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Younger, os millenials e o humor como ferramenta de crítica

Preciso confessar que recentemente entrei em abstinência de coisas relacionadas a Gilmore Girls. Depois de rever pela trigésima vez as sete temporadas e chorar até ficar desidratada vendo o revival, eu fui atrás de algo que pudesse satisfazer meu apetite por programas relacionados. Como eu já tinha visto Bunheads, e a nova série da Amy Sherman-Palladino ainda não terminou de ser produzida, fui atrás de algo que pudesse satisfazer minha vontade de coisas relacionadas a Gilmore Girls.

É nesse contexto que eu conheci Younger, uma série norte-americana produzida pela TV Land, com episódio inicial em 2015. Estrelada por Sutton Foster (se você está por fora do circuito da Brodway, você pode ver a ganhadora de dois Tonys no breve Bunheads ou ainda no episódio “Verão” de Gilmore Girls: Um Ano Para Recordar) e Hillary Duff (a eterna Lizzie McGuire), a série conta a história de Liza Miller (Foster), uma mãe solteira de 40 anos que decide voltar para o mercado de trabalho depois de 15 anos afastada.

Mesmo sendo graduada em uma universidade da Ivy League norte-americana e mesmo contando com muita experiência na área, o mercado de trabalho não está disposto a contratar Liza. É por isso que, com ajuda de sua amiga artista descolada Maggie (Debbie Mazar), ela recebe uma transformação digna do “10 Anos Mais Jovem” e passa de mãe-divorciada-suburbana para recém-formada de 26 anos. É com essa identidade que ela consegue um emprego de assistente da chefe de marketing Diana (Miriam Shor) e faz amizade com Kelsey (Duff), uma ambiciosa editora de “vinte e poucos anos”. Vale ressaltar que a série foi inspirada por um livro homônimo de 2005, de Pamela Redmond Satran, com o qual divide apenas a premissa. A série faz sucesso em sua emissora americana, e foi renovada para uma quinta temporada antes mesmo da estreia da quarta.

E é refrescante a visão que Younger nos traz do mundo editorial. Sabemos que, hoje, 72% dos autores publicados no Brasil são homens, brancos, de classe média, moradores do Rio de Janeiro e São Paulo, professores ou jornalistas. Por mais que existam críticas quanto aos pormenores do processo editorial que são mostrados pela série – há quem diga que a sitcom o retrata de forma caricatural – eu preciso dizer que, ao escolher três fortes leading ladies para comandar a empresa no dia-a-dia da série, produz-se mais do que apenas um solo profícuo para desenvolver o enredo da comédia.

Colocar Diana e Kelsey juntas na trama é muito relevante. Diana, mulher de 40 anos que já percebeu a hostilidade do mundo dos negócios com mulheres em sua idade, assume uma postura quase caricata, porém não incomum, marcada por um modo de trabalho pouco empático e tolerante que preza pela perfeição e que trata outras mulheres como inimigas (mais uma ferramenta para colocar mulheres umas contra as outras!). Ao mesmo tempo, ela convive com Kelsey, editora de sucesso que, no auge dos seus vinte e poucos anos, tem uma visão completamente diferente do mundo.

A troca de farpas entre as duas – sempre em diálogos bem escritos – marca mais que o embate entre duas gerações. É um grande espelho da forma como os millenials tratam aqueles que ainda lutam para entender qual é a das hashtags e o porquê de dizer tudo dentro de um limite de 140 caracteres. Em momento nenhum Younger quer diminuir a importância – ou a força – dos jovens de vinte e poucos anos de hoje, que sofrem de dilemas como “essa foto é boa para postar ou rende só um stories?”. A série é bem-sucedida em mostrar que eles – de uma forma ou de outra – mandam no mundo empresarial atual. A sacada brilhante, porém, é colocar esse embate entre Kelsey e Diana em uma espécie de meio de campo, um conto de fadas ao contrário mediado por Liza, que pode experimentar algo que só pode ser descrito como o melhor de dois mundos.

Então, por mais que a escolha dessas personagens fortes pudesse ter sido pensada como recurso narrativo para desenvolver a trama do embate entre as idades, Younger consegue muito mais que isso. É uma visão quase refrescante do mercado editorial, que reconhece a força feminina nesse campo. E é principalmente por isso que a sitcom ganha destaque das outras: ela passa no teste Bechdel. Sim, existem interesses românticos que surgem entre os personagens, e, sim, as personagens conversam bastante sobre os relacionamentos, mas a série é, também, sobre mulheres em locais de poder.

Concomitantemente, há grandes erros de representatividade em Younger – que, mesmo composta majoritariamente por mulheres, não apresenta nenhum personagem latino ou negro em seus arcos principais de história e nem dá margem para uma discussão abrangente de sexualidade. A questão da relação entre Liza e Josh (Nico Tortorella), quatorze anos mais jovem, é escrutinada por ela e Maggie, sua conselheira, mas em momento nenhum traz nenhum ponto pertinente ou muito diferente do senso comum que temos de relacionamentos com grandes diferenças de idade, considerados muito mais desviantes quando a mulher é a mais velha.

A série, então, falha na discussão de alguns temas pertinentes, assim como apaga parcialmente a sexualidade de Maggie: a única relação em que ela se envolve é com a jovem, Lauren (Molly Bernard), amiga de Kelsey e Liza, e é representada de forma caricata, mais uma anedota do que um relacionamento. E isso me faz pensar: é realmente a intenção dessa série ser feminista? Passar no Bechdel é uma simples coincidência? Mesmo com sua refrescante ausência de claquetes e mulheres sendo decisivas para o sucesso de uma editora, Younger não pode se dar ao luxo de dizer que discute os temas mais importantes em pautas notadamente feministas. Ao mesmo tempo, o mérito da série continua: se passar no Bechdel fosse tão fácil, por que a maioria dos filmes e séries não consegue?

Ainda mais, é notável que a produção da sitcom realmente tenha se empenhado em procurar uma atriz que realmente estivesse com 40 anos. Sutton Foster vem enfrentando uma série de insucessos na TV: sua atuação em Gilmore Girls foi elogiada, porém a cena do musical de Stars Hollow se estende por mais tempo do que o necessário e Bunheads quase não sobreviveu até o final de sua primeira temporada. Ao apostar em Younger, Sutton desafia o que é conhecido em Hollywood como a “marca dos 40”, na qual se você não for uma estrela do TV ou do cinema quando você chegar aos 40, você pode esquecer sobre ser bem-sucedida. Teoricamente, você fica “no gelo” até poder voltar quando for Betty White.

Assim como Liza, Sutton sente na pele que o que a sociedade espera das mulheres é que aos 40 nada mais pode ser construído. O vazio entre os 20 e os 40, supostamente, é uma contagem regressiva. No momento em que o relógio bate o martelo na quadragésima primavera, a carruagem se transforma em abóbora. E é por isso que a série, ao lançar mão de um roteiro bem-humorado e cheio de diálogos rápidos e afiados (mais uma semelhança com os roteiros do casal Sherman-Palladino), mesmo confinada nos limites impostos por seu formato e com seus diversos acertos e erros, nos mostra que o humor afiado pode ser uma arma subversiva.

O riso, como já nos mostrava Jane Austen no século XIX, é uma forma de fazer pensar criticamente nas convenções de nosso tempo. Estou lendo muito criticamente em cima de uma comédia mediana como Younger? Talvez. O humor opera no desconforto se você deixar.

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