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Mary Pickford: muito mais do que a queridinha da América

Desde os seus primórdios, a indústria cinematográfica tem sido uma área composta predominantemente por homens. Mesmo hoje, mais de cem anos após o surgimento do primeiro cinematógrafo, homens continuam a ser maioria à frente (em 2016, apenas 29% dos 100 filmes com maior bilheteria foram protagonizados por mulheres) e, sobretudo, atrás das câmeras, e são eles os responsáveis por contar a versão amplamente conhecida dos fatos que compõe a história do cinema.

Das poucas mulheres lembradas ainda sabemos muito pouco, porque muito pouco é, de fato, dito sobre elas. Muitas foram responsáveis por obras importantes, mas poucas são as que tiveram seus trabalhos reconhecidos. Sexismo e jornadas duplas e triplas de trabalho também contribuíram para o quadro reduzido de profissionais do sexo feminino nos bastidores das grandes produções cinematográficas, cujas consequências podem ser vistas até hoje, como a escassez de mulheres em áreas como a fotografia, em que até mesmo o termo para designar os profissionais que manuseiam as câmeras (cameraman) não leva seu gênero em consideração. Mesmo em áreas como direção, produção e roteiro, a disparidade de gênero permanece notória: vai da discrepância salarial entre homens e mulheres, até o fato de ainda serem minoria em funções de liderança, dificilmente sendo responsáveis pelas histórias que chegam às salas de cinema.

Nada disso foi suficiente para excluir mulheres dos bastidores da indústria cinematográfica, mas tornou mais difícil o processo de ascensão profissional, sobretudo porque as oportunidades eram escassas. Ainda assim, algumas mulheres conseguiram construir carreiras sólidas no cinema, tendo se dedicado à realização e promoção da sétima arte. Foi o caso de Mary Pickford, notadamente um dos mais importantes nomes do cinema mudo.

Nascida Gladis Marie Smith, no ano de 1892, a trajetória de Mary Pickford se confunde com a história do cinema norte-americano. Ao longo da carreira, ela acumulou mais de 200 produções em seu currículo como atriz, realizadas principalmente durante o período silencioso, quando também exerceu funções importantes nos bastidores. Para garantir a qualidade dos projetos dos quais fazia parte, a atriz passou a se envolver ativamente em outras áreas de produção, sempre atenta a detalhes que pudessem passar despercebidos ao olhar menos cuidadoso de outros profissionais. O conhecimento adquirido possibilitou que, anos mais tarde, ela expandisse o alcance do seu trabalho, como, por exemplo, no exercício de atividades como produtora e escritora, ou que abrisse a própria produtora — um feito, até então, inédito.

O início de sua carreira no cinema data, oficialmente, do ano de 1909, quando a então atriz tinha apenas 17 anos. Contudo, mesmo antes, Mary já possuía uma proeminente carreira no teatro, tradição herdada da própria família, cujo sucesso fora responsável por salvar a mãe e os dois irmãos da miséria após a morte precoce do pai. A experiência prévia nos palcos também viabilizou a ascensão e sucesso em Hollywood, cujo apreço pela sua aparência doce e delicada rendeu-lhe o apelido de America’s Sweetheart (“queridinha da América”, em tradução livre), ao passo que seu talento lhe renderia a alcunha de maior atriz do cinema mudo.

A mulher por trás das câmeras, no entanto, estava muito distante do estereótipo incorporado por suas personagens. Conhecida também como “mocinha dos cachos dourados” ou a “pequena Mary”, Pickford era, na realidade, uma mulher bastante articulada, inteligente e por vezes dura. Em Silent Stars, livro publicado pela primeira vez em meados de 1998, Jeanine Basinger, a autora, constrói uma análise profunda sobre a trajetória de grandes estrelas do cinema silencioso, cujas verdadeiras personalidades foram mascaradas pelos papéis que interpretaram ao longo de suas carreiras. E como muitas mulheres que estiveram associadas a papéis muito diferentes daqueles que desempenharam em vida, Mary Pickford também foi eclipsada por suas personagens.

A imagem da menina adorável de longos cabelos encaracolados e olhar inocente, como ficou imortalizada no cinema, começou a ser moldada em 1914, com o filme Tess Of The Storm Country, mas foi firmar-se apenas três anos depois, com seus papéis em Poor Little Rich Girl e Rebecca Of Sunnybrook Farm. A maior estabilidade na carreira levou a obtenção de novos papéis, mas não a desassociou da personagem de aspecto virginal que a tornara popular — o que, em consequência, iria promover alguns momentos controversos em sua carreira, como quando, aos 27 anos, interpretou uma menina de doze no filme Polyanna.

Em seu livro, Besinger rememora a mulher pequena (ela tinha apenas 1,54cm de altura) e de aparente fragilidade que foi Pickford, e as cruza com outras características menos óbvias, como o fato de ter sido uma mulher bastante rigorosa e inteligente, além de muito firme em suas opiniões. Ao mesmo tempo, embora não tivesse muitas similaridades com suas personagens, muitas delas eram jovens batalhadoras, o que a atriz também fora, sobretudo no início da carreira. Antes de se tornar uma grande estrela do cinema, ela já almejava o sucesso profissional e sabia o que era necessário para alcançá-lo. Durante o período em que trabalhou no teatro, sua mãe, a também atriz Charlotte Smith, fora sua principal ajuda e mentora, e a auxiliou na conquista do próprio espaço. No cinema, porém, a profissão de atriz ainda era muito recente, de modo que ninguém, além dela própria, poderia oferecer qualquer ajuda. Desse modo, e ainda muito jovem, Pickford bateu à porta do diretor, produtor e dramaturgo David Belasco, a quem pediu que a ajudasse a se tornar uma boa atriz. Mais tarde, a mesma determinação a levaria até a porta de D. W. Griffith, nos estúdios da Biograph. Era o início de sua carreira cinematográfica.

