LITERATURA

No Seu Pescoço, no meu pescoço, nos nossos pescoços

No seu pescoço

No Seu Pescoço, o primeiro livro de contos da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie foi, coincidentemente, o primeiro livro da autora que eu li. Não por falta de vontade, mas por falta de energia para investir na área literária em geral, e — vamos admitir — por aquele medo nosso de cada dia de sair da zona de conforto. Eu tinha medo do desconforto, eu tinha medo de não me acostumar imediatamente a um estilo literário que eu nem sabia qual seria. Era um ponto importante demais para arriscar sem tremer.

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MÚSICA

Reputation: Taylor Swift em curto-circuito

“Aqui jaz a reputação de Taylor Swift”, é o que aparece escrito numa lápide na abertura de “Look What You Made Me Do”, primeiro clipe da era reputation. A música é talvez a pior do novo álbum – alguns vão longe o bastante para declará-la a pior de sua carreira –, mas tem em si a chave para sua nova era, sendo a escolha perfeita para marcar o retorno da artista à vida pública depois do escândalo envolvendo o casal Kardashian-West e a onda de ataques na internet, que tiveram como consequência um ano em que Taylor Swift basicamente sumiu. Com letra caricata e sonoridade estranha, “Look What You Made Me Do”, tanto música quanto clipe, carrega duas mensagens importantes.

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TV

Supergirl: As palavras têm poder

Um dos argumentos mais comuns usados por fanboys machistas, racistas e homofóbicos de quadrinhos para defender sua posição é o de fidelidade à fonte e coerência dentro do universo. Thor mulher? Fãs machistas de quadrinhos vêm gritar que o Thor sempre foi homem e por isso precisa continuar sendo. Homem-Aranha negro? Fãs racistas de quadrinhos vêm gritar que o Homem-Aranha sempre foi branco e por isso precisa continuar sendo. E, apesar do universo de adaptações de quadrinhos estar se tornando mais diverso em seus personagens e diretores – Mulher-Maravilha (dirigido por Patty Jenkins e lançado em 2017), Pantera Negra (dirigido por Ryan Coogler, com lançamento previsto para 2018), Thor: Ragnarok (dirigido por Taika Waititi e também lançado em 2017) são exemplos marcantes –, não é sempre possível contar com isso: a Sony, por exemplo, tem até um documento garantindo que o personagem Homem-Aranha será sempre branco e heterossexual nas adaptações cinematográficas, enquanto a adaptação do Hulu dos quadrinhos The Runaways colocou uma atriz magra para fazer o papel da personagem gorda Gert (mostrando que negar o cânone do texto-fonte é considerado irrelevante se é para encaixar uma personagem nos padrões estéticos da televisão).

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CINEMA LITERATURA

A História de Mildred Pierce: a subversão na literatura policial

Mildred Pierce

Nos anos 40, não tinha para ninguém. Considerado a galinha dos ovos de ouro do cinema, James M. Cain forneceu algumas das histórias que se tornariam clássicos do gênero noir, como O Destino Bate à Sua Porta e Pacto de Sangue. Ao contrário de Raymond Chandler, outro grande nome da literatura policial, Cain estava interessado em algo que nem sempre era muito focado nesse gênero: as mulheres. Ao contrário de seus conterrâneos, James colocou as mulheres no centro da literatura policial e subverteu a maior lógica do noir: o assassinato. Na obra de Cain, o assassinato ocupa segundo plano; o importante mesmo é o contexto em que suas personagens estão inseridas. Se você entender o contexto, poderá decifrar o que ele quer nos dizer.

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TV

O humor possível: The Good Place

São muitas as perguntas sobre a morte. Existe vida após a morte? Céu? Inferno? Purgatório? Para onde vão as almas das pessoas boas? Almas existem? Quem é que julga as pessoas? Deus? Você acredita em Deus? Ou será que a gente apenas deixa de existir? Você acredita em reencarnação?

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CINEMA

Como Nossos Pais: para todas as mulheres exaustas

“Como Nossos Pais”, a música, foi lançada pela primeira vez em 1976, no álbum Alucinação, de Belchior. No mesmo ano, a canção foi regravada por Elis Regina, responsável pela versão que toca até hoje no inconsciente coletivo dos brasileiros. 1976 foi há mais de 40 anos, mas ainda é uma referência mais do que adequada para estar no título e na trilha sonora de Como Nossos Pais, filme de Laís Bodanzky sobre uma família branca da classe média paulistana – e, principalmente, suas mulheres – no ano de 2017.

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