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Call the Midwife além da fronteira: a luta e a esperança das mulheres da África do Sul

Call the Midwife

Desde que Call the Midwife se tornou um programa de prestígio na televisão britânica, garantindo uma audiência cada vez maior dentro do seu país de origem e do resto mundo, o enredo dos seus episódios tem se tornado cada vez mais preciso na hora de abordar questões culturais, sociais e históricas. Há muito a série deixou de ser um programa essencialmente sobre parteiras, mães e bebês – agora, trata primordialmente de uma visão delicada sobre as características humanas de todas as pessoas, celebrando a diversidade que existe no mundo e tratando-a com a naturalidade que deveria ser comum; isto é, se seguirmos o que pregamos e enxergarmos o coração das pessoas antes do seu físico e respeitarmos toda a sua história.

Não é por acaso que as últimas temporadas têm abordado temas mais intensos do que as iniciais. Acompanhando a estabilização dos países após a guerra e a evolução da medicina, os conflitos remanescentes são de natureza política e agora resta conviver com o mundo que se moderniza aos poucos. Há uma maior participação de personagens de outras etnias, vindas de outras lutas, quase se igualando à participação de personagens cujas lutas diárias têm origem social. No entanto, para não se limitar “somente” a isso, Call the Midwife encontrou uma maneira de ir além na abordagem de seus temas principais, e tornou seu especial de Natal de 2016 – um episódio importante em séries britânicas em geral – uma verdadeira lição do que é viver e celebrar a diversidade cultural. O estafe da Nonnatus House cruzou as fronteiras da Inglaterra rumo à África do Sul, numa missão voluntária para auxiliar a Clínica Hope após o falecimento da Madre responsável pelo local.

Sendo a única clínica num raio de milhas, o funcionamento da Clínica Hope é essencial para a comunidade sul-africana que a cerca. Por isso, Sister Julienne (Jenny Aguter), Sister Winifred (Victoria Yeates), Trixie (Helen George), Barbara (Charlotte Ritchie), Phyllis (Linda Bassett), Shelagh (Laura Main), Dr. Turner (Stephen McGann), Fred (Cliff Parisi) e o Reverendo Tom (Jack Ashton) partem para oferecer reforços pelo período de um mês aos funcionários do local. É o início de uma jornada repleta de aprendizados e quebra de paradigmas, que deixa momentaneamente os dramas e dificuldades vividos pelas mulheres de Poplar na década de 60 para dar lugar à dura realidade das mulheres sul-africanas no mesmo período. São histórias muitas vezes dramáticas, pautadas por uma injustiça que traz de volta a memória das atrocidades cometidas pelo ser humano ao longo da História e que precisam mais do que nunca serem lembradas; mas são, ao mesmo tempo, histórias sobre pessoas que não se deixam definir pela tragédia, pela fome ou pela miséria, que traçam jornadas únicas, mesmo que possuam o cenário em comum.

Estamos em 1962, período em que a África do Sul – recém-estabelecida como uma república – encontrava-se sob o governo de Hendrik Frensch Verwoerd, criador e principal responsável por implantar o regime de segregação racial formalizado na década de 50, e que tomou conta do país até meados da década de 90: o apartheid. Com a vitória do Partido Nacional em 1948, a discriminação racial, que já era um problema grave no país, tornou-se a filosofia da minoria branca que detinha o poder nas mãos e era responsável pelas leis que reduziam e negavam direitos básicos a mulheres e homens negros, impedindo-os de viver livremente e com dignidade.

Não é a primeira vez que Call The Midwife aborda o racismo, mas é a primeira vez que o faz em tamanha proporção. Muito diferente de Poplar, onde mulheres negras precisavam enfrentar o preconceito e a discriminação, mas ainda mantinham certa autonomia, às negras sul-africanas era negada toda e qualquer liberdade. Impedidas de trabalhar, de circular por onde bem entendessem e de se relacionar com pessoas de outras etnias – em especial, a branca –, essas mulheres encontravam conforto na família, no casamento e na maternidade – as únicas partes de suas vidas em que elas ainda mantinham certo controle. Numa realidade sem qualquer perspectiva, a maternidade, em especial, se torna uma etapa fundamental na vida dessas mulheres: elas anseiam pela gravidez, anseiam por gerar e criar suas crianças, mesmo em condições tão pouco favoráveis, e não se permitem intimidar pela dura realidade que vivenciam. É uma relação completamente diferente da experienciada pelas mulheres de Poplar, por exemplo, porque o contexto das mulheres sul-africanas é muito diferente do das mulheres inglesas, e entender suas diferenças é fundamental para compreendermos o papel que a maternidade desempenha em suas vidas.

