CINEMA

Ainda estamos vivendo numa Geração Prozac

Deve ter sido por volta de 2011 e 2012 que organizei uma pequena seleção de filmes para assistir, incluindo Geração Prozac. Durante os últimos quatro ou cinco anos, comecei a assistir o filme sem ultrapassar muito a marca dos 10 minutos. O problema não era a falta de interesse. Era não saber exatamente o que eu poderia esperar dele. Até que finalmente precisei assisti-lo até o fim para que esse texto pudesse surgir. Então, posso escrever sobre ele e dizer o quanto Geração Prozac se trata de um relato cuja temática é importante discutir.

Não existe um jeito certo, que dirá eficaz, de uma pessoa depressiva descrever seus sentimentos. Talvez saiba identificar os sintomas, mas não os motivos que os causam. Ainda assim, a jornalista Elizabeth Wurtzel o fez. Aos 26 anos ela publicou o livro de memórias Prozac Nation, que em 2001 foi adaptado para o cinema sob a direção do norueguês Erik Skjoldbjærg.

O filme apresenta a luta de Lizzie, interpretada por Christina Ricci, contra a depressão durante seus anos como universitária. Aos 18 anos, ela foi aceita em Harvard para estudar jornalismo com uma bolsa de estudos. Sua mãe, Sra. Wurtzel, vivida por Jessica Lange, não podia estar mais orgulhosa, e com um entusiasmo maior do que o da própria Lizzie. Enquanto a cena da mudança para o campus se desenrola, a narração explica alguns fatos: os pais dela se separaram antes de ela completar dois anos, e entre os dez e doze ela começou a apresentar sintomas depressivos. Ela teve problemas para se enturmar em seu período de escola, e esperava que seu período na faculdade fosse diferente. E, no começo, de fato foi. Lizzie e Ruby (Michelle Williams), sua colega de quarto, experimentaram a tudo que tinham direito enquanto universitárias. Ainda no primeiro ano ela recebeu o Prêmio Universitário de Jornalismo da revista Rolling Stone por sua resenha publicada no Harvard Crimson sobre Lou Reed. Parecia ótimo. Até que não mais.

Um dia, Donald (Nicholas Campbell), o pai ausente, aparece para uma visita e reacende na mente de Lizzie o atrito do relacionamento dos dois, e o incômodo que veio à tona trouxe consequências para sua escrita. Tentando repetir seu feito anterior, as tentativas de escrever uma nova resenha, desta vez sobre Bruce Springsteen, passam a ser frustradas. Lizzie fica presa em um círculo de obsessão por sua escrita – ou a dificuldade com ela – e passa dias sem dormir até que seus amigos decidem levá-la ao hospital. Seu comportamento, agora incisivo, é o primeiro indício de sua condição clínica. E, para Lizzie, a revelação de sua verdadeira pessoa.

Hemingway tem um momento clássico em “O Sol Também se Levanta” quando perguntam para Mike Campbell como ele faliu. Tudo que ele consegue dizer é “Gradualmente, e depois rapidamente”. É assim que a depressão atinge. Você acorda uma manhã com medo de viver.

Confusa e afetada, a convivência com outras pessoas acaba se tornando difícil para ela. Tanto Ruby quanto o namorado de Lizzie, Noah (Jonathan Rhys Meyers), não sabem como ajudá-la. E o comportamento ora agressivo, ora condescendente da garota a torna cada vez mais distante, abalando de alguma forma todos que estão relacionados a ela. A companhia de Lizzie passa a ser intragável quando ela não é capaz de permanecer sóbria e se controlar para não dar patadas em quem está tentando ajudá-la. Mas por mais difícil que seja permanecer ao seu lado, é nesse momento que ela mais precisa de ajuda. Pela perspectiva dela, é um problema fazer as outras pessoas entenderem as dimensões da angústia causada pela depressão – que não tem uma motivação definida; é um amontoado de fatores interconectados e indistinguíveis entre si em todos os cantos de uma mente translúcida, às vezes até opaca.

“Ouça, todos nós temos dias ruins”. Isso é o que as pessoas dizem quando não sabem mais o que dizer. Droga. Também não sei o que sugerir.

