Nascida e criada em pubs de Londres, a banda inglesa Florence and the Machine não precisou de um longo e duro caminho para sair do anonimato e ser catapultada para a programação de rádios famosas: o álbum de estreia, Lungs, entre o fim dos dias de cão e declarações de amor, fez o trabalho para tal. A banda leva em sua dianteira Florence Welch, responsável pela voz, composição e, recentemente, a coprodução do grupo, enquanto Isabella Summers está na máquina, sendo a musicista por trás dos pianos e ocasional co-compositora. A história da banda já foi contada: a inspiração vem de casa; a educação não é um privilégio; entre um drink e outro, um karaokê e outro, as amigas decidem unir forças e, juntas, criar uma banda que hoje, quase uma década depois do lançamento do primeiro álbum, permanece muito verdadeira em si mesma — e infinitamente mais madura.
O desabrochar da banda ao longo dos anos, no entanto, é interessante, e falo isso de um espaço particular — sempre enxerguei Florence and the Machine sob lentes cor-de-rosa, tendo muito disso a ver com a primeira vez que cruzei com a marcante “You’ve Got the Love”. Inegável, no entanto, que quando nós, o público alvo de determinada obra em forma de música (filme, livro ou seriado), acompanhamos o nascer, o desenvolver, e, por vezes, até o fim de uma carreira ou uma história, também aprendemos a cultivar um carinho além da conta por aquela banda, aquela pessoa, aquele personagem. O mesmo ocorre aqui. Era 2009 e Lungs era uma realidade recente. Toda a aura extremamente juvenil do álbum conversava muito comigo, uma adolescente com dramas adolescentes. Dois anos depois, um álbum mais coeso foi lançado — Ceremonials soa como uma grande obra de amor e tragédia, e suas músicas serviriam, mais tarde, como trilha sonora para um punhado de séries gringas da época.
How Big, How Blue, How Beautiful, o terceiro trabalho da carreira da banda, é, muito e de muitas maneiras, um álbum sobre um término. Há a bagunça, a dureza, a aspereza, a melancolia, a raiva, a tristeza — tudo dentro dos conformes, bem como os piores e melhores términos o são. Acompanhar tudo isso de longe, mas sentir como se fosse de perto, foi a sensação que eu, juntamente com a legião de fãs da banda, pude sentir ao longo dos anos. Como bem apontado nesse texto, “as letras e melodias te transportam para um plano etéreo onde ninfas habitam florestas, seres estranhos uivam no meio da noite e seu espírito é purificado por meio de paixões, causando um efeito, no mínimo, libertador”, e foi utilizando essa mesma receita que Florence, álbum após álbum, conquistou a sua fama. Sendo assim, quando o quarto álbum foi anunciado, a expectativa do seu público alvo, de seus fãs, era a de mais um álbum com o típico poder vocal de Welch, bem como mais uma de suas obras-fantasias. Foi surpreendente quando isso não aconteceu.
High As Hope, antes de mais nada, é o mais íntimo e sincero álbum da carreira de Florence and the Machine. Abraçando a onda de vulnerabilidade da qual muito tem se falado nos últimos tempos, Florence Welch confessa ao longo de dez faixas e pouco mais de quarenta minutos muito sobre a sua vida pessoal, sobre seus próprios demônios e dificuldades. E o faz de maneira muito literal e pouco metafórica. Em uma entrevista concedida ao The Times UK, Florence admite que o momento de realmente conversar sobre os assuntos difíceis está aqui; ser honesta consigo mesma é a única saída; esconder-se atrás de metáforas góticas já não é uma opção. A aceitação sobre os seus problemas — e não a ignorância — é o princípio basilar sob o qual o novo álbum se sustenta. Dentre os exercícios de aceitação, após anos Welch visualiza um presente e um futuro onde as bebedeiras e o uso de drogas já não faz mais parte. Perceber que pode e consegue se apresentar sem precisar estar bêbada — ou alta — foi uma revelação e tanto, bem como aceitar que emendar uma festa na outra já não chama tanto a atenção, diz a cantora ao The Guardian. Assim como em seu antecessor, How Big, How Blue, How Beautiful, é visível que a pirotecnia tão característica dos dois primeiros trabalhos ficou para trás, dando espaço para uma Florence Welch menos colorida mostrar, sem os retoques, brilhos e maquiagem, quem realmente é. Sem a teatralidade típica e a perfeição mensurada, Florence vem ao nosso encontro despida da ansiedade e da confusão para nos contar, como se em uma tarde preguiçosa, um pouco mais sobre si.
“June” é a primeira canção de High As Hope: uma canção poderosa, sem grandes reviravoltas, a palavra para aqueles que resistem e acreditam que a união faz a força, que poder contar com o outro é a melhor coisa que existe — por mais medo que isso dê. Amar é resistir. “Mundane moments become incredibly profound. The performing, the transcendence, then sitting watching TV — all can coexist, and the mundane makes the magical” [“Momentos mundanos se tornam incrivelmente profundos. Performar, transcender, e então sentar para assistir TV — tudo isso coexiste, e o mundano se torna mágico”], conta Welch, e presente está em “June” quando canta “and choir singing in the street/ and I will come to you/ to watch the television screen in your hotel room” [“E coro cantando na rua/ e eu vou até você/ para assistir televisão no seu quarto de hotel”]. “Hunger” é a segunda canção do álbum e também a segunda a se tornar single. Com uma batida mais animada, ainda que nada parecida àquelas presentes em Lungs ou Ceremonials, em “Hunger” Florence abre o palco para falar abertamente sobre sua difícil relação com a comida quando mais nova — “At 17, I started to starve myself” [“Aos dezessete anos, eu comecei a passar fome”] —, além da relação conturbada com as drogas — “I thought that love was in the drugs/ but the more I took, the more it took away” [“eu pensei que o amor estava nas drogas/ mas quanto mais eu usava, mais me era tirado”]. Falar abertamente sobre esses assuntos, no entanto, é novidade — não foi até pouco atrás que Welch conseguiu realmente conversar com a própria mãe sobre o seu distúrbio alimentar.
