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A história de Elisa e Marcela, por Isabel Coixet

O casamento entre pessoas do mesmo gênero foi liberado na Espanha apenas em 2005. No entanto, mais de cem anos atrás, a Igreja Católica realizava em Corunha a união entre Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga sem saber.

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Tudo começou em meados da década de 1880 quando Marcela ingressou na Escola de Formação de Professores, onde Elisa já havia se formado e trabalhava na época. Logo que se conheceram se apaixonaram; a amizade ia tão além do socialmente aceitável para a época que o pai de Marcela, capitão do Exército, mandou a filha para Madrid com a desculpa de que lá ela teria uma formação melhor do que na Galícia. O reencontro aconteceu meses depois quando ambas já lecionavam em pequenas aldeias da Galícia, resultando em Elisa se mudando para onde Marcela morava. Em 1889, Marcela foi transferida para Dumbría e concordaram que se veriam regularmente e nunca se separariam de novo.

Em 2019, a Netflix lança em sua plataforma o filme Elisa y Marcela, longa escrito e dirigido pela espanhola Isabel Coixet, prometendo contar a história dessas duas mulheres que foram esquecidas com o passar das décadas. Inspirada pelo livro sobre o casal do escritor galego Narciso de Gabriel e por uma viagem feita à Galícia, Isabel demorou dez anos até encontrar uma equipe que aceitasse tirar o seu filme do papel e, com a ajuda do escritor na produção do roteiro, conseguiu lançar o longa no Festival Internacional de Cinema de Berlim e em alguns cinemas da Espanha antes de chegar na plataforma de streaming.

A história de Elisa Sánchez e Marcela Gracia é, na verdade, um grande mistério. Quanto mais se busca sobre, mais versões a história recebe — até hoje o escritor Narciso de Gabriel, apontado como o grande biógrafo dessa história, encontra novos fatos sobre a vida dessas mulheres. Para compor o filme, Isabel Coixet, em parceria com Narciso, desenvolveu uma história que não só poderia ser real como também uma história que mereceria ser contada: a história de um amor entre duas mulheres que só querem ser felizes juntas.

Em 1901, na província de Corunha, Marcela (Greta Fernández) aparece sem a sua melhor amiga, Elisa (Natalia de Molina), e os vizinhos desconfiam. Em seu lugar, um homem com feições estranhamente parecidas com a última surge e acompanha Marcela em um passeio no que se descobriria mais tarde ter sido o dia do “casamento sem homem”. A história que contaram na aldeia foi a de que Elisa não aprovou o romance entre Marcela e Mario Sánchez, seu primo, e foi embora para não ter que testemunhar o casamento. Então, algumas semanas depois, Mario Sánchez aparece na Paróquia de São José e conta ao padre que cresceu em Londres com um pai ateu que nunca o batizou e agora chegava à Espanha com o sonho de se casar com Marcela o mais rápido possível, pois ela estava grávida de dois meses de um filho seu. O padre, chocado pela história, batizou Mario e em 8 de junho de 1901 realizou o casamento entre Mario Sánchez e Marcela Gracia Ibeas assim que o sol nasceu na presença de poucas testemunhas. O que se descobriu depois é que Mario Sánchez era de fato primo de Elisa, mas havia morrido anos atrás em um naufrágio.

Elisa y Marcela retrata os anos em que as duas mulheres se reencontraram e precisam lidar com a desaprovação dos seus vizinhos, que desconfiavam da amizade tão íntima entre as duas. O casamento, então, é colocado como uma solução para que o casal finalmente tenha uma vida “normal”. Para isso acontecer, Elisa foi embora e retornou com roupas masculinas, o cabelo cortado, a voz engrossada, a identidade do falecido primo e uma história completa de vida para contar.

Elisa y Marcela

Não demorou muito até a vizinhança desconfiar do casal e chamar os jornais locais para denunciar a união, o “casamento sem homem”. Como é possível? A história repercutiu não apenas na Galícia, mas em toda a Espanha, chegando até a França e Portugal. Após a repercussão, o casal perdeu os respectivos empregos e foram excomungadas da Igreja Católica — não sem antes o padre ordenar um exame médico em Mario/Elisa. Farsa descoberta, a Guarda Civil espanhola então emite um mandado de prisão por falsificação de documentos e ideológica para Elisa, e Marcela, como cúmplice; as duas, então, fogem de Dumbría para não serem presas.

