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Crítica: Desventuras em Série

Uma das maiores estreias do mês na Netflix foi Desventuras em Série, seriado baseado na série de livros homônima de Lemony Snicket, heterônimo do autor americano Daniel Handler. Ao longo dos mais de 15 anos em que esteve no mercado, o título conquistou um forte público que encontrou na trama uma fonte inesgotável de entretenimento, referências e teorias. Por isso, quando foi anunciado que a história teve seus direitos adquiridos para ser contadas em formato de série, a aprovação prévia foi praticamente unânime.

Aviso: este texto contém spoilers!

Em treze desafortunados volumes, Desventuras em Série conta a história de Violet, Klaus e Sunny Baudelaire, três irmãos que, após perderem os pais num incêndio, passam a ficar sob a perseguição do pérfido Conde Olaf, um homem que trama roubar a fortuna deixada para eles. Embora sejam curtos, ao todo, os livros oferecem uma trama bem delineada e com bastante desenvolvimento, de forma que podemos acompanhar a evolução das personagens e perceber a complexidade da construção delas ainda que sua jornada seja bastante improvável. Por esse motivo, ter Desventuras em Série contada em episódios organizados de acordo com os livros, proporcionou-lhe a oportunidade de uma adaptação tão fiel a eles quanto poderia ser, sem se tornar monótona.

Com essa premissa nada atraente, o narrador-personagem, Lemony Snicket (Patrick Warburton), um escritor que passa a vida a documentar a trajetória das crianças desde o incêndio que matou seus pais, nos alerta sobre os acontecimentos sombrios da história e nos aconselha com veemência a procurar um entretenimento mais alegre. No entanto, humanos como somos, é difícil seguir este conselho. Uma das características que torna Desventuras, a série, tão memorável, é o fato de ela brincar com nossa curiosidade, nos instigando a fazer o oposto do desejado, o que acaba nos impelindo a desobedecer à ordem com mais avidez e seguir assistindo-a.

Após a introdução, na primeira cena somos apresentados à Violet (Malina Weissman), Klaus (Louis Hynes) e Sunny (Presley Smith) indo até a Praia de Sal, em toda sua glória e inteligência, colocar suas habilidades especiais como inventora, leitor e mordedora – respectivamente – em prática até serem abordados pelo Sr. Poe (K. Todd Freeman), o bancário que cuida dos assuntos dos Baudelaire, e receberem a notícia que coloca a história em movimento. A partir de então, as crianças perdem toda a segurança que conheciam e têm seu futuro posto na mão do Sr. Poe, uma pessoa desatenta que visa apenas cumprir seu trabalho de modo pragmático, sem de fato averiguar se as condições de vida das crianças serão adequadas para elas.

É assim que os três acabam caindo nas mãos do arqui-inimigo, o Conde Olaf (Neil Patrick Harris), uma figura que nunca tivera uma conexão direta com as crianças, mas parece conhecer o contexto em que viviam. De maneira bastante caricata, ele consegue manipular o Sr. Poe para conseguir a guarda dos órfãos – como ele os chama – e não disfarça seu aparente rancor pelas crianças. Muito pelo contrário. Desde o primeiro momento, Olaf abusa dos herdeiros Baudelaire, fazendo-os cumprir tarefas domésticas pesadas em seu “lar” decadente. As tentativas de Violet, Klaus e Sunny de alertar os adultos são mais do que em vão. Sr. Poe não lhes dá ouvidos e alega que Olaf tem o direito de “cria-los” como achar melhor, por estar na posição de tutor. Já a vizinha, Justice Strauss (Joan Cusack), apesar de todo seu conhecimento da lei, é demasiadamente bondosa para enxergar a farsa do Conde. Este, por sua vez, não tem dificuldades em manipulá-la a participar de seu plano abominável de se casar com Violet para ter o controle de sua fortuna, fingindo que o evento fazia parte de sua peça de teatro. A falha desse plano acaba desmascarando-o na frente de todos que duvidaram dos Baudelaire, e eis que a fuga e jogo de caça começa.

Embora as histórias seguintes abordadas pela primeira temporada da série sigam um padrão de acontecimentos (as crianças encontram um novo tutor; o Conde Olaf aparece disfarçado e engana a todos para conseguir se livrar do tutor atual e pegar as crianças de volta; o plano não dá certo e o Conde foge), é importante prestar atenção nas lições essenciais que Desventuras em Série transmite, principalmente às crianças, a respeito do mundo em que vivemos: ninguém está imune a acontecimentos ruins. O mundo pode ser um lugar difícil de viver, às vezes o caráter das pessoas é mais complexo do que imaginamos e a principal virtude delas pode tanto ajudá-las quanto cegá-las. No entanto, no meio dos infortúnios somos capazes de perseverar e encontrar uma motivação para seguir em frente, sem contar as particularidades acrescidas a cada episódio, que avança um pouco mais adentro do mistério envolvendo o incêndio, o Conde Olaf, e a organização secreta a qual pertencia os pais deles.

