MÚSICA

Todas as faces de Sia

Talvez você não conheça seu rosto, mas é bastante provável que você conheça a voz por trás da peruca platinada com franjinha na testa que, mais recentemente, ganhou uma metade preta para chamar de sua. Em uma época onde a imagem da mulher é posta em primeiro lugar e tida como referencial que pode validar ou invalidar o seu trabalho, a imagem misteriosa de Sia navega contra a corrente e se torna uma importante figura questionadora tanto de seu próprio, quanto do papel da mulher na música – e na cultura – pop.

Nascida na Austrália, Sia iniciou sua carreira em meados da década de 90 como vocalista de uma banda de acid jazz – gênero musical que une elementos do soul, do jazz, do funk e da disco music. Após o fim da banda, a cantora lançou seu primeiro álbum de estúdio, intitulado OnlySee, mas foi só em 1997, quando se mudou para Londres, que seu trabalho ganhou maior projeção. A partir daí, ela lançou outros seis álbuns de estúdio – Healing Is Difficult (2001), Colour The Small One (2004), Some People Have Real Problems (2008), We Are Born (2010), 1000 Forms Of Fear (2014) e This Is Acting (2016) –, uma infinidade de EPs, e emplacou inúmeros hits – tanto na própria voz, quanto na de outros artistas – até se tornar a cantora, compositora, produtora e diretora (ufa!) que conhecemos hoje.

Responsável pela composição de sucessos como “Diamonds”, da Rihanna e “Pretty Hurts”, da Beyoncé, além de ser o principal nome por trás suas canções, não é difícil entender os motivos que transformaram Sia no fenômeno que é hoje. Embora sua trajetória na música não seja recente, foi só no ano passado, quase um ano após o lançamento de seu sexto álbum de estúdio, 1000 Forms Of Fear, que passei a prestar mais atenção em seu trabalho – como cantora e, principalmente, como compositora – e, especialmente, na mulher por trás dele.

Assim como boa parte de seus álbuns anteriores, em 1000 Forms Of Fear, Sia utiliza sua vida como principal matéria-prima de suas composições e se permite falar sobre suas angústias e inseguranças sem qualquer pudor ou receio. Muito além de suas experiências no mundo da música e de seus romances fracassados, no entanto, a cantora também aborda temas como a depressão e outras doenças mentais, o suicídio, o luto e o vício em álcool e drogas, compartilhando suas experiências com uma honestidade muitas vezes assustadora. Ao assumir para si mesma – e, consequentemente, para o mundo – a natureza dos problemas que a assombram, Sia nos transporta para os bastidores de um universo com muito mais tons de cinza do que acredita nossa vã filosofia, e que entre luzes brilhantes e batidas alegres, mascaram problemas que não vão embora quando as luzes se apagam.

Sia 1

Em “Chandelier” – primeira e talvez mais conhecida faixa do álbum –, Sia nos apresenta uma versão de si mesma que, incapaz de lidar com a depressão, encontra na bebida um escape de sua própria realidade. O álcool a faz se sentir invencível e amada enquanto balança em seu lustre, numa fantasia com hora certa para acabar, que a mantém num ciclo vicioso que invariavelmente termina em uma bagunça de sentimentos, lágrimas e vergonha. Muito mais do que uma representação da relação que a cantora desenvolveu com o álcool ao longo dos anos, “Chandelier” é também o pedido de ajuda de uma mulher que reconhece não saber até quando vai ser capaz de se segurar sozinha.

I’m gonna fly like a bird through the night,  feel my tears as they dry […]
But I’m holding on for dear life,  won’t look down, won’t open my eyes
Keep my glass full until morning light, ‘cause I’m just holding on for tonight.”

A partir daí, fica claro que 1000 Forms Of Fear não é um álbum qualquer, mas uma viagem pelos sentimentos mais íntimos e conflituosos da cantora. “Big Girls Cry”, é o retrato de uma mulher em constante sofrimento que tenta mascarar a própria dor de todos aqueles ao seu redor, se transformando na única irmã de suas mágoas. No entanto, é quando está sozinha que a cantora se permite borrar a própria maquiagem e abraçar suas dores. Big girls cry when they heart is breaking e o coração de Sia nunca esteve tão quebrado antes. Ao mesmo tempo, é essa mesma mulher que lida com o luto em “Eye Of The Needle” e, mais uma vez, tenta sorrir em meio à tanta dor enquanto luta para não se deixar tomar pela depressão, uma imagem que se reforça em “Elastic Heart” – de todas, talvez a minha favorita. Composta em parceria com The Weeknd e Diplo, a música fez parte da trilha sonora da adaptação cinematográfica da saga Jogos Vorazes, mas não abandona o sentimento que une todo o trabalho. Mais uma vez, Sia busca lidar com a perda enquanto tenta provar sua força – para si e para os outros – e mostra dois lados de uma mesma mulher.

“I’m like a rubber band until you pull to hard
Yeah, I may snap and I move fast
But you won’t see me fall apart
‘Cause I’ve got an elastic heart.”

