MÚSICA

Reputation: Taylor Swift em curto-circuito

“Aqui jaz a reputação de Taylor Swift”, é o que aparece escrito numa lápide na abertura de “Look What You Made Me Do”, primeiro clipe da era reputation. A música é talvez a pior do novo álbum – alguns vão longe o bastante para declará-la a pior de sua carreira –, mas tem em si a chave para sua nova era, sendo a escolha perfeita para marcar o retorno da artista à vida pública depois do escândalo envolvendo o casal Kardashian-West e a onda de ataques na internet, que tiveram como consequência um ano em que Taylor Swift basicamente sumiu. Com letra caricata e sonoridade estranha, “Look What You Made Me Do”, tanto música quanto clipe, carrega duas mensagens importantes.

A primeira é que a artista continua hiperconsciente do jogo midiático do qual faz parte. Se aos 20 anos, em sua primeira grande turnê, Taylor já tirava sarro da imagem que lhe faziam de garota obcecada por seus ex-namorados, as diferentes Taylor Swifts enfileiradas ao final do primeiro clipe de reputation mostram que ela não se esqueceu disso. Prestes a pegar um avião em que se lê REPUTATION, Taylor se mostra ciente que a imagem que projeta e que projetamos sobre ela – as duas se retroalimentando mutuamente – não passa disso, uma imagem.

A segunda mensagem é que a Taylor Swift que conhecemos está morta.

Num primeiro momento, é fácil ler essa morte como mais uma subversão narrativa na qual ela se transforma na vilã (ou, melhor ainda, na cobra) que sempre a acusaram de ser, retomando o controle sobre sua imagem como já fizera outras vezes e contando sua versão da história a partir daí. Era isso que tanto fãs quanto haters esperavam, todos querendo ver o quão longe ela estava disposta a ir dentro de seu próprio jogo. Contudo, não foi exatamente isso que aconteceu, e o estranhamento causado por “Look What You Made Me Do” e por reputation como um todo mostram isso.

Quando surge, em faixas como “I Did Something Bad”, “This Is Why We Can’t Have Nice Things” ou mesmo a supracitada “Look What You Made Me Do”, dark!Taylor é caricata, infantil, um pastiche sem sutileza alguma dessa figura de vilã que ela tenta, sem sucesso, incorporar. Para uma artista que, apesar de todos os estigmas, conseguiu o respeito até da parcela mais amarga da crítica pela qualidade de suas composições, num primeiro momento pode parecer um pouco desanimador ver Taylor Swift ressurgir com letras como “Eles dizem que fiz algo ruim, então por que me sinto tão bem?”, “Amigos não tentam te enganar”, “Um brinde aos meus amigos de verdade”, “Serei a atriz estrelando seus pesadelos”. Mas isso não é o suficiente para entender essa nova era.

De um jeito curioso, as músicas de reputation lembram muito os números musicais de Crazy Ex-Girlfriend. A série é uma meta-comédia romântica e seu argumento diz respeito, principalmente, à forma como as narrativas de ficção moldam nossas expectativas e ideais de felicidade e como a realização de que a vida não faz sentido narrativo pode nos quebrar. Ao longo de três temporadas, as roteiristas Rachel Bloom e Aline Brosh McKenna conduziram Rebecca Bunch (Rachel Bloom) por tropos e clichês clássicos de comédias românticas e contos de fada enquanto a personagem buscava desesperadamente o amor romântico como salvação para sua miséria pessoal. De forma bastante inteligente, as primeiras duas temporadas da série conseguiram, ao mesmo tempo, mostrar as nuances importantes e ignoradas no arquétipo da ex-namorada louca (uma tese já explorada por Taylor Swift em “Blank Space”) e também como forçar uma narrativa em nossas vidas pode nos levar a extremos.

Nós sempre achamos que somos heroínas de nossas histórias, mas às vezes somos apenas figurantes na história de outros. Ou vilãs. Ou tudo ao mesmo tempo. Depende da perspectiva.