De qualquer forma, as brigas com a amiga e o namorado não eram mais graves do que as brigas com sua mãe. Afinal, ela fizera tudo pela filha que agora estava em uma universidade da Ivy League com uma bolsa de estudos e um futuro promissor pela frente. O fato de ela ser incapaz de se aproximar de Donald sem gerar uma calorosa discussão sobre a falta de participação dele na vida da filha não deveria ser tão importante assim. Lizzie deveria enxergar os defeitos dele e não ter esperanças de um relacionamento saudável. Ela quer o bem da filha em primeiro lugar. E por isso Lizzie se sente culpada por seu estado e pressionada para compensar a mãe.

A primeira insinuação sobre procurar ajuda sempre parece absurda. Para algumas pessoas, existe a ilusão de que somos capazes de resolver nossos próprios problemas. De que uma hora esses sentimentos horríveis vão passar. De que, talvez, um momento de epifania esteja esperando para acontecer e o retorno à vida esteja ali, virando a esquina. Até percebermos que essa lógica não passa de ilusão. E quando nos damos por si, estamos ali – no sofá de um psicólogo ou de um psiquiatra. Tentando nos convencer de que aquilo não foi uma ideia ridícula.

Assim como na primeira consulta que Lizzie tem com a Dra. Sterling (Anne Heche), em que uma das primeiras coisas que ela diz é “eu não sei por que estou aqui”. Seguido de um “eu me sinto tão idiota fazendo terapia. Muitas pessoas tiveram infâncias piores que a minha” momentos depois. Confesso que se eu tivesse feito uma lista de frases familiares referentes a essa situação, essa teria sido a quarta ou quinta a ser riscada. Mas então, em resposta, vem a clássica “Não estamos falando de outras pessoas, estamos falando de você”. Sendo fácil ou difícil aceitar, não pense. Continue.

Depois, o progresso, com seus altos e baixos, é o que é. Não tem fórmula, não tem um padrão. Cada caso é um caso. Você é única. Sorria?

Próximo ao desfecho do filme, quando Lizzie tem uma recaída pelo seu relacionamento com Rafe (Jason Biggs) não ter dado certo, Dra. Sterling acaba recomendando que ela tome um medicamento para “adquirir perspectiva e não perder o controle”. O tal do Prozac que está no título do livro, do filme, e desse artigo. Mas que dificilmente está no controle da mente de Lizzie. Uma coisa que tenho notado que não mudou muito daquele tempo para cá, é o preconceito que as pessoas – pessoas estas que muitas vezes nada tem a ver com você e sua doença – têm com esses compostos químicos.

Prozac, Valium, Rivotril. Eles estão na lista proibida, da cor de sua tarja. Mal sabem essas pessoas que um comprimido desses pode evitar uma catástrofe. Que eles não são vilões que tem como função impregnar o cérebro com sua substância e criar viciados em potencial. São aliados no tratamento de uma doença, e na preservação de uma vida. E que tomá-los ou não, não é uma escolha. É engraçado que ninguém fala para um cardíaco abandonar seus remédios, porque o certo é deixar o coração se fortalecer batendo sozinho. Por que então falar para uma pessoa com depressão não aceitar tomar medicamentos? Um comprimido de Prozac após o outro – com supervisão médica, diga-se de passagem – e Lizzie ganhou o espaço para respirar que ela precisava. (O que todos os que estão sob tamanha pressão merecem.)

Às vezes, o baque de sair da depressão pode ser maior do que se encontrar nela. Imagine que você esteja perdido no meio de uma densa neblina por muito tempo. Você acaba se acostumando a não ver o que está ao seu redor. De repente, aquilo se torna a sua realidade e todo o resto é o desconhecido, o estranho. Então um dia a neblina se dissipa. E agora? Aquilo que você vê ao redor é nítido e tem cor. Parece melhor, mas não é a sua realidade. Retornar ao lugar de antes não é uma opção, e você sabe disso, então o que resta a fazer é reunir coragem para se acostumar com o novo cenário e a sua nova pessoa.

Não sei mais quem eu sou. Eu tenho uma personalidade, emocionalmente afetada, mas sou eu. E estou vendo eu me tornar essa pessoa que faz a coisa certa e diz a coisa certa, mas essa não sou eu.

