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Crítica: Atômica

O Muro de Berlim (Berliner Mauer, no original em alemão) começou a ser construído na madrugada do dia 13 de agosto de 1961, com o intuito de dividir a capital alemã em dois polos: a República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental, socialista, liderada pela então União Soviética, responsável pela criação do muro; e a República Federal da Alemanha, ou Alemanha Ocidental, capitalista, encabeçada pelos Estados Unidos. Cerca de 190 ruas da cidade foram cortadas pelo muro, que se estendia por mais de 150 km de concreto e arame farpado, e separava não apenas socialistas e capitalistas, mas amigos, famílias, uma nação inteira.

Somente em 1989, quase trinta anos após sua construção, e com o iminente fim da Guerra Fria, é que a barreira foi destruída, marcando uma geração inteira, que assistiu de perto a divisão política, ideológica e sociocultural imposta pelas duas grandes potências mundiais à época. Não por acaso, muitos foram os que encontraram na arte uma forma de expressão e resistência, criando narrativas vinculadas a esse contexto. Bob Dylan, David Bowie, Sting, Nena, Beatles, Scorpions, Genesis — todos escreveram sobre a Guerra Fria, ou as guerras da Coreia e do Vietnam, e isso apenas na música. Só quase três décadas mais tarde essas pessoas tiveram a oportunidade de assistir a conclusão desse capítulo específico da História, e se a dor e a guerra foram transformados em música, cinema e poesia, a queda do muro também.

Não estávamos lá para ver nada disso, mas basta abrirmos um livro de História ou termos contato com a produção artística da época para entendermos mais profundamente o período que se seguiu à Segunda Grande Guerra. Até hoje, Berlim carrega as marcas de uma guerra velada, o que ajuda a explicar por que, quase vinte e oito anos depois da queda do muro, as diferenças entre o que antes eram os lados oriental e ocidental de um mesmo país continuam a existir.

Mesmo na ficção, muitas são as histórias que até hoje centralizam o conflito, seja de maneira mais ampla ou focando acontecimentos específicos — como a Crise dos Mísseis —, mas a maior parte delas continua a ser narrada por uma voz masculina — o universal feito por homens e para homens. Conhecemos histórias de espiões e heróis de guerra e acompanhamos suas aventuras, mas sobre as mulheres há apenas o silêncio. Sabemos que elas estiveram lá, e este ano vimos uma mulher sozinha, com seu escudo e espada, enfrentar um exército inteiro no auge da Primeira Guerra Mundial, mas ainda é muito pouco diante de um histórico tão grande de ausências. São mudanças que ocorrem lenta e progressivamente — e se a ficção é uma maneira de sinalizar que as coisas estão mudando, Atômica é uma parte intrínseca desse movimento.

Atômica

Em sua sequência inicial, Atômica mostra um homem que foge pelas ruas de Berlim. Não sabemos quem ele é, tampouco o motivo de tanta correria, mas, naturalmente, há algo errado ali. Mais tarde, descobrimos que trata-se do espião James Gasciogne (Sam Hargrave), que é assassinado após ser descoberto, numa época em que espiões eram comuns em ambos os lados. Lorraine Broughton (Charlize Theron) é uma dessas espiãs e entra em cena após o assassinato de seu colega e antigo romance: primeiro, para cuidar das burocracias da morte, liberar o corpo e levá-lo em segurança para a Inglaterra; depois, para recuperar uma lista contendo o nome de inúmeros agentes duplos — entre eles, o seu — que pode causar estrago nas mãos erradas. Quando a conhecemos, no entanto, Lorraine já não está mais em sua missão, mas narra o que aconteceu aos seus superiores, em uma sala fechada, de onde é observada por um espelho. Ali, ela tenta colocar em palavras os momentos de tensão pelos quais passou desde a notícia da morte de James até o momento em que embarcou rumo à capital alemã e tudo começou a, de fato, acontecer.

