LITERATURA

Uma Wonder Woman tão humana quanto todas nós

É uma verdade universalmente reconhecida que a adolescência não é um período fácil para ninguém. Salvo as devidas singularidades e experiências particulares de cada um, não é uma tarefa difícil entender o que torna esse período um dos mais conturbados e complexos da vida de muita gente. As dúvidas são infinitas, a cobrança é um inimigo cruel e o mundo de repente já não parece um lugar tão acolhedor quanto fora no passado, mas se movimenta numa velocidade assustadora que por vezes se torna difícil de acompanhar.

É a partir desse sentimento tão universal que Lisa Yee, premiada autora norte-americana, constrói o universo de As Aventuras de Wonder Woman na Super Hero High, uma história que nos transporta para uma realidade onde nossas super-heroínas favoritas são adolescentes em busca de respostas e automaticamente nos faz reviver muito de nossas próprias experiências de alguns (ou muitos) anos atrás.

O livro começa quando a jovem Wonder Woman decide estudar na Super Hero High, uma escola especializada na formação de super-heróis comandada pela diretora Amanda Waller, também conhecida como O Muro. Para isso, no entanto, Wondy – como nossa heroína fica conhecida mais tarde entre as amigas – precisa convencer a mãe, Hipólita, de que sair da Ilha Paraíso é a melhor decisão a ser tomada. Por mais que ela possua o direito ao trono das Amazonas e ame profundamente suas origens, a jovem Wonder Woman sabe que com um treinamento adequado, pode se tornar uma grande heroína e salvar inúmeras pessoas das mais diferentes ameaças.

Ao contrário do que se imagina, no entanto, seu desejo por se tornar uma grande heroína não parte de uma busca pessoal por glória ou poder, muito menos pela vontade de conhecer mais sobre o mundo que existe para além do mar turquesa que banha a Ilha Paraíso, mas pelo profundo desejo de salvar todos aqueles que necessitam de sua ajuda em algum nível e pelo enorme senso de justiça que possui, mesmo que isso signifique abrir mão de muitos dos seus privilégios. A vontade de ir para a Super Hero High, aliás, surge justamente porque, ao contrário de outras escolas de super-heróis, esta se preocupa não apenas com poderes ou a capacidade intelectual de seus alunos, selecionando-os pelo o que podem vir a se tornar amanhã e não pelo o que são hoje, e que se preocupa em oferecer oportunidades iguais para todos os seus estudantes.

“– Minha querida filha – disse ela, a voz se suavizando –, você nasceu para ser uma líder. Tem a realeza no sangue. Fique aqui, e um dia você vai governar a Ilha Paraíso e ser a Rainha das Amazonas, exatamente como eu.
Foi a vez de Wonder Woman ficar calada por um tempo. Respirou fundo antes de dizer:
– Mãe, eu amo e admiro você. Mas, quando eu crescer, quero ser só igual a mim.”

Assim, Wonder Woman parte para uma aventura repleta de inimigos e mistérios, mas também de descobertas, aprendizados e muitos desafios. Lisa Yee acerta ao subverter a imagem da Mulher-Maravilha construída ao longo dos anos e apresentar uma personagem que, muito além de uma super-heroína, também possui características muito humanas. Wonder Woman é uma mulher em formação que se sente vulnerável independente da sua força física e que, mesmo sendo uma das alunas mais dedicadas do colégio onde estuda, também comete erros, também possui sua cota de fracassos e também sofre com a pressão que todos – inclusive ela mesma – colocam em torno de si; algo muito próximo do que inúmeros jovens sentem em relação ao vestibular, ao futuro e às incertezas da vida adulta.

A partir daí fica muito fácil se identificar com os conflitos da personagem, especialmente porque todos, em algum nível, fizeram ou farão parte de nossas vidas em algum momento. Talvez o cenário não seja mais o ensino médio, mas a faculdade ou a realidade de um primeiro emprego. Ainda assim, todo o sentimento de novidade, deslocamento e ansiedade se faz presente nas páginas do livro, que os traduz de uma forma doce, única e especial.