Todos os dias, a pessoa com depressão precisa lidar com vários obstáculos em sua vida. O primeiro deles é sair da cama. O segundo é se por em movimento para fazer todas as coisas básicas de sua rotina. O mundo não para. Deus, por que não? Seria ótimo poder descer. Mas você precisa ver pessoas, dissimular suas dores, ser forte quando te falta forças, não se arrepender e muito menos se martirizar quando por acaso você acaba desabafando com alguém. E tenta se fazer entender no meio de um mundo que parece tão hostil.

Depressão, ansiedade, transtorno de personalidade limítrofe… Tudo isso não é coisa da nossa cabeça. Não vamos melhorar simplesmente indo dormir mais cedo – fun fact: alguns sequer conseguem dormir -, melhorando nossa alimentação, recitando mantras e fazendo yoga. A primeira coisa que precisamos é ter nossos sentimentos validados. E a segunda é incentivo para não desistir, e ir atrás do que quer que seja que precisemos ir atrás.

Se a minha vida pudesse ser como nos filmes queria que um anjo chegasse até mim como faz como Jimmy Stewart em “It’s a Wonderful Life” e me convencesse a não cometer suicídio. Sempre esperei por esse momento de verdade para me libertar e mudar minha vida para sempre. Mas ele não vem. Não é assim que acontece. Todos os remédios, toda a terapia, brigas, raiva, culpa, Rafe, pensamentos suicidas… Tudo isso era parte de um processo de recuperação lento. Da mesma forma que desmoronei, eu voltei a me levantar. Gradualmente, e depois rapidamente.

Agora, vamos aos dados: quando o filme acaba, um texto aparece na tela: “Só nos Estados Unidos, mais 300 milhões de receitas são feitas por ano para Prozac e outros antidepressivos”. Isso em 2001. Mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde classificou a depressão como a quarta doença mais incapacitante do mundo, e prevê que até 2020 seja a segunda. Nos países de baixo a médio rendimento, a prevalência de pessoas com mais episódios depressivos é maior no Brasil. As pessoas com doenças psiquiátricas representam hoje cerca 10% da população. Ainda assim, infelizmente, vivemos em uma sociedade em que a depressão e outros transtornos mentais ainda são um tabu. As pessoas escondem suas dores e seus medicamentos do julgamento alheio, enquanto as estatísticas provam que cada vez mais pessoas estão na mesma situação.

Comparada a figuras como Sylvia Plath e Anne Sexton, Elizabeth usou seu talento com a escrita para contar a sua história. Difícil dizer se seu propósito era exorcizar essa parte de si, ou apenas despir-se para o mundo em prol de exibir a realidade da vida de uma pessoa depressiva. No corpo de uma garota que cursa uma universidade de prestígio, vem de classe média e curte rock’n’roll. Porque doenças mentais não fazem distinção de cor, nem de contexto. Lizzie poderia ter assumido a posição vulnerável que muitos assumem quando se encontram envoltos pela sombra dos seus transtornos, mas ela resolveu compartilhar sua experiência para mostrar a verdade nua e crua e o valor que existe por trás disso tudo. E como consequência, pôde servir de apoio àqueles que não têm coragem para se abrir sobre suas lutas pessoais.

Terminei de assistir Geração Prozac com o meu corpo formigando. Fiz algumas pausas, tomei alguns goles de água. Foi uma experiência difícil, porém necessária, assistir a um filme cujo tema fala tão de perto comigo. Tenho certeza que não fiz jus à ele nem pela metade com esse texto.

Precisamos encarar a verdade: ainda estamos vivendo numa geração Prozac. A questão é que nem todos estão necessariamente sob o medicamento.

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6 Comentários

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    Gabriela Leite
    19 de setembro de 2016 at 12:33

    Que texto INCRÍVEL! Sério. Tô muito sem palavras pra ele.

    • Responda
      Yuu
      21 de setembro de 2016 at 21:38

      Obrigada, Gabriela!