Baseado na graphic novel de Antony Johnston e Sam Hart, The Coldest City (A Cidade Mais Fria, em português) Atômica se utiliza de um grande clichê dos filmes de espionagem — no caso, a eterna disputa entre MI6 e KGB — para desenvolver uma narrativa que não é tanto sobre mistérios, identidades secretas e uma teia de mentiras quanto é sobre… Lorraine. O que não é um fato isolado: enquanto o feminismo, para o bem ou para o mal, se torna cada vez mais comercial, mais produções se dedicam a representar o que é ser mulher em diferentes espaços e contextos. Parece o momento perfeito para tirar do papel a história de uma mulher que sai de seu mundo comum para salvar a própria nação em um período de perigo e instabilidade política. Lorraine brinca com a natureza de seu trabalho, com a possibilidade de tomar chá com a Rainha Elizabeth II, caso seja bem-sucedida em sua missão, mas diferente de outras personagens, ela não é construída para ser uma mulher unidimensional. Sua personalidade possui nuances muito distintas, que vêm à tona de diferentes maneiras, mesmo que de forma sutil, e não a restringem a ser muito boa naquilo que faz. Lorraine é uma excelente espiã, mas não apenas isso. Ela também não é uma mulher em busca de vingança, aliados, incertezas, vulnerabilidade, romances, festas e luzes neon que brilham fervorosamente na madrugada sombria de Berlim, mas tudo isso existe em sua trajetória, porque essas ainda são experiências essencialmente humanas. Lorraine é uma heroína, mas é, antes de mais nada, humana, e tenta equilibrar suas diferentes facetas enquanto tenta, também, salvar o dia.

Para além das cenas de luta, valorizadas em planos sequências que às vezes chegam a ter 15 minutos de duração — característica da direção de David Leitch, que passou anos trabalhando como diretor de dublês, até começar a dirigir os próprios filmes —, Atômica também olha muito de perto para a pessoa Lorraine Broughton e menos para os papéis isolados que ela desempenha ao longo da narrativa. Todos fazem parte de um todo, e é esse todo que importa aqui.

Não é um olhar exatamente novo, mas que parte, principalmente, da própria Charlize, mulher e feminista, que foi testemunha desde muito cedo da violência de gênero que ganhava espaço dentro de sua própria casa: na infância, ela assistiu a mãe ser agredida fisicamente pelo pai, e ela mesma fora agredida verbalmente por ele. Assim, ela se preocupa não apenas em contar histórias de mulheres fisicamente habilidosas sob um olhar em que o feminino é reduzido a isso mesmo, mas de pessoas complexas, que podem ser, literalmente, o que quiserem. Ela própria já foi muitas pessoas, da moça doente que encontra um grande amor, até serial killer, papel que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz em 2004, mas ainda há espaços a serem preenchidos, histórias a serem contadas, e a atriz tem plena consciência disso. A maior parte dos projetos com as quais tem estado envolvida, seja como atriz, produtora ou ambos, demonstram o cuidado e a coerência de seu discurso.

Na San Diego Comic-Con deste ano, Charlize contou por que era importante fazer com que Atômica fosse um filme tão forte quanto pudesse ser: as pessoas deixariam de ter um motivo para dizer que garotas não podem ser espiãs ou lutar ou serem perigosas, e estar em ambientes que, até então, eram tidos como estritamente masculinos. Ela utiliza o exemplo de James Bond — possivelmente o agente do MI6 mais famoso da ficção — de modo a fazer um paralelo entre os dois, e conclui que não precisa ser o novo 007 para contar a história de uma espiã igualmente letal. Lorraine Broughton é sua forma de dizer que nós podemos, e tanto podemos que não é preciso ser ninguém além de nós mesmas. É uma mensagem poderosa, que olha a existência feminina sob uma perspectiva que também reconhece nossas individualidades como algo válido. Não precisamos ser ou fazer como os homens, mas encontrar nosso próprio modo de preencher meios em busca de um mesmo fim — como uma garota.

No caso de Lorraine, isso significa utilizar aquilo que, literalmente, encontra-se ao alcance das mãos: sapatos de salto são transformados em armas, estantes são empurradas e cordas viram uma armadilha que puxa, prende e joga seus adversários para longe. Com este último, Lorraine se transforma na Mulher-Maravilha de seu próprio tempo, uma heroína em busca de justiça que luta ao som de David Bowie, Queen, New Order, Nena e The Clash. Somos literalmente transportados para a década de 80, de onde, entre luzes que brilham demais e pessoas que nunca são quem acreditamos ser, dificilmente desejaremos sair. “As luzes são muito fortes, mas elas jamais me cegam”, diz Taylor Swift em seu álbum que, ironicamente, se chama 1989, mesmo ano em que Atômica é ambientado. Na música, Swift se refere às luzes de Nova York, mas não é preciso ir muito longe para que a referência sirva muito bem, obrigada, à Berlim do mesmo período.

