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De Frente com Valkirias: Mary E. Pearson

Às vezes, nossas mais belas lembranças são histórias distorcidas pelo tempo. Tudo que nossa memória toca corre o risco de ganhar contornos fantasiosos, nem sempre próximos da realidade. Felizmente, as doces recordações guardadas pelos leitores que embarcaram na jornada das Crônicas de Amor & Ódio são verdadeiras. E deixaram saudade. Muita saudade.

Foi movida por todo esse carinho pelo universo criado por Mary E. Pearson que a DarkSide Books anunciou o lançamento de Dance of Thieves, primeiro volume de Dinastia de Ladrões, série ambientada no mesmo universo das Crônicas com uma história que se desenrola alguns anos depois de seu desfecho. Em entrevista ao Valkirias, a autora da linha #DarkLove falou um pouco sobre o que podemos esperar da história, os desafios da criação de personagens e como Lia (e agora Kazi) inspiraram leitoras a serem tudo aquilo que elas desejam ser.

Vamos começar do início. Sobre o que é Dance of Thieves?

MARY E. PEARSON: Dance of Thieves se passa seis anos depois no universo das Crônicas de Amor e Ódio e é narrado de dois pontos de vista. Primeiro, conhecemos Kazi, uma órfã que cresceu nas miseráveis ruas de Venda. Ela sobreviveu usando sua inteligência e roubando. Ela é uma ladra talentosa, que é escolhida pela nova rainha de Venda e treinada como um soldado, e então enviada numa missão secreta para roubar algo de uma dinastia familiar poderosa em um reino distante.

A seguir, conhecemos Jase Ballenger. Ele acabou de se tornar o novo líder dessa poderosa dinastia familiar e sua família está determinada a manter esses segredos que Kazi foi enviada para revelar. Kazi e Jase estão destinados a serem inimigos, mas quando eles se encontraram, decidi jogar lenha na fogueira (porque eu sou má) e algo inacreditável acontece.

Eles se veem numa situação muito íntima, esquisita e angustiante. Foi muito divertida de escrever. Por fim, Dance of Thieves é uma história em camadas sobre amor, perda, pressuposições falsas, feridas escondidas que todos temos e que nunca saram, e numa escala mais global, sobre o ciclo de maldade que continua se repetindo geração após geração. E, talvez, seja especialmente sobre a mágica que pode acontecer quando duas pessoas têm que literalmente se colocar no lugar um do outro.

Mary E. Pearson

O que os leitores podem esperar dessa nova aventura?

M.E.P.: Mentiras, perigo, aventura…e faíscas! (E talvez algumas lágrimas. Me desculpem)

Sua construção de mundo é incrível. Tudo parece tão real, como uma realidade alternativa. Qual a sua parte favorita desse mundo?

M.E.P.: Eu amo que ele pode ser reconhecido de várias formas como o nosso próprio mundo. A História não é irrelevante, ela está bem viva e presente, ela é um personagem por si só, que está impactando as vidas de todos na narrativa.

Uma vez que a história se passa no mesmo universo das Crônicas de Amor e Ódio, iremos rever alguns rostos familiares de livros anteriores?

M.E.P.: Sim! Por mais que a história seja sobre Jase e Kazi, os leitores poderão ver um pouco de alguns favoritos. Espero que fiquem satisfeitos.

Você tem planos de continuar explorando o universo de As Crônicas de Amor e Ódio e Dance of Thieves em livros futuros, contando histórias sobre personagens que, de certa forma, se conectam à jornada da Lia?

M.E.P.: Existem muitos reinos, territórios e histórias nesse continente que ainda poderiam ser explorados. Se eu sentir o chamado de um deles e isso persistir, irei escrever.

Todos sabemos que Kazi é uma guerreira feroz e uma ladra talentosa, mas ela é tão mais do que isso. Como você a descreveria?

M.E.P.: Kazi é uma sobrevivente. Mesmo quando ela não precisa mais lutar e roubar por comida, ela não esquece de como foi. Seu passado a acompanha sempre e ela carrega uma empatia íntima nesse mundo onde tantos não têm nenhuma. Sua perda pessoal também lhe deu um forte senso de justiça. Como ela diz, algumas coisas ela nunca poderá corrigir, mas outras ela pode. E é nisso que ela joga sua energia e que a torna imbatível.

Seus personagens são sempre tão reais e você sabe como torná-los uma parte viva da sua obra. Qual o maior desafio ao criar personagens femininos e masculinos?

