CINEMA

Crítica: Jackie

22 de novembro de 1963. John F. Kennedy, então presidente dos Estados Unidos, é assassinado em Dallas, no Texas, durante um desfile oficial em carro aberto. Ao seu lado, sua esposa e primeira-dama, Jacqueline Kennedy, presencia o terrível desfecho da vida do marido – uma tragédia que marcou não apenas a vida de Jackie, como era chamada por pessoas próximas, em sua intimidade; mas toda a história dos Estados Unidos da América. Em Jackie, filme do diretor chileno Pablo Larraín, acompanhamos esse período intenso e conturbado da vida da não mais primeira-dama, que se seguiu após a morte de Kennedy, onde, por meio de flashbacks e relatos sobre os bastidores da política norte-americana, Jacqueline (Natalie Portman) conta a sua própria versão dos fatos.

Utilizando como base a entrevista concedida para Theodore White, da revista Life, uma semana após o assassinato de John F. Kennedy, o filme tem início com a chegada do jornalista (interpretado por Billy Crudup) na nova casa branca da, agora, ex-primeira dama. A casa atual, Jackie conta, não é sua, da mesma maneira que a Casa Branca anterior não fora. À deriva, com raiva e angustiada, ela tenta colocar em palavras todos os momentos de tensão pelos quais passou desde o assassinato do marido, a quem segurou nos próprios braços enquanto sangue escorria em seu icônico terninho rosa da Chanel. É uma versão completamente nova da mulher sempre sorridente e que pouco lembra a figura glamourosa imortalizada diante das câmeras, mas que, ao mesmo tempo, mantém a elegância que sempre lhe foi característica.

Nascida em Nova Iorque, Jacqueline Kennedy foi primeira-dama dos Estados Unidos entre os anos de 1961 e 1963, uma das mais jovens e icônicas da história norte-americana. Durante a campanha política de seu marido, Jackie participou ativamente, respondendo cartas de eleitores, aparecendo em programas de televisão, conversando com o público durante comícios e até mesmo assinando a coluna de um jornal semanal. Primary, documentário de 1960 que acompanha John F. Kennedy e Hubert Humphrey durante as eleições primárias em Wisconsin – ambos em busca da indicação do Partido Democrata –, mostra um pouco da relação que ela possuía com a vida pública do marido e, consequentemente, a sua própria. Mesmo quando Jack – apelido do então senador John F. Kennedy – ainda não era o candidato oficial à presidência dos Estados Unidos, Jacqueline já era uma figura constante (e importante!) na corrida pelo cargo, fosse em cima de um palco, fosse andando em meio a multidão que idolatrava o casal ou apertando a mão de possíveis eleitores, um por um, o sorriso encantando estampado no rosto.

Com o apoio da esposa e uma campanha impecável em marketing, John F. Kennedy foi eleito candidato do Partido Democrata à presidência e, algum tempo depois, em novembro de 1960, derrotou o candidato do Partido Republicano, Richard Nixon, numa das eleições mais acirradas da história norte-americana do século XX, tornando-se o 35º presidente dos Estados Unidos. Jackie, por sua vez, passa a atender a demanda da nova função como primeira-dama, vivendo sob os holofotes e esquadrinhamento da mídia, que seguia e analisava cada um de seus passos. A imagem de Jacqueline perpetuada ao longo dos anos e que se tornou inspiração para tanta gente, foi cuidadosamente construída pela primeira-dama, que se estabeleceu não como a mulher atrás da figura masculina representada pelo seu marido, mas a presença fundamental ao lado dele.

A história de Jackie – tanto no cinema quanto na vida real – se entrelaça com a de John de forma muito complexa, muito além da simples relação entre marido e mulher, porque a devoção de Jackie ao marido ia muito além do amor romântico, mas se estendia à tudo aquilo que ele, sua família, e a família que construíra ao lado dela, representavam. Os Kennedy estiveram para os Estados Unidos, por vários anos, como os Windsor estão para a Grã-Bretanha, e foram amados e idolatrados pelo povo americano quase na mesma medida. Famosos por conquistar importantes cargos políticos ao longo das gerações – e, mais tarde, pelas tragédias que também fizeram parte da história da família, além dos inúmeros escândalos nos quais estiveram envolvidos –, Jackie não precisava ter se tornado uma peça tão essencial no jogo político de seu marido, nem mantido tanto controle sobre o que aconteceu após sua morte, mas o fez pelo seu enorme senso de responsabilidade e devoção ao papel que ambos conquistaram – algo que aparece muito claramente durante todo o filme. É por isso que sua história é, ao mesmo tempo, o luto pela tragédia e pelo amor perdido, mas também por tudo aquilo que foi destruído junto com ele: um sonho que, de repente, se quebrara em mil pedacinhos.

