COLABORAÇÃO GAMES

O feminismo das cavernas de Jean Auel e Chrono Trigger

Chrono Trigger

Chrono Trigger é um RPG lançado para o console Super Nintendo em 1995 e talvez até hoje considerado como um dos mais famosos e relevantes do gênero. Seu sucesso atemporal não é tão surpreendente ao analisarmos que dentro de sua equipe de produção contamos com nomes de grande influência como Hironobu Sakaguchi e Yuji Horii, criadores das renomadas séries Final Fantasy e Dragon Quest, respectivamente, além do designer de personagens Akira Toriyama, famoso por seu trabalho em Dragon Ball, fenômeno principalmente no seriado de animação, mas proveniente dos igualmente aclamados quadrinhos homônimos.

A história por si só já é um grande marco na história dos jogos eletrônicos, fugindo dos padrões da época em muitos elementos, sendo o principal e mais chamativo uma trama que se desenvolve a partir de viagens no tempo. A reflexão começará após uma breve contextualização do enredo do jogo – e, importante citar, o sistema conta com nomes personalizáveis, mas, para melhor compreensão, trataremos os personagens com os nomes padrão. A narrativa tem início no ano de 1000 A.D., quando o protagonista Crono acorda uma manhã e parte para visitar um festival local, onde sua amiga Lucca e o pai desta estarão demonstrando um novo dispositivo teletransportador desenvolvido pela jovem inventora.

No meio da feira, Crono literalmente esbarra com uma jovem que se identifica como Marle, com quem rapidamente faz amizade e se diverte pelo festival. Ao chegarem à apresentação de Lucca, Marle se oferece para ajudar na demonstração da máquina, porém o pingente de seu cordão causa uma grande interferência no aparelho e a envia para um lugar desconhecido de todos. Crono vai atrás dela e descobre que viajou para o passado, o que torna o aparelho teletransportador de Lucca também uma máquina do tempo. Um pouco além na história, Crono e seus amigos vão parar no futuro e descobrem que o mundo será feito em ruínas por um ser chamado Lavos, e tomam para si a missão de impedir que tal destino do mundo que conhecem se torne realidade destruindo a criatura no passado antes que seja tarde demais.

Dado o devido contexto, é possível partir para a análise específica de uma personagem tanto importante quanto interessante do jogo: uma mulher das cavernas chamada Ayla, líder de uma tribo de homens pré-históricos.

Ainda hoje, mas principalmente em tempos passados, é possível perceber que em jogos do gênero as mulheres em sua maioria são responsáveis por serem usuárias de magia – principalmente as curativas – quando presentes em algum grupo principal de personagens em uma posição relevante. Final Fantasy IV pode ser um exemplo, onde encontramos, por exemplo, a protagonista Rosa, uma maga branca/curandeira, responsável pelo suporte de Cecil, um paladino.

De volta a Chrono Trigger, em certo momento da história, o trio principal consistente dos três personagens supracitados, viaja para o ano de 65000000 B.C, uma terra palco da guerra entre humanos e Reptites, uma raça de répteis humanoides. É lá que conhecem Ayla.

A personagem da época das cavernas demonstra independência e força desde o primeiro momento em que entra em cena. Quando os personagens do grupo são encurralados por um grande grupo de Reptites, Ayla aparece para ajudar. Sozinha e desarmada, ela afasta do bando uma grande parte dos répteis, deixando um número bem menor de inimigos para serem derrotados pelo jogador. Frequentemente, quando tratamos de pessoas dos tempos pré-históricos, tendemos a pensar nos homens como caçadores e nas mulheres como cuidadoras do lar. Ora, Ayla demonstra logo de início que não é uma mulher das cavernas como o esperado.

Além disso, ela também é independente até mesmo de qualquer recurso para lutar: em nenhum momento ela precisa equipar uma arma para participar de combates, contando sempre com seu próprio corpo. Suas habilidades de ataque contam com seus punhos, que irão “evoluindo” no decorrer do jogo, aumentando ainda mais seu poder – mas também é muito interessante como, apesar de parecer uma personagem “bruta”, ela também conta com seu “charme” para conseguir itens dos inimigos quando necessário. Assim, temos uma personagem segura tanto de sua força quanto de sua sensualidade.

