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A ambiguidade de Alias Grace

Alias Grace, a mais nova minissérie da Netflix, é uma produção em seis episódios baseada no livro homônimo escrito por Margaret Atwood, dirigida por Mary Harron e escrita em parceria por Sarah Polley e a própria Atwood. Publicado originalmente em 1996, Vulgo Grace – título que o trabalho recebeu no Brasil – conta a história de Grace Marks, uma imigrante irlandesa que se muda com a família para o Canadá em busca de melhores condições de vida no ano de 1840. O que Grace não imaginava, no entanto, é que sua vida fosse mudar de maneira radical e que um duplo assassinato estivesse em seu destino.

Atenção: este texto contém spoilers!

Embora lançada na esteira do sucesso conquistado por The Handmaid’s Tale, série adaptada de outro livro de Margaret Atwood – O Conto da Aia –, Alias Grace se sustenta sozinha como uma trama de mistério no período vitoriano, além de ter seus próprios dilemas e personagens verossímeis e complexos. Enquanto The Handmaid’s Tale trata de um futuro (não tão) distópico para falar sobre temas como a perda de direitos das mulheres, heterossexualidade compulsória e sociedade patriarcal, Alias Grace se vale de um período muito específico da História e de uma personagem real para explorar a narrativa de sua protagonista ao colocar em debate a ausência dos direitos das mulheres, a vulnerabilidade a que eram submetidas por conta de seu gênero, a falta de compreensão e tratamento de problemas mentais, além dos costumes da moral vitoriana em uma sociedade patriarcal e desigual. 

Grace Marks – interpretada de maneira brilhante por Sarah Gadon – é uma jovem protestante que em 1840 migra com sua família de Ulster, na Irlanda, para Toronto, no Canadá. A vida já não era fácil na Irlanda, com os protestantes sendo perseguidos por sua religião, e não melhora muito na América. A mãe de Grace falece durante o translado de navio até o Canadá e recai sobre a moça a responsabilidade de cuidar de seus quatro irmãos mais novos e prover para o pai abusador e alcoólatra. É seu pai que decide que Grace deve sair de casa em busca de um emprego para sustentá-lo e, embora a jovem pense em retornar para seus irmãos um dia, uma série de acontecimentos a deixa mais distante do que nunca da família.

Mas antes que Grace pudesse contar sua própria versão da história, ela passa 15 anos presa pelo assassinato de Nancy Montgomery (Anna Paquin) e Thomas Kinnear (Paul Gross) além de ficar um período confinada em um hospício. Por meio de uma associação que crê na inocência de Grace, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) é chamado e o médico entra em cena como ferramenta para ajudar a estabelecer o caráter e a inocência da moça, auxiliando na escrita de uma petição endereçada ao governador em prol do perdão para Grace. Dr. Jordan, um psiquiatra, começa a se encontrar com Grace com o intuito de ouvir o lado dela da história, desde o momento em que chegou ao Canadá até ter sido julgada e condenada pelo assassinato de Nancy e do Sr. Kinnear. Trabalhando com cenas do passado e presente, Alias Grace inicia uma montagem que nos fará questionar até que ponto Grace está sendo verdadeira em suas confissões e até onde a moça pode ir para conquistar o que deseja. Os seis episódios da minissérie se passam entre as consultas de Dr. Jordan, enquanto Grace conta a ele suas memórias; flashbacks, e onde fala a respeito de suas impressões e sentimentos. Assim, ela começa a tomar conta de sua própria narrativa.

A vida de Grace nunca foi das melhores: filha mais velha de uma família pobre e imigrante, ela não tinha muitos desejos ou ambições na vida até começar a trabalhar na casa da família Parkinson, onde conhece Mary Withney (Rebecca Liddiar), outra das empregadas, de quem fica amiga. Grace sempre passou por abusos e violências, mas parece que, ao lado de Mary, as coisas podem mudar. Mary é mais experiente e idealista do que Grace, tem sonhos de liberdade para o Canadá – na época, uma colônia britânica – e ensina o que sabe para a jovem irlandesa, principalmente sobre como se proteger em um universo de homens. Em um mundo que só a maltratou, Grace quase não acredita na sorte que é poder contar com uma amiga maravilhosa como Mary. O relacionamento desenvolvido entre as duas, por mais breve que seja, é uma dos momentos mais doces de Alias Grace: ver duas mulheres confraternizando na inocência de seus sentimentos, compartilhando experiências e ajudando uma a outra, é uma das coisas mais belas de se ver, principalmente quando, por tanto tempo, fomos bombardeadas com rivalidade feminina nas mais diversas produções da cultura pop.