Sendo seu primeiro trabalho após a tentativa de suicídio em 2010 – que foi interrompida pelo telefonema de uma amiga –, é natural que o episódio também se traduza em suas letras. Sem meias palavras, Sia constrói uma aura densa em seu trabalho que é sentida do início ao fim e que pode se tornar um gatilho para quem enfrentou situações muito parecidas. Sendo a depressão e a ansiedade fantasmas com o qual tenho lidado desde o ano passado, a experiência de ouvir 1000 Forms Of Fear se assemelha ao de ter meus próprios sentimentos traduzidos em canções que ganham forma a partir das experiências individuais de quem se encontra do outro lado. Ao cantar sobre seus mil e um medos, Sia também canta sobre os nossos, tantos medos, infinitos medos, perdidos entre fantasmas com os quais nem sempre somos capazes de lidar.

Da mesma forma, seus clipes são um complemento essencial, que representam claramente todos os sentimentos que transbordam em suas composições ao mesmo tempo que entrega um produto audiovisual único e artisticamente impecável. É possível, enquanto acompanhamos as performances de Maddie Ziegler, compreender de forma profunda as nuances de uma mulher tão complexa, que viu seu mundo virar de cabeça para baixo inúmeras vezes e sobreviveu para contar sua história. Talvez por isso, compreender a forma como a cantora decidiu lidar com o estrelato após um período tão conturbado não seja uma missão impossível como parece ser para a mídia, de modo geral. Desde 2014, Sia não deseja ter sua imagem pessoal atrelada ao seu trabalho como cantora, muito pelo contrário. Embora não se esconda de forma radical (é possível encontrar fotos suas facilmente na internet e algumas de suas performances ao vivo podem ser encontradas em seu canal no YouTube), ela prefere se manter longe dos holofotes. Se a fama é uma faca de dois gumes, Sia prefere continuar a ser reconhecida pela sua voz e seu trabalho, e não pelo seu rosto, corpo ou modo de se vestir.

Embora sua decisão esteja diretamente ligada às suas experiências pessoais e a necessidade de se privar de gatilhos que pudessem desencadear novas recaídas, é ingênuo pensar que não exista muito mais por trás das perucas platinadas e apresentações misteriosas. Com mais de 20 anos de carreira, Sia conhece o terreno em que está pisando e sabe melhor do que ninguém como a indústria da música – e do entretenimento, de modo geral – é cruel com suas mulheres. Ao abrir mão de sua imagem em função de seu próprio bem-estar, ela também mantém seu trabalho e carreira imunes ao tempo, algo que seu rosto e corpo jamais seriam capazes de alcançar. Se tantas carreiras – em especial, na música pop – são destruídas de forma implacável tão logo os rostos por trás de suas vozes começam a apresentar os primeiros sinais do tempo, enquanto mulher, sua posição se torna um importante aliado na luta contra o machismo na indústria do entretenimento, que reflete problemas em esferas muito mais abrangentes, construindo discursos e comportamentos problemáticos e extremamente nocivos que influenciam não só a vida de várias artistas, mas de infinitas mulheres mundo afora.

Ao se recusar a utilizar a própria imagem como parte fundamental de seu trabalho, Sia se coloca contra uma indústria radicalmente machista que usa a imagem de mulheres como produto em tempo integral – um produto que, como qualquer outro, se mantém no mercado enquanto for capaz de fornecer lucros. Se, por um lado, homens são cada vez mais valorizados e respeitados em seu trabalho com o passar dos anos, o caminho percorrido por mulheres que transformam arte em seu ganha pão é radicalmente contrário. Não por acaso, a passagem do tempo para a mulher é frequentemente tratada como tabu e ganha ares de decadência, enquanto para homens se torna motivo de orgulho e sinônimo de maior validação.

Sia 2

Esconder-se atrás de uma peruca não é a saída perfeita, muito pelo contrário. No entanto, é justamente ao abrir mão da publicidade de sua própria vida que Sia encontra uma brecha onde ainda é possível ser valorizada ou criticada exclusivamente pelo seu trabalho e não pela sua vida pessoal, pelos seus romances ou pela sua imagem. Assim, ela se reforça como uma presença necessária dentro da música pop – um gênero, como todos sabem, majoritariamente produzido e consumido por mulheres e que, não por acaso, é tratado com certo tom de inferioridade por muita gente –, uma mulher que valoriza o seu trabalho, que reconhece seu potencial e esforços, e que não se deixa levar pelos ideais da indústria machista no qual está inserida. Ainda que essa mesma indústria tente ruir sua credibilidade com acusações vazias de golpes de marketing e tentativas frustradas de transformá-la numa piada pela sua própria excentricidade, Sia mantém suas próprias convicções e não se deixa abater por comentários maldosos. Se o showbizz se constrói em cima de vidas impossíveis que são comercializadas como um exemplo a ser seguido, Sia constrói a sua própria atuação e brinca dentro de seus próprios limites com aquilo que já é tão comum.

Após ver sua vida pessoal ser consumida pelas suas próprias tragédias e doenças mentais, a cantora corre livre das amarras da mídia e mantém sua sanidade a partir do seu trabalho e de sua privacidade. Muito mais do que uma figura importante na música atual, Sia é uma mulher que prova que é possível se reinventar mesmo diante de tanta dor e que, embora não tenha a vida inteira no lugar, consegue assumir uma postura mais positiva diante da vida – algo que reflete em seu álbum mais recente, This Is Acting, lançado no início deste ano. Acima de tudo, Sia é uma sobrevivente – e não é uma sociedade tão problemática, com cobranças insanas e estereótipos impossíveis de serem alcançados que a vai fazer sucumbir.

pesquisa-valkirica-2016

Posts Relacionados

Comentários

Deixe um Comentário