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Revendo Pretty Little Liars

Sempre fui boa em rever coisas, desde criança. Lembro de rever infinitas vezes 1001 Dálmatas e O Rei Leão. Eu chegava num ponto que sabia de cor todas as falas e as recitava segundos antes dos personagens falarem. Quando cresci mais um pouco, enchi a paciência dos meus pais para alugarem em todos os finais de semana as duas fitas VHS presas por um elástico de Titanic.

Me orgulho de ser uma boa espectadora de séries, uma boa consumidora da Netflix, mas na verdade é tudo fachada. Eu sou péssima para ver séries novas, demoro muito tempo para sair da minha zona de conforto da reprise. Por exemplo, só fui ver em agosto a tão falada e comentada Sense8 (e amei, mas não é esse o ponto). Nem irei prever quando irei tomar vergonha na cara e assistir Stranger Things, ou Get Down, porque o que eu quero mesmo fazer agora é terminar de rever Pretty Little Liars.

Para quem não sabe, Pretty Little Liars é uma série sobre quatro amigas que precisam lidar com o luto logo cedo. Alison Dilaurentis (Sasha Pieterse), a líder do grupo, que some no final das férias de verão. Ali é uma amiga que é confidente, mas ao mesmo tempo, ataca passivo-agressivamente as outras meninas. Ela cria uma relação de co-dependência com suas amigas, o que gera uma amizade abusiva. O piloto começa um ano depois do desaparecimento de Ali, um pouco antes de seu corpo ser encontrado e seu assassinato ser confirmado. As meninas, Aria Montgomery (Lucy Hale), Spencer Hastings (Troian Bellisario), Hanna Marin (Ashley Benson) e Emily Fields (Shay Mitchell), se afastam após o desaparecimento da amiga e só voltam a se aproximar após serem ameaçadas e expostas através de mensagens por uma pessoa anônima que se identifica apenas como “A”.

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Alison sabia ler e manipular as pessoas ao seu redor, e é exatamente isso que ela faz em seu grupo de amigas. É por causa dela que as quatro protagonistas se conhecem e Ali foi muito inteligente em escolher cada uma por suas características e qualidades particulares. Spencer é a mais acadêmica do grupo, é a mais dedicada, esforçada, competitiva. Ela vem de uma família de “overachievers” e tem uma relação complicada com sua irmã mais velha, Melissa. Aria possui a personalidade mais próxima de Ali. Ela tem sua estética própria e se orgulha disso, é mais artística, se dedica à escrita e à fotografia, tenta sempre se destacar dos outros.

Hanna é talvez a anti-Ali. Ela sofre de distúrbios alimentares, mas melhora após o desaparecimento de Ali, quando se une com Mona, uma menina que sofria ataques e bullying da Alison. As duas decidem mudar de atitude e se tornam as novas “queen b’s” da escola. Emily é a mais generosa. Ela é apaixonada por Alison, que por sua vez, gosta de manter a amiga bem perto de si, mas não tão perto assim. Sabendo da sexualidade de Emily, Alison se aproveita desse sentimento, mas nunca o corresponde. Emily se assume lésbica logo no início da primeira temporada, o que é bem legal e progressista numa série aparentemente – e só aparentemente – superficial.

Alison era a única pessoa que sabia de todos os segredos de suas amigas e “A”, a grande ameaça e o vilão da história, se aproveita disso para atacar e chantagear as meninas, fazendo com que elas mintam cada vez mais para protegerem seus segredos. As quatro meninas se vem rodeadas de ameaças e não podem confiar em mais ninguém fora elas mesmas. Todos os moradores da pequena cidade de Rosewood tinham alguma relação com Alison e qualquer um pode ser a real identidade de “A”.

Durante as sete temporadas – a série está atualmente em hiato e voltará em abril de 2017 para a segunda parte da sétima, e última, temporada – são revelados muitos segredos e “A’s”. Sem dar spoilers, mas ao longo da série descobrimos que não é apenas uma pessoa ameaçando as meninas, mas um time. Descobrimos também que o laço de amizade que elas têm é realmente a relação mais forte e verdadeira possível. Essa não é uma série que coloca amiga competindo por meninos, ou que coloca meninas competindo entre si. Essa é uma série que, utilizando uma metáfora às vezes meio exagerada, mostra o quão difícil é ser uma menina adolescente.

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Sendo todos os moradores da cidade ameaças, a maioria dos homens são predadores. É bizarra a quantidade de homens adultos que se interessam por adolescentes na série. Além da romantização extremamente problemática de uma relação entre professor e aluna – no caso, a Aria e o Ezra (Ian Harding) – os outros homens, ou fazem parte do time dos vilões, ou não são nada confiáveis. De alguma forma, o real vilão não é “A”, mas o patriarcado. Há momentos que elas não podem confiar nem em seus namorados. E falando nos namorados, há uma interessante inversão de papeis em Pretty Little Liars. Por serem diariamente ameaçadas por “A”, as meninas não permitem serem protegidas e muitas vezes deixam os namorados em casa, longe de ameaças, enquanto saem em busca da real identidade de “A”.

A série também vai além do simples maniqueísmo do Bem versus o Mal, pois apesar das protagonistas enfrentarem diariamente riscos e ameaças, suas personagens vão além do estereótipo. Elas também, como qualquer menina adolescente, erram, vacilam, falam mais – ou menos – do que deveriam, não são perfeitas e muitas vezes agem de maneira duvidosa. Elas roubam roupas em lojas de shopping, beijam o namorado da irmã, namoram o professor da escola, e isso é só o começo. Afinal, como já diz o título; elas são lindas (“Pretty”), mas também são mentirosas (“Liars”).

Apesar de ter uma protagonista abertamente lésbica, e várias outras meninas não-heterossexuais, a série peca um pouco na representatividade. As únicas personagens negras de relevância para história são mortas e, mesmo colocando uma personagem transgênero na trama, não demora mais que dois episódios para matá-la. Não acho que aqui seria o lugar para falar de transfobia ou racismo, até porque sou branca e cis, mas é importante lembrar que ainda temos muito caminho pela frente quando o assunto é representatividade. E que Pretty Little Liars nunca teve a pretensão de ser uma série que levantasse qualquer bandeira, mesmo tocando em muitos assuntos bacanas.

Rever Pretty Little Liars é uma tarefa interessante. Admito que quando vi pela primeira vez, buscava algo meio bobo, para ver e passar o tempo sem precisar pensar muito, mas os episódios foram passando e o que era apenas um “guilty-plesure” se transformou em coisa muito séria. Pretty Little Liars é uma série adolescente que não subestima os problemas de ser uma adolescente. É claro que os problemas das meninas da série podem levá-las para cadeia, ou talvez matá-las, ou levá-las a matar alguém, o que não são problemas muito comuns para adolescentes reais, mas é uma boa metáfora de como a adolescência é assunto sério.

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