Na casa da família Parkinson, Grace se sente quase em paz na rotina de limpar, lavar, polir e costurar, e tudo por conta da presença de Mary. Mas o que parecia ser um longo período de tranquilidade na vida de Grace, se transforma quando George (Will Bowes), filho mais velho da Sra. Parkinson (Martha Burns) volta para casa para passar as férias da faculdade e começa a dispensar muita atenção à Mary. O inevitável acontece e, acreditando nas promessas de George, Mary engravida e tudo o que sonhava para si cai por terra quando ele não reconhece o bebê que Mary espera como seu, e a renega. Uma mulher solteira e com um filho no século XIX – ou em qualquer século, ainda sabemos bem – se veria em apuros e, portanto, Mary decide que sua única opção para ainda ter algum tipo de vida é submeter-se ao aborto em uma clínica clandestina. Grace apoia sua única amiga, entregando-lhe suas economias, e Mary realiza o procedimento que acaba causando sua morte. Grace é pega de surpresa quando acorda na manhã seguinte apenas para ver sua melhor amiga no mundo inteiro morta e tem seu primeiro episódio de amnésia – ou assim ela supõe. Com a morte de Mary, George Parkinson tenta se aproximar de Grace e a moça precisa escapar dele e da depressão que a domina, o que a leva a aceitar de bom grado, e com alívio, o emprego que Nancy Montgomery oferece a ela na fazenda do Sr. Kinnear.

Durante esse ponto da narrativa, o Dr. Jordan já está completamente sob domínio de Grace e sua história. Nós, enquanto telespectadores, podemos ver como a jovem constrói seu próprio mito e decide quais palavras usar e como falar com o médico sobre sua vida; sua postura, suas feições sempre tão delicadas e inocentes, a maneira como ela o observa com cuidado e recato, são recortes de Grace construindo uma versão de si mesma capaz de agradar o psiquiatra. Assim, ela o vê mergulhar, pouco a pouco, em seu conto, até ficar obcecado. Essa, afinal, é a oportunidade que ela tem de contar a própria história, e, dessa maneira, é Grace quem decidirá como, e o quê, contar. Como uma narradora não confiável, é difícil dizer o que é fato e o que é invenção em sua trajetória, e todos os meandros de sua narrativa – o momento em que ela planeja o que contar, as impressões que ela tem do Dr. Jordan e como o psiquiatra reage à ela –, são uma trama à parte do caso de assassinato. Entre flashbacks e vislumbres do que aconteceu com Nancy e o Sr. Kinnear, somos tão cativos da história de Grace quanto o Dr. Jordan.

Voltando às suas lembranças, ao chegar na fazenda do Sr. Kinnear, Grace logo sente que fez uma jogada errada em sua trajetória. Embora estivesse sendo assediada por George na casa da Sra. Parkinson, nada prepararia a moça para o ambiente bizarro que encontraria na fazenda – Nancy, a governanta, vivia como a dona da casa e, enquanto amante do Sr. Kinnear, mandava e desmandava em Grace e no outro funcionário do lugar, James McDermott (Kerr Logan). Mesmo que, em um primeiro momento, Nancy tenha aparecido como uma raio de esperança na vida de Grace, que se encantou com as maneiras e jovialidade da moça, as impressões se mostraram equivocadas quando a governanta começa a tratá-la de maneira rude para, no momento seguinte, agir como se nada tivesse acontecido. Não demora muito, também, para que o Sr. Kinnear note a presença de Grace que, para o desespero de Nancy, é muito mais jovem do que ela. A governanta passa a temer ser substituída pela empregada mais jovem e se ressente de Grace, complicando ainda mais a vida da moça na fazenda. Isolada de tudo e todos, as únicas outras pessoas com quem Grace pode falar é McDermott, também acusado do assassinato dos patrões e que detesta o fato de ter que submeter-se à Nancy, uma mulher; e Jamie Walsh (Stephen Joffe), o jovem filho de um fazendeiro vizinho que trabalha para o Sr. Kinnear.