No final da segunda temporada de Crazy Ex-Girlfriend, a protagonista sofre uma grande desilusão amorosa e jura vingança. No início da terceira, a personagem passa um tempo desaparecida e todos esperam, inclusive ela, que Rebecca vá ressurgir com algum plano maléfico de vingança na manga. Mas quando volta, o único traço de vilã que Rebecca tem é seu visual – cabelos mais escuros, visual sexy e discurso afetado, pois seu grande plano para derrubar Josh é rechear alguns cupcakes com suas fezes, como se fossem de chocolate, e enviar pra ele. A frustração que suas amigas sentiram diante desse plano ridículo foi mais ou menos o que senti ouvindo reputation pela primeira vez. Até a identidade visual do álbum é óbvia e grosseira, de um jeito que nunca se encaixa naquilo que esperamos de Taylor. 

“My reputation has never been worse so you must like me for me”

“Minha reputação nunca esteve tão ruim, então você precisa gostar de mim pelo que sou”

Em 2017, quem morreu não foi a Taylor Swift da era passada ou a Taylor Swift boazinha, que pedia para ser excluída de narrativas controversas. reputation marca o fim do controle que Taylor Swift tinha sobre o seu próprio jogo ou o fim da ilusão de que ela poderia controlá-lo pra sempre.

Essa ruptura, no entanto, não foi gradual ou intencional, mas abrupta e violenta. Se não fosse pela #ExposedTaylorParty do ano passado e a escalada de ódio que transformou Taylor Swift na grande vilã do pop e atual ícone nazista, reputation não teria acontecido e o sucessor de 1989 não teria esse formato. Embora ela carregue um histórico de controvérsias derivadas dessa mesma tensão entre controle e vulnerabilidade, que ela sustenta desde sempre, o último escândalo levou as coisas para um outro nível. O evento é essencial para a existência do álbum, mas assim como é preguiçoso e limitante interpretar seus primeiros trabalhos a partir dos ex-namorados que inspiraram as músicas, o mesmo vale agora para suas tretas. A essência do trabalho de Taylor Swift, aquilo que faz dela tão boa, o que continua atraindo nossa atenção, é a forma como ela transforma acontecimentos em coisas profundamente suas; suas músicas não são uma recontagem exata das histórias que ela vive, mas a construção de como ela se sentiu vivendo tudo aquilo – e isso é muito maior que qualquer ex-namorado ou inimigo.

Assim, pouco importa o ele-disse-ela-disse por trás de reputation, porque o disco é sobre o que acontece depois, um sentimento que aproxima o álbum de narrativas pós-traumáticas, carregadas de incertezas, incoerências, contradições e reações aparentemente exageradas. Que Taylor Swift tenha conseguido fazer um álbum tão perfeitamente coerente em sua incoerência num momento como esse é um indicador que revela que seu talento não foi enterrado junto com sua reputação.

Numa crítica estranhamente carinhosa ao álbum (pela qual eu serei eternamente grata), Rob Sheffield escreve que as músicas de reputation são uma exploração do que acontece com a nossa identidade quando paramos de nos definir a partir do olhar dos outros. No caso de Taylor Swift, esses outros são milhões de pessoas, no mundo inteiro. Sua persona midiática era um engenhoso mecanismo de defesa para protegê-la disso (e faturar milhões no processo), mas o que acontece quando esse escudo se quebra? Sua reputação está pior do que nunca, morta e enterrada, mas como ela ensaia em “Delicate”, a melhor faixa do álbum, é preciso gostar dela pelo que ela é. “Delicate” também é o primeiro momento de reputation que conseguimos enxergar e ouvir Taylor Swift por trás de toda a papagaiada e pirotecnia das faixas anteriores.

