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Georgia Miller e as “mães ruins”

Em 2016, o filme Bad Moms (no Brasil, Perfeita é a Mãe) estreou nos Estados Unidos, com um enredo pouco original, já repetido inúmeras outras vezes no cinema e na televisão. Durante os cem minutos do longa, acompanhamos a trajetória sobretudo de Amy Mitchell (Mila Kunis) que, embora cumpra todos os papéis adequados às mães do idealizado subúrbio norte-americano, perde o controle sobre seu casamento, seus filhos e seu emprego e precisa, com a ajuda de amigas recém-conquistadas, colocar sua vida de volta nos trilhos.

Cinco anos antes, em 2011, I Don’t Know How She Does It (no Brasil, Não Sei Como Ela Consegue) mostrava Kate (Sarah Jessica Parker) tentando balancear o casamento, a criação dos filhos e o emprego que ama enquanto, ao mesmo tempo, tentava aprender a pedir ajuda e não se sentir mal quando perdesse eventos minúsculos, cercados de uma simbologia que só faz sentido no universo maternal: o primeiro corte de cabelo, a venda de bolos na escola etc.

Essas duas representações femininas são unidas por mais do que os papéis de gênero que a modernidade e o capitalismo as obriga a desempenhar (na sinopse do filme de Jessica Parker, lê-se que ela é “o modelo perfeito da mulher moderna: trabalha fora de casa, educa dois filhos, cuida do marido e de si mesma”), e que também as liga a outras representações femininas de maternidade: o profundo sentimento de que, quando as coisas saem um pouco do controle, elas se tornam “mães ruins”.

Georgia Miller

O papel — tradicional ou não — da maternidade é com frequência representado a partir de uma série de regras que, mais cedo ou mais tarde, resultarão na sensação de “falha” e no título de “mãe ruim”, que pode ou não ser apagado em seguida; que pode ou não contar com a compreensão do público; que pode ou não condenar a figura da mãe. Tanto ao se afastar do ideal maternal — a casa, os filhos, a dedicação completa, a habilidade culinária — quanto ao se aproximar dele, não sobra para essas personagens um enredo que não as coloque, propositalmente, sob o olhar do público, que as então as sentenciará.

Cinco anos depois de Bad Moms, junta-se ao hall de mães que existem principalmente para serem julgadas — formado por Rebecca Pearson, Emily e Lorelai Gilmore, Rochelle, Skyler White, Betty Draper, Jane Villanueva, e mesmo Dona Nenê, Lurdes e Maria do Carmo, dentre tantas outras — a protagonista da nova produção “familiar” da Netflix, Georgia Miller, mãe de duas crianças — Ginny e Austin — e dona de um passado misterioso.

Atenção: este texto contém spoilers

Ao se mudar para uma cidade pequena da Nova Inglaterra após a morte de seu marido, o maior desejo de Georgia Miller (Brianne Howey) é dar aos filhos uma vida centrada em um típico subúrbio americano, onde eles poderão ter a educação e as oportunidades que ela mesma nunca teve. Por isso, ela compra uma casa tradicional e veste a máscara da mãe dedicada, que participa de eventos escolares, vota por lanches saudáveis e faz de tudo para cuidar de suas crianças.

Mas não demora para que o espectador aprenda que essa máscara são mesmo só isso: uma forma de esconder a realidade das ações de Georgia, de seus medos e de seu passado. Para além das suas atitudes encantadoras, descobrimos a mãe adolescente assustada, abusada por seu padrasto durante toda a sua infância, parte de uma gangue de motociclistas, mentirosa, ladra e mesmo assassina — tudo isso no espaço de alguns anos, ou, melhor ainda, de alguns (poucos) episódios.

A mudança de tom de Georgia acarreta para a personagem não apenas um passado amplo e com enorme potencial de desenvolvimento, mas também uma sombra assustadora, que faz com que o espectador questione a sua “qualidade” como mãe. Enquanto temos acesso somente ao seu sofrimento — o abuso, a solidão, o medo, a fuga —, ela é uma mulher resiliente, tentando se sustentar; uma mãe que está fazendo o melhor que pode. Quando, porém, descobrimos que ela também é uma mulher efetivamente cruel, calculista e interesseira, e que algumas de suas atitudes são baseadas em pura vingança, o papel de mãe se transforma: ela se torna má, inadequada, exagerada. Em geral, uma mãe ruim. Mas por que mães precisam ser vistas a partir dessa dualidade?