Outro aspecto curioso acerca de toda autonomia já demonstrada por Ayla é sua liberdade sexual. Esta parte é um tanto quanto desconhecida da maior parte dos jogadores que só tiveram contato com a versão ocidental do jogo, uma vez que o diálogo em questão foi censurado em sua tradução. A conversação em questão se passa logo após a primeira batalha do jogador depois que Ayla ajuda com o grupo numeroso de Reptites que cerca o grupo, em sua estreia no título. A mulher elogia a performance do protagonista em batalha, dizendo que gosta dele por sua força. Em seguida, se dirige às garotas que o acompanham dizendo que elas são igualmente fortes e também gosta delas, pois gosta de pessoas fortes, independente de serem homens ou mulheres. O sentido sexual do comentário fica mais explícito por conta da reação das amigas de Crono: Marle se pergunta o que ela pode querer dizer com isso enquanto Lucca se assusta e diz que não está interessada nesse tipo de coisa. A própria censura para remover qualquer possível interpretação do gênero indica a possibilidade de uma interpretação da personagem como bissexual, tendo em vista que os RPGs japoneses são mais abertos a este tipo de personagem do que os ocidentais.

O estudo sobre Ayla pode, em parte, se estende para fora do jogo. Isto porque uma provável inspiração para a personagem seria a protagonista de mesmo nome presente na série de Jean M. Auel intitulada Os filhos da Terra. A saga conta a história de uma personagem cro-magnum que se perde de seus iguais após um grande terremoto, deixando-a sozinha para encarar o mundo até ser encontrada por Iza, uma neandertal pertencente ao Clã do Urso da Caverna, que passava por uma viagem para realizar uma mudança de caverna, visto que eram nômades. A história então passa por vários estágios da vida de Ayla e nas mudanças que ela passa para todos com quem se relaciona. O foco será no primeiro livro da série, Ayla, a filha das cavernas, quando estas mudanças serão mais evidentes.

Neste livro somos apresentados à cultura dos neandertais enquanto Ayla cresce entre eles. De início, a pequena menina não tem muitas dificuldades de se adaptar, sendo sempre guiada por Iza, sua “mãe adotiva” para seguir os costumes do Clã. Isso implicava, além de aprender a linguagem de sinais com a qual se comunicavam, preparar a comida que os homens traziam da caça e aprender técnicas de curandeira, função que herdaria de sua tutora. O principal problema que a menina encontra e tem várias reflexões sobre diz respeito ao senso social imposto às mulheres, que significava que, basicamente, deveria sempre se submeter às vontades dos homens da tribo e aceitar sua inferioridade com relação a eles. As mulheres Clã deveriam, por exemplo, se curvar diante de um homem quando desejassem falar com ele e esperar que ele lhe desse a palavra tocando em seu ombro. Mesmo sem entender porque, Ayla seguia as regras de etiqueta impostas. A situação começa a mudar quando, na cerimônia equivalente ao “batismo” de alguém do Clã, a menina se vê com um “totem”, um espírito protetor animal, exclusivamente masculino: o leão da caverna.

Uma das maiores dificuldades encontradas pela protagonista diz respeito ao costume da caça, um trabalho exclusivamente masculino. Ayla tem muito interesse na prática e começa a treinar o manejo de uma arma em segredo da tribo. Em determinado momento isto é descoberto e, após muita discussão e fúria entre os homens da tribo, principalmente do filho do líder do Clã, ela se prova digna de caçar com eles. Depois disso, mais mudanças culturais vão se mostrando naquela tribo de neandertais, todas partindo de Ayla e seus questionamentos sobre o que ela poderia ou não fazer sendo uma mulher:

Todo conceito de uma mulher caçadora era tão ímpar, tão perturbador em sua concepção que muitos ali se sentiram abalados, a ponto de dar um pequeno passo ampliando as fronteiras de seu mundo seguro, confortável e bem definido.