“Crianças são especiais em qualquer lugar do mundo”, diz Dr. Turner ainda nos minutos iniciais do episódio, e elas de fato o são. Mas isso não quer dizer que elas sejam especiais da mesma forma em todo lugar, e é justamente desse ponto que Call The Midwife faz questão de nos lembrar. As crianças sul-africanas são preciosas e especiais, mas não como qualquer outra criança no mundo: elas são o fruto de mulheres que tiveram todos os seus direitos extirpados, e que encontram na maternidade sua própria forma de resistência. Se na década de 60 as mulheres da Inglaterra já conquistavam uma autonomia até então inédita no que diz respeito à reprodução, graças ao surgimento da pílula anticoncepcional, às mulheres sul-africanas sequer restava o poder de escolha. A maternidade exerce um papel fundamental em suas vidas porque gerar e criar uma criança era a única ocupação possível para essas mulheres – um trabalho que elas desempenhavam com uma paixão e um amor surpreendentes. Mesmo em condições tão pouco favoráveis, as crianças sul-africanas eram muito desejadas e suas mães jamais consideravam a opção de não gerá-las.

Não é uma surpresa que esse novo desdobramento do que é ser mãe seja um choque de realidade para todo o estafe da Nonnatus House. Por mais que a fome, a miséria, a segregação racial e a falta de recursos sejam problemas de uma realidade nunca antes vista na série, nada disso impede que as mulheres sul-africanas contem suas histórias e se tornem grandes exemplos de resiliência feminina. Muito se fala sobre a força da mulher que chuta bundas e ri na cara do perigo, mas existe algo muito importante e especial em mulheres que bancam a maternidade em um mundo que as oprime e que ameaça sua sobrevivência e a dos seus de forma tão implacável.

Mas a maternidade não é a solução de todos os problemas, muito pelo contrário. Estamos, afinal de contas, falando de mulheres muito distintas, que, embora estejam inseridas num mesmo ambiente, desejam coisas muito diferentes para si mesmas. Assim, a maternidade assume um papel duplo e também contraditório: o que é a salvação e um símbolo de resistência para muitas, pode se tornar um imenso fardo para outras; o que é a realização para muitas, pode não ser para tantas outras. Ao acompanhar as trajetórias – ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais – de Roza (Sivenkosi Gubangxo) e Constance (Zanele Radau), Call The Midwife nos fornece um vislumbre dos dois lados de uma mesma moeda, e compreender as diferentes nuances que compõem a vida dessas mulheres é o primeiro passo para entendermos que entre a dura realidade que as oprime, silencia e nega seus direitos, e quem são verdadeiramente essas pessoas, existe muito mais do que acredita nossa vã filosofia.

Atenção: o texto contém spoilers! 

Tanto Roza quanto Constance são mulheres que desejam ser mães, mas que encontraram obstáculos para tornar esse sonho realidade: uma, pela dificuldade em conceber; a outra, pelos abortos constantes. Quando as conhecemos, ambas encontram-se em estágios avançados da gravidez – ou, ao menos, assim parece. No entanto, à medida que que a proximidade entre parteiras e pacientes se torna mais profunda, percebemos que suas trajetórias são, na verdade, muito distintas. Celeste é uma mulher que deseja ser mãe, não porque procriar é o único dever da mulher na sociedade em que vive, mas por acreditar genuinamente que esse é o papel que lhe trará maior satisfação na vida. Roza, por outro lado, se satisfaz com a ideia da maternidade, mas possui interesses além. Afastada de seu emprego e proibida de exercer qualquer nova atividade pelo regime segregacionista, ser mãe é a única coisa que a impede de se sentir um mero acessório social, inútil e dispensável. A maternidade se torna um validador determinante em sua vida porque, do contrário, ela seria uma mulher vazia, a quem não restou absolutamente nada pelo que lutar. Não é uma surpresa que, mais tarde, a sombra dessa cobrança traga sérias consequências para sua vida.

É a primeira vez que Call The Midwife apresenta um caso de gravidez psicológica e o fato de trazê-lo justamente no contexto específico das negras sul-africanas na década de 60 não é mera coincidência: a maternidade compulsória, embora seja um problema com o qual lidamos ainda hoje, já era uma realidade há mais de cinquenta anos. Contudo, diferente das mulheres em Poplar, onde a maternidade era uma imposição social, mas que desde o licenciamento de pílulas anticoncepcionais já caminhava para mudanças consideráveis em seu cenário, a opressão sofrida pelas mulheres negras na África do Sul à época era também a lei. Dar continuidade à própria linhagem era seu único papel. Literalmente não havia outra opção. Assim, mediante tudo que fora tirado dela, Roza sentiu a pressão para conceber. Foram dez anos de tentativas frustradas, ela desabafa enquanto acaricia a barriga, e por isso todas as mulheres da sua família estavam dispostas a cuidar muito bem dela e recepcionar aquele bebê com todo o amor e carinho do mundo. A notícia de que sua mente havia lhe pregado uma peça e seu corpo não abrigava bebê algum foi desoladora, tanto para Roza quanto para Trixie e Barbara, que acreditavam terem sido chamadas para assistir um parto como fizeram inúmeras vezes, mas se viram de mãos atadas diante do sofrimento de uma paciente.

Como mulheres vindas de uma sociedade ocidental que, embora opressora, proporcionava mais oportunidades às mulheres, a realidade das sul-africanas as atingiu como um tapa. Roza, Constance e todas aquelas mulheres eram tão cheias de energia e esperança como qualquer outra no mundo, mas desesperadamente limitadas pela cor e pelo sexo. O que não quer dizer que suas histórias sejam definidas pelo cenário opressor no qual estão inseridas, muito pelo contrário. A série constrói seu roteiro com cuidado e trata suas personagens com carinho e respeito, de modo a nos lembrar que a solução dos problemas das pequenas vilas sul-africanas não é implementar avanços ocidentais àquela população, mas ajudar com melhorias necessárias para que aquelas pessoas possam viver bem com os recursos que têm disponíveis dentro de sua própria terra, e respeitar as escolhas que seus pacientes fazem sobre sua saúde de acordo com a própria crença.

As histórias de Roza e Constance, e de todas as pacientes da Clínica Hope, possuem em comum a fome, a miséria, a segregação racial; mas não são histórias contadas apesar da fome, apesar da miséria ou apesar da segregação racial e do preconceito. Call The Midwife entende que cada uma dessas pessoas é única, que elas viram e viveram coisas distintas e que isso influencia a forma como cada uma enxerga o mundo e se apresenta diante dele. As mulheres que conhecemos no episódio são pessoas cheias de sonhos e vontade de viver, que gostam de música, riem, choram, têm medo, amam, dançam e não se deixam abater pelas dificuldades. Por mais essencial que seja compreender o contexto social, político e econômico dessas mulheres, Call The Midwife se atenta ao fato de que esses fatores, embora importantes, não são os mais importantes. A série não busca contar uma história sobre pobreza, fome e dor: é uma história sobre seres humanos, expondo toda a sua humanidade em uma sociedade dilacerada pela opressão branca. Banalidades do cotidiano sul-africano dividem espaço com acontecimentos históricos, imensos, fundamentais; numa complexidade e delicadeza que seriam surpreendentes em qualquer outra produção, mas não em Call The Midwife.

Naturalmente, as dificuldades existem e não são esquecidas pela série, especialmente no que diz respeito à medicina. As condições precárias da Clínica Hope são uma surpresa para todo o estafe da Nonnatus House, que embora possua sua cota de dificuldades em Poplar, conta com privilégios que médicas, enfermeiras e freiras na África do Sul não podem contar. A reação de todos é compreensível justamente por ser, ao mesmo tempo, um choque de realidade e uma quebra imensa de expectativas, mas é também uma oportunidade de aprender e evoluir. Ainda no início do episódio, a médica responsável pela clínica, Dra. Myra Fitzsimmonds (Sinead Cusack), diz ao Dr. Turner que “medicine is never about doing what’s easy, it’s about doing what’s essential” [“a medicina nunca é sobre fazer o que é fácil, e sim o que é essencial”], uma lição que certamente jamais será esquecida.

O que nos leva a uma das mais importantes cenas do especial: o parto de Constance. Depois de ter perdido dois bebês, um ainda no útero e outro momentos após o nascimento, Constance também passa por complicações no parto do terceiro bebê. Trixie a acompanha por horas esperando algum avanço nos estágios do trabalho de parto, mas após avaliação de Sister Julienne, o veredicto é que para aquele bebê nascer são e salvo, seria necessário fazer uma cesariana. Os dois médicos habilitados do local – Dr. Turner e Dra. Myra –, no entanto, não estavam presentes, o que tornava o prospecto de Constance muito sombrio. Cabe a Trixie reunir toda a coragem que tinha dentro de si para realizar a cirurgia, mesmo sendo apenas uma enfermeira. Até então, ela tinha apenas auxiliado no procedimento enquanto em Poplar, mas a urgência da situação requeria que ela confiasse em toda sua experiência para que mãe e filho tivessem um final feliz. Havia duas vidas em jogo, e não foi fácil tomar a decisão, especialmente com o problema do racionamento de água pelo qual a vila estava passando devido à contaminação da sua fonte. É uma cena angustiante, um momento de profunda tensão dentro e fora da tela, mas com um final que não poderia ter sido mais feliz e deixado mais orgulhosas todas as envolvidas.

Nas duas últimas temporadas, Trixie passou por momentos de fraqueza e vulnerabilidade dos quais ela vinha se recuperando gradualmente, e a reconstrução de sua confiança ainda era um processo em andamento. Tanto que ela foi incapaz de dar a notícia da gravidez psicológica de Roza, tamanho o seu desalento. Quando ela decide assumir um papel crucial no parto de Constance, que poderia tanto ter um desfecho maravilhoso quanto imensamente trágico, ela precisa avançar muitos níveis em sua superação, e ela o faz não por si mesma, mas pela fé de dar àquela mãe o bebê que ela tanto esperou. Embora as mulheres sul-africanas se mostrassem alegres e esperançosas na maior parte do tempo, quando a tristeza abatia, o impacto era muito forte, visto a imposição social que reduzia sua liberdade e limitava suas fontes de satisfação pessoal. Não foi à toa que, depois de tantos anos trabalhando naquela comunidade, a própria Dra. Myra tenha perdido a esperança e deixado de acreditar em milagres, de modo que quando ela percebeu que estava doente, praticamente abraçou seu destino sem se permitir uma chance de cura. Foi necessário muita persuasão da parte de Shelagh e Dr. Turner para que ela se permitisse um diagnóstico positivo e a chance de ter futuro longevo. Não apenas ela merecia, como a comunidade também, já que com o falecimento da Madre Felicity, Dr. Myra era o pilar da Clínica Hope e a única chance de o local vingar.

É por isso que no mesmo episódio em que fechamos a mão sobre o peito pela dor de uma perda, também choramos de emoção por um momento de alívio seguido de felicidade. A maior lição de vida que logo cedo aprendemos, mas demoramos a entender, é que nem sempre seremos agraciados com um desfecho feliz, mas isso não nos impede de compartilhar a felicidade dos outros e iniciar o próximo capítulo das nossas vidas inspirados por ela. Não existem saídas fáceis e o episódio não recorre a soluções mirabolantes. Contudo, estamos falando sobre um episódio de Natal, época em que as pessoas parecem mais dispostas a acreditar em milagres do que em qualquer outra; mas são essas mesmas pessoas que esquecem que, na maioria das vezes, os milagres estão justamente nas pequenas coisas, os pequenos milagres do nosso cotidiano, e não em eventos grandiosos, como usualmente acreditamos acontecer. Em sua narração em voice-over, Jenny Lee (Vanessa Redgrave) nos lembra que alguns presentes não têm preço, e essa talvez seja a maior lição que Call The Midwife nos deixa em seu mais recente episódio de Natal. Vivemos num mundo capitalista, movido pelo consumo, e é muito fácil esquecermos que os melhores presentes não são os maiores, os mais caros, aqueles embrulhados no papel mais bonito; mas sim aqueles que, ironicamente, não podemos pagar – os pequenos milagres, os gestos de carinho, momentos que não custam nada, mas ainda são os presentes mais valiosos que podemos ganhar.

Texto escrito em parceria por Ana Luíza e Yuu

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