As quatro primeiras músicas do álbum são uma bagunça, uma evolução da sonoridade synthpop que começou a ser explorada no 1989 elevada à potência máxima, misturada com dubstep, trap e auto-tune a dar com o pau enquanto Taylor Swift canta com um sotaque afetado (e injustificável) e Ed Sheeran (Ed Sheeran!!!) aparece bem problemático fazendo rap num feat com Future, rapper de fato. Tantas! Coisas! Acontecendo! Isso não quer dizer que as músicas sejam necessariamente ruins: genéricas, talvez, mas todos os elementos que definem o pop atual estão presentes, para garantir que mesmo quebrada por dentro Taylor vai continuar no topo das paradas e sendo indicada a todos os prêmios. “I Did Something Bad” é crocantíssima e parece Britney Spears em seus melhores momentos, uma comparação que jamais imaginei que faria, mas aqui estamos. Não por acaso, a faixa é produzida por Max Martin e Shellback, que já colaboraram com a artista, e os dois acompanham Taylor ao longo de todo o álbum ao lado de Jack Antonoff.

Mas aí “Delicate” entra na história e o tom muda completamente. Diferente das outras, não é uma música sobre algo que acontece sob os holofotes, mas sim nos fundos de um bar escuro em Nova York; enquanto na abertura do álbum Taylor está pronta para a batalha e achando divertidíssimo ser malvada, nessa faixa ela hesita e teme que sua reputação afete negativamente a forma como ela é vista por uma pessoa que ela realmente gosta e queria ter por perto. Publicamente ela diz que não se importa com o que dizem a seu respeito, mas em “Delicate” ela se permite três minutos de vulnerabilidade para admitir que opa, essa merda dói e eu sou insegura e assustada como qualquer ser humano, vai encarar? Na sequência vem “Look What You Made Me Do” e perdemos o acesso à coxia para observar Taylor no palco novamente e é como se aquela confissão nunca tivesse acontecido.

Esse desequilíbrio aparentemente contraditório acompanha todo o álbum e depois de ouvi-lo todos os dias por quase um mês arrisco dizer que é nessa inconsistência consistente que está o alicerce de reputation e faz dele tão interessante. Mais do que enxergá-lo como uma disputa entre controle e vulnerabilidade, a batalha que se percebe no álbum é entre o público e o privado, entre a Taylor Swift que se apresenta para o público e é vista e julgada por ele, e a Taylor Swift que existe em lugares e histórias que ninguém vê. Os últimos anos nos levaram a ver as rachaduras na fachada perfeita e impenetrável que ela projetava; agora que ela se quebrou por completo, Taylor tenta, ainda de forma hesitante, nos mostrar o que existe por trás.

As melhores músicas do álbum, aquelas que escutamos e percebemos resquícios da velha Taylor, são também músicas que se passam longe do olhar do público, seja nos fundos do bar de “Delicate”, no esconderijo secreto de “Call It What You Want” ou nos lugares escuros de “Dress”. Mesmo a aparentemente leve “Getaway Car” se passa num carro de fuga, longe de todos, e termina em um motel de beira de estrada. Essas músicas sempre aparecem entre as faixas caricatas, como se ela se despisse momentaneamente da fantasia para logo se assustar com a sua vulnerabilidade e voltar correndo para o personagem.

Quase todas as músicas falam sobre escuro, segredos e coisas que ninguém sabe, um contraste interessante entre seus outros trabalhos sempre iluminados e vibrantes. Taylor Swift, Fearless e Speak Now são abertos, solares, iluminados, com um Romeu que se ajoelha diante de todos para se declarar e sorrisos e beijos que soltam faíscas; Red é vermelho, vibrante, em que Taylor é olhada por um objeto amoroso com suas marcas características: vestidos rodados, batom vermelho, óculos escuros e um cachecol que todo mundo conhece. 1989 é noturno, mas sempre iluminado pelas luzes da cidade – ela chega em Nova York pela porta da frente, direto na Times Square, e quer ser lembrada usando um vestido bonito encarando o por-do-sol. reputation, por sua vez, acontece em quartos de hotel em que vestidos são tirados, o batom está sempre borrado, mãos tremem para não se encostar em público. “I’d kiss you when the lights went out” [te beijaria quando as luzes se apagassem], ela diz em “Dancing With Our Hands Tied”, uma música sobre um relacionamento que é destruído pelos holofotes.

