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Nathalia Timberg ou o tormento do ideal

Nathalia Timberg

Um dos meus passatempos favoritos é olhar para o rosto de Nathalia Timberg e tentar desvendar o que há por trás dele. Apesar de ter acompanhado de perto por diversas vezes o espectro de sensações pelas quais suas expressões faciais passam, nunca consegui descobrir o mistério. No fim das contas, a questão não é essa, eu acho. A questão é o que o rosto dela nos causa. Se você tomar como exemplo a chamada de sua última novela, O Outro Lado do Paraíso, dá para entender o que ela continua causando nos outros. Muitas pessoas, na época das primeiras chamadas da novela de Walcyr Carrasco, ficaram surpresas pelo fato de que seu rosto praticamente contava a história de sua personagem. Já para mim, o rosto dela conta uma história de resistência, de uma mulher que permanece, aos 88 anos, fiel à sua arte. Tão fiel que neste ano ela está em cartaz pelo Brasil, de maneira quase independente, com uma peça de teatro sobre Chopin, um projeto no qual ela investiu todas as suas forças, inclusive pleiteando o patrocínio sozinha. Já é difícil fazer arte no Brasil, imagine se você é mulher e idosa. Ao lado de Laura Cardoso, e tantas outras damas, ela ressignifica o que é ser atriz e mulher.

Uma carreira marcada pela dedicação

Os caminhos que levaram Nathalia até a carreira de atriz são bastante interessantes, pois ela pensava em ser médica. Porém, como sempre costuma declarar, foi inoculada pelo mundo da arte aos seis anos, quando fez uma pequena participação no filme O Grito da Mocidade. Infelizmente, o copião original se perdeu e ela foi substituída, mas essa ocasião nos dá uma pista sobre o meio em que Nathalia cresceu: cercada de cultura e de artistas. Seus pais eram amigos de Olavo de Barros, diretor teatral que a convidou para participar do filme. O refinamento com o qual Nathalia cresceu se refletiria mais tarde em seus papéis para a televisão.

Após um curto período na Escola de Belas Artes, estudando pintura, Nathalia decidiu seguir a carreira de atriz. Começou no teatro universitário, mas sua falta de experiência, a dureza, como ela costuma dizer, a impedia de fazer outros papéis:

“Eu não tinha maturidade nem de vida, nem de formação, para os papéis que me caíam. Agora eu sou mais leve.”

Por isso, nos anos 50, Nathalia conseguiu uma bolsa de estudos para estudar arte dramática na França. A escola para onde foi mandada seguia uma linha dissidente da Comédie Française, uma das maiores companhias de teatro da Europa. Nathalia conta que quase foi mandada para a Comédie, mas preferiu essa escola. Lá, ela estudou inúmeras modalidades de atuação, incluindo mímica. Naquela época, a questão espinhosa do teatro já se apresentava. Uma das professoras francesas de Nathalia perguntou-lhe:

“Você quer fazer teatro? Você sabe o que é fazer teatro?”

A resposta de Nathalia era sim, é claro. Ao voltar para o Brasil, ela estreou profissionalmente com Senhora dos Afogados, peça de teatro de Nelson Rodrigues, dirigida por Bibi Ferreira, que se tornaria uma de suas amigas mais íntimas. Muito antes da sua Estela de Babilônia, Nathalia já causava um tombamento na família tradicional brasileira ao interpretar a personagem Eduarda, aliás, o que já mostrava o seu talento, porque ela interpretou uma mãe antes de chegar à idade de interpretá-las de fato. Senhora dos Afogados causou rebuliço por causa de suas insinuações de incesto, bem como pelas transgressões em relação à burguesia, tão características da obra de Nelson Rodrigues. Em um determinado momento, uma parte da plateia começou a aplaudir e a gritar, enquanto a outra vaiava. “A sociedade se chocava muito mais”, diz Nathalia. Será mesmo? Tendo a discordar dela.

Com o Grande Teatro Tupi veio a televisão. A partir do teleteatro, uma mistura de teatro e televisão, a divisão ator de televisão e ator de teatro caiu. Sendo assim, Nathalia se dividia entre a televisão e o teatro, quase sempre ao lado de Sérgio Britto, ator com quem fez par romântico em diversos textos, bem como a versão da mesma peça, Meu Querido Mentiroso, em três fases diferentes da vida deles.

