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A armada pretensão de Armadilha, de M. Night. Shyamalan

Nova produção do diretor M. Night Shyamalan (A Vila, de 2004, e Fragmentado, de 2016), Armadilha coloca a busca por um serial killer no show de um grande estrela pop e, de repente, a arena em que o espetáculo acontece se torna o palco de uma mega operação policial.

No filme, Josh Hartnett dá vida a Cooper, um homem aparentemente comum, de quarenta e poucos anos, que leva a filha, Riley (Alison Donoghue) ao show de sua artista favorita, Lady Raven (Saleka Shyamalan). Por acaso, ele percebe que o local está sendo usado como uma armadilha para pegar um serial killer denominado O Açougueiro, o qual tem como característica cortar as vítimas em pedaços.

Armadilha

A trama se desenvolve em torno dessa tentativa durante a primeira metade do filme, tendo em vista que a identidade do serial killer fica clara desde o início, subvertendo o gênero de ação/suspense ao colocar o ponto de vista do espectador no próprio serial killer e sua tentativa de se tentar sair do estádio sem ser pego pela polícia e, especialmente, pela analista de perfil, Dr. Josephine Grant (Hailey Mills). O acesso a esta, que deveria ser a grande antagonista de Cooper e que, em uma história comum, seria aquela a situar o público quanto às características e motivações do serial killer, é apenas à distância, de forma que se torna quase que mitológica na produção — diferente das histórias habituais, onde a artista é quem seria retratada de maneira mais idealista e etérea.

Ao contrário, como apenas uma conspiração de Hollywood poderia fazer, em uma virada de ritmo do roteiro, Lady Raven se torna a verdadeira antagonista do serial killer ao ser chantageada para que conseguisse sair do show sem passar pela segurança. Trata-se de uma boa premissa para ser explorada, especialmente em um ano que conta com revelações sobre o rapper e empresário, P. Diddy e outras celebridades envolvidos em crimes reais, além de teorias sobre a morte de cantoras de sucesso e, é claro, do grande sucesso de Taylor Swift com a The Eras Tour, a qual passou por diversas tribulações, mas resultou em uma grande rede de conexão com os fãs — ou seja, como se tirasse essas pessoas de um pedestal e as colocassem em meio aos problemas da vida real.

Armadilha

Porém, ainda que essa novidade em si chame a atenção, principalmente considerando a atualidade do cenário e a breve abordagem quanto ao efeito dos fenômenos musicais em adolescentes, tudo soa extremamente montado, no sentido de ter sido essencialmente criado para emanar suspense e explorar uma certa sensação de armadilha, de estar preso dentro daquela arena, junto com o serial killer, mas acaba por tentar tanto que se torna extremamente caricato.

Tanto a atuação de Hartnett, que faz um bom trabalho em outras produções como Esquema de Risco: Operação Fortune (2023) e no ótimo episódio “Beyond the Sea”, de Black Mirror (2023), quanto a direção de Shyamalan, que opta por realizar enquadramentos supostamente profundos, entram em conflito com a forma de abordar essa premissa. Este serial killer é caracterizado por possuir uma abordagem super organizada e isso é tudo o que se sabe sobre ele, para além de todas as demais conveniências de roteiro, que fazem com que a história se mova adiante.

A convicção de que este homem conseguirá sair do show, de alguma forma, devido à suposta inteligência diante de centenas de policiais e um esquema de segurança montado pelo FBI torna o filme cansativo antes do que deveria e quando existe a virada no roteiro em relação à Lady Raven, através de uma ligação também questionável, é necessário força de vontade para chegar até o final, onde a produção é capaz de trazer um ou dois elementos que possuem algum senso de criação.

Armadilha

No fim das contas, o único diferencial do filme é conseguir explorar as ferramentas das quais Lady Raven dispõe como forma de se distinguir dos demais do gênero, além de levar algum peso à esposa, Rachel (Allison Pill), que entrega a melhor atuação da produção. No entanto, a sensação de estar do lado certo da história, para que o serial killer seja pego, não é criada pelos motivos certos — ou seja, a suposta letalidade do assassino —, mas meramente porque se trata de uma pessoa sem qualquer carisma, assim como todos os demais personagens, e de um roteiro sem o devido ritmo.

Inspirado em uma história real denominada Operação Flagship (1985), onde a polícia enviou convites de um jogo de futebol americano a diversos fugitivos, resultando na prisão em massa de mais de cem pessoas, o que fica de Armadilha é apenas a boa intenção em torno da premissa e alguns — poucos — bons momentos de Hartnett, pois o resultado do todo, ao final, se revela previsível e decepcionante, ainda que o diretor queira conferir ao filme ares de ineditismo.