COLABORAÇÃO INTERNET

O poder de um nome: treta não é discurso de ódio

Eu faço de um tudo pra evitar o Facebook. O algoritmo não é perfeito e toda vez que caio no feed de notícias acabo vendo algum post que me faz querer bater cabeças em quinas e desistir da civilização ocidental. Há umas semanas, o responsável pela minha vontade de colocar cianureto na água da cidade foi uma coluna opinativa (e obviamente caça-clique) da edição brasileira de uma renomada revista estadunidense. Enquanto enaltece a música “1-800-273-8255″, do Logic, e a série 13 Reasons Why como iniciativas anti-suicídio, o jornalista Marcos Lauro lamenta a participação de dois nomes de peso do mundo pop no último VMA: De acordo com ele, o clipe de “Look What You Made Me Do”, da inimiga-oficial da geração millennial Taylor Swift, que estreou no evento; e a apresentação da girlband Fifth Harmony, fazem um desserviço graças ao uso do, err, discurso de ódio.

Ainda que a militância-de-internet tenha me roubado alguns anos de vida graças à toda raiva que já me faz passar, uma coisa aprendi com ela. A gente não pode fazer comparações irresponsáveis. Eu não posso dizer que ter sido chamada de Olívia Palito durante a minha infância seja a mesma coisa que gordofobia. É uma lógica bem simples, na verdade. Ainda que eu tenha ficado magoada algumas vezes por não estar exatamente dentro do padrão, eu nunca perdi nada por ser abaixo do peso. Nunca vi garotas como eu sendo relegadas ao alívio cômico de uma atração televisiva, expostas como o indesejado em propagandas. Receber apelidos nem um pouco engraçadinhos é bullying. Mas quando toda a sociedade se organiza de uma forma em que corpos semelhantes ao seu são coletiva e sistematicamente patologizados, inferiorizados e segregados, o problema evolui de uma questão pessoal para uma opressão culturalmente construída e perpetuada.

Ou seja: bullying não é a mesma coisa que opressão sistêmica. Seguindo a mesma lógica, não dá pra comparar treta de ego com discurso de ódio. Não precisamos ir muito longe pra entender o porquê. Não mesmo. É só abrir uma nova aba no navegador e pesquisar “o que é discurso de ódio”. Logo no primeiro link (claramente o da Wikipédia), você vai aprender que essa modalidade é “de forma genérica, qualquer ato de comunicação que inferiorize ou incite contra uma pessoa ou grupo, tendo por base características como raça, gênero, etnia, nacionalidade, religião, orientação sexual ou outro aspecto passível de discriminação”.

“Até que ponto é saudável uma artista com o alcance de Taylor Swift mostrar ao seu público que quer vingança?”, se pergunta Marcos Lauro. “Isso se enquadra numa postura de empoderamento, já que uma das mensagens possíveis é ‘faça o que você tiver que fazer e derrote os seus inimigos’? Ou é apenas nocivo?”. A gente sabe que a questão dele é retórica, mas o próprio questionamento deixou claro que o jornalista não entendeu nada de “Look What You Made Me Do”. Já falamos aqui sobre como tanto música quanto clipe são, na verdade, demonstrações da ironia swiftiana em seu máximo requinte – mas vamos entrar no jogo dele e supor que tudo o que a artista realmente pensa tem a ver com karma.

Dificilmente a gente pode pensar em vingança como um discurso de ódio. A vingança é uma retaliação. Eu me vingo de você por alguma coisa que você fez contra mim. A se vinga de B por B ter feito X. No discurso de ódio, a necessidade de vingança até pode estar incluída (olá, Hitler), mas é uma vingança reducionista, quando você condensa uma situação complexa em um único agente causador e faz dele o objeto da sua violência. Por exemplo: “Vou me vingar dos judeus por terem levado a nossa nação pro brejo”. Se Taylor Swift quer se vingar de Kanye West por tê-la chamado de vadia em uma música, ou do Spotify por não ter dado o dinheiro que ela acha que seu trabalho vale, são questões diretas. A se vinga de B por B ter feito X.