O que se sabe é que o casal buscou refúgio em Portugal, na cidade de Porto. Lá, Elisa retomou o papel de homem e passou a se chamar Pepe, porém dois meses depois a polícia espanhola descobre o seu paradeiro e exige a extradição do casal de Portugal para que elas possam ser julgadas pelos seus crimes. Elisa e Marcela são presas em Portugal e é na prisão que Marcela dá à luz a uma menina — a gravidez é outro grande mistério na história do casal a ponto dos jornais venderem a história de uma gravidez espontânea — no dia 6 de janeiro de 1902. Treze dias depois, elas são liberadas por Portugal para voltarem para a Espanha, mas conseguem fugir para a Argentina.

No filme, ao decidirem se casar, Marcela tem um encontro com um homem da aldeia, como se a gravidez fosse necessária para que a união fosse mais acreditável, para tirar todas as possíveis dúvidas da comunidade. Narciso de Gabriel diz que a filha de Marcela é peça fundamental para a história do casal, existindo duas possibilidades: em algumas entrevistas para a imprensa portuguesa (e teoria sustentada tanto pelos descendentes de Elisa e de Marcela), Elisa diz que aceitou o casamento e se vestiu de homem para evitar o desgraçamento da amiga, que ficou grávida fora do casamento; a segunda possibilidade (essa, favorita de Narciso) é a mesma do filme, que tudo não passou de uma estratégia para que elas pudesse chegar ao final feliz.

Não se tem muitos detalhes da história de Elisa e Marcela na Argentina, o que se sabe foi descoberto há pouco tempo. Na América Latina, Elisa adotou o nome de María e se casou, em 1903, com um homem 24 anos mais velho que ela, e levou Marcela, agora se chamando Carmen, e sua filha para morar com ela e seu esposo com a invenção de que eram irmãs. O casamento não durou muito, uma vez que Elisa se recusava a consumar a união. Após o marido tomar conhecimento das verdadeiras identidades de María e Carmen, ele tentou anular o casamento, mas após outro exame médico em Elisa, foi confirmado que ela era mulher e o casamento era totalmente válido.

Elisa y Marcela

A história de Elisa Sánchez Loriga e Marcela Gracia Ibeas desaparece dos registros nesse momento — um jornal mexicano, em 1909, publicou uma notícia de que Elisa havia se suicidado, entretanto não há nenhuma confirmação sobre o acontecimento. Apesar do sumiço do casal, o filme de Isabel Coixet decidiu dar um final feliz para a saga de Elisa e Marcela: no filme, Marcela deixa a filha em Portugal e, anos depois, elas se reencontram e a mãe conta a sua história à filha. É nesse momento que também descobrimos que, no fim, elas conseguiram uma viver juntas e felizes.

Em Elisa y Marcela, Isabel Coixet decide não se ater aos fatos da história das duas mulheres, tomando a liberdade de caminhar pelas possibilidades de suas trajetórias — como a gravidez de Marcela e o reencontro com a filha já adulta. A diretora também decidiu dar um final que se distancia do que estamos acostumados a ver em produções LGBT+, onde o trágico é o esperado; ao contrário disso, Elisa e Marcela encontram um paraíso particular para se amarem livremente sem julgamentos da sociedade do século XX. Apesar do filme ter sido bombardeado com críticas negativas e até terem pedido pela proibição do mesmo na Alemanha, Elisa y Marcela é uma história que se mantém fiel ao real e que mostra o amor de duas mulheres no meio de uma sociedade conservadora.

Até o lançamento de Elisa y Marcela não havia pistas do desfecho da vida do casal ou o que acontecera com a filha de Marcela. Mas após a repercussão da produção da Netflix, Norma Graciela Moure descobriu que é, na verdade, bisneta de Marcela Gracia Ibeas. Com essa descoberta talvez seja possível desvendar um pouco mais sobre o que aconteceu com o casal na Argentina e com seus descendentes. Hoje, Elisa e Marcela têm uma rua com seus nomes em Corunha, província onde moravam e mesmo depois de terem sido excomungadas, o casamento nunca foi anulado, sendo ele conhecido como o primeiro, e único, casamento entre o mesmo gênero realizado pela Igreja Católica.

Elisa y Marcela

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4 comentários

  1. Melhor resenha impossível! Texto maravilhoso, excelente trabalho de pesquisa acerca das informações sobre a história real do casal, muito obrigada por isso ♡