A ambiguidade de Grace é construída durante todos os seis episódios da minissérie e até o momento final é impossível atestar a culpa ou inocência da protagonista. Alias Grace, inclusive, fala muito mais sobre o lugar da mulher na sociedade vitoriana e como a mesma a trata do que sobre a investigação a respeito da culpa ou da inocência de Grace Marks. A jovem irlandesa poderia ser tão inocente quanto culpada, mas os homens responsáveis por colocá-la no hospício e na prisão fariam o que bem entendessem independente das evidências existentes. A minissérie aborda as diferenças de tratamento entre as classes, entre os gêneros, a fragilidade de ser mulher em uma época como o século XIX e como a sociedade patriarcal sempre se impôs diante dos desejos e necessidades das mulheres. Grace Marks foi, durante toda a vida, um joguete nas mãos de quem tinha mais poder do que ela, mas durante as consultas com o Dr. Jordan ela finalmente vê a oportunidade de ser sua própria pessoa pela primeira vez.

A construção de Grace é um dos aspectos mais interessantes de se acompanhar na minissérie e, mesmo assim, nunca conseguimos saber quem, de fato, ela é. Grace é uma personagem complexa como poucas conseguem ser, e se a minissérie acerta ao transpor suas nuances para a tela, o mérito também é de Margaret Atwood que preencheu os espaços em branco deixados pela história da real Grace Marks: Vulgo Grace é um livro da categoria ficção histórica e Atwood se utilizou de fatos reais para escrevê-lo, apenas preenchendo as lacunas com sua narrativa. A Grace da minissérie faz pequenas mudanças de humor apenas por meio da maneira de olhar, mantendo a expressão firme até que é possível ver reverberações em um franzir de sobrancelhas enquanto as mãos, sempre ocupadas, nunca param de costurar. Alias Grace é muito real ao mostrar sua protagonista sempre trabalhando, algo comum para empregadas domésticas como Grace: do nascer ao pôr-do-sol, elas nunca param.

Grace Marks é ambígua e há muitas interpretações metafóricas possíveis para a personagem, transformando em difícil a tarefa de categorizar seu comportamento. A perspectiva que Grace tem dos eventos relacionados ao assassinato de Nancy e do Sr. Kinnear se misturam com os eventos reais, nos fazendo questionar, junto do Dr. Jordan, em que ponto eles se mesclam e se há, de fato, uma divisão entre a verdade de Grace e a verdade como um todo. As lacunas de sua narrativa, a possível doença mental e o entendimento que Grace tem dos fatos nos faz ficar na corda bamba entre acreditar, ou não, na protagonista. É quase como se, ao acompanharmos Alias Grace, fôssemos constantemente colocados na berlinda, tentando analisar quais partes de Grace são reais e quais são encenação. E é aí que reside a beleza da minissérie, que não termina quando você assiste ao último episódio – o questionamento levantado durante os seis episódios, as incertezas e as pequenas nuances da personalidade de Grace nos deixa a pensar, por muito tempo, no que é real e no que é imaginário na produção que acabamos de assistir.

As expressões de Grace são difíceis de ler, suas respostas aos questionamentos do Dr. Jordan parecem inocentes e intransigentes ao mesmo tempo; ela é inescrutável e só diz aquilo que quer dizer. Como narradora não confiável, com uma história salpicada de omissões e lapsos de memória, confiar – ou não – em Grace, depende simplesmente do quanto Sarah Gadon lhe diz para confiar. Durante todo o tempo em que Grace e Dr. Jordan se encontram, ela se dirige a ele com olhares inocentes que torna difícil a tarefa do médico de acreditar que tal moça poderia cometer o crime bárbaro de assassinar seu patrão e a governanta. Assassina. Grace repete essa palavra por diversas vezes durante a minissérie, quase parecendo gostar da celebridade que se tornou por conta dela. Os olhares no espelho, estudando seu reflexo e a maneira como deve mostrar seu rosto, contribuem para construir sua personalidade enquanto ela narra, apenas para nós, que é melhor ser uma assassina do que um assassino – a primeira palavra desperta curiosidade nas pessoas, enquanto a segunda sugere o balançar de um machado e sangue derramado no chão.