M.E.P.: Dar tempo para eles respirarem e crescerem. Permitir que sejam falhos, como todas as pessoas são. Muito do processo de dar vida a eles envolve ouvir. Escutar suas vozes leva tempo. Muito da minha escrita acontece durante longas caminhadas, quando nem estou perto do teclado. Revelações e trechos de diálogos surgem. Muito também vem de entender seus desejos e necessidades em diversos pontos da história. Pode mudar e evoluir, conforme os eventos acontecem, mas eu sempre tenho que ter um forte conhecimento do que os move. Esse é o núcleo do personagem e o coração de toda a história.

Mary E. Pearson

Um dos tópicos principais das Crônicas de Amor e Ódio é sobre como os livros inspiram as mulheres a serem tudo que elas desejam ser. De que forma Kazi e outras personagens femininas, como Synové, empoderam as mulheres?

M.E.P.: Não posso responder por todas as mulheres, mas espero que quando as leitoras vejam as minhas personagens, elas possam ver mulheres que têm forças e fraquezas, assim como qualquer outra mulher. E que às vezes elas têm medo, mas que mantêm suas posições. Espero que vejam mulheres que não têm poderes especiais, mas que acreditam em si e no que fazem — o que é provavelmente o maior poder de todos. Espero que vejam mulheres que ficam ao lado uma da outra e que se defendem e se ajudam quando uma delas cai. Espero que vejam a si mesmas em uma das minhas personagens e reconheçam a própria força que elas já tem e a aceitem.

Ainda sobre empoderamento feminino, alguém já entrou em contato com você sobre como foi inspirada pela história da Lia — e agora a da Kazi? Se sim, como foi isso?

M.E.P.: Sim, e essa é provavelmente a melhor parte de ser uma escritora. Me sinto honrada e impressionada pelas leitoras que foram inspiradas pela coragem e tenacidade da Lia, buscando lá no fundo de si sua própria coragem diante das dificuldades. Elas são incrivelmente fortes e fico grata se Lia, de alguma forma, as ajudou a alcançar essa força e acreditar em si mesmas.

Você sente que as mulheres ainda têm que batalhar para serem escritoras bem sucedidas? Quando você começou a galgar por seu lugar, você sentiu que não conseguia fazer tudo que queria por causa da nossa sociedade sexista?

M.E.P.: Quando comecei a escrever, a voz e experiência femininas não eram tão reverenciadas e respeitadas quanto as dos homens. Podemos ver isso em como os livros eram criticados, considerados para premiações e promovidos. Autores masculinos sempre receberam mais de tudo. Suas vozes eram amplificadas em todos os níveis. Definitivamente melhorou, fico especialmente feliz em saber que mais leitores do sexo masculino estão aceitando as personagens femininas e também ansiosos por ler mais sobre elas — essa é uma grande e importante mudança, mas ainda há progresso a ser feito.

Estamos muito empolgadas com Dance of Thieves no Brasil. Como foi a recepção dos primeiros exemplares do livro até agora? E como seus leitores estão reagindo ao novo livro?

M.E.P.: A reação tem sido incrível. É claro que eu fiquei um pouco preocupada, porque às vezes os leitores se apegam demais a um grupo de personagens e fica muito difícil abrir a porta para novos personagens, mas as críticas e e-mails tem sido incrivelmente positivos. Eu não poderia estar mais feliz. Os leitores abriram seus corações avidamente para esses novos personagens.

O que você está achando de ter sua segunda série de livros publicada sob o selo DarkLove?

M.E.P.: Eu estou mais que feliz. A DarkLove fez um trabalho tão bonito com As Crônicas de Amor e Ódio tanto do ponto de vista físico do livro quanto na divulgação para os leitores. E os fãs no Brasil têm sido maravilhosos. Me sinto muito grata por cada um deles e gostaria de agradecer desde já por seguirem comigo, Kazi e Jase em mais uma jornada nesse mundo das Crônicas. Eu me apaixonei por esses heróis inesperados, tanto por suas falhas quanto seus medos, por quanto são fortes e fodões. E espero que os leitores também!

Paviamma.

Nilsen Silva é editora, escritora e jornalista. Apaixonada por livros, por terras distantes e por pessoas que só existem na ficção. Gosta de incensos, plantinhas e roupas confortáveis, e queria passar as horas livres capturando Cartas Clow. Newsletter | Twitter | Instagram | Facebook


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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