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Pérolas no Mar: só amor não é suficiente

Das injustiças das premiações do cinema, certamente Pérolas no Mar (后来的我们, no original), filme de 2018 da diretora chinesa Rene Liu, é um grande exemplo. Não porque um filme precise de uma estatueta para ser bom, mas porque esse reconhecimento é capaz de fazer com que mais pessoas o assistam. Existem filmes que têm que ser vistos ao menos uma vez na vida. Tive a sorte de, numa madrugada de sábado para domingo, me deparar com a miniatura desse filme entre vários outros. A capa com protagonistas chineses talvez explique a injustiça, se lembrarmos do monopólio estadunidense das premiações, mas isso é história para outra hora. A história que interessa aqui é outra. E é triste. E linda.

Pérolas no Mar é um filme real, que nos tira da zona de conforto da ideia de que o amor romântico basta. Porque ele não basta, ao contrário do que tentam nos enfiar na cabeça. Em um enredo delicado e forte, dois jovens, Xiao-xiao (Zhou Dongyu) e Jianqing (Jing Boran), se encontram em um trem rumo às suas casas no interior da China para as comemorações do ano novo chinês. Nesse trajeto, iniciam uma amizade cujo cenário é lindamente enquadrado pelo trabalho de fotografia do filme — impecável, como todo o resto. Da amizade, já de volta a Pequim, o relacionamento toma outros rumos em uma cena maravilhosa em que a primeira transa se mistura com a realidade da vizinhança: precária, sem espaço, diversa. E colorida.

As cores são um ponto importante do filme. Anos depois do rompimento, os protagonistas se encontram e se propõem um diálogo sobre o que poderiam ter sido, sobre os “e se?” que nos acompanham pela vida. As cenas do passado são coloridas, enquanto as cenas do reencontro são em preto e branco. Essa talvez seja uma das muitas mensagens do filme. Perdemos o brilho com o passar da vida? Nos perdemos tanto na tentativa de virarmos adultos que não nos diferenciamos mais, a ponto de ficarmos no mesmo tom? Viramos, por fim, homogêneos? Até que ponto somos engolidos (e desbotados) pelas pressões que nos atravessam — dinheiro, família, trabalho? São essas pressões que contribuem para que o relacionamento dos protagonistas não continue.

Se, no início do namoro, os personagens conseguem manter o brilho e os sonhos diante das dificuldades, são elas que os afastam progressivamente até o ponto em que Xiao-xiao vai embora do quarto em que viviam. “Deixei lámen para você” é a última frase que ela diz antes de decidir partir. “Depois que terminarmos, não devemos mais nos ver” é a última frase antes de anunciar a partida. São cenas que mostram que há carinho e há amor, mas, assim como na vida real, esses sentimentos não bastam. Não bastam porque não são capazes de sustentar uma relação quando tudo ao redor parece desabar.

A imagem contém duas cenas do filme Pérolas no Mar

Talvez na tentativa de uma última conversa, Jianqing corre atrás de Xiao Xiao até o metrô. E, em uma cena simbólica, separados pela porta do vagão, os dois se olham em silêncio pela última vez durante a juventude. Essa cena é retomada quando se reencontram e ela afirma que se, naquele dia, ele tivesse tido coragem de entrar no trem, eles teriam ficado juntos para sempre. E a partir daí especulam alguns aspectos da vida que teriam levado juntos:  E se…?

Desconfio tanto da certeza quanto da eternidade, mas acredito no poder e na necessidade de nossas escolhas. A escolha de Xiao Xiao de ir embora, e a de Jianqing de não entrar no trem. A escolha de ambos de ficarem em silêncio esperando a porta se fechar. Se compreendemos que o amor não dá conta de tudo, a escolha de deixar ir, às vezes, para caminhos que não se cruzam, é também uma forma de amar. Certamente, uma forma difícil, mais arriscada e menos confortável que insistir na permanência, mas que demonstra respeito pelo que foi vivido e por futuros que podem não nos caber: “no fim temos tudo, só não temos um ao outro”.

No final do filme, Xiao-xiao recebe uma carta do pai de Jianqing em uma das cenas mais bonitas do filme. “É muito difícil passar uma vida inteira juntos. Pode ser preciso envelhecer para entender tal sentimento. Como pai, não me importa com quem você escolhe viver ou se vai ter sucesso ou não. Eu só espero que consiga levar a vida que quiser e permaneça saudável. (…) Xiao-xiao, cuide-se. Volte sempre que se cansar.”

Enxergar a ausência do outro como consequência das nossas escolhas abre espaço para ressignificar sentimentos e relações. Se quando a porta do metrô se fechou, não havia mais espaço para Xiao Xiao na vida de Jianqing e vice e versa, há uma fresta que se abre quando reconhecem que podem ocupar outras formas de afeto e de amor tão bonitas quanto aquelas que um dia deixaram pra trás. Assim como deixar ir pode significar amor, abrir trilhas para descobrir uma nova relação é, também, afrouxar o molde para que o amor busque outras formas. Pensar no “e se?” não apenas como o que poderíamos ter sido se as escolhas fossem diferentes, mas colocar a pergunta em outro tempo verbal: o que poderemos ser?

Júlia Somberg é Bacharel em Direito e estudante de Psicologia pela UFMG. Encontra na música, cinema, literatura e fotografia forma diversas de enxergar as maneiras de ser e estar no mundo. 

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4 comentários

  1. A resenha relata o que o filme quiz nos passar que o sentimento se apaga com o tempo as pessoas podem ser feitas uma para a outra mais nossas atitudes e ações pode colocar tudo a perder . Gostei da forma que foi descrita a crítica pois as pessoas passam pela nossa vida por um motivo.