“South London Forever” serve como um pêndulo entre a antiga vida de jovem baladeira e a consciência de que, com seus mais de trinta anos, é hora de admitir que a vida adulta chegou, é isso mesmo, e não fica muito melhor. A soturna “Big God” é um lampejo do grande poder vocal de Florence, aquele típico vocal que brinca, a qual tanto nos afeiçoamos ao longo dos anos. A música é sobre um buraco no fundo da alma, aquele vazio esquisito que consome de dentro pra fora, e é, acima de tudo, sobre uma mensagem não respondida — pra quê mais vulnerável do que dizer: ora crush por que não me notas? A música que marca a metade do curto álbum, “Sky Full of Song”, foi a escolhida para abrir a divulgação do novo trabalho e também pudera: é Florence nua e crua. A sonoridade é calma, sem malabarismos, e de uma sinceridade gostosa de apreciar — “and I want you so badly, but you could be anyone” [“e eu te quero tanto, mas você poderia ser qualquer um”], o que, misturado ao confesso cansaço, soa pertinente depois de um álbum sobre um término conturbado.
“What the f***? You put me through all that, and now this? You could have just told me you loved me. You don’t have to be so English about it, then go and make a pop song out of it.“ [“Que porra é essa? Você me faz passar por tudo aquilo e agora faz isso? Você poderia simplesmente ter dito que me ama. Você não precisa ser tão inglesa e então fazer uma música pop disso”], foi a reação de Grace Welch, ao ouvir “Grace”, uma carta aberta sobre amor e perdão de quase cinco minutos, dedicada inteiramente à relação de Florence com a irmã mais nova. “Patricia” vem em seguida, uma ode à Patti Smith. Durante a gravação do novo disco, Florence revela que consumiu muito da obra da cantora punk que ajudou a moldar a cena do punk rock em Nova York, motivo pelo qual pareceu pertinente manter no álbum uma música que diz “Patricia, you’ve always been my North Star/ …/ But you remind me that it’s such a wonderful thing to love” [“Patricia, você sempre foi minha Estrela Polar/ …/ Mas você me lembra que amar é uma coisa maravilhosa”], enquanto descarta outras sobre coração partido. A antepenúltima do álbum é a que mais se assemelha com os trabalhos antigos da banda, por ser mais a teatral: em “100 Years” a voz sobrepõe a voz, formando uma espécie de coral; a batida é levemente dançável; ouvi-la é conseguir enxergar Florence correndo entre os fãs da maneira mítica que ela segura bem.
Por sua vez, “The End of Love” já retoma a bonança pós-tempestade. É necessário mais de um minuto dentro da canção para que a voz de Florence marque presença, em seguida, é necessário menos de um minuto para entender o porquê: a canção é poderosa em si mesma. Escutá-la é experimentar uma espécie de purificação. Quando ela chega ao fim, o ímpeto é apertar o replay. É nessa música, quase despercebido, que Florence menciona o suicídio da avó — “and in a moment of joy and fury I threw myself/ In the balcony like my grandmother so many years before me” [“E em um momento de alegria e fúria, eu me joguei da sacada, como minha avó fez muitos anos antes de mim”]. Para encerrar o sincericídio em forma de álbum, a cantora aparece em uma espécie de a capella de dois minutos e meio, “No Choir”. A música finaliza High As Hope da exata maneira que ele é: simples e honesto.
Florence and the Machine retorna em 2018 com um álbum diferente: mais modesto, mais franco. Apesar de ser verdadeiro até o talo, nem tudo dentro do trabalho conversa entre si. Criar algo consciente de suas irregularidades, seus altos, seus baixos, suas nuances e espaços cinzas, contudo, parece ter sido o objetivo da banda. Ter se afastado de uma coesa história sobre um fim, ou de um trabalho cíclico e bem amarrado feito Ceremonials, por exemplo, não soa em momento algum como um erro. A nova fase na vida de Florence Welch tem reflexo direto no resultado final de High As Hope. Dançar em vez de beber. Confrontar os próprios problemas em vez de pintá-los em grandes metáforas. Falar sobre o amor, porém o amor como um todo, não exclusivamente o amor romântico. Encontrar mágica no ordinário. Ouvir ao quarto álbum da banda não é um convite para uma ópera glamourosa — ele não requer grandes produções. High As Hope é aquela mensagem que diz “vamos fazer nada juntos?”, e você, sem nem precisar pensar duas vezes, aceita.
*A arte em destaque é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!
meu deus eu amei tanto essa critica
MUITOS PARABÉNS você captou perfeitamente a arte de florence