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A Vida Depois de Yang: o que torna alguém asiático?

A Vida Depois de Yang é um filme futurista de ficção científica e drama, recém-lançado pelo estúdio A24, que narra as tentativas de uma família de fazer com que seu filho robô, Yang, volte a funcionar depois de um desligamento repentino. Baseado no conto “Saying Goodbye to Yang”, de Alexander Weinstein, trata-se do segundo longa-metragem dirigido por Kogonada, cineasta, roteirista e produtor sul-coreano, conhecido por seu trabalho de estreia Columbus (2017).

Apesar da duração enxuta (são apenas 1h36), o longa é complexo e tem tempo para abordar diversos pontos, como o luto por um ente querido, os debates éticos que envolvem a inteligência artificial, como as nossas memórias influenciam a nossa formação, os laços familiares, além de desenvolver questionamentos sobre as identidades étnico-raciais, sobretudo a asiática. A Vida Depois de Yang é um daqueles filmes que nos provoca a refletir e não apresenta, necessariamente, respostas para todas as suas perguntas. Isso, entretanto, não torna o filme incompleto. Pelo contrário, deixa-o ainda mais interessante.

O androide protagonista de A Vida Depois de Yang (interpretado por Justin H. Min) tem fisionomia asiática e foi adquirido por Jake (Colin Farrell) e Kyra (Jodie Turner-Smith), com o objetivo de ser uma companhia, além de uma espécie de irmão mais velho, para a filha de ascendência chinesa recém adotada pelo casal, como uma forma de integrá-la a um novo contexto, ao mesmo tempo que ela se mantém conectada à sua cultura de origem.

O fato de Yang ser um robô com características físicas asiáticas e ser programado com um vasto repertório de fatos sobre a cultura do leste da Ásia não é um mero detalhe. Pelo contrário, a etnia do androide está completamente relacionada à narrativa do longa e às indagações que o filme propõe. Não é novidade que questionamentos sobre o que nos torna humanos e o que nos diferencia dos robôs estão presentes em diversas obras de ficção-científica, principalmente as que abordam o tema da inteligência artificial. Porém, em A Vida Depois de Yang, essa questão fica ainda mais específica: para além do que nos torna humanos, o que faz alguém ser asiático?

Essa reflexão aparece em diversos momentos do filme, apesar de não obtermos uma resolução concreta. Em uma cena, bem depois que o androide já parou de funcionar, Jake, figura paterna da família, pergunta à Ada (Haley Lu Richardson), afeição e companheira de Yang, se ele questionava o fato de ser um robô. Ela responde que ele estava mais preocupado em saber se ele era chinês e se perguntava o que faz alguém ser lido como asiático.

A relação de Yang com Mika (a filha adotiva mais nova do casal) também abre espaço para discutir questões de identidade e do (não) pertencimento. Afinal, o que significa ser asiático em uma família e/ou ambiente no qual as pessoas não necessariamente se parecem com você e têm uma cultura ancestral diferente da sua? Em uma das cenas mais marcantes do longa, Mika admite que seus colegas de escola apontam o fato dos pais dela não serem seus “pais de verdade”, por conta da óbvia diferença física entre eles. Yang, então, a leva a um jardim onde há árvores com troncos conectados de forma artificial, mas que com o tempo, acabam se tornando parte inseparável e natural da estrutura, da mesma forma que ela e ele também fazem parte da família, independentemente de terem “laços de sangue” com Jake e Kyra.

Mika é uma das pessoas que mais sente falta de Yang após seu desligamento, e, para ela, nada seria diferente se o seu irmão mais velho fosse humano. O robô também tinha a tarefa de ensinar a língua chinesa para a irmã, e, assim, os dois tinham uma forma especial de se comunicar. Além dos termos familiares, como Gege (irmão mais velho em chinês) e Meimei (irmã mais nova em chinês), acompanhamos Mika finalmente se despedindo de Yang em mandarim, língua que só os dois conheciam. Nesse momento do filme, não há legendas ou traduções para o espectador, porém, elas não são necessárias para entendermos o que a criança gostaria de dizer.

A relação de Jake e Yang também é central na narrativa. Logo que o androide apresenta mal funcionamento, o pai leva o robô a várias lojas de reparo buscando que ele volte a operar o mais rápido possível. Mas, quando isso não se torna possível, já que Yang é um robô de segunda mão, Jake parece perdido e toda a família se vê convivendo com um luto por um ente que não necessariamente era humano, mas que tinha uma presença fundamental em suas vidas.

Apesar do reparo do androide não ser possível, Jake consegue obter as suas memórias e assisti-las usando um dispositivo que se assemelha a um óculos de realidade virtual. A partir do momento que temos acesso ao ponto de vista de Yang, e vamos descobrindo os seus sentimentos, suas questões existenciais, e até mesmo uma família anterior, o filme dá ainda mais profundidade ao personagem e, dessa forma, consegue superar o estereótipo do “asiático robótico”.