Agora, se o problema dele é com a narrativa de vingança, muitos livros vão precisar ser queimados, começando pela Ilíada. A gente também espera que ele não goste de Game of Thrones e não ouça Justin Timberlake, James Brown, Johnny Cash, Queen. Histórias de vingança são tão antigas quanto as de paixão – não raro, as duas questões estão ligadas, inclusive (Guerra de Tróia, alguém?). A única característica que faz com que “LWYMMD” seja uma canção de “vingança” diferente das outras é que dessa vez a mulher não quer se vingar do ex-namorado – e eu nunca vi ninguém brigando com a Adele por causa disso. Será que o exemplo ruim que a Taylor está dando nesse caso é pra garotas que talvez não queiram dar a outra face ao serem provocadas e humilhadas por questões que não sejam amorosas?

Quanto à apresentação do Fifth Harmony, não há dúvidas de que uma quinta integrante sendo jogada do palco foi, no mínimo, uma referência mal pensada ao histórico do grupo, que nesse último ano perdeu uma de suas cinco harmonias com a saída de Camila Cabello, que segue agora em carreira solo. Na minha opinião foi um gesto de mau gosto mesmo, mas não interessa. Não importa se o motivo por trás do empurrão foi uma indireta à Camila ou aos comentários da necessidade de uma outra garota para ocupar o lugar dela, como as integrantes do grupo afirmam ter sido. O que está em jogo aqui é que nem de longe isso pode ser considerado um exemplo de discurso de ódio. No mínimo foi um ato mal interpretado, no máximo uma briga de egos fútil – sendo que não haveria novidade no mundo do entretenimento nem em um caso, nem no outro. Razão nenhuma pro climão apocalíptico-fim-dos-tempos da crítica de Marcos Lauro. Definitivamente, nada que justifique a classificação de discurso de ódio.

A supremacia branca conseguiu fugir dos fóruns da deepweb, saiu da casa dos pais e agora os neonazistas marcham sem nenhum constrangimento pelos Estados Unidos. O Brasil mata tanto transsexuais quanto jovens negros periféricos como se fossem moscas; de acordo com dados do Ministério da Saúde o país registra 10 casos de estupro coletivo por dia. Donald Trump tem o poder de disparar bombas nucleares e tem gente disposta a chamar o Bolsonaro – misógino e homofóbico assumido – de presidente nas próximas eleições.

Em 2017, dizer que rixa pessoal é discurso de ódio não é só irresponsável – é perigoso.

É de se esperar que um jornalista conheça o peso das palavras; todo o nosso ofício se baseia em uma delicada alquimia interpretativa. Nomear um fenômeno é o que o torna corpóreo, um processo vital para que nós, animais sedentos por definições e categorizações, possamos nos organizar o suficiente para lidar com ele. Nomear é o primeiro passo para dar ordem ao caos.

Banalizar expressões como “discurso de ódio” é tirar a força discursiva de quem luta contra ele. Atitudes como essa acabam por dar argumento pra quem gosta de dizer que hoje em dia “tudo é [insira aqui o preconceito de sua preferência]” ou que vivemos na ditadura do politicamente correto. As coisas são de acordo com o nome que nós damos pra elas. Se até uma briguinha de ego entre garotas famosas acaba sendo batizada de “discurso de ódio”, a expressão é vulgarizada de tal forma que, quando reivindicada para nomear algo que de fato se qualifique como tal, ela deixa de chamar a atenção.

Não dá pra tornar essa classificação uma moeda corrente. Jogar a responsabilidade de nomear as coisas corretamente pro alto só para aumentar o tráfego cambaleante de um portal é, pra dizer o mínimo, baixo, e definitivamente não o que a gente precisa em um mundo de fake news. Se o jornalismo ainda importa para alguém, a gente tem como dever profissional lembrar dos significados das palavras e parar de vender a força do nosso discurso a preço tão baixo, apenas em troca de uma polêmica passageira nos comentários. 

Por Odhara Caroline. Escritora. Continua sendo jornalista do mesmo jeito que continua acreditando em coisas boas — só de birra. Adora se apropriar de xingamentos dizendo que é feminazi, persegue cachorros na rua, explica tudo o que faz com base no mapa astral, sempre acaba fazendo drama demais e pedindo desculpas depois. Como boa millennial, não tem a menor ideia do que tá fazendo com a própria vida.
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