Como disse anteriormente, a formação extremamente cult de Nathalia (hoje ela com certeza seria considerada uma jovem pra lá de hipster) consolidou o tipo de papel pelo qual ela ficaria conhecida na televisão. Socialites, refinadas, fluentes em francês, essas são algumas de características de suas maiores personagens, como Constância Eugênia de O Dono do Mundo e Celina Junqueira de Vale Tudo. Papéis que chegam a ser engraçados de tanto que eles diferem da personalidade delicada e calma da mulher que os interpreta. Talvez esse seja o segredo para interpretações tão marcantes. Ela pode não ser tão lembrada quanto Fernanda Montenegro, mas o ódio que suas personagens despertaram já fizeram com que ela fosse agredida na rua. Por conta de Idalina, da novela Força de Um Desejo, Timberg levou um tapa nas costas de um desconhecido.

Aliás, um ponto que chama muito a minha atenção na trajetória de Nathalia na televisão é como sua sexualidade foi apagada tão cedo. Já aos 40 anos, ela não tinha o mesmo apelo sexual que suas colegas, como Eva Wilma e Tônia Carrero. Um exemplo desse apagamento precoce é Juliana de A Sucessora, novela de 1978. A personagem se vestia com roupas em tons pastéis e era sexualmente reprimida, o que fazia com que ela atormentasse a vida de Marina (Susana Vieira). Os tons pastéis e escuros se repetiriam em novelas como O Dono do Mundo, em que ela precisava passar desesperadamente uma imagem repulsiva e desprovida de qualquer apelo sexual. De certa forma, suas vilãs ajudaram a solidificar o ódio e a repulsa tão características de vilãs mais velhas. Constância Eugênia de O Dono do Mundo é sempre retratada como uma mulher de tons pastéis (sempre eles), mas também como a mal comida do rolê. Uma das cenas mais humilhantes pelas quais ela passa é quando seu marido Altair (Paulo Goulart) a humilha e diz que jamais irá transar com ela, de tão repulsiva que ela é. É interessante o combo repulsa + mulher mais velha + vilã do qual uma novela se vale para fomentar o ódio às mulheres mais velhas. Uma vilã mais nova é adorada e sua sexualidade venerada – quem não lembra de Leona (Carolina Dickmann), de Cobras e Lagartos? A exceção à regra parece ser Nazaré (Renata Sorrah), de Senhora do Destino.

Embora não tenha sido sexualizada como suas colegas, Nathalia teve de resignar a esse tipo de personagem, as vilãs providas de muita repulsa e que por dentro carregavam o ódio que nossa sociedade nutre por mulheres mais velhas. Por isso, para mim, suas duas últimas personagens são importantes se analisarmos a miríade de Constâncias que permeiam sua carreira. Bernarda e Estela, de Amor àVvida e Babilônia, respectivamente, quebraram muitos paradigmas. A primeira mostrou que não há idade para o amor ao se envolver com o Doutor Lutero (Ary Fontoura). Em uma das cenas mais emblemáticas da novela, ela diz ao neto:

“E se quer saber, eu transei. E funcionou.”

Já a evolução de Bernarda é muito louca, pois ela começou a novela como a mãe sumida de Pilar (Susana Vieira), vivendo em uma espécie de loucura. Além das vilãs, Nathalia também é graduada em fazer mulheres loucas, mais uma maneira torta de como a sociedade enxerga mulheres mais velhas. Voltando ao que interessa, a trama de Bernarda vai ganhando destaque e ela começa aos poucos se envolver com Lutero. Quando ela conta que passou a noite com ele, a família é contra. A própria filha a recrimina:

Pilar: Precisava ter sexo, mamãe? Eu acho um pouco inconveniente.
Bernarda: Eu estou viva, Pilar. Tenho o direito de ter sexo.
Pilar: Mas na sua idade? Eu não me conformo.

Contra toda a sorte de preconceitos, o casal se casa, deixando a mensagem de que a idade não é barreira para nada. Amor à Vida trouxe a discussão sobre o etarismo para os lares brasileiros; lembro que na época muitas pessoas achavam fofo aqueles dois velhinhos se amando (e eles eram mesmo!) e diziam querer ter um amor daqueles em suas vidas.

No entanto, quando o rosto desse amor na terceira idade tomou a forma de Fernanda Montenegro, as palavras fofinhas foram substituídas por xingamentos e boicotes. Na esteira de personagens muito diferentes dos quais ela estava acostumada a interpretar na televisão, tivemos Estela em Babilônia, que acabou reafirmando o lado mais politizado de Nathalia, embora ela mesma nunca fale muito sobre ele. Estela era a revolução sob diversos aspectos: idosa, lésbica e socialite. O último adjetivo parece não combinar muito com os dois primeiros e talvez por isso essa seja uma de minhas personagem favoritas de sua carreira, justamente porque ela subverte os papéis com os quais ela estava acostumada ao mesmo tempo em que interpreta um. Estela era a socialite que abandonou o marido para se relacionar com outra mulher, mas mantinha a imagem impenetrável da finesse, simbolizada não apenas por suas roupas como também pelo fato de que ela era dona de um antiquário.

