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Peggy Carter: o valor de uma heroína

Não faz muito tempo recebemos a notícia de que Agent Carter não voltaria ano que vem para uma terceira temporada no canal norte-americano ABC. Peggy Carter, interpretada por Hayley Atwell, teve sua estreia em Capitão América: O Primeiro Vingador, em 2011. Naquela época não fazíamos ideia do alcance de Peggy, mas daquela participação como coadjuvante e interesse amoroso de Steve Rogers (Chris Evans), a futura fundadora da S.H.I.E.L.D. partiu para alguns curtas e depois para a própria série.

É uma pena, na verdade, que uma série como Agent Carter tenha sido cancelada. Peggy foi a primeira heroína da Marvel a protagonizar uma série própria e desde sua primeira aparição no filme do Capitão América se mostrou dona de si e de seu destino. Como oficial da inteligência britânica baseada nos Estados Unidos, Peggy não levava desaforo para casa e fazia valer sua opinião, seus colegas gostando disso ou não. Acredito que Peggy tenha chamado atenção do público justamente por sua atitude altiva e fiel a si mesma: em um universo amplamente dominado por homens (seja no quesito “guerra”, que é o pano de fundo do filme, ou no quesito “mundo de heróis”) ela sempre fez aquilo que achava necessário não importando a quem doesse.

Sua apresentação em O Primeiro Vingador, inclusive, serviu para mostrar que personagens femininas podem ir muito além do interesse amoroso do herói. Steve e Peggy nutriam sentimentos um pelo outro, é verdade, mas nem por isso toda a história dela foi resumida a esse relacionamento. Peggy, antes mesmo de se apaixonar por Steve, é uma personagem complexa como deve ser: ela tem um trabalho do qual gosta, se dedica a ele e tem seus ideais e objetivos bastante claros. Se apaixonar ou se envolver romanticamente com alguém não anula sua personalidade ou a faz esquecer de seus deveres. E talvez posso até estar indo um pouco além aqui mas, para mim, Peggy atua até mesmo como uma espécie de guia para Steve visto que é nela em que ele confia, se apoia e busca por conselhos.

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Ao final de O Primeiro Vingador e início de sua série solo, Peggy se vê em um mundo novo. Seu relacionamento com Steve não teve sequer tempo para florescer devido o desfecho do filme e ela precisa aprender a se adaptar em um mundo relativamente tranquilo e sem a ameaça de uma grande guerra. Se antes Peggy era uma peça importante nos esforços para impedir o avanço e triunfo dos exércitos do Eixo, com o fim da ameaça a agente já não tem mais uma função que seja determinante dentro da SSR. Nesse recomeço, tudo o que Peggy faz é atender telefonemas, anotar pedidos de almoço e arquivar casos, praticamente uma secretária de luxo. Seu potencial, antes tão importante e bem aplicado, acaba ficando em segundo plano por conta da volta de seus colegas, antes na guerra, que estão prontos para reassumirem seus cargos e devolver às mulheres seus antigos postos.

E isso dialoga muito bem não somente com o que de fato aconteceu na década de 1940, mas com o que ocorre, infelizmente, hoje em dia. Muitas mulheres em trabalhos não tradicionalmente femininos têm que lidar com o machismo e sexismo. No caso de Peggy, o machismo aparece quando ela é a agente escolhida para lidar com tarafes menores do que seu posto pressupõe, além de ser deixada de fora de algumas missões – e é claro que ela foi colocada em tal posição apenas por ser uma mulher. Obviamente não há o menor problema em ser uma secretária se isso é o que você quer, se é o seu desejo, mas auxiliar os outros agentes entregando o almoço não é o que Peggy espera de sua carreira. Acompanhar a jornada de Peggy tentando mostrar seu valor e capacidade dentro da SSR conversa diretamente com o que nós, mulheres, enfrentamos diariamente no mercado de trabalho. Ser capaz de fazer seu trabalho tão bem (e muitas vezes, melhor) do que seus colegas homens não levou Peggy a uma posição de destaque ou reconhecimento, o que fica ainda mais evidente ao final da primeira temporada quando um homem leva o crédito por todo o belo trabalho feito por ela. Aconteceu em uma série de televisão, mas acontece diariamente em milhares de escritórios na vida real.