O cânone é deixado de lado para dar lugar a uma realidade que não dá muita importância para linhas temporais e histórias de origem – o que pode causar certa confusão para os fãs mais antigos – e que se constrói de forma independente. A verdade é que, diferente do que talvez se imagine num primeiro momento, o foco aqui não são tanto as aventuras da heroína enquanto tenta salvar o dia quanto são sobre a própria experiência de ser adolescente e todas as aventuras inclusas aí. Nesse sentido, é impossível não lembrar de animações como Iron Man: Armored Adventures e X-Men: Evolution que também apresentam versões adolescentes de seus super-heróis e trabalham muito dos conflitos presentes nessa fase em seus episódios.

É interessante destacar, no entanto, que As Aventuras de Wonder Woman na Super Hero High não apresenta nenhum grande conflito do ponto de vista óbvio quando falamos de super-heróis. Não existem vilões com planos megalomaníacos para serem derrotados e a vida de ninguém se encontra verdadeiramente em risco. Mas isso não significa que a história não apresente algo além da vivência adolescente da heroína – algo que, por si só, já seria bastante interessante –, muito pelo contrário. Fora os desafios que surgem na escola – incluindo um grande torneio disputado por todas as escolas de super-heróis da região –, a trama conta com uma dose de mistério muito bem-vinda, suficiente para manter mesmo o leitor mais desinteressado preso até a última página.

Muito diferente de outras histórias voltadas para o público adolescente, Lisa Yee acerta ao construir uma história sobre garotas que se baseia muito mais no relacionamento dessas meninas do que em qualquer outra coisa. Se o fato de serem super-heroínas diz muito sobre quem elas são fora dos muros da Super Hero High, é dentro da escola que temos contato com as verdadeiras versões dessas jovens e entendemos as necessidades e complexidades individuais de cada uma.

Por mais que a história seja sobre Wonder Woman e sua nova realidade numa escola – e num mundo – que ela não conhece tão bem, todas as personagens são construídas com um carinho e cuidado que fica claro com o passar de cada página. Ainda que algumas representações sejam um tanto caricatas, muito da própria noção de caricatura se perde quando entendemos os seres-humanos por trás dessas imagens que se constroem principalmente através da socialização. Assim, a autora subverte estereótipos comuns no ambiente escolar e humaniza suas personagens de um jeito delicado, mostrando que, para além de seus poderes e trajes de combate, essas garotas possuem famílias, amigos, sentimentos, conflitos e gostos pessoais, fora suas histórias de origem que, embora não tão aprofundadas na trama, se mostram tão interessantes quanto a da própria protagonista.

A amizade feminina assume papel fundamental, sendo a âncora que Wonder Woman muitas vezes precisa para continuar a seguir seu caminho. Com a ajuda de Katana, Hawkgirl, Poison Ivy, Bumblebee e Harley Quinn, Wonder Woman descobre mais sobre si mesma, sobre seus limites e sobre o mundo que a cerca, além de compreender cada vez mais o trabalho em equipe. Se sozinhas essas meninas são capazes de salvar o mundo e acabar com ameaças terríveis, juntas elas são capazes de chegar aonde quiserem – uma maravilhosa metáfora para a máxima de que juntas somos mais fortes. E somos mesmo.

“Os jovens super-heróis de hoje são submetidos a grande pressão para serem bem-sucedidos. Para entrar nas escolas corretas. Para passar nas provas de super-heróis e para ter bom desempenho. Não vamos esquecer que os alunos como os que figuram no vídeo Tributo da HQTV de Harley Quinn são ainda apenas garotos. E o que garotos fazem? Eles fazem trapalhadas. Dão mancadas. Ainda agem como eles mesmos, não como uma versão glorificada do que o público quer que sejam.”