Infelizmente, Estela e Bernarda foram apenas grãos de areia em meio a um deserto cheio de papéis similares. Porque sua personagem em O Outro Lado do Paraíso segue a mesma tônica de várias outras que ela já interpretou: socialites e loucas. Isso me faz pensar muito sobre o tipo de papel aos quais algumas mulheres mais velhas estão sujeitas na televisão brasileira. Ou ela é a mãe, ou ela é a socialite maluca que entra na história para tornar a mocinha rica, funcionando como uma muleta da protagonista.

Por conta desses papéis repetitivos, embora interpretados de maneiras totalmente diversas, Nathalia sempre encontrou uma liberdade maior do teatro. Lá, ela foi Simone de Beauvoir em A Cerimônia do Adeus, o que lhe valeu o prêmio Mambembe, no final dos anos 80. Ali ela interpretou tragédias gregas, tragédias do século XXI e a lista não termina nunca. Seu último trabalho nos palcos, no qual ela dá voz ao pianista Frédéric Chopin, é a celebração de uma liberdade artística da qual ela jamais desfrutou inteiramente na televisão. Nathalia acompanhou todo o processo de produção do espetáculo, até mesmo cuidando da escolha do piano que permanece no palco durante a peça de teatro.

Nathalia Timberg ou o tormento do ideal

Chopin ou o Tormento do Ideal celebra a arte feita por mulheres tão diversas e ricas, de maneira quase independente. É um espetáculo muito diferente de seu último trabalho no teatro, 33 Variações, que contava com o patrocínio da Rede Globo e outros órgãos de peso. Isso nos faz pensar em como a arte ainda é frágil no Brasil, porque uma empresa de peso pode enaltecer ou destruir um trabalho. É o caso do banco que patrocinava a exposição Queer Museum, em Porto Alegre, decidir retirá-la de circulação após o boicote de uma população que sequer tinha visto as obras. No caso de 33 Variações, os patrocinadores eram fortes demais, e a peça ficou em cartaz durante três meses em São Paulo. O que pensaria Chopin ao perceber que uma peça sobre sua obra teve apenas três apresentações no Sesc, em São Paulo? O status da arte, daquilo que merece mais destaque ou não, se faz presente em Chopin ou o Tormento do Ideal.

Chopin ou o Tormento do Ideal veio na esteira de 33 Variações, que também falava sobre um grande compositor da música erudita, Beethoven. Em 33 Variações, nós tínhamos a fusão da história do final da vida de Beethoven com a trajetória de Catherine, uma musicóloga que tentava descobrir por que o compositor dedicou-se tanto a realizar 33 variações diferentes de uma valsa que ela acreditava medíocre. Foi um trabalho primoroso, que tive oportunidade de assistir no teatro, que plantou a sementinha de fundir música clássica (as peças de Beethoven eram tocadas ao vivo no espetáculo) com teatro. Como a própria Nathalia sempre gosta de pontuar, era uma oportunidade de unir dois públicos tão distintos, o que ela conseguiu durante três meses.

Essa sementinha acabou florescendo e fazendo com que Timberg se encantasse pelo espetáculo francês Chopin ou le Malheur de L’idéal, idealizado pelo pianista Eric Berchot juntamente com o dramaturgo Philippe Etesse. Inicialmente, ela havia pensado em Marco Lucchesi para traduzir o texto, mas como ele não estava disponível, Nathalia decidiu ela mesma traduzir a peça, algo que acho pra lá de surpreendente, tendo em vista que seu conhecimento em francês ainda está firme e forte, e que ela tem disposição para traduzir um espetáculo, diálogos, coisas que estão entre as mais difíceis para um tradutor. A tradução de 33 Variações também é dela, mas com o patrocínio e a chancela de Wolf Maia (o maior fanboy dela, porque a fangirl sou eu, não é mesmo?), as coisas eram bem diferentes. Nathalia não abraçou tudo como fez com Chopin, porque, como disse antes, grandes empresas estavam por trás. Em Chopin, ela estava sozinha na selva.

O que nos leva à questão do desbravamento dessa selva chamada patrocínios. Quando soube que ela se reuniu com possíveis patrocinadores, e que tudo isso depois iria se traduzir no espetáculo FABULOSO que eu assisti aqui na minha cidade, meu coração só se lembrava de Amanda Palmer e seu majestoso livro, A Arte de Pedir:

“Pelo que vi, não é tanto o ato de pedir que trava a gente. É o que está por trás: o medo de ser vulnerável, o medo de ser rejeitado, o medo de parecer fraco ou carente. O medo de ser visto como um estorvo, e não como agente ativo da comunidade.”

