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Jo Wilson, a cabra expiatória

Desde que o mundo é mundo, a mulher ocupa um lugar muito específico na sociedade, simbolicamente falando. Como coloca Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, a mulher é o outro mais próximo ao homem, e pelos olhos dele encarna dezenas de imagens contraditórias — nascimento e morte, bem e mal, fascínio e medo. Todos os mitos que rondam a figura feminina, desde Eva, podem parecer alegóricos e distantes, mas estão gravados de forma muito profunda nos nossos subconscientes. E quem pagou o pato por isso dessa vez foi Jo Wilson (Camilla Luddington), em Grey’s Anatomy.

[Atenção: esse texto vai conter spoilers do primeiro episódio da décima terceira temporada.]

Quem está em dia com a série acompanhou os momentos de tensão no season finale da última temporada, quando Alex Karev (Justin Chambers) chegou em casa e se deparou com Jo e DeLuca (Giacomo Gianniotti) em uma situação dúbia e, sem pensar duas vezes, caiu em cima do moço em uma surra colossal. Isso nos levou, já nos primeiros minutos da décima terceira temporada, de volta ao Sloan-Grey Memorial Hospital, com um DeLuca desfigurado e basicamente destruído, enquanto uma Jo ainda bêbada chorava copiosamente em casa.

Acontece que as coisas são muito mais amplas do que um acontecimento de um episódio, são treze temporadas de série e milênios de patriarcado. Karev é um dos originais, alguém que está ali do nosso lado há treze longos anos, que passou por muita coisa e cresceu horrores — um cara que conseguiu passar de um bully pé-no-saco a queridinho do público, um cara que conserta criancinhas.

Enquanto isso, do outro lados temos a Jo, que é (o fandom — ele existe? — que me perdoe) uma das personagens mais sem graça e irrelevantes de toda a história da série. E é mulher, então não tem escapatória.

O episódio em si deixa claro que a culpa de tudo é do Karev, mas nós não somos sujeitos imparciais. O tempo inteiro ele parece muito mais preocupado com as repercussões dos atos dele para ele mesmo do que com o estrago que ele fez no outro. E ainda assim, mesmo com os avanços nos meus estudos e reflexões feministas, mesmo com os cinco meses de treinamento intensivo em análise crítica que esse site me deu, meu cérebro continuava buscando formas de culpar a ela, e não o único culpado pela situação toda.

Jo Wilson Grey's Anatomy

Porque se ela não tivesse bebido tanto, nada disso teria acontecido. Porque se ela não tivesse tentado tirar a roupa, isso não teria acontecido. Porque se ela tivesse contado a verdade sobre o seu estado civil para o namorado, isso não teria acontecido. Porque porque porque. O nome disso é culpabilização.

Não foi ela quem bateu no DeLuca. O que significa que a culpa não é dela em hipótese nenhuma.

Exceto em casos de coação, a única pessoa responsável por um ato é aquela que realizou o ato. Por mais que isso me doa, o único responsável é o Karev. Mas porque ele é tão querido ao meu coração, eu não consigo sentir raiva dele. Ele fez bosta. E isso faz dela, Jo, duplamente culpada: por provocar a catástrofe, e por transformar um dos melhores personagens em um monstro descontrolado e violento.

“Ele não é o cara mau aqui. E a Jo não é o cara mau. Nós somos os caras maus. Muito maus.”

Nós precisamos de alguém para culpar, porque é mais fácil do que encarar o fato de que pessoas que nós gostamos cometem atrocidades. Porque mais fácil do que reconhecer que todos os homens são armas em potencial é acreditar que aquelas mulheres específicas fizeram alguma coisa para merecer aquilo. Porque metade da população está preocupada em defender os próprios privilégios, enquanto a outra metade está ocupada em se convencer de que não vai ser a próxima vítima.

Mulheres já são naturalmente enxergadas como o mal, como erradas, responsáveis pela expulsão do paraíso, sedutoras, traiçoeiras, pouco confiáveis. Nós somos culpadas simplesmente por nascermos.

A verdade suprema nesse caso é uma e só uma: se o Karev não se sentisse dono da Jo, aí sim nada disso teria acontecido. Porque ele não estaria em um estado tão irracional por ela não querer casar com ele, para começo de conversa. E porque ele saberia que o fato de ela estar (supostamente) em uma situação íntima com outro cara não dá, e nunca dará a ele o direito de encarnar o Hulk.

A Jo pode ser uma personagem enjoada, e ela pode fazer milhões de coisas com as quais eu não concordo. Mas culpa nesse caso ela definitivamente não tem. A culpa é de quem comete o ato. Combinado?

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