Mesmo a rivalidade que surge entre algumas meninas não se torna uma contradição dentro da proposta, mas aparece de forma bastante natural, como uma consequência do próprio ambiente escolar e de extrema competição no qual essas jovens estão inseridas – e aí é interessante ver como a autora trabalha as diferentes nuances da personalidade de suas personagens também nesse aspecto. Ao seu próprio modo, todas desejam crescer à altura do próprio potencial e encontram aquela que acreditam ser a melhor forma de lidar com a expectativa – dos outros e de si mesmas. As diferenças entre elas, no entanto, são imediatamente postas de lado tão logo um inimigo comum é apresentado e o trabalho em equipe se torna fundamental, o que prova que, mesmo que a rivalidade exista, ela não assume um papel maior do que realmente merece e não se torna problemática dentro de seu contexto.

Além disso, outro ponto bastante interessante (e positivo!) é que, ao adotar o universo feminino como parte central de seu universo, a autora cria um ambiente em que a presença masculina não é anulada, mas surge de forma pontual, como frequentemente acontece em histórias onde o protagonismo masculino coloca mulheres somente como interesse amoroso ou de suporte para que o herói siga sua jornada. Mesmo o romance é introduzido de forma leve e descompromissada, e não se torna o centro da história de Wonder Woman, mas apenas uma parte dela – uma parte que não a define, muito menos é a mais importante em sua jornada –, algo que contrapõe muito do clichê presente em histórias adolescentes, que trata o romance como algo essencial na trajetória de personagens femininas quando a realidade se distancia radicalmente dessa representação.

A figura de Amanda Waller, por sua vez, presente em diferentes produções da DC, ganha aqui uma representação que não foge de sua essência, mas ao mesmo tempo vai além da personagem fria e calculista que não pensa em ninguém além de si mesma. Embora esse lado esteja presente, enquanto diretora da Super Hero High, Waller se importa com seus estudantes e com aquilo que acontece dentro de fora dos limites da escola. Ela é uma mulher extremamente competitiva e não espera menos que o melhor de seus alunos, mas ao mesmo tempo sabe a hora que precisa entrar em ação e defender seus estudantes, bem como é a primeira a celebrar as conquistas pessoais de cada um.

Embora existam outros professores na escola, Waller se torna a figura mais importante, tanto pelo seu papel enquanto diretora quanto pela sua presença constante, o que a torna no principal exemplo para as jovens inseridas naquele universo. Ainda que a maioria possua figuras em sua própria família que as inspiram profundamente, Waller é a figura adulta feminina mais próxima e que oferece estabilidade quando as coisas ameaçam sair do controle. E se o mundo que as espera não é nada gentil, nada mais justo do que ter o próprio Muro como referência.

“Muitas pessoas não conhecem todo o seu potencial até serem defrontadas com uma crise. Em contrapartida, não é só porque alguém tem superpoderes que se tornará um super-herói.”

Em sua proposta de empoderar jovens adolescentes a partir de histórias sobre heróis clássicos da DC Comics, As Aventuras de Wonder Woman na Super Hero High oferece uma experiência preciosa, capaz de encantar não só uma nova geração de fãs, mas também os fãs mais antigos que se jogam sem medo nesse universo completamente novo e cheio de possibilidades que clamam para serem exploradas. Ao fugir de estereótipos e clichês ainda muito comuns quando se fala sobre a vida de jovens adolescentes, a autora apresenta uma narrativa única, forte e extremamente empoderadora, mas ao mesmo tempo adorável, que nos mostra do jeito mais doce possível que não é preciso sermos perfeitas para assumirmos o protagonismo de nossas próprias histórias – ainda bem.

Assim como muitas jovens, Wonder Woman está construindo a sua história e isso significa que ela cometerá erros em sua jornada, tropeçará nas próprias expectativas e eventualmente enfiará os pés pelas mãos. Ainda assim, ela continuará sendo a heroína que sempre foi – não porque é isso que esperam dela, mas porque essa é a pessoa que ela deseja ser – e isso é o mais importante. Que venha a Supergirl!

O livro foi cedido para resenha pela Editora Rocco. 

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