CINEMA

Crítica: Manchester à Beira-Mar

Dizem que é preciso perder alguém para compreender inteiramente a dor do luto. Não acredito que essa seja uma verdade absoluta, embora se aplique na maior parte dos casos: se a morte é a única certeza que temos em vida, deparar-se com ela é, ao mesmo tempo, reconhecer sua verdadeira face – menos idealizada; mais triste e feia – e ter seu mundo inteiro virado de cabeça pra baixo, transformado em uma realidade completamente nova, mesmo que de forma sutil. À sua própria maneira, Manchester à Beira-Mar é um retrato bastante particular sobre a morte, a perda e o luto, mas principalmente sobre feridas que nem mesmo o tempo é capaz de curar; um filme que busca construir, a partir da trajetória de seu protagonista, uma história sobre as diferentes nuances e formas de lidar com um trauma inerente à condição humana.

Antes mesmo de receber a notícia da morte de seu irmão mais velho, Lee Chandler (Cassey Affleck) já era um homem traumatizado. O motivo não é dito de imediato, mas fica explícito em sua postura: ele é um homem de poucas palavras e solitário, de olhar frio e por vezes antipático, que evoca a depressão pela sua simples existência. Quando precisa voltar para Manchester – primeiro, para ver o irmão doente, Joey (Kyle Chandler); depois para resolver os trâmites do funeral e enterro – seu comportamento frio e distante não é de todo uma surpresa, mas o reflexo de um homem transformado pela sua própria tragédia, que se distancia radicalmente do Lee que conhecemos a partir de flashbacks, que brinca com o sobrinho Patrick na traseira de um barco enquanto o irmão dá gostosas risadas – um passado fundamental para compreender inteiramente o seu presente.

Por definição, trauma é uma desagradável experiência física ou emocional capaz de deixar marcas duradouras na mente do indivíduo. Mas a forma como lidamos com ele é algo muito pessoal, que varia de pessoa para pessoa. É por isso que, mesmo tendo vivido algo muito semelhante, nem sempre é possível compreender o sentimento do outro: se somos seres tão complexos e únicos, nada mais natural do que nossas dores também serem sentidas ao nosso próprio modo. Isso se torna ainda mais perceptível quando falamos sobre a morte – um tema controverso, complexo, que move o ser humano para o bem e para o mal; e que, não por acaso, surge com demasiada frequência na ficção. Ingmar Berman já falava sobre a mortalidade do ser humano em seus filmes e questionava a relação do mundo moderno com a morte muito antes dela se tornar uma questão na vida de muita gente; e a noção do herói moderno que conhecemos hoje é sistematicamente construída sobre conceitos que se voltam, mais uma vez, para a morte, seja ela algo a ser enfrentado ou temido.

A trajetória de Lee, no entanto, não se encontra em nenhum desses extremos: ele não é um homem em busca de respostas, muito menos um herói romântico moderno disposto a enfrentar a própria morte; mas um cara, e somente um cara, lidando com o luto – quase sempre, da pior maneira possível. Ele é um homem instável e raivoso, quase sempre inadequado e raramente disposto a construir vínculos, que foge (e muito!) do estereótipo do protagonista assombrado pelos fantasmas do passado em busca de redenção: quando não está envolvido em uma briga de bar, Lee é corroído pela dor e pela culpa de sua tragédia pessoal, que fica clara à medida que passeamos pelas suas memórias; mas ele não deseja ser salvo. A história de Lee é complexa porque é, ao mesmo tempo, um retrato muito cru sobre um momento complexo na vida de qualquer pessoa – no caso, o luto –, mas revestido de uma interpretação simples, quase natural, que olha muito de perto para a nossa própria realidade. Lee não é um cara que tem medo da morte, mas um homem que a viu de perto e entendeu que ela é feia e muito, muito triste – algo que mudou profundamente toda a sua trajetória.

