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Realismo e crítica social em Luke Cage

Desde sua aparição em Jessica Jones, no final do ano passado, a expectativa por uma série solo de Luke Cage (Mike Colter) cresceu, transformando a série em um dos lançamentos mais aguardados do ano. Ao contrário de suas antecessoras e de outras produções do Universo Marvel, no entanto, Luke Cage nos apresenta uma nova fórmula para contar a história de super-heróis e subverte saídas fáceis encontradas nesse tipo de narrativa ao mesmo tempo em que celebra a comunidade negra do Harlem, explora a essência de seus personagens e nos apresenta conflitos que não parecem distantes da realidade em que vivemos.

Atenção: este texto contém spoilers!

A série tem início após os eventos da primeira temporada de Jessica Jones. Depois de ver seu bar ser inteiramente destruído e quase morrer enquanto tentava descobrir mais sobre o assassino de sua esposa, Reva Connors (Parisa Fitz-Henley), Luke passa a uma vida tranquila, dividindo-se entre o trabalho como faxineiro em uma barbearia e como lavador de pratos na Harlem Paradise, boate de Cornell Stokes, também conhecido como Cottonmouth (Mahershala Ali). Sem fechar os olhos aos problemas da comunidade em que vive, Luke está satisfeito com sua posição e não tem interesse em se tornar herói ou vigilante, apesar de seus poderes. Seu caminho corre em oposição ao de outros heróis, no qual ele tenta a todo custo passar despercebido e se manter longe de conflitos. O assassinato de Pop (Frankie Faison), o dono da barbearia, muda a vida de Luke, e sendo uma das únicas pessoas que tinham conhecimento sobre seus poderes e um dos poucos elos restantes com sua falecida esposa, a morte é um gatilho para que o herói inicie uma jornada de vingança, inicialmente, e por um futuro melhor e livre de corrupção para o Harlem.

É impossível falar sobre Luke Cage sem também falar sobre o cenário onde a maior parte da trama se desenvolve. Famoso por ser um grande centro cultural e comercial da comunidade negra estadunidense, o Harlem é um personagem tão importante quanto aqueles de carne e osso. O bairro se conecta a personagens e histórias, acompanha a transformação de Luke em herói, a ascensão e queda de Cottonmouth, Mariah Dillard (Alfre Woodard) e Hernan “Shades” Alvarez (Theo Rossi), e faz paralelos com a realidade serem mais facilmente traçados, lembrando, por exemplo, os recentes episódios envolvendo a força policial racista e as mortes de negros nos Estados Unidos — um elo tão forte que a transforma em uma das produções mais importantes da parceria entre Marvel e Netflix.

O viés realista em comparação a outras produções do gênero (com exceção de Jessica Jones, em que a temática de abuso marca presença) é o maior trunfo da série. Não há espaço para trajes ou uniformes de super-heróis, não há raios ou teias de aranha como poder; o tom mais pé no chão é o que dita o ritmo e a trama entrelaçada à briga por poder das gangues do Harlem só aumenta essa sensação de realismo. Não fosse a força extrema e o poder de regeneração, Luke poderia ser qualquer homem negro residente do bairro e é sua identificação primeira com essas pessoas, que não foge da importância e impacto social da série, que a faz tão significativa. Ao citar inúmeras personalidades negras — cantores, rappers e escritores, só para mencionar alguns — há toda uma história de fundo com a qual se relacionar, principalmente para quem vive a realidade estadunidense, mais especificamente a nova iorquina.

Apesar da Marvel já ter introduzido heróis negros em suas produções para o cinema — Máquina de Guerra, Falcão e Pantera Negra —, Luke é o primeiro em que reside um protagonismo real. Dar esse destaque sem cair em estereótipos ou caricaturas, particularmente no momento em que vivemos, é essencial. A vida em comunidade entra em voga quando o roteiro não se desvia desvia de questões importantes — e que são tratadas sem metáforas. Assim, quando o rapper Method Man aparece como ele mesmo, exaltando a figura e importância de Luke para os moradores do Harlem, não há didatismo. O fato de apresentar o bairro de forma clara, com destaque especial amarelo em sua coloração — uma referência ao uniforme utilizado pelo herói nos quadrinhos —, corrobora para a construção de uma narrativa que busca enxergar o Harlem e seus moradores em nuances, não os relegando à invisibilidade das margens.

O mesmo se aplica às mulheres, que aparecem em diferentes contextos e exercem papéis diferentes na história. Misty Knight (Simone Missick), Mariah Dillard e Claire Temple (Rosario Dawson) possuem motivações distintas e agem com autonomia, para o bem e para o mal. Misty é uma policial que passa a questionar o sistema no qual está inserida a partir do momento que vê Mariah escapar da justiça em duas ocasiões diferentes e acaba perdendo a cabeça ao tentar fazer justiça de qualquer maneira, mesmo em um ambiente tão corrupto que coloca em risco sua vida e seu emprego. Misty é uma personagem dinâmica e bem intencionada, mas ao mesmo tempo ambígua, o que a torna proporcionalmente mais complexa.

