tentou suicídio por se sentir traída pela própria cultura, sem saber como proceder dali em diante, depois que o véu fora rasgado. “Apesar do meu medo de viver, escolhi não morrer.” Aprendi com ela não só como quero morrer, mas um pouco de como espero viver.

O exemplar foi cedido para resenha pela editora. 

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3 Comentários

  • Responda
    RAQUEL MORITZ
    10 de fevereiro de 2017 at 09:56

    meu deus, que post maravilhoso!!!! parabéns! <3333
    gente que lê com carinho
    eu amei esse livro, foi verdadeiramente transformador!

  • Responda
    Bruna
    13 de fevereiro de 2017 at 10:12

    Caraca. Parabéns pelo texto!
    Já to adicionando o livro na minha lista de desejos 😀

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    Ana Julia Silveira
    15 de fevereiro de 2017 at 20:56

    definitivamente preciso ler e quebrar mais alguns medos ou pelo menos olhar diretamente pra eles

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