É essa interpretação, tão verossímil a ponto de ser cruel – porque nos lembra constantemente de algo que já vivemos ou inevitavelmente vamos viver um dia, de pessoas que conhecemos ou inevitavelmente conheceremos um dia –, que Manchester à Beira-Mar imprime na tela. Kenneth Lonergan, diretor e roteirista do longa, também não é um homem em busca de respostas: talvez ele nem mesmo esteja interessado nelas. Seu filme não traz uma morte encoberta por uma aura idealizada, por vezes romantizada; mas uma representação muito mais humana e, por isso mesmo, próxima da realidade, que chega de mãos dadas com uma burocracia necessária, ainda que inconveniente; uma tristeza quase sempre silenciosa, e momentos de leveza e carinho, que também ganham espaço em meio à dor.

Manchester à Beira-Mar é também um filme sobre família, sobre pessoas, e nada mais natural que esses laços também sejam explorados na tela. A relação de Lee com seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges) é uma das coisas mais preciosas do filme porque é construída com um cuidado e uma delicadeza raros na ficção. Os dois brigam, discutem, discordam um do outro; mas não são destrutivos, não culpam um ao outro pelo o que está acontecendo. São pessoas completamente diferentes, que lidam com o luto de forma distinta, mas que respeitam o espaço um do outro. Lee é um homem machucado que se permite definir pelas próprias tragédias; Patrick é um adolescente adorável, distante do estereótipo do jovem revoltado (papel que seu tio assume muito melhor) e que não se deixa abater pela perda em praticamente nenhum momento, mas que também sofre à sua própria maneira – e é num momento tão banal, como não conseguir fechar a própria geladeira, que todas as suas frustrações vêm à tona. São personagens despedaçados, que encontram certo conforto na figura do outro porque só os dois são capazes de entender inteiramente o momento que ambos estão vivendo, mesmo com suas devidas ressalvas. Lee não sabe o que é perder um pai, não sabe o que é ter uma mãe alcoólatra, da mesma forma que Patrick não sabe o que é perder um irmão, muito menos o que é perder a mulher e os filhos, e se culpar por uma tragédia que destruiu todos os seus sonhos, sua vida inteira.

Ao mesmo tempo, o longa flerta com o absurdo de situações que seriam de completo mau gosto, não fosse sua proximidade tão grande com a realidade e essa grande piada cósmica que vivemos em tempo integral. O mundo não para pra ninguém, nem mesmo para que possamos superar os nossos traumas, e se essa é uma verdade tão universalmente conhecida, na prática, a realidade é ainda mais dolorida. Tudo continua absolutamente igual: nossos amigos conversam sobre Star Trek, a gente se esquece onde estacionou o carro e recebemos um convite pra jantar na casa de alguém; mesmo que o mundo, o nosso mundo, já não seja mais o mesmo. Porque a solidão também é uma parte do luto, e é por isso também que nem sempre é possível entender o processo pelo qual o outro está passando só por ter a perda como um fator comum em suas trajetórias. O fato de o filme ser ambientado em uma cidade litorânea, à beira-mar, não é puro acaso: sendo o mar – e a pesca – uma atividade importante no passado do protagonista e de seu sobrinho, que unia os dois ao irmão e pai, respectivamente, o mar também surge como um cenário que é, ao mesmo tempo, encantador e assustador, completamente incontrolável – pro bem e pro mal. Lonergan tem uma consciência profunda do lugar em que está pisando – adquirida ao longo dos anos em que esteve construindo histórias, ao invés de também dirigi-las – e sabe que a perda é, tal qual o mar, uma força impossível de se controlar; difícil, imensa e por vezes solitária. O mar é, para os Chandler, um refúgio, um lugar onde lembranças preciosas são construídas e mantidas; mas ao mesmo tempo também se torna um lugar de incertezas e perigo, uma força que pode varrer todas as suas certezas, e que merece ser tratada com cuidado e profundo respeito. Tanto Lee quanto Patrick navegam pelas águas sombrias do luto, mas enquanto o primeiro se permite afogar em seu desespero contido, o segundo continua seguindo em frente, rumo ao horizonte que o espera.

