Categorias: HISTÓRIA, LITERATURA

Novo normal pra quem?: ancestralidade, sociedade de consumo e reflexões sobre a pandemia

A pandemia da Covid-19 trouxe uma série de necessidades para que a população mundial pudesse se manter o mais livre possível da contaminação pelo vírus transmissor da doença. Mudou hábitos, rotinas e desencadeou conceitos até então desconhecidos, sendo o novo normal o mais simbólico deles. Mas novo normal para quem? A quem se direciona o pensamento do mundo pós-pandemia (quando enfim esse momento chegar)? E, ainda mais importante, quem está por trás desse olhar que aponta para esse suposto futuro diferente? É preciso ponderar.

Em sua conta no Twitter, a jornalista Bela Reis contestou o lançamento do livro O Mundo Pós-pandemia – Reflexões Sobre Uma Nova Vida, da editora Nova Fronteira, sobre a observação de 50 “nomes de peso” com relação a mudanças de consumo “da arte e do humor ao poder judiciário e economia”. Bela questiona o fato de todos esses autores serem pessoas brancas, deixando de fora inúmeras perspectivas que façam jus aqueles que são, de fato, os mais afetados pela pandemia: pessoas em situação de vulnerabilidade social, marginalizadas, periféricas, quilombolas e indígenas.

Ainda sobre livros, em 2019 Ailton Krenak lançou Ideias para Adiar o Fim do Mundo (Companhia das Letras) levantando uma série de provocações que conversam quase que olho no olho com este ano que viria logo a seguir: “O fim do mundo talvez seja uma breve interrupção de um estado de prazer extasiante que a gente não quer perder”. O líder indígena pertencente ao povo Krenak, da região do Vale do Rio Doce, usa de seu conhecimento e dos anos de luta em defesa dos povos originários para alertar sobre as consequências das desconexões da sociedade dita como civilizada.

Aílton, também ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, tem sido uma voz constante em entrevistas, debates e encontros (virtuais) que levam em consideração as desigualdades acentuadas pela pandemia, para então traçar objetivos que garantam uma volta a rotina digna às populações mais atingidas e cobrar ações do poder público para isso.

Também pela Companhia das Letras, teve seu texto “O Amanhã Não Está à Venda”  disponibilizado em e-book. O material é resultado de três entrevistas feitas em abril deste ano veiculadas no O Globo, Estado de Minas e Expresso, em que Aílton analisa o capitalismo, a pandemia e as respostas da natureza, destacando o momento crítico pelo qual a política brasileira passa.

“O Presidente da República disse outro dia que brasileiros mergulham no esgoto e não acontece nada. O que vemos nesse homem é o exercício da necropolítica, uma decisão de morte. É uma mentalidade doente que está dominando o mundo. E temos agora esse vírus, um organismo do planeta, respondendo a esse pensamento doente dos humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos por livre escolha, essa fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas ninguém pergunta qual seu preço.” 

Esse total desprezo pelos direitos e pelas vidas alheias é velho conhecido das populações indígenas do país. Para eles a luta não começou em 2018. Por isso, Ailton defende a importância de ouvir os saberes da ancestralidade e neles buscar resiliência e estratégias para encarar os problemas causados pela sociedade de consumo. A mesma sociedade que transforma pessoas em consumidores ao invés de transformá-las em cidadãos, como bem lembra ao citar uma fala de José Mujica, ex-presidente do Uruguai.

“Como os povos originários do Brasil lidaram com a colonização, que queria acabar com seu mundo? Quais estratégias esses povos utilizaram para cruzar esse período e chegar ao século XXI ainda esperneando, reivindicando e desafinando o coro dos contentes? Vi as diferentes manobras que os nossos antepassados fizeram e me alimentei delas, da criatividade e da poesia que inspirou a resistência desses povos?” 

Enquanto uns defendem a economia em detrimento da vida, como se a primeira fosse possível em detrimento da segunda, o filósofo e professor da UnB (Universidade de Brasília), Wanderson Flor do Nascimento, se junta aqueles que desconstroem essa dicotomia e compartilham do pensamento de Aílton Krenak: a normalidade sugerida para a vida pós-pandemia pode significar o retorno ao mesmo sistema esmagadoramente desigual que nos trouxe até aqui.

“Para as comunidades mais pobres, negras, indígenas, quilombolas, ou seja, para todo mundo que está fora dessa esferas do poder, a crise já existia. O que acontece é que quando a crise atinge quem está no núcleo do poder essa galera divide a conta com todo mundo.” (em entrevista ao portal Uol)

O mesmo Estado que autoriza e ratifica que algumas pessoas “valem menos” do que outras, incentiva, também, uma “relação predatória” entre pessoas e natureza, “num processo de reprodução de uma ideia que vem desse lado de cima das vidas que ‘valem mais’”. Para contrapor essa lógica de constante disputa, o filósofo, autor da tese Por uma vida descolonizada: Diálogos entre a Bioética e os Estudos sobre Colonialidade e do artigo Olojá: Entre encontros – Exu, o senhor do mercado também usa como referência uma cultura ancestral, neste caso a cultura iorubá.

Nela a reciprocidade é mais valorizada do que o acúmulo desenfreado. É um sistema econômico de mútua proteção, de pleno entendimento de que a construção deve valer para todos e não apenas para uma parcela muito pequena de indivíduos. Deixando a competição de lado e dando lugar a uma coletividade.

“Enquanto o mercado capitalista é uma relação sobre a natureza, de exploração, o mercado-Ojá é muito próximo do sistema de troca de várias sociedades indígenas, nas quais se quer estabelecer relações para complementar o que me falta e oferecendo aquilo ou parte daquilo que eu tenho”. (em entrevista ao portal Uol

Por mais utópico e distante que possa parecer aplicar essa alternativa tradicional no dia a dia de comunidades periféricas, por exemplo, o pensamento disruptivo já está posto a mesa. Em Parada São Jorge, cidade de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o coletivo Mulheres da Parada criou um mercadinho solidário, com a ideia de oferecer de graça algo além do que é dado na cesta básica. Com a pandemia, a população local, assim como tantas outras, se viu dependente de ajuda para ter o que comer.

É por conta da mobilização da sociedade civil, de coletivos periféricos, da doação de verba e de tempo, de esforço físico e mental que grande parcela da população brasileira está conseguindo atravessar a crise humanitária vivida pelo país, já que não se trata apenas de uma crise sanitária, mas também de uma crise política. E portanto, quem está no trabalho de base que deveria ser ouvido em relação a alternativas reais de mundo pós-pandemia. Do contrário, estaremos fadados a repetir o mesmo fracasso social que mantém 54 milhões de pessoas na pobreza.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *