Arquivo Mensal

Janeiro 2018

LITERATURA

Entre versos e samambaia: o encontro de Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares

Elizabeth Bishop

Em 1951, saía do porto de Nova York um navio cujo destino era a Terra do Fogo, no Chile, e sua primeira parada seria no porto de Santos, em São Paulo. Dentro dele uma mulher, então com 40 anos, afastava-se de seu passado deixando-o na margem às suas costas. No horizonte, ela avistava um respiro em meio às lembranças que ainda ardiam como feridas abertas: a perda de seu pai meses após seu nascimento e, aos 5 anos, o distanciamento da mãe que, por não suportar a ausência do marido, sucumbe à dor e é internada em um manicômio. Órfã, a menina passa a infância em meio aos lares de parentes na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts (EUA), em um deles sofre abusos de um tio, caso que viria a ser relatado apenas anos mais tarde a sua psiquiatra Megan Marshall. Lembranças como essas, mesmo na vida adulta, invadem seu corpo em constantes surtos de eczemas e fortes ataques de asma alternados a episódios de depressão e alcoolismo.

“Que estranha você é, vista de dentro”

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TV

Anne With an E: mais alcance para a imaginação

De autoria da escritora canadense Lucy Maud Montgomery e publicado originalmente em 1908, o livro Anne of Green Gables já recebeu inúmeras versões cinematográficas, mas isso não impediu a Netflix de fazer sua própria versão intitulada de Anne with an E, em 2017 – e que sorte a nossa! A história da órfã Anne Shirley, enviada por engano para a fazenda dos irmãos Matthew e Marilla Cuthbert, cativou gerações de leitores ao redor do mundo desde seu lançamento – a obra já foi traduzida para mais de 20 idiomas além de ter vendido cerca de 50 milhões de cópias – e retorna com outra roupagem por meio do serviço de streaming para encantar novos fãs. Com criação de Moira Walley-Beckett, responsável por alguns episódios de Breaking Bad, a nova Anne veio para ficar.

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CINEMA

Mesa Redonda: os quinze anos de Como Perder Um Homem em 10 Dias

O ano era 2003 e a comédia estrelada por Kate Hudson e Matthew McConaughey, estreava nos cinemas. Como Perder um Homem em 10 Dias estreou no mesmo ano em que acompanhamos a novela Mulheres Apaixonadas, tivemos o lançamento do último filme da trilogia O Senhor dos Anéis e todo mundo cantava Hey Ya! do OutKast e dançava ao som de Crazy in Love, da Beyoncé – não que isso tenha mudado alguma coisa em quinze anos. Muita água rolou de lá pra cá, algumas coisas permaneceram e outras mudaram, principalmente a maneira como consumimos cultura pop e enxergamos as personagens femininas inseridas em suas narrativas. Em uma época em que podemos assistir Big Little Lies, Feud e The Handmaid’s Tale e ficar eufóricas com a maneira como as narrativas sobre mulheres são construídas e conduzidas, como será que reagimos ao revisitar uma comédia romântica de quinze anos atrás?
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LITERATURA

Fronteiras do Universo: o destino de Lyra e outras questões essenciais

Fronteiras do Universo

Quando falamos de consagradas séries fantásticas, é inevitável que alguns nomes tenham algum peso sobre as outras, sobretudo se elas vencem a temporalidade e permanecem atraentes, sempre conquistando uma nova leva de fãs a cada geração. Esse é o caso da trilogia O Senhor dos Anéis, escrita por J. R. R. Tolkien, e da sua contemporânea As Crônicas de Nárnia, escrita por C. S. Lewis, e também da série Harry Potter, de J.K. Rowling, as quais podemos afirmar, sem hesitação, que são alguns dos maiores fenômenos literários que existem. Entretanto, em algum ponto entre Nárnia e o mundo mágico de Harry Potter está a trilogia Fronteiras do Universo (His Dark Materials, no original) escrita por Philip Pullman e publicada entre 1995 e 2000. Embora seja a menos debatida entre as quatro séries citadas, Fronteiras do Universo tem um mérito indiscutível pela ousadia do autor em criar uma trama envolvente sobre uma temática tão controversa que é a questão da moralidade na ciência e na religião, acessível à compreensão e também em vias de ser imortalizada.

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CINEMA LITERATURA

Extraordinário: porque todos nós vencemos o mundo

“Todo mundo deveria ser aplaudido de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo”. Quem disse isso foi Auggie Pullman (Jacob Tremblay), protagonista de Extraordinário, primeiro livro e best-seller infanto-juvenil da escritora norte-americana R.J. Palacio, que ganhou adaptação para o cinema no fim de 2017, com direção de Stephen Chbosky (de As Vantagens de Ser Invisível). Auggie certamente sabe algumas coisas sobre vencer o mundo: ele nasceu com uma síndrome genética cuja principal sequela é uma severa deformidade facial, que lhe rendeu uma extensa coleção de intervenções cirúrgicas no seu currículo de garoto de 11 anos. O que faltava nesse currículo, curiosamente, era algo muito comum na vida da maioria das crianças: a vida escolar. Por causa de seus problemas, os pais de Auggie, Isabel (Julia Roberts) e Nate Pullman (Owen Wilson), optaram por educá-lo em casa e foi assim que ele cresceu, tendo sua mãe como professora e nenhum colega na carteira ao lado. A história começa quando a mãe decide que já está na hora de ele criar asas e enfrentar essa nova fase, e então matricula o garoto em uma escola pela primeira vez, para começar o ensino fundamental II.

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