É por isso que é muito fácil entender todos os pontos que fazem de Manchester à Beira-Mar um bom filme, uma produção com cara de Oscar que de fato tem muito a dizer e que, incrivelmente, não fica apenas na expectativa. Ele parte de um grande clichê da ficção – no caso, a morte e o luto –, mas o interpreta e reinterpreta de uma forma que não vemos com frequência. Não é uma história de superação, ninguém muda completamente sua trajetória e fica tudo bem no final, muito pelo contrário – e essa talvez seja a maior lição do filme. Você acredita naqueles personagens porque eles são totalmente verossímeis; você entende suas dores, seus dramas, seu cotidiano – em que às vezes não acontece nada, absolutamente nada, mas nem por isso te faz querer virar as costas e sair correndo dali – porque eles são, de alguma forma, um reflexo também de nós mesmos: e nossas dores, e nosso cotidiano, e nossas vidinhas sem grandes reviravoltas. Tudo ali, impresso em quase duas horas de projeção na tela gigante de um cinema qualquer.

Por outro lado, Manchester à Beira-Mar também não é um filme perfeito – a começar pelas personagens femininas presentes na narrativa.

Atenção: o texto contém spoilers.

Quando fala sobre o Grande Trauma™ da vida de Lee, o filme faz referência ao acidente que pôs fim à vida de seus três filhos, quando, depois de uma reunião – reunião é o jeito legal de dizer: curtição, bebedeira, risadas altíssimas, etc etc – ele resolve sair para comprar uma cerveja. Na volta pra casa, no entanto, Lee encontra o que antes era o seu lar tomado por chamas, labaredas enormes que consomem o lugar enquanto os bombeiros tentam socorrer sua família. A mulher, Randi (Michelle Williams) consegue sair do incidente com vida; seus filhos, no entanto, não têm a mesma sorte. Lee passa a se culpar massivamente pelo acontecido – pela lareira que acendeu antes de sair de casa, pela madeira que saiu rolando pela casa sem que ninguém se desse conta, afinal não havia ninguém lá para ver – quando o que aconteceu foi um infeliz acidente. E acidentes acontecem, não importa o quanto a gente tente evitá-los.

O casamento de Randi e Lee termina porque ambos não conseguem mais lidar com uma união que inevitavelmente traz memórias tão devastadoras. O reencontro dos dois, anos após o acidente, é uma das cenas mais marcantes do filme não só pela carga emocional e a entrega completa de Michelle Williams à mãe que, aos poucos, tenta recobrar o controle da própria vida; mas porque fica claro que os dois ainda se amam profundamente, mas que o amor nem sempre é o suficiente. Que o amor vence tudo é uma ideia que a ficção se dedicou muito tempo a construir, mas que rui como um castelo de cartas tão logo a realidade se põe à prova. E dói, dói, dói ver todas as suas certezas caírem por terra. Ao ignorar a dor e o luto vivido por Randi, contudo, o filme contradiz a si mesmo, tomando um caminho fácil após uma sucessão de escolhas difíceis. Mesmo num papel tão relevante dentro da narrativa, Randi efetivamente aparece pouquíssimas vezes, e a única sorte é que, uma vez em cena, Michelle Williams rouba toda a atenção para si.

Manchester à Beira-Mar não é um filme sobre redenção, não é um filme sobre perdão, não é um filme sobre o amor – mas é, ao mesmo tempo, sobre todas essas coisas também, uma contradição tão proposital quanto a própria existência humana. E esse talvez seja o melhor adjetivo para descrever o filme: humano; da primeira cena até a última. Se há traumas que não são curados com o tempo, mas com os quais aprendemos a conviver, Manchester à Beira-Mar emoldura todos esses sentimentos conflituosos, sem recorrer a soluções mirabolantes, mulheres compreensivas e romances infundados que têm como único objetivo transformar a vida do personagem principal. Porque na vida real isso não acontece – e se o cinema imita vida, nada mais natural que isso também não aconteça aqui. É uma pena, no entanto, que no final das contas Manchester à Beira-Mar continue sendo um filme sobre homens brancos, feito para outros homens brancos – de preferência, homens brancos que passem tempo demais pensando sobre a morte.

Manchester à Beira Mar recebeu 6 indicações ao Oscar, na categoria de: Melhor Filme, Melhor Diretor (Kenneth Lonergan), Melhor Ator (Casey Affleck), Melhor Ator Coadjuvante (Lucas Hedges), Melhor Atriz Coadjuvante (Michelle Williams) e Melhor Roteiro Original (Kenneth Lonergan). 

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