E quando finalmente parece que reputation encontrou seu ritmo e flui de forma mais natural, o golpe final se apresenta em “This Is Why We Can’t Have Nice Things”, a música mais alta, extravagante, afetada e até mesquinha de todo o álbum. É também a mais direta: Taylor Swift é conhecida pelas indiretas que lança em suas letras e as mensagens subliminares que deixa em seus trabalhos, mas até então ela nunca tinha se permitido um ataque tão explícito. Se estamos falando de uma narrativa que oscila entre o público e o privado, TIWWCHNT é um espetáculo digno de Gatsby, tão extra que em determinado momento Taylor se permite uma gargalhada de bruxa.

Logo depois dessa explosão, ela se esconde no forte de cobertores de “Call It What You Want”, protegida do barulho e da confusão do mundo externo.

“Nobody’s heard from me for months
I’m doing better than I ever was”

“Ninguém ouviu falar de mim por meses
Estou melhor do que jamais estive”

Rob Sheffield também disse que reputation é o trabalho mais íntimo de Taylor Swift. É o álbum com mais referências sexuais explícitas, o primeiro no qual ela diz um palavrão e quase todas as músicas citam uma bebida alcoólica diferente (assim como Don Draper e essa que vos escreve, Taylor Swift é uma grande apreciadora de old-fashioneds). São elementos óbvios de uma narrativa good girl gone bad, mas a verdadeira vulnerabilidade está no que acontece junto dos arranhões e do vinho derramado na banheira: em “Dress”, o vestido é tirado por uma pessoa que vê o melhor em Taylor em seus piores momentos e é só isso que ela pede do outro – não salvação, mas parceria e aceitação.

O álbum fecha com “New Year’s Day”, a única música onde não há referência alguma ao trauma passado e à sua reputação, e também a única sem elementos eletrônicos, apenas uma balada no piano. O cenário é o oposto do glamour, o oposto do que é público: o primeiro dia do ano, depois da festa épica da véspera, depois dos beijos à meia noite idealizados pelas comédias românticas, quando o que resta é glitter no chão e uma pessoa que te ajuda a recolher as garrafas vazias. É pequeno, íntimo. É também o momento em que conseguimos enxergar Taylor Swift com mais clareza. Aí o disco acaba, o primeiro da sua discografia sem uma faixa bônus. 

Não é o sexo ou os palavrões que fazem de reputation um álbum íntimo, mas sim a forma como Taylor Swift se permite, pela primeira vez, entregar um trabalho sem uma narrativa coerente. São tantas oscilações – de ritmos, discurso, personas – que, ao fim, reputation parece um grande curto-circuito. As luzes se acendem e se apagam aleatoriamente e é por se permitir mostrar nessa alternância que Taylor faz seu álbum mais pessoal. É íntimo porque, artisticamente, ela desistiu de construir uma narrativa bem amarrada para tentar mostrar sua vida e sua pessoa como as coisas bagunçadas que são. Que somos. Em Crazy Ex-Girlfriend, quando se confronta com a verdade inescapável de que a vida não faz sentido narrativo, Rebecca Bunch faz a única coisa que pode, que é olhar para si e cuidar de seus transtornos psicológicos para sobreviver. Taylor Swift, por sua vez, fez um disco. Chame isso do que quiser.

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1 Comentário

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    Danilo Xavier
    13 de dezembro de 2017 at 15:22

    Que review maravilhosa! Adorei vários pontos de análise e comentários!

    Eu sinto realmente que o disco é isso mesmo: um recorte intenso, confuso e ao mesmo tempo que confiante, inseguro dentro das próprias dúvidas da Taylor. É como você disse mesmo, eu acho que ela cansou de tentar colocar as emoções e rumores ditos sobre ela de maneira clara, explicativa e coesa como um álbum num todo e preferiu recortar cada sensação momentânea e colocar num disco que por incrível que pareça, soa extremamente coeso na sua maluquice! HAHA’

    Don’t Blame, Delicate, Getaway Car, Dancing With Our Hands Tied, Dress e Call It What You Want são minhas favoritas.

    Parabéns pela crítica! =)

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