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    Lena
    19 de setembro de 2016 at 19:28

    A vida não será a mesma depois que as cores forem voltando com o auxílio do medicamento. Acho que prefiro, não nesse momento, assistir ao filme… mas eu tento compreender as pessoas que passam por isso, depressão. É tão comum, tão tênue, que… até mesmo quem já teve um episódio não consegue identificar outro com rapidez.
    O texto é muito bom, hoje em dia Prozac é Fluoxetina, não sei porque mudou o nome…. mas sei que ela me fez abrir os olhos em uma manhã depois de 4 meses de escuridão e sentir meu coração pulsar novamente!

    • Responda
      Yuu
      21 de setembro de 2016 at 21:41

      Não será a mesma, de fato. Gostaria que as pessoas entendessem o quanto a depressão é uma doença paralisante, e o quanto a recuperação é lenta e ainda deixa alguns traumas. O filme é um relato muito fiel da vida de uma pessoa com depressão, vale muito a pena assistir quando você encontrar a hora certa. Eu sabia que o Prozac havia mudado o nome comercial, apesar de não me lembrar do novo, mas decidi manter o nome antigo no texto por conta do filme. E fico feliz por ler que seu coração está pulsando novamente. 🙂

      Beijinhos, fique bem!

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    Lucas
    5 de março de 2017 at 18:47

    Ótimo texto. Seu texto e o filme foi de grande importância pro meu dia.
    Durante toda minha infância sofri de ansiedade a ponto de não conseguir fazer nada, desencadeando obesidade por ficar o dia inteiro no computador. Em 2010(12 anos de idade) passei a frequentar escola particular, e por causa do sobrepeso, outras crianças pegavam no meu pé. Por mais que só “estudasse” eu me sentia sufocado por tudo e por todos, me isolei de todos, inclusive familiares, foi quando a direção da escola entrou em contato com minha mãe e disse todos problemas que estava passando e me encaminhou pra uma psicopedagoga. Em 2011 surgiu um anjo na minha vida, que foi minha madrasta, ela me incentivou a emagrecer, fazer amigos, interagir. O plano seguia e super entusiasmado. Estava recebendo ajuda da minha madrasta e podia me abrir com a psicopedagoga. Comecei a mostrar progressos, comecei a sair mais, interagir e auto estima melhorando também. e foi meu primeiro e único ano que consegui somente um amigo. Em agosto de 2011 minha madrasta veio cometer suicídio após voltar de uma festa, estava bêbada e na noite anterior ela tinha tido uma discussão feia com a filha dela. Acordei no sábado pedindo pra minha irmã mais velha ligar pro meu pai pra ele ir me buscar pra ir pra casa dele. Foi quando eu recebi a noticia, o baque foi grande, não consegui acreditar que ela estava morta. Ate o fim do ano de 2013, todos os dias eram os piores dias da minha vida, era ansiedade e depressão espancando minha cabeça por todos lados possíveis.
    Com a mudança de escola, encontrei novos ares, novas pessoas e pessoas mais humildes por ser uma escola publica desta vez.
    Com a morte dela eu não tinha entusiasmo pra mais nada, larguei academia, parei de ir na psicopedagoga e só tomava remédio de controle de ansiedade de 2010 ate 2015, o remédio era eficaz, me sentia “dopado” maior parte do tempo. Não cheguei a tomar antidepressivos, não por falta de indicação, mas por minha ausência no psicologo.
    Foi uma época complicada, não tinha esperança e nem visão de um futuro, o ano de 2016 foi o ano em que “abafava a panos quentes” com drogas e festas. O ano de 2017 vem sendo meu melhor ano, voltei a rotina de estudos, estagio e curso e finalmente sendo reconhecido por quem esta a minha volta.
    Posso dizer que amizades influentes e intelectuais me ajudaram a diminuir sintomas da ansiedade e a depressão sumiu no meu processo de emagrecimento.
    A depressão e ansiedade são doenças serias que não se podem fazer piadas ou brincar. Pior maneira de morte lenta.

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    Ana
    7 de março de 2017 at 19:02

    Que texto excelente. Eu assisti esse filme ontem, como quem não queria nada, e que filme! Seu texto conseguiu passar muito bem o que eu senti assistindo o filme. Parabéns!

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