Enquanto Peggy Carter demonstra episódio após episódio que lugar de mulher é onde ela quiser, vamos criando conexões e laços ainda mais fortes com alguém que é apenas fictício. Esse é o poder que um personagem bem escrito tem: te abraça e te envolve e fica difícil desapegar – principalmente após o desaforo que foi o cancelamento de seu seriado. Peggy Carter é uma personagem inspiradora. Quando apareceu pela primeira vez nas histórias em quadrinho sequer tinha um nome e hoje seus feitos estão marcados nos corações de todas as meninas que puderem assistir a um filme de herói, uma série, e se ver representada ali. Representatividade importa, e o coro de choro que eu ouvi quando o cancelamento foi anunciado está aí para provar isso.

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Agent Carter contava com uma protagonista forte, carismática e inteligente, mas não é apenas esse o ponto de destaque do seriado. Na primeira temporada, por exemplo, vimos Peggy se relacionar com Angie Martinelli (Lyndsy Fonseca), mostrando que amizade entre mulheres é real e a melhor possível, ao mesmo tempo em que travava um embate com a astuta viúva negra Dottie Underwood (Bridget Regan). Na segunda temporada trouxeram uma vilã inteligente na forma de Whitney Frost (Wynn Everett) e uma nova amiga para Peggy, a amável e dedicada Ana Jarvis (Lotte Verbeek). Todas essas mulheres possuem camadas e histórias que iam além do mero suporte para a trama, eram mulheres diferentes com anseios e desejos diversos, o que só enriquece e diversifica a experiência de acompanhar os episódios. Além das mulheres maravilhosas, Agent Carter mostrou que a amizade entre um homem e uma mulher também é possível e que não há nada errado nisso: na figura de Edwin Jarvis (James D’Arcy) Peggy encontrou um amigo e parceiro das horas mais improváveis, e é por meio do seriado que descobrimos que Jarvis é muito mais do que apenas o mordomo de  Howard Stark (Dominic Cooper). A parceria entre os dois, Peggy e Jarvis, rendeu cenas memoráveis, muitas risadas e momentos inspirados. E mesmo quando o enredo dá uma pequena escorregada e decide montar um triângulo amoroso envolvendo a protagonista, seus pretendes são um agente deficiente, Daniel Sousa (Enver Gjokaj) e um brilhante cientista negro, Jason Wilkes (Reggie Austin). 

Após o cancelamento de Agent Carter, a única outra série com protagonista feminina no universo Marvel é Jessica JonesCapitã Marvel, que deverá ser o primeiro filme com protagonista feminina do estúdio, deve estrear apenas em 2019 e nomes da atriz protagonista e diretora (se é que, de fato, será uma diretora) ainda se encontram na terra mágica da especulação. Claro que podemos contar com Supergirl e iZombie da DC abrindo caminho na televisão mas ainda é pouco e precisamos de mais. Séries com protagonistas femininas estão conseguindo uma espaço considerável em emissoras e serviços de streaming, mas protagonistas femininas saídas diretamente dos quadrinhos parecem ainda encontrar resistência por parte das empresas, o que dá a estranha noção de que este mercado esteja saturado – o que está longe de ser verdade.

Em meio a boatos de que a série possa ser salva pela Netflix e de que Peggy Carter ainda aparecerá em outros projetos do MCU, a certeza que fica é a saudade que sentiremos dessa mulher incrível. O caminho que trilhamos junto de Peggy só mostra o quanto há demanda por heroínas na grande mídia e que elas sempre serão bem recebidas.

Até logo, Peggy Carter, nós também sabemos o seu valor.

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Conheço o meu valor. A opinião dos outros não importa.

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