Obras de ficção-científica sobre robôs geralmente têm algo em comum: a apropriação de elementos “orientais” na composição estética, além da presença de androides com aparência asiática. Para citar alguns exemplos: em uma das cenas mais icônicas de Blade Runner (1982), vemos os carros voando ao lado de painéis gigantes com a imagem de uma gueixa. Já em Ex-Machina (2014), temos Kyoko (Sonoya Mizuno), robô que é bastante lembrada pela cena de dança com Oscar Isaac. E em Vigilante do Amanhã (2017), diversos elementos asiáticos se fazem presentes na narrativa, como gueixas robóticas, letreiros neon com ideogramas japoneses e um cenário que se assemelha a uma Tóquio ou Hong Kong futurista.

No entanto, é interessante perceber que, em nenhuma dessas obras, personagens asiáticos são retratados de forma aprofundada ou até mesmo digna, apesar do uso da estética orientalizada. É como se eles fossem apenas um dispositivo vazio e passivo, ou mais uma parte do cenário. Em Vigilante do Amanhã (2017), onde poderíamos ter uma protagonista japonesa, como no material original, temos Scarlett Johansson, uma atriz branca, interpretando a robô. A Vida Depois de Yang poderia seguir pelo mesmo caminho, apresentando um androide asiático, programado apenas para servir uma família e lançar fatos sobre a China, sem apresentar qualquer tipo de emoção. Porém, o filme faz praticamente o contrário disso, nos apresentando um personagem complexo, com muitos questionamentos sobre a própria identidade e existência.

Para além das atuações sublimes do elenco, principalmente de Justin H. Min como Yang, o que permite que A Vida Depois de Yang fuja dos clichês sobre filmes de robôs e subverta os estereótipos sobre asiáticos, é, sem dúvidas, a direção do filme. Kogonada é um cineasta asiático-americano nascido na Coreia do Sul que, desde seu longa de estreia Columbus (2017), busca inserir em suas obras vivências de pessoas amarelas. E o diretor faz isso muito bem, e de forma bastante natural, dando grande atenção aos detalhes, à arquitetura e aos cenários que imaginam o futuro, ao design de produção, e à montagem e à fotografia que nos passa a sensação de realmente estarmos vivendo as memórias de alguém.

A questão asiática em A Vida Depois de Yang não é necessariamente o ponto central do filme, porém está sempre presente e é inserida de forma orgânica. Em uma cena curtíssima, vemos alguns cartazes sobre o Perigo Amarelo (estereótipo que vê pessoas de origem leste-asiática como perigosas ou exóticas), notícias que dão a entender que houve uma longa guerra entre China e Estados Unidos e os dizeres: “não há amarelo no vermelho, branco e azul”, em alusão às cores da bandeira estadunidense, como se não houvesse espaço para pessoas amarelas no país. O diretor poderia ter escolhido uma posição de neutralidade, mostrando um futuro onde a ideia de raça e etnia já foi superada, mas é muito mais interessante e verossímil pensar que, mesmo com todo o progresso tecnológico, os tensionamentos políticos e sociais nunca deixam de existir.

Outro modo do filme acrescentar referências e elementos asiáticos é por meio da trilha sonora, mais especificamente através da música favorita de Yang. E, sobre essa constatação, poderíamos ter diversos questionamentos, do tipo: é possível que um robô tenha preferências musicais ou ele foi apenas programado para isso? Mas o ponto aqui está na seleção da canção e como ela deixa a narrativa ainda mais emocionante. Trata-se da música “Glide”, do clássico cult japonês Tudo Sobre Lily Chou Chou, em uma versão cover, cantada por Mitski, cantora nipo-americana, conhecida pelas suas letras que falam das dores e das experiências de ser uma mulher asiática.

Em uma das memórias de Yang, vemos o robô em um show com Ada, garota com a qual ele tinha um relacionamento, enquanto a música toca no fundo, e entendemos que aquele é um momento feliz, independentemente de serem sentimentos genuínos ou programados. O androide tem até uma camiseta do filme Tudo Sobre Lily Chou Chou e ensina à irmã mais nova as letras da canção. E, no final das contas, ninguém sabe ao certo como dizer adeus a Yang, principalmente depois de terem refletido sobre, e visto em suas memórias, o quanto ele fez parte de suas vidas e vice-versa. No lugar de dizer adeus, Mika canta os versos de “Glide”, canção favorita de Yang, e o desfecho não poderia ser mais bonito e melancólico.

A Vida Depois de Yang é extremamente complexo e cheio de perguntas reflexivas sem respostas. Isso pode ser um defeito para alguns espectadores, mas, na minha opinião, é o que torna o filme tão interessante. O destaque é a questão do que significa ser asiático e a quebra dos clichês geralmente presentes em mídias sci-fi. Porém, o longa dá abertura para ser analisado a partir de diversas perspectivas, desde como lidamos com o luto por um ente querido até debates sobre a possibilidade de um androide ter sentimentos reais. No mais, trata-se de uma obra que mostra que é possível fazer filmes com asiáticos robôs, sem que isso se torne apenas um estereótipo vazio.

Referências
After Yang Asks: “What Makes Someone Asian?”, por Nancy Wang Yuen para a Elle
Where the future is Asian, and the Asians are robots, por Jane Hu para a The New Yorker
After Yang intentionally subverts sci-fi’s fetishistic ‘hollow Asian’ trope por Leo Kim para a Polygon


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