Ao final do último episódio, Grace olha diretamente para o telespectador mais uma vez, inabalável como sempre. Ainda é impossível julgá-la, ainda é impossível dizer se ela foi simplesmente incompreendida ou a assassina real de duas pessoas em um crime brutal. Durante toda a sua vida, Grace nunca foi tratada como uma pessoa completa – e, se foi, apenas em alguns momentos e por apenas algumas pessoas – sua mãe e Mary Whitney. Dr. Jordan a via como um experimento, um enigma a decifrar; os membros da sociedade que pediam pelo perdão do governador a enxergavam quase como uma atração de circo, contratando-a como empregada apenas para exibi-la aos convidados. Grace Marks, enquanto isso, tinha apenas a sua história para contar a fim de encontrar algum protagonismo, tarefa que ela abraçou com vontade. A impenetrabilidade e o autocontrole de Grace surgem como uma armadura de proteção, algo ao qual ela recorre para mascarar seu sofrimento e sua necessidade de se resguardar. Uma vida de violências e abusos a faz voltar-se para si mesma como uma tática de sobrevivência. Alias Grace não trabalha com uma trama que trará todas as explicações e, ao final dessa jornada, restarão ainda mais questionamentos do que no começo. Se Grace Marks é inocente ou culpada, não nos cabe dizer.

“When there are crimes of violence,” Atwood suggests, “involving both a man and a woman, it usually goes as follows: nobody ever says the man is a nice guy, but opinion often splits about the woman. Either she’s the villainous instigator of it all, or else she’s a terrified victim and she only did it because she was frightened for her life. That’s the pattern with Grace. And there’s evidence supporting both sides.”

“Quando há crimes de violência”, sugere Atwood, “envolvendo um homem e uma mulher, geralmente é o seguinte: ninguém nunca diz que o homem é um cara legal, mas a opinião geralmente se divide sobre a mulher. Ou ela é a vilã instigadora de tudo, ou então ela é uma vítima aterrorizada e só fez isso porque estava com medo por sua vida. Esse é o padrão com Grace. E há provas de apoio a ambos os lados”.

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6 Comentários

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    Carol
    10 de novembro de 2017 at 07:46

    Assisti ontem à minissérie toda e até o momento estou entre intrigada e encantada… Não teve como não associar à Suzane von Richtoffen, guardadas as devidas peculiaridades de cada uma… Não é verdade que, ainda que tenha sido condenada, ela ainda apareça na mídia, que vem sempre a comentar sobre seus casos amorosos? E a ambigüidade de sentimentos que temos ao ver seu olhar doce e inocente, contrastando com o relato do horror dos assassinatos dos seus pais? Nunca ouvi nada a respeito de abusos que tenha sofrido, mas sempre me perguntei se permitiriam que tal acontecimento viesse à tona e se, ainda que viesse, seria aceito pela sociedade ou se ela teria mais um fardo a carregar, blasfemando contra seus pais… Enfim… Ainda me intriga a história da Suzane, e fiquei fantasiando se ela tem eventualmente os mesmos pensamentos de Grace… Como assassina famosa… Bonita… Com olhar inocente e que cativa praticamente a todos que estão ao seu redor. O que acha dessa associação? Grata pela indicação! Foi através de vocês que assisti à minissérie! Até mais!

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      Thay
      19 de novembro de 2017 at 18:07

      É uma associação interessante, embora eu nunca tenha visto a Suzane dessa forma. Mas é fato, volta e meia ela retorna à mídia e talvez tenha um pouco dessa mística, algo que Grace diz sobre ser uma assassina. Enfim, fico contente que tenha gostado da crítica a ponto de buscar assistir à série! ‘Alias Grace’ é um trabalho impecável, né? (:

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    Fabiane Secches
    18 de novembro de 2017 at 21:38

    Ótima resenha!

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      Thay
      19 de novembro de 2017 at 18:04

      Obrigada, Fabi!

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    Diego
    18 de novembro de 2017 at 21:57

    Só queria saber se aquela parte da hipnose era encenação dos dois, alguém?

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      Thay
      19 de novembro de 2017 at 18:03

      Pessoalmente não vi como encenação, mas como a manifestação de uma possível segunda personalidade da Grace – embora fique tudo no plano da suposição.

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