LITERATURA

O Miniaturista: Petronella Oortman e a força da mulher numa família

Eu comecei meu “império” da leitura com J.K. Rowling e não parei mais por a partir de então. Depois de Harry Potter, foi a vez do Diário da Princesa e logo depois veio Percy Jackson. Saltitando entre um universo e outro, eu volta e meia reencontro livros que há anos estão na prateleira dos “must read” e que ainda não tiveram uma chance no meu tempo. Me considero meio acumuladora de livros, também, sempre comprando mais e mais nas promoções. E foi num surto de compras desses que passei a perceber que uma forma de valorizar mulheres na literatura era consumir mais e mais livros escritos por autoras

Foi assim que peguei, no escuro (literalmente, porque fechei os olhos e fui com a mão catando algo) essa obra que me ensinou tanto e que me fez sair completamente do meu mundinho. Não conhecia os trabalhos de Jessie Burton antes desse livro. Pelo que pesquisei sobre sua vida, ela é uma escritora e atriz londrina que ama uma boa história. Por isso, depois de quatro anos escrevendo O Miniaturista, mais e mais pessoas puderam conhecer sobre o enredo da família de Petronella Oortman e sua famosa casa de bonecas. Algum tempo depois, após terminar a leitura, descobri que vários personagens da história são, na realidade, pessoas reais; e a casa de bonecas que faz parte do livro hoje encontra-se no museu holandês de Rijksmuseum. A autora utiliza dados históricos para se inspirar e transformar a história da família Brandt numa narrativa ainda mais misteriosa.  

A história fala sobre uma Amsterdã dos anos 1686; local onde comerciantes e clero detinham a maior parte da fortuna e mulheres serviam somente para o status que um casamento de luxo possuía. Em casa, essas mulheres eram donas do seu lar, passando atividades aos seus criados, mas nunca se metendo nos negócios dos maridos. Uma noite carinhosa entre o casal não era uma realidade à época: a mulher só era tocada para deleite do homem e, muitas vezes, nem eram lembradas quando esses mesmos esposos tinham amores secretos por outras mulheres casadas.

“Por dois anos, Nella treinou para ser uma dama. Adquirira uma nova postura ao andar, embora reclamasse de que não tinha para onde ir e sentisse pela primeira vez vontade de fugir do vilarejo, ignorando o vasto céu, enxergando apenas uma prisão bucólica que já desenvolvia finas camadas de poeira. Com um espartilho recém-apertado, ela ensaiou o alaúde, movendo os dedos elegantes pelas cordas, preocupada com os nervos da mãe apenas o suficiente para não se rebelar. Em julho deste ano, as sondagens da mãe entre os últimos contatos de seu marido na cidade finalmente encontraram terreno fértil.”

Então, nesse contexto conhecemos Nella Oortman, uma jovem de 18 anos que foi convidada a se casar com Johannes Brandt, um comerciante famoso e muito rico. Petronella, que é como se chama de fato, vinha do interior e sonhava em ser levada para o altar, em ter sua noite de núpcias e de encontrar em seu marido um melhor amigo. Porém, quando ela chega na casa nova, encontra Marin, sua cunhada, como dona suprema da casa, não deixando Nella agir e nem opinar sobre nada. Ela começa a entender a dinâmica daquela família ao ver que Marin não era casada, eles tinham dois criados e que seu marido estava sempre fora em viagens que prometiam a venda de inúmeros itens de seus clientes.

Nella se sente sozinha na maior parte do tempo e totalmente iludida por uma vida melhor após o casamento. Então, notando que não estava cumprindo com seu também papel de marido, já que estava constantemente ausente, Johannes presenteia Nella com uma casa de bonecas que representava a sua própria casa em miniatura. Disse ainda a ela que essa sim era a sua casa e que ela podia mobiliar como quisesse.