Georgia Miller

Toda a série é criada como um espelho de outra série sobre maternidade, Gilmore Girls, na qual Lorelai Gilmore (Lauren Graham) é a acusada de ser um mau exemplo não apenas pelas pessoas que a conhecem, mas por sua própria mãe, às vezes por sua filha, e, com frequência, pelo espectador. Georgia e Lorelai são duas mulheres que tiveram filhos quando ainda eram muito jovens e precisaram reorganizar toda a sua vida e seus planos a partir desse acontecimento, tomando, para isso, caminhos pouco ortodoxos — a primeira, com a vida em trânsito, as decisões arriscadas; a segunda, saindo da casa dos pais, abandonando os luxos de uma vida da classe alta americana tradicional.

Ambas, em um dado momento de suas vidas, atingem uma espécie de segurança financeira e individual, na qual são capazes de oferecer conforto e qualidade de vida, mas continuam não sendo mães tradicionais. Suas casas são marcadas por fast food e quantidades nada saudáveis de vinho e café; suas vidas amorosas não contam com um parceiro fixo; seus trabalhos são executados de maneira mecânica; a sua relação com seus filhos mais parece uma amizade etc. No entanto, enquanto Lorelai continua sendo um modelo de mulher moderna cool que faz o melhor que pode, seguindo um status quo neoliberal e feminista só até a segunda página, Georgia rompe com todas as expectativas, inclusive aquelas que a manteriam ilesa dos crimes que cometeu: ela não lamenta, não pede desculpas e não se pergunta se estava fazendo a coisa certa. Ela apenas continua.

Construída a partir do intrínseco diálogo entre Georgia e sua filha mais velha, Ginny (Antonia Gentry) — uma versão menos privilegiada, mas igualmente mimada de Rory Gilmore (Alexis Bledel) dos anos 2000 —, a série nos permite acompanhar os impactos das atitudes de Georgia em seus filhos. Narrados sob a perspectiva de uma adolescente que também está tentando se descobrir enquanto, invariavelmente, foge e repete as atitudes da mãe, os eventos e as decisões de Georgia se tornam ainda piores, porque têm um efeito direto na rotina das pessoas que ela julga proteger. Ao espectador, portanto, é dado o poder de justificar o julgamento que elabora sobre a mãe: ela é ruim porque todas as coisas que faz a afastam do seu objetivo principal — oferecer uma vida diferente aos seus filhos. Nesse sentido, sua postura não tem razão de ser. Está dada a sentença.

O que me pergunto, contudo, é se esse julgamento seria efetivamente necessário — e por que ele é direcionado sempre à Georgia, e não pelo menos também ao seu primeiro marido, por exemplo, ou aos demais homens que atravessam a sua vida e que, como o espectador bem aprende, não tomam atitudes muito diferentes das suas. Ginny é a primeira a olhar apenas para a própria mãe, culpando-a inclusive por problemas que são apenas seus, mas também ficamos tentados a colocá-la contra a parede e perguntarmos por que ela simplesmente não agiu de outra maneira, ou, pelo menos, por que ela não se arrepende.

A figura de Georgia recupera o lugar frequentemente dado às vilãs, o que estimula o seu júri a condená-la. Ela poderia ter buscado mais estabilidade. Ela poderia ter aceitado ajuda. Ela poderia ter dito não. Ela poderia apenas ter fugido. Ela poderia ter arranjado um emprego. São muitas as hipóteses que se constroem e que redimiriam a sua postura ausente, imprudente e criminosa, mas que ela não apenas não cumpre, como também ativamente rejeita. Georgia é acusada de ser uma mãe ruim, portanto, não necessariamente pela sua atitude ao maternar — afinal, ela não faz nada de muito diferente de outras mães solteiras e jovens da ficção, e seus filhos são efetivamente sua prioridade —, mas por suas atitudes enquanto uma mulher que, por acaso, também é mãe — condição que tira dela alguns direitos, sendo o maior e mais gritante deles o direito de ser uma pessoa ruim.