Vocês imaginam uma mulher de 88 anos, uma dama da televisão, pedindo patrocínio? Eu não. Ela não tem medo de pedir ajuda, ainda que seja a Nathalia tão respeitada e com um teatro na Barra da Tijuca que leva seu nome. Lembrei, é claro, de quando Bette Davis anunciou seus serviços em um jornal, nos anos 60. As pessoas ficaram chocadas, mas acho que isso só mostra o quanto essas mulheres são destemidas, que não têm medo de assumir uma possível vulnerabilidade e que precisam de uma mão.

Essa ajuda também veio pelo suave dedilhar de Clara Sverner, aquela que dá vida às peças de Chopin durante o espetáculo. Clara e Nathalia trabalharam juntas em 33 Variações; era ela quem tocava as peças de Beethoven ao vivo. Esse duo é tão bonito no palco que eu, a canceriana trouxa do rolê, chorei como um bebê durante os três dias seguidos em que as assisti. Aos 81 anos, ver Clara tocar é uma celebração ao amor pela música e ao fato de que nós mulheres não devemos nos prender a qualquer limitação da idade. Eu acho que Chopin é um pouco sobre isso, sobre amar tanto uma coisa que você não hesita pedir ajuda, traduzir, até mesmo escolher o piano que estará presente no palco do espetáculo como Nathalia fez.

O título desse tópico é um jogo de palavras nada inocente com o título do espetáculo. O Chopin ao qual Nathalia dá voz vive o tal do tormento do ideal, algo que me deixou pensando durante os três dias de espetáculo. Mas afinal, o que é isso? No último dia, formulei uma teoria: o tormento do ideal é a busca por uma perfeição inalcançável. O espetáculo retrata a insatisfação de Chopin com o próprio trabalho através de cartas enviadas por ele ou a ele por célebres amigos, como Georges Sand e Liszt. O compositor quer nada mais, nada menos, do que a perfeição e, ao se deparar com um cotidiano banal, ele fica extremamente triste. Um dos maiores momentos que viveu foi criar um seus prelúdios quando Sand saiu com as crianças para fazer algo, caiu uma tempestade, eles não voltavam nunca, Chopin ficou ensandecido e começou a criar loucamente para espantar suas preocupações, como se estivesse em transe. Quando a quietude se restabeleceu, ficou aquele gosto amargo na boca, o gosto de quem só consegue quase alcançar a perfeição na vida trabalhando.

Na vida real, também acredito que Nathalia viva o tormento do ideal. Em entrevista para a Folha de São Paulo, ela declarou que a insatisfação de Chopin com sua obra a agradava muito. Não é à toa, é claro. Assim como Chopin, Nathalia está sempre em busca de uma perfeição inatingível para si, uma perfeição que beira a obsessão. Ela precisa cuidar de cada detalhe, supervisionar cada processo, chegar no teatro muito mais cedo, repassar o texto uma, duas, três, quatro vezes. Mesmo assim, o ideal nunca acontece de fato. Nathalia Timberg nunca escondeu sua insatisfação, ela sempre acredita que pode fazer melhor. Talvez seja por isso que ela aceite elogios de forma tão relutante.

Em um contexto mais amplo, esse tormento do ideal também acontece, talvez, porque a ele esteja atrelado a obrigação de se sair bem, já que a sociedade não tolera fracassos, especialmente de mulheres. Nós vivemos o tormento do ideal todos os dias e, conforme a idade vai chegando, eles parecem aumentar. O tormento do ideal de Nathalia é mostrar que ser mulher e idosa não são obstáculos para o seu amor pela arte. Vou além: seu amor pela arte supera sua vida pessoal. Isso é tão verdade que, em sua biografia, é quase impossível descobrir qualquer coisa sobre seus gostos pessoais, porque isso não interessa a ela. A banalidade é muito pequena perto da sensação que eu imagino que ela deva ter quando a cortina sobe. É o tormento entre a banalidade de uma vida comum de uma senhora de 88 anos e a estrela que nem com o joelho fraturado deixou de se apresentar. É como se ela retardasse o envelhecimento através da arte.

Portanto, vê-la na novela, em uma participação de apenas uma semana, é a reafirmação desse tormento do ideal. Nada poderá pará-la, jamais. Para mim, ela sempre será um exemplo de força e de amor pela arte, essa coisinha que anda mais frágil do que nunca nos últimos tempos. O tormento do ideal é algo com o qual nós mulheres temos de lidar todos os dias e ninguém poderia nos ensinar tanto sobre isso quanto Nathalia. Qual é o limite entre ser tão fiel ao que você gosta de fazer e uma busca pela perfeição? Será que esse ideal não está acabando conosco?

São questões que eu gosto de pensar enquanto tento desvendar o que os amendoados olhos castanhos de Nathalia Timberg querem dizer.

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