Sobre isso, é certo dizer que a maior novidade da série foi apostar na história paralela da organização desde o começo, o que não foi abordado nos livros de imediato. Para isso, contamos com a presença de alguns membros da organização trabalhando disfarçados e vigiando de perto os passos do Conde Olaf em sua busca à fortuna dos Baudelaire. A primeira deles é Jacquelyn (Sara Canning) que atua como secretária do Sr. Poe para ficar a par dos assuntos dos Baudelaire. É ela que tenta interceptar Olaf quando ele visita o banco para manipular o Sr. Poe e ficar com a guarda dos irmãos, mas é capturada por seus capangas e amarrada a uma árvore num lugar remoto. Porém, as mulheres de Desventuras em Série são destemidas e preparadas para situações de emergência. Ela se desvencilha da armadilha e contata Gustav (Luke Camilleri), antigo ajudante do Dr. Montgomery (Aasif Mandvi), segundo – e legítimo – tutor dos Baudelaire, para ajudá-la antes de ele ser assassinado pelo Conde Olaf. Além de, na ocasião do assassinato do tio Monty, ser ela que está de vigia na casa dele, pronta para perseguir e confrontar Olaf e recuperar a luneta roubada de Klaus.

Outra aparição que move os acontecimentos da série é a de um casal simplesmente denominado como Mãe (Colbie Smulders) e Pai (Will Arnett), que aparece sendo capturado no final do primeiro episódio e passa o restante da temporada em situação de fuga, enfrentando seus captores em situações aventureiras que envolvem um punhado de lutas e o roubo de um avião. Eles também fazem parte da organização secreta, e passamos a temporada inteira acreditando serem os pais dos Baudelaire que escaparam do incêndio, explorando uma das teorias que acreditam que o casal escapou ileso do incêndio. Contudo, essa teoria é descartada quando é revelado que os filhos que a Mãe e o Pai tanto almejavam reencontrar eram, na verdade, os trigêmeos Quagmire, personagens que são introduzidos apropriadamente no quinto volume dos livros, e – esperamos – na segunda temporada da série.

Entretanto, não é apenas a igualdade entre os sexos e as doses de mistério que se destacam nessa adaptação. Aproveitando a liberdade do serviço de streaming e as possibilidades de interpretação que os próprios livros proporcionam, foi possível diversificar o elenco para aumentar a representatividade de etnias na série por meio dos personagens secundários, porém essenciais no desenvolvimento da série, como o Sr. Poe, o Dr. Montgomery e a tia Josephine (Alfre Woodard). A família do Sr. Poe, por sua vez, encontra mais espaço de atuação na trama do que antes lhe fora dado, especialmente sua esposa, Eleonora Poe (Cleo King), que tem participação ativa como repórter do jornal local, e de forma satírica utiliza a tragédia envolvendo os Baudelaire para criar suas manchetes sensacionalistas, se apresentando mais eficiente do que o próprio marido pelo seu faro investigativo.

O fato de Desventuras em Série já ter sido adaptada para o cinema, em 2004, não influenciou a nova adaptação produzida pela Netflix. O filme dirigido por Brad Silberling e com o roteiro de Robert Gordon apenas utilizou os três primeiros volumes da série como base, de maneira que um único filme fosse independente e tivesse sua própria introdução, desenvolvimento e desfecho, mesmo que este significasse deixar o futuro de Violet, Klaus e Sunny (interpretados no cinema por Emily Browning, Liam Aiken e as gêmeas Kara e Shelby Hoffman) em aberto. Foi uma experiência sem maiores pretensões, e bem-sucedida como uma releitura, porém insatisfatória ao considerar a extensão da trama que a originou, mal chegando a cobrir ¼ do enredo dos livros. Os elementos do filme foram bem pensados de acordo com o tom sombrio da história, e possivelmente serviram de inspiração para a série, que apenas atribuiu alguns toques vibrantes na caracterização dos Baudelaire para contrastá-los com o restante do cenário. Ou seja, as duas formas de adaptação não colidem, mas se complementam. O que é bastante comum em grande parte das histórias atemporais e ricas em conteúdo, com um grande leque de possibilidades.

Como uma grande entusiasta de Desventuras em Série desde o primeiro contato com o livro, sou suspeita para falar da história. A série jamais subestima o seu leitor/espectador, e ao apresentar uma trama protagonizada por crianças que encontram formas de se sobressair nos seus hábitos de invenção, leitura e na sua qualidade física mais marcante, ela incentiva a curiosidade e a imaginação de quem estiver acompanhando também. É equivocado considerar Desventuras em Série como uma história limitada apenas a crianças e jovens, quando Daniel Handler abusou de uma admirável engenhosidade para construir enredos e personagens, pincelando a história com referências literárias, históricas e culturais, e brincando com anagramas e figuras de linguagem – coisas que só os olhos de um adulto mais experiente podem identificar. Pode-se dizer que a intensidade de acontecimentos da série vai aumentando gradualmente, e se a primeira temporada seguiu seu próprio ritmo para introduzir a história dos Baudelaire e traçar seus primeiros passos em busca de respostas e autossuficiência, o que o futuro reserva para ela parece ser apenas mais e mais promissor em termos de desenvolvimento, mas nunca em final feliz.

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