Depois de procurar por qual tipo de artesão que seria capaz de fazer tais móveis tão delicados, ela se depara com um nome e manda uma carta. A partir daí, uma conexão inimaginável surge entre Nella e o miniaturista que ela vem a descobrir, mais tarde, ser uma mulher de incríveis talentos. O único porém é que, mesmo sem fazer encomendas, os móveis e bonecos continuam a chegar e sempre com um tom de premonição, dando dicas do que pode vir a acontecer em sua própria casa. Contar além disso é entregar enredos fundamentais que podem estragar a surpresa e emoções provocadas pela leitura. No entanto, O Miniaturista apresenta alguns pontos interessantes, e que merecem ser analisados.

“Na primeira vez que Nella sangrou, aos doze anos, sua mãe lhe disse que o propósito daquele sangue era a ‘segurança dos filhos’. Nella nunca achou que houvesse motivo para se sentir segura, pois ouvia pelo vilarejo os gritos das mulheres sentindo as dores do parto, os caixões às vezes levados à igreja pouco depois.”

O primeiro deles é o contexto histórico e social no qual as mulheres do século XVII estavam inseridas. Suas funções, basicamente, limitavam-se a procriar e os cuidados do marido e do lar. Mulheres que trabalhavam fora faziam serviços gerais ou então serviam apenas de fachada para maridos que fugiam do casamento. Elas eram escravas de um casamento arranjado e quase sempre infeliz, e não tinha para onde correr, já que esses eram os moldes que regiam a sociedade que viviam. As únicas que, talvez, fugiam à regra eram as esposas de comerciantes, que tinham um status de riqueza e um pouco mais de autonomia, sendo sempre levadas a jantares finos e sendo admiradas por outras pessoas. A inveja, no entanto, construía uma disputa entre famílias, uma esposa e outra, que se rendiam ao desejo de possuírem sempre mais do que a próxima. Não é preciso dizer que esse era um ambiente de muita sororidade negativa.

Mas a amizade entre mulheres também ganha espaço em O Miniaturista: Nella e Cornelia, sua criada, constroem uma bonita e sincera relação. Cornelia é quem, afinal, lhe ensina a entender melhor como funciona a cidade grande. Com uma postura bastante segura para sua pouca idade e experiência de vida, Nella passa a descobrir mais sobre a nova família, sempre seguindo seus instintos. Ela possui sonhos e busca realizá-los, e é isso que a motiva a procurar cada vez mais por conhecimento – o que, por fim, a leva a adquirir inúmeros ensinamentos antes de chegar no clímax da história.

“Se a miniaturista é uma estranha professora que não vai parar, Nella sente-se uma aluna relutante. Falhou em entender o significado dessas aulas. Anseia por apenas uma peça que explique o que a miniaturista quer dela. Ao abrir o pacote, vê que só há um item.”

A educação das mulheres à época era podada e limitada ao que sua família conseguia (e considerada relevante) lhe ensinar. Se a moça vinha de uma família humilde, o aprendizado era ainda mais limitado, e muitas sequer sabiam ler. Contudo, o bardo e a pintura eram habilidades trabalhadas com cuidado, consideradas muito mais importantes, e era para isso que eram treinadas. Uma mulher que possuía mais conhecimento que um homem, por sua vez, era considerada metida e arrogante, uma verdadeira vergonha para a família e, principalmente, ao marido. Marin, irmã de Johannes, nunca se casou e, conforme descobrimos no decorrer da leitura, isso acontece porque ela não queria perder sua liberdade, não queria tornar-se submissa a um casamento de fachada e, também, pelos seus profundos conhecimentos sobre negociações.

São personagens femininas determinadas e destemidas,  e de uma força gigantesca, e com essa volta ao mundo e no espaço-tempo de uma realidade extremamente machista, são elas que nos levam a viajar e refletir sobre toda a luta necessária para chegar ao aqui e agora, uma realidade que nos permite coisas que hoje parecem banais, como usar calças, vejam só; e como a construção de uma sociedade não é sólida e eterna, mas que são necessários muito cutuques e discussões para remodelá-la. Foram necessárias muitas Petronellas para construir o mundo que conhecemos hoje e, se não fossem essas mulheres, talvez ainda estivéssemos sendo limitadas ao papel de esposas submissas que nos foi relegado por tanto tempo.

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