A morte de John F. Kennedy figura até hoje entre um dos assuntos mais debatidos pelos norte-americanos: muito se especula a respeito dos motivos pelos quais Lee Harvey Oswald, o suposto assassino, decidiu matar o homem mais importante dos Estados Unidos – o quarto e último da história do país a ter um fim tão trágico, ainda no exercício do cargo. Assassinado pouco depois de ser preso, Oswald ainda é tido como único mentor do crime, embora teorias da conspiração continuem surgindo até hoje. Em Jackie, contudo, especular sobre o que aconteceu de fato não é foco, mas sim o pano de fundo que o diretor utiliza para emoldurar a trajetória de Jacqueline Kennedy durante esse período.

O longa não segue uma linha temporal cronológica: enquanto no presente acompanhamos Jackie sendo entrevistada pelo jornalista, flashbacks nos fazem passear pelas memórias da primeira-dama, num vai e vem constante de lembranças de períodos vividos antes, durante e após o assassinato; construídas a partir da recriação de momentos históricos que permeiam o imaginário coletivo, como a visita à Casa Branca, em que Jacqueline apresenta a nova decoração da residência oficial para a rede de televisão CBS e dá ao público um aperitivo do lugar em que vive com sua família. Acompanhada e orientada por Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), secretária da Casa Branca durante o governo Kennedy – com quem ela mantinha uma relação mais próxima da amizade –, Jackie sorri para as câmeras, com toda sua elegante desenvoltura, e convida o público a conhecer a sua casa, numa superexposição até então inédita, e que cuidadosamente transformava a narrativa dos Kennedy.

Na década de 60, a televisão já era popular o suficiente nos Estados Unidos para se tornar um veículo capaz de influenciar pessoas e construir narrativas pautadas pelos seus propósitos. Ninguém precisava mais ler a história, contada a partir do ponto de vista de outra pessoa, sobre um determinado acontecimento: elas viam aquilo acontecer diante delas, do sofá de casa, e tiravam as próprias conclusões. De repente, a realidade já não era mais aquilo do qual se falava ou escrevia a respeito, mas aquilo que podia ser visto. E Jackie tinha plena consciência disso. Não é por acaso que os Kennedy alçaram o status de celebridade, disputando espaço com estrelas do cinema e da música. Eles eram o rosto perfeito de um país ávido por mudanças; otimista, esperançoso e por vezes ingênuo, vivendo um conto de fadas construído sob medida para os veículos de comunicação.

Mas essa não era a realidade, pelo menos não em sua totalidade. Um dos motivos que levaram Jackie a preservar a memória do marido após a sua morte e se preocupar tão profundamente com seu legado, contudo, é que, segundo ela, as pessoas sempre gostaram de ouvir contos de fadas – e esse, aparentemente, era um em que ela própria gostava de acreditar. Jackie comparava o marido ao personagem do musical Camelot, o rei Arthur, colocando-o num pedestal como o herói que a América precisava; um homem privilegiado disposto a sacrificar tudo pelos seus ideais e serviço a sua nação. Essa comparação, mais tarde, ajudaria a transformar John F. Kennedy numa figura tão mítica quanto o próprio rei Arthur, mesmo que sua vida – política e pessoal – tenha sido repleta de controvérsias. Era, mais uma vez, uma postura que ela não precisava manter, um papel que já não era mais seu (mas sim da nova primeira-dama, Lady Bird Johnson), mas do qual ela ainda não conseguia se desligar completamente, tamanha a sua devoção ao marido e àquilo que construíram juntos.

Mas é nos bastidores que a trama se desenrola, desconstruindo pouco a pouco a imagem intocável da primeira-dama sempre tão sorridente e impecável em seus vestidos e tailleurs, a mulher doce e educada; construindo uma versão mais verossímil da mítica figura de terninho Chanel que nos acostumamos a associar à ex-primeira dama: da mulher ansiosa a assustada, da mulher determinada a desesperada, da mulher nostálgica a ressentida, da mãe a viúva. São muitas mulheres presentes numa só, várias peças de um quebra-cabeças que ganha vida em Natalie Portman e enche a tela com as mais diferentes nuances e os mais complexos sentimentos, impressos com uma honestidade assustadora na Jacqueline Kennedy criada pela atriz. São essas várias faces de Jackie que o filme tem o mérito de trazer à tona ao compor as cenas, reorganizando toda a cronologia dos fatos: num momento, é como estar em uma visita à Casa Branca em que somos convidados para jantar com a família Kennedy; enquanto no momento seguinte estamos juntos de Jackie, que coloca o disco favorito de seu marido para tocar na vitrola e bebe vodca sozinha, repleta de tristeza.