Georgia Miller

A separação mãe-pessoa não é empreendida pela ficção com facilidade, e também nós, do outro lado da tela, recebemos com dificuldade a ideia de que uma mulher possa ser ambas as coisas, não necessariamente de modo concomitante. O papel de mãe exige o fim de algumas posturas que às pessoas “normais” é dado o direito de ter, e mesmo quando falamos de boas mães (você consegue pensar em um exemplo?) temos uma lista infinita de pequenos defeitos, problemas e erros para apontar. Se nos referimos a soccer moms ou a mães “modernas”, não importa; a elas não é oferecida a oportunidade de continuar sendo pessoas. Mas “mãe” não é uma categoria absoluta, uma identidade — é apenas mais um trabalho.

O que parece tornar Georgia uma mãe desagradável ao olhar do público (e dos outros personagens da série) é a sua exigência em continuar sendo uma pessoa, com segredos, defeitos e um passado só dela. Se é verdade que ela é uma mentirosa, uma ladra e uma assassina, não importa; não é a esses papéis que ela se apega, mais do que à possibilidade de ainda os assumir. Ela ainda é, afinal, um ser humano, e continua precisando proteger não só a si mesma, mas a seus filhos. Por que agora é errado fazê-lo? Por que agora ela precisa sentir remorso? Se ela falha, ou é ausente, ou faz com que seus filhos criem uma imagem perfeita que não para de ser quebrada, por que isso faz dela uma mãe ruim, e não apenas uma pessoa cheia de complexidades?

É evidente que mães ruins existem — ela mesma teve uma. Não se trata de apagá-las, ou de diminuir os efeitos negativos que essa figura pode ter no crescimento de outras pessoas. Mas ainda é preciso saber observar comportamentos e identificar o que está no âmbito da criação familiar e o que está no âmbito da individualidade. Se criticamos Georgia por estar ausente e ser perigosa, por que não direcionamos as mesmas críticas aos seus maridos, sobretudo Zion (Nathan Mitchell), ilustrado como um super-herói compreensivo? Ou a outras mães da série, que também não sabem o que seus filhos fazem escondido e não estão sempre dispostas a lidar com eles?

É sempre em cenas banais e por erros perdoáveis que Georgia é chamada de uma “mãe ruim”. O que me perguntei, enquanto assistia a essas cenas e construía minhas próprias impressões sobre essa mãe e essa pessoa, foi quais eram, afinal, as diferenças essenciais entre o maternar e o paternar e de que forma elas moldam os nossos roteiros — ficcionais, mas também reais.

Por que às mães é comum o título de mães ruins e aos pais são dados tantos outros nomes, tantas outras justificativas? Por que é tão difícil para nós enxergar que na figura materna existe (muito) mais do que a função de ser mãe, e nem todas essas coisas são (ou precisam ser) positivas? Talvez sejam também essas as perguntas que Georgia passa a fazer a si mesma enquanto se equilibra entre os vários papéis que desempenha ao longo de sua vida. E, por fim, talvez sejam essas as perguntas que permitirão representações maternais efetivamente melhores, em vez de apenas mais descoladas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Essa foi de verdade a melhor discussão sobre a Georgia que eu já vi.
    Eu simplesmente não consigo julgar ela, mesmo com todos os erros mostrados.
    Talvez por minha mãe ter sido mãe jovem e solo e ter se desdobrado para me dar tudo, talves por eu ser mãe jovem, eu entendo ela, e odeio que as condenações da Georgia sejam justamente por erros bobos da maternidade, por ela não ser perfeita.
    Sinto a mesma raiva da Ginny que sentia da Rory, entendo elas, mas acho que a série foi boa em mostrar que enquanto ela julga a mãe, a mãe está fazendo o que pode por ela.
    Que sempre esteve batalhando por ela, só que ela não vê.
    É a tal da invisibilidade e culpabilização materna e a série pra mim foi ótima em trazer a discussão.
    Enfim, post perfeito!!!