Atômica reconstrói o clima de instabilidade e transgressão de uma cidade que fervilhava de expectativa pelo fim da guerra, mas que permanecia dividida por um imenso muro de concreto, onde pessoas usavam calça jeans de um lado com naturalidade, enquanto, do outro, tê-las era um artigo de luxo. David Percival (James McAvoy) é quem, inicialmente, apresenta o submundo de Berlim, mas logo Lorraine passa a explorá-lo por conta própria, ganhando maior autonomia. As mudanças entre lado Ocidental e Oriental são marcadas por pichações coloridas na tela, que remetem às pichações e grafites feitos no próprio Muro de Berlim, mas na prática são um artifício desnecessário quando as diferenças entre um extremo e outro são tão perceptíveis. O cinza das ruas contrasta com a explosão de cores — principalmente o azul, o vermelho e o branco — da vida noturna, como um lembrete de que, embora os tempos sejam difíceis, a tragédia coexiste com a música, e a arte, e roupas bonitas demais. Há uma identidade ali, tão marcante e estilosa quanto a própria década de 80; as músicas e as cores jamais parecem não fazer sentido e lutar ao som de música pop parece a coisa mais natural do mundo. É uma fórmula que dá certo, onde nada parece fora de lugar, e que torna particularmente simples a tarefa de transporta-se para aquele mundo tão, tão distante, mas nem tão distante assim (menos de 30 anos separam 2017 e 1989, afinal).  

Atenção: este texto contém spoilers!

É em um dos passeios pela vida noturna de Berlim que Lorraine conhece Delphine Lasalle (Sofia Boutella), uma agente secreta francesa com quem se envolve romanticamente. Ambas se conhecem em um bar, quando Delphine, ao observar Lorraine ser abordada por um homem, toma a iniciativa e finge ser uma velha amiga. Lorraine não precisava ser salva, mas permite sê-lo, numa atitude que diz muito sobre o breve relacionamento que se desenvolve entre as duas. Antes de ir para Berlim, Lorraine ouve que não deve confiar em ninguém, o que parece óbvio, especialmente quando consideramos sua profissão, e ela de fato não confia (até mesmo Percival, a quem é atribuída a tarefa de lhe guiar durante a missão, não ganha sua confiança). Mas, uma vez ao lado de Delphine, ela tem a chance de viver a experiência de ter alguém em quem confiar e ser verdadeiramente vulnerável, num cenário que rejeita majoritariamente esse traço em sua personalidade. Atômica permite que Lorraine e Delphine dispam suas máscaras e sejam apenas humanas, em uma entrega visceral e urgente, que não se traduz apenas em sexo, mas numa troca mútua de carinho, atenção e angústias. Para o resto do mundo, elas continuam a ser mulheres implacáveis, destemidas e letais, mas ao lado uma da outra, elas admitem ter medo, admitem não saber muito bem o que fazer para resolver a confusão na qual se meteram ou que não fazem a menor ideia de onde a lista pode estar. 

Sentimentos, amor, dúvidas e erros não são tratados como fraquezas pelo roteiro do filme, que mais uma vez demonstra quão cheia de nuances suas personagens podem ser. Atômica subverte a ideia tão antiga quanto o mundo de que mulheres são criaturas traiçoeiras, mesquinhas e falsas, nas quais jamais podemos confinar, destacando justamente o contrário: o inimigo é outro. Assim, não é apenas a atração sexual que aproxima Lorraine de Delphine, ainda que esse seja um fator importante, mas o fato de que ambas estão completamente sozinhas, até o momento em que não estão mais — exatamente quando se encontram. A ligação entre elas acontece de forma orgânica e o sentimento de compreensão que nasce entre as duas, e que navega numa via de mão dupla, não é apenas muito novo para elas, como extremamente precioso. Depois de passar a vida inteira sendo qualquer pessoa, exceto elas mesmas, não é uma surpresa que ambas encontrem a chance de explorar essa parcela de suas vidas ao lado de outra mulher que vive exatamente o mesmo contexto. 