Ao mesmo tempo, Jackie é o retrato de uma mulher que, de repente, vê todas as suas certezas caírem por terra e que precisa reinventar a si mesma em meio ao caos. Quando diz que a casa em que mora não é sua, tal qual a Casa Branca não o era, Jackie também diz que uma primeira-dama deve estar sempre pronta para fazer as malas. É a mesma Jackie que precisou fazer as malas antes mesmo de enterrar o marido, que viu seu mundo inteiro desmoronar em questão de minutos, sem muito tempo para assimilar e se recuperar do trauma que tinha acabado de viver. Uma das cenas mais sensíveis do longa é, justamente, quando Jackie começa a se despir das roupas que usava durante o desfile no Texas, separando o terninho cor-de-rosa e a meia-calça sujas de sangue. É ali, completamente sozinha e longe do olhar atento da mídia, que ela finalmente se permite sofrer e chorar sua perda, despindo-se da fachada de primeira-dama para se tornar Jackie, e apenas Jackie, num momento capaz de partir o coração da mais insensível das pessoas.

É preciso uma coragem absurda para seguir em frente após viver um trauma tão grande, mas é preciso uma coragem quase insana para se colocar diante das câmeras e expor suas cicatrizes, dando ao público um último espetáculo. Mas o “espetáculo do luto”, como ela se refere ao período entre a morte e o funeral de John F. Kennedy no filme, não é apenas um presente para essa sociedade que implora de joelhos pelo seu show: é oportunidade que Jackie encontrou para eternizar a si mesma e ao marido, reivindicando a realeza que, de certa forma, eles jamais tiveram tempo de construir. Ela cuidou de cada detalhe do funeral e deu ao povo norte-americano o que o jornal londrino Evening Standard chamou de majestade, uma imagem que se mantém até hoje, mais de vinte anos após a sua morte e cerca de cinquenta após o assassinato de John F. Kennedy – seu desejo, finalmente, alcançado.

Embalada pela trilha sonora perturbadora de Mica Levi – também conhecida como Micachu, cantora e compositora britânica –, que surge antes mesmo do longa se tornar imagem, e pelos cenários em tons pasteis, Jackie se mantém como um filme de estética fria (exceto pelas cenas que emulam momentos históricos presentes no imaginário coletivo), envolto por uma atmosfera obscura que contrasta com a trágica e densa história que busca contar. Se o universo midiático e político sempre esteve cercado de mistérios e controvérsias, Jackie é quase como uma ode às avessas sobre a sociedade do espetáculo, capaz de mostrar o lado mais sombrio de um terreno em que tantos pisaram antes de Jacqueline e John, e que muitos continuarão pisando muito tempo depois; sem desumanizar Jacqueline – a mulher – em detrimento daquilo que ela era em frente às câmeras.

E é por isso que Jackie se torna um filme tão especial. Não se trata de uma cinebiografia clássica, mas um retrato sobre a realidade de uma mulher que intrigou e causou fascínio não apenas aos norte-americanos, mas em todo o mundo; e que viveu um dos momentos mais dramáticos da história dos Estados Unidos. Além disso, por mais que muito tenha sido dito sobre o péssimo timing para o lançamento do filme (considerando o momento particularmente conturbado que vivem os norte-americanos), Jackie ganha importância porque não coloca a figura de seus ídolos numa espécie de pedestal, mas mostra como cada um desses mitos são construídos e perpetuados ao longo dos anos, quando por trás de cada um deles existem apenas seres humanos: pessoas que fizeram algumas escolhas, outras escolhas, várias escolhas, até se tornarem as figuras imortalizadas que conhecemos. Jacqueline Kennedy se tornou uma dessas figuras – e merece todo o crédito por isso.

Jackie constrói aos poucos o quebra-cabeça que era Jacqueline Kennedy. A mulher determinada, complexa, apaixonada, às vezes megalomaníaca e controladora; elegante, simpática, inteligente e extremamente consciente de seu papel, ao qual foi devota até o último minuto. Quando compara John ao rei Arthur (don’t let it be forgot, that once there was a spotfor one brief shining moment that was known as Camelot), Jackie diz que jamais haverá outro Camelot, jamais haverá alguém como John F. Kennedy de novo. Mas a certeza que Jackie deixa, no entanto, é uma só: jamais existirá outra mulher como Jacqueline Kennedy – e essa é uma verdade que nem mesmo o tempo será capaz de mudar.

Jackie recebeu 3 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Atriz (Natalie Portman), Melhor Figurino (Madeline Fontaine), Melhor Trilha Sonora Original (Micachu).

Crítica escrita em parceria por Ana Luíza e Thay.

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