A parceria entre Pickford e Griffith é uma das mais conhecidas e celebradas da história do cinema hollywoodiano. Juntamente com Charles Chaplin e Douglas Fairbanks — marido da atriz à época —, os dois criaram a United Artists, companhia cinematográfica independente. O empreendimento logo traria frutos, tornando-se referência na distribuição de filmes e consagrando cineastas como Walt Disney. Mary, por sua vez, teve a chance de trabalhar e produzir os próprios filmes enquanto esteve à frente do projeto. Por muito tempo, ela esteve comprometida com a companhia, até que, em meados da década de 1950, ela e Chaplin, os únicos sócios vivos, decidiram vendê-la ao advogado Arthur Krim. Antes disso, no entanto, quando Griffith ainda estava vivo, a parceria entre os dois começou a azedar, em grande parte pela dificuldade do diretor em lidar com as fortes opiniões de Pickford. A busca por maior autonomia a fez criar a própria produtora, The Mary Pickford Company, onde passou a trabalhar por conta própria e conforme as próprias regras, e a estrelar apenas produções que eram de seu interesse. A companhia lhe deu maior liberdade criativa, além de torná-la responsável pela escolha dos profissionais com quem trabalhava, e emplacou uma série consecutiva de sucessos — entre eles, M’liss, filme roteirizado pela sua amiga, Frances Marion.

A rotina intensa de trabalho perdurou por muitos anos e coincidiu com o período de maior atividade da atriz. Ao passo que continuava a trabalhar em diversas frentes, suas produções se tornaram grandes sucessos de bilheteria, superando, por exemplo, filmes produzidos e estrelados por Charles Chaplin, muito provavelmente o nome mais famoso do cinema mudo. Com o advento do cinema sonoro, Mary Pickford rompeu definitivamente com a imagem que construíra desde o início de sua carreira em Hollywood, mas a ruptura não foi recebida com entusiasmo pelo público. Ela fez novos filmes, cortou o cabelo e recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo seu papel no filme Coquette, de 1929, mas nem o público nem a mídia estavam interessados em seus novos feitos profissionais.

Não demorou para que sua carreira de atriz chegasse ao fim. Depois de uma sucessão de fracassos de bilheteria — entre eles, o próprio Coquette, que lhe rendera o prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas —, Pickford decidiu, em 1933, abandonar oficialmente a carreira à frente das câmeras e dedicar-se somente à produção de novos filmes. Mas o afastamento terminou por marcar um período bastante conturbado em sua vida pessoal. Pouco tempo após a morte da mãe, de quem era bastante próxima, ela perdeu seus dois irmãos, Lottie e Jack Pickford, e separou-se do segundo marido, que trouxe à tona escândalos mantidos em segredo até então. Em consequência, ela tornou-se uma mulher deprimida e desenvolveu alcoolismo, o mesmo problema que havia levado o pai à morte quando tinha apenas seis anos. Em 1947, ela tentaria por uma última vez retornar às telas do cinema, dessa vez no filme Life With Father, mas o papel foi dado à Irenne Dunne, o que colocou um ponto definitivo em sua carreira.

Em 1953, então com 61 anos, Mary Pickford publicou seu livro de memórias, Sunshine and Shadow, obra na qual relata episódios da vida profissional e familiar, e compartilha pequenas anedotas sobre a vida pessoal — como quando, na infância, comprava rosas e comia as pétalas, acreditando que a beleza, o perfume e as cores da flor passariam a fazer parte dela, de algum modo. À época do lançamento, ela já não aparecia em público, preferindo viver reclusa em sua residência ao lado do terceiro marido, o ator Charles Rogers. Sua última aparição aconteceu em 1976, três anos antes da sua morte, durante a cerimônia do Oscar, em que a artista recebeu o prêmio honorário pelo conjunto de sua obra e contribuição para o cinema norte-americano.

Além dos filmes nos quais atuou, Mary Pickford produziu mais de trinta títulos, escreveu outros catorze, e arriscou-se em muitas funções durante a carreira. Ela foi uma das fundadoras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e a primeira mulher a ter seu nome divulgado antes do título de um filme e a receber uma porcentagem nos lucros das produções nas quais havia trabalhado. Mais do que isso, em uma época em que a indústria era tão mais hostil do que conhecemos hoje, Pickford foi uma figura fundamental na conquista por direitos. Atenta ao feminismo que ganhou força durante a década de 1920, a atriz foi uma entusiasta do direito feminino ao voto e, em Hollywood, conseguiu abrir espaço para que outras profissionais pudessem ter oportunidades inéditas. Quase quarenta anos após a sua morte, ela continua a ser um ótimo exemplo de profissional que sempre acreditou no próprio trabalho, que encarou o sucesso como fruto de seus esforços e que serviu aos propósitos de uma só pessoa, a quem manteve-se fiel até o fim: ela mesma, a única e eterna Mary Pickford.

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1 comentário

  1. Adorei o texto! Eu amo cinema mudo e sofro com a dificuldade de encontrar material que não seja Charles Chaplin. Seria legal ver outros textos seus sobre as estrelas do cinema mudo e sua relevância para a cultura. Clara Bow, Lilian Gish, Theda Bara e outras. Um beijo e parabéns pelo post!