Atômica

Ao trazer duas mulheres explorando abertamente a própria sexualidade, Atômica também fornece um olhar bastante honesto sobre a experiência de existir como mulher em uma sociedade que não nos enxerga como sujeito. É uma mudança perceptível de abordagem, que mostra que também somos seres sexuais, que não dependem da presença de um homem, menos ainda que o prazer está necessariamente atrelado a um pênis. Lorraine e Delphine são mulheres, bissexuais, que encontram prazer, carinho e companheirismo uma na outra. Por muito tempo, bissexuais foram confinados ao estereótipo vazio de pessoas indecisas, promíscuas ou que só estavam vivendo uma fase, uma imagem que subverte-se à medida que novas representações ganham espaço no cinema, na televisão e na literatura. Segundo a GLADD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation), em 2016 houve um aumento nas representações positivas de personagens bissexuais, que tornaram-se mais complexos e distanciaram-se dos estereótipos enraizados socialmente — o que, mais uma vez, indica que o mundo está mudando. O que não significa que a questão está resolvida: bissexuais continuam a ser diagnosticados com depressão, ansiedade e transtornos mentais com mais frequência do que heterossexuais, gays e lésbicas, além de terem mais chances de viverem relacionamentos conturbados.

No caso de Lorraine e Delphine, mesmo o fato de manterem sua intimidade no âmbito privado não significa que estejam livres de quaisquer perigos. Ainda que de maneiras distintas, ambas experienciam a dor de serem quem são, levando-as de volta ao lugar sombrio em que, para bissexuais, lésbicas e gays não há a possibilidade de um final feliz. Bury your gays (ou enterrem seus gays, em tradução livre) foi a expressão criada para designar o tropo de personagens homossexuais que, por algum motivo, não chegam vivos ao fim da narrativa. De certa forma, Atômica se apropria e nega esse o tropo: o relacionamento entre Lorraine e Delphine é um dos pontos altos da narrativa, embora o seu fim ainda seja trágico, com a morte de Delphine, que serve principalmente para motivar Lorraine em sua jornada. Lorraine, é claro, vem de dois relacionamentos — o primeiro, com James; depois, com Delphine — e ambos terminam da mesma forma trágica. É uma consequência de trabalhar como eles trabalham, com o que eles trabalham, mas há uma diferença perceptível no modo como as mortes são tratadas. Tanto James quanto Delphine morrem vestindo roupas íntimas, mas somente ele está coberto, e morre com um tiro na cabeça, enquanto ela é enforcada usando apenas sua lingerie, imediatamente transformada em sexo frágil, o feminino como submisso. O fato de ser vingada por outra mulher não anula a realidade inescapável, que é a de que ela está morta, e continuaria assim independente do que acontecesse.

Atômica tenta, às vezes demais, subverter os clichês que cerceiam o gênero, mas é justamente ao fazê-lo que o filme cai nas mesmas armadilhas que tenta, com tanto afinco, desviar. É fácil lê-lo como um filme problemático porque, de fato, há a sexualização da figura feminina e as saídas escolhidas pelo roteiro nem sempre fazem muito sentido. Mas ainda é o filme que nos deu a chance de nos enxergarmos como heroínas, como mulheres que lutam, são sexuais, humanas e vulneráveis, donas de suas próprias vidas e que podem ser o que quiserem. Longe de ser perfeito, Atômica erra — e muito —, mas sua mensagem final continua poderosa: nós podemos. Em determinado momento, Percival, incomodado com a interferência de Lorraine em seus planos, diz que mulheres só servem para incomodar. Ele fala sobre a personagem, mas poderia ser qualquer homem falando sobre qualquer mulher. Em uma sociedade que não nos enxerga como sujeitos, levantar a voz e questionar o status quo significa ser um incômodo. Em seu slogan de divulgação, Atômica diz que Lorraine era a heroína que estávamos precisando. Ela não é a única, mas talvez nunca tenhamos precisado tanto desse tipo de representação.

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4 comentários

  1. As análises e criticas, em sua maioria, se limitam às cenas de ação, trilha sonora, fotografia..A análise do ser Lorraine, com seus poucos sorrisos, olhar vigilante, olhar blasé, ficaram para poucos. Por trás de cada um, seus medos, seus dramas, seu eu.. Quando encontramos alguém em quem confiar e se entregar, corpo e alma, acho ser um dos momentos mais sublimes de um ser humano, é um oásis neste deserto. O mundo é movido de segredos? Aplausos mais uma vez para sua análise. Maravilhosa!

  2. Achei as cenas de afeto visualmente lindas, lindas! Para alguns dizem voltadas para o publico masculino!? Bem, eu, pessoalmente amei! Sexy sem ser vulgar, delicado e tórrido como se não houvesse amanhã! E haveria um amanhã??