Assim como a personagem do jogo, a Ayla que temos no livro é um “espírito livre”. Mesmo que não diga nada e apenas aja de acordo com as regras da sociedade a que foi imposta, ao longo de toda narrativa somos apresentados a seus pensamentos e questionamentos à frente de sua época. Ayla sempre lutava por tudo que acreditava, mesmo que fosse completamente contra tudo que seu Clã aceitava, mesmo que no final isto significasse sua própria morte.

Fisicamente falando, Ayla era muito diferente dos membros de sua tribo, o que sempre a fez sentir feia com relação às outras mulheres. O que acontecia era uma diferença de espécies: um padrão de beleza imposto por aquela sociedade em específico. E ainda assim, Ayla tinha a certeza de que encontraria sua felicidade e um homem para realizar seu sonho de ser mãe. E, mesmo com sonhos tipicamente femininos de maternidade, ela não pensava em nenhum momento deixar de lutar suas próprias batalhas – físicas ou internas – demonstrando-se uma mulher forte e decidida.

Sua personalidade tão estável e firme incomodava alguns homens mais tradicionais da tribo, como o futuro líder do Clã, um jovem chamado Broud. Este sempre foi o responsável pela maioria dos empecilhos encontrados pela protagonista em sua luta por seus direitos, sendo com palavras duras de superioridade masculina quanto por violência física, chegando a estuprá-la. Mas nada disso a impediu de deixar sua mensagem, antes de ser expulsa por ele do Clã. O pai de Broud comenta, ao final do livro:

Parece que você ainda não entendeu, não é? Você reconheceu sua existência, Broud. E ela o venceu. Você fez tudo o que pôde contra ela, até mesmo a amaldiçoá-la chegou e, ainda assim, ela o venceu. Ayla era uma mulher e tinha mais coragem do que você, Broud. Muito mais força de vontade e caráter. Era mais homem do que você. Ayla é que deveria ter sido o filho de minha companheira.

Com essas palavras finais, percebemos a mudança que a mulher deixara no pensamento da tribo. Numa sociedade tão engessada e patriarcal, aquele que era considerado o mais forte e justo dos homens reconhece a vitória de Ayla sobre seu único filho.

Percebemos então que ambas as obras temos na personagem de Ayla um caráter que vai além de sua época, seja dentro de sua mídia ou fora dela. No caso de Chrono Trigger, o jogo em si possui muitos elementos fora do padrão de sua época de lançamento. O personagem masculino protagonista se vê em meio a muitas mulheres de grande influência e mestres em várias áreas, como a forte Ayla ou a gênio Lucca. A presença de Ayla, no entanto, causa um estranhamento ainda maior pela demonstração de força bruta, papel geralmente dado a personagens masculinos corpulentos.

A Ayla de Jean Auel demonstra tanto força quanto intelecto, o que causa revolta aos homens à sua volta. Sua luta, porém, os faz mudar de mentalidade e passam a respeitá-la e a aceitar que ela execute funções antes restritas às mulheres. Esse tipo de desenvolvimento de personagem é de grande adição para a literatura ficcional com protagonistas femininas, ao tratar de aventuras e conflitos que vão além de romance.

A conclusão a que chegamos é a de que é possível ter grandes personagens femininas em diversos meios de entretenimento. Independente de gênero, é praticável a inclusão de personagens fisicamente superiores que sejam mulheres sem menosprezar os personagens masculinos no processo. As mulheres podem entrar em qualquer história e causar um grande impacto, lutando ou agindo naturalmente para que isso aconteça. Não é necessário limitar sua presença a papéis menores ou de suporte para que sejam contadas grandes histórias de sucesso.

Thais – Sou confusa. Acho o mundo um lugar difícil e eu não sei o que eu tô fazendo com a minha vida. Meus interesses variam de cachorros a videogames. Também gosto de comida. *Este texto foi inicialmente entregue como trabalho final na matéria de pesquisa sobre Cultura Pop na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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