Mariah, por sua vez, é o que a série tem de mais próximo a uma vilã, embora uma versão tradicional não seja possível de apontar. Inspirada pela Black Mariah dos quadrinhos — uma líder de gangue e traficante de drogas —, na série, ela está envolvida em diferentes conflitos, mas nunca se expõe ou participa da ação, agindo como estrategista ou a um nível político, em conformidade com sua posição, e a figura pública mascara uma personalidade fria e calculista, uma pessoa disposta a qualquer coisa para manter a própria relevância.

A dificuldade em estabelecer um antagonista desde o início, no entanto, faz com que a figura de Mariah perca alguma força. Enquanto Jessica Jones possui a figura de Kilgrave (David Tennant) como vilão central e em Demolidor exista Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), Luke Cage divide o mal em diferentes faces. Cottonmouth, Mariah, Shades e Kid Cascavel (Erik Laray Harvey) são, evidentemente, maus, mas nenhum deles é estabelecido como um grande opositor a Luke, e em nenhum deles se encontra o que parece necessário para conquistar o espectador. Cottonmouth é quem chega mais perto, mas sua morte precoce abre espaço para que muitos — e nenhum — o assumam ao mesmo tempo.

Shades, melhor inserido no papel de um ajudante, não parece realmente uma opção razoável, ao passo que Kid Cascavel possui motivações pouco convincentes para suas ações. Enquanto, nos quadrinhos, Cascavel se volta contra Luke por causa de Reva, o discurso de rejeição pelo pai (os dois são irmãos, conforme descobrimos mais tarde) e o câncer que culminou no falecimento de sua mãe não são motivações inovadoras e fazem a rivalidade menos interessante do que seria o amor de uma mulher. Ainda que o background do personagem seja apresentado, ele tampouco é suficiente para gerar qualquer tipo de empatia. Importante frisar que, com a Marvel, sempre houve a pintura exata de um antagonista e, mesmo que Luke Cage seja diferente de todos os demais trabalhos da Casa de Ideias, essa ainda parece uma falha muito mais do que uma desconstrução.

Há uma evidente dificuldade em adaptar a história, não porque migrá-la para os dias atuais seja uma tarefa complicada, mas porque muitos de seus personagens parecem perdidos em trejeitos caricatos que os tornam particularmente difíceis de visualizar fora do contexto original. A inserção de Claire Temple (Rosario Dawson) acaba sendo um ponto de equilíbrio não apenas porque faz ligação entre os universos de Jessica Jones e Demolidor com o de Luke Cage, mas porque é uma figura realista, que adiciona maiores nuances ao enredo. Se, em princípio, ela rejeita fazer parte desse mundo, Luke Cage marca o momento em que Claire, uma enfermeira sem quaisquer poderes especiais, compreende que até mesmo um homem com super força precisa de apoio. A participação de Sonia Braga como sua mãe, Soledad Temple, é também uma agradável surpresa, e finca suas raízes nesse mundo, embora sua aparição seja muito breve para ser suficiente.

E ainda assim, apesar de trazer temáticas inovadoras dentro de um universo saturado, Luke Cage também aposta em saídas que muitas vezes são bastante óbvias — como umas Pop como motivação para que Luke aceite seu chamado e siga sua jornada como o herói que o Harlem precisa. Da mesma forma, algum tempo após o assassinato de Pop, Cottonmouth explode um prédio inteiro com uma bazuca e ninguém vê absolutamente nada, enquanto Kid Cascavel, num outro episódio, atira em plena luz do dia com uma arma e ninguém vê nada — ou, ao menos, é o que a série faz parecer. Kid também enfrenta sozinho um punhado de capangas, saindo ileso de um grande tiroteio em que era o principal alvo.

As lutas são outro ponto que divide opiniões: são muito mais cruas e sem coreografias típicas do gênero. A eletricidade das lutas protagonizadas por Matt Murdock (Charlie Cox) cedem lugar a um protagonista que leva tiros e estraga moletons, artifício que faz sentido dentro do contexto em seu universo, mas não possuem o mesmo apelo de cenas como as do corredor. Luke, porém, não possui um treinamento em artes marciais como Matt — seu histórico é com o boxe, e as diferenças entre uma modalidade e outra podem causar certo estranhamento. As lutas são parte do que constrói o universo de cada herói; Luke está para o boxe como Matt está para as artes marciais e Jessica (Krysten Ritter) está para a ausência de treinamento e por isso costuma usar sua força de forma mais crua, arremessando seus oponentes. As cenas de luta em Luke Cage apenas aumenta o tom e realismo da série, mesmo que o protagonista seja à prova de balas.

Luke Cage é uma surpresa bastante agradável, que cumpre seu papel ao apresentar de forma eficiente a história de seu protagonista: ao apostar numa trama que vai além do que é esperado de uma série de super-heróis, Luke Cage prova que é possível inovar em um gênero saturado e consegue fazer críticas sociais relevantes sem cair em estereótipos e abrir mão do fan service ou dos easter eggs. Erros existem e devem ser levados em consideração, mas isso não diminui os acertos ou a importância da série. A expectativa que fica é que os próximos lançamentos da parceria entre Marvel e Netflix continuem no mesmo caminho. Se isso acontecer, muita coisa boa virá por aí.

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Crítica escrita em parceria por Ana Claudia, Ana Luíza e Thay.

**Obs: A nota final para a temporada é uma média entre as notas individuais de cada uma das autoras do texto.

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