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O choro engasgado de Ainda Estou Aqui

Desde setembro, temos acompanhado o reconhecimento e o prestígio internacional de Ainda Estou Aqui, e desde o dia 7 de novembro, tivemos a oportunidade de ver, nas telas do cinema, a emocionante história de Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva (Fernanda Torres). A escolha da data de estreia nacional, coincidentemente no dia de seu aniversário, intensifica ainda mais o impacto emocional que o filme provoca no público.

Baseado no livro de mesmo nome e de autoria do filho mais novo de Eunice, Marcelo Rubens Paiva, acompanhamos a história de uma mulher que viu seu marido, Rubens Paiva (Selton Mello), ser levado pela ditadura militar e como ela precisou encontrar forças para continuar a cuidar da família, enquanto lutava por justiça para saber o que havia acontecido com o marido.

Ainda Estou Aqui

Antes de ser um símbolo da luta e resistência que Eunice se tornou, Walter Salles, o diretor, tem o cuidado de mostrar quem eram as pessoas de Rubens e Eunice: marido e esposa, pai e mãe, amigo e amiga. Passavam o dia na praia com os filhos e recebiam amigos em casa à noite. Rubens jogava totó com o filho de madrugada, enquanto Eunice emprestava roupas para a filha. Registravam a vida pelas fotografias que eram guardadas em caixas e em filmes caseiros que era projetados na sala para todos assistirem.

Nos primeiros quarenta minutos do filme, Salles nos lembra de algo que muitas vezes esquecemos ao pensar em ícones: antes de se tornarem símbolos, são pessoas. Essa introdução devolve a humanidade de Rubens e Eunice, a ponto de quase esquecermos o que virá a seguir. Até que, então, a imagem da ditadura militar surge, arrancando-lhes essa humanidade.

Em 20 de janeiro de 1971, a casa da família é invadida e o ex-deputado é levado. Antes, ele pede gentilmente para trocar de roupa, tem uma última conversa com a filha e se despede da esposa. Ela o vê entrando no próprio carro e pergunta ao agente que a vigia para onde ele está indo e quando volta. Para o espectador, esse é o primeiro momento em que o choro engasga na garganta — sabemos que Rubens não vai voltar e teremos que assistir Eunice entender isso aos poucos. Em um filme sobre a ditadura, a cena que mais causa dor é a promessa de voltar a tempo do suflê.

Ainda Estou Aqui

Em seguida, somos guiados para o momento em que Eunice também é levada, junto de sua filha Eliana (Luiza Kosovski), e mantida presa por 12 dias, sendo interrogada e isolada. O diretor, com sensibilidade, opta por não expor em primeiro plano as torturas que a rodeiam, usando aquilo que está fora de campo para sugeri-las. A partir do instante em que ninguém responde a Eunice sobre o paradeiro de seu marido, Ainda Estou Aqui assume o ponto de vista dela sobre a situação.

É o seu olhar que busca por uma fresta de luz, que olha para o carro parado no pátio, que vê os filhos dormindo quando volta para casa, e é ao olhar para a filha que a olha no banho que ela decide não chorar. O olhar de Eunice já é protagonista em dois momentos antes da tragédia: na sequência inicial, quando ela está à deriva no mar e vê um helicóptero sobrevoando-a; e quando, somente ela, observa os carros militares passando diante da praia onde a família posa para a foto — cena que inspira o pôster do filme. A maestria de Fernanda Torres existe em cada olhar que encontra o espectador, que prende a respiração enquanto tenta entender de onde Eunice tirou forças para continuar.

Um elemento que se torna quase um personagem é a casa dos Paiva. Em entrevista, Salles relembra que, em sua adolescência, também frequentava essa casa, onde se realizavam encontros, almoços e brincadeiras. Ele descreve esses momentos como um reflexo de um Brasil que eles acreditavam ser possível reconstruir. Por isso, a história dessa família é também a história do país — quando o regime leva Rubens e o mata, a casa se esvazia. Os encontros cessam, as festas desaparecem, as janelas permanecem fechadas, e o temor constante de estar sob vigilância toma conta. Quando Eunice decide que o melhor para preservar sua família é deixar o Rio de Janeiro e abandonar aquela casa, é seu modo de reconhecer, pela primeira vez, a morte de Rubens.

Marcelo descreve seu livro como uma releitura de sua própria infância, costurada pelas lembranças de sua mãe e de suas irmãs. É essa mescla de memórias que compõe a narrativa da família. O tema da memória se concretiza através da mistura entre as imagens diegéticas — que narram a cinematografia — e a recriação de filmes caseiros que capturam a vida antes da tragédia. Esse entrelaçado de imagens se torna ainda mais poderoso na sequência final, onde vemos Eunice em sua velhice, convivendo há anos com o Alzheimer, e recuperando seu olhar ao ouvir o nome do marido no noticiário. Essa última dança da memória é eternizada na presença de Fernanda Montenegro, que, ao estender a mão — ou melhor, o olhar — reitera a construção de Eunice que Torres realizou ao longo do filme.

Ainda Estou Aqui

A história de Rubens Paiva é amplamente conhecida, porém, Ainda Estou Aqui vem justamente para dar luz à história de quem lutou para que a história dele seja reconhecida. Diante da dor, Eunice precisou encontrar forças para continuar a cuidar dos filhos, os protegendo do regime, enquanto se aliava aos colegas do marido na resistência. Nas décadas que se seguiram, ela se dedicou ao estudo do Direito, à defesa dos povos indígenas e aos direitos humanos, tornando-se uma das principais forças de pressão que culminariam na promulgação da Lei 9.140/95, que reconhece como mortas as pessoas desaparecidas em razão de atividades políticas durante a ditadura militar.

Ao receber a notícia da morte de Rubens, Eunice decide não chorar diante dos filhos nem das câmeras. Ela se recusa a permitir que a retratem como vítima ou que os militares sejam vistos como vencedores. Em vez disso, ela opta por sorrir e seguir em frente. “Nós vamos sorrir”. E nós, na plateia, engasgamos com o choro.

O longa está sendo cotado para indicação ao Oscar, e chegar à premiação com chances de conquistar esse reconhecimento seria um marco para o cinema nacional. Contudo, antes de ser um filme em busca de prestígio internacional, Ainda Estou Aqui é uma obra destinada ao povo brasileiro, para reconstruir sua memória, contar sua história e reconhecer suas lutas. Este filme oferece aos brasileiros uma representação do que não deve jamais se repetir.