COLABORAÇÃO MÚSICA

Places, everyone! – Lea Michele e a importância de enxergar o próprio valor

“My whole life I’ve been looking to be part of something special, to be special, but the truth is that I am special” [Por toda a minha vida procurei ser parte de algo especial, ser especial, mas a verdade é que eu sou especial]. Para quem assiste Rachel Berry dizer esta frase em Glee, pode parecer difícil acreditar que aquela jovem de voz impecável, sorriso encantador e enorme beleza em algum momento não tenha se sentido especial. Na trama, Rachel, uma diva adolescente aspirante à estrela da Broadway, faz parte da turma de outcasts que encontra na oportunidade de integrar os New Directions um degrau em sua subida rumo ao sucesso. Logo no primeiro episódio, a personagem se apresenta dizendo ser uma grande fã de estrelas douradas como uma metáfora para seu próprio sucesso. E, logo em seguida, leva um banho de raspadinha no rosto.

Para aqueles que acompanharam a série, Rachel é um ícone. A personagem, que sonha com a fama nos palcos enquanto é humilhada por colegas mais populares na hierarquia escolar – que fazem questão de lhe lembrar constantemente de que sua aparência não é aquela considerada padrão e, por isso, não é bonita, além de lhe dirigirem outros tipos de comentários igualmente desagradáveis com o intuito de debochar de suas ambições –, não se deixa abalar pelas derrotas da vida e deposita uma fé incontestável em si e em seu potencial vocal e performático, de forma que, em diversos momentos, podemos observá-la protagonizar cenas de puro estrelismo nos episódios. A série de percalços pelos quais ela passa fazem com que, inevitavelmente, chegue lá. Glee, ao longo de seis temporadas (2009 – 2015), tornou-se uma série premiada e muito popular, aclamada por uma legião de adolescentes que se identificam com seus protagonistas desajustados e com a vontade de pertencer a algo e fazer a diferença no mundo, sabendo de seu valor e importância mesmo nos momentos em que isso parece impossível. Nas telas, sem sombra de dúvidas, a principal representante deste ideal é Rachel Berry, interpretada com maestria por Lea Michele.

Nascida em Nova Iorque e vinda de uma família de classe média de origem italiana, Lea Michele Sarfati teve um início de carreira bem menos conturbado do que o da personagem que alavancou a sua fama mundial. Aos oito anos, com o intuito de apenas se divertir, ela decidiu acompanhar uma amiga durante uma audição e saiu de lá com o papel da pequena Cosette, em Les Misérables, que marcou a sua estreia na Broadway. Desde então, ela fez parte das montagens de Ragtime e dos premiados O Violinista no Telhado e O Despertar da Primavera, antes de se mudar para Los Angeles e debutar na televisão com Glee e, posteriormente, integrando o elenco de Screem Queens. Olhando de fora da bolha de Hollywood, é de se imaginar que Lea Michele, com uma carreira artística bem sucedida, talento de sobra e um corpo que se adequa aos padrões, jamais precisou lidar com rejeição. Tal afirmação, no entanto, se prova equivocada quando passamos a conhecer mais da vida e da trajetória de Lea.

Em seu livro, Brunette Ambition, Lea explica que quando ainda era adolescente, sua aparência começou a ser apontada como um empecilho em sua profissão. Mesmo se encaixando, de forma geral, nos padrões estéticos impostos,  comentários sobre ter uma aparência “étnica demais”, “não muito bonita para ser a protagonista” e a necessidade de fazer uma cirurgia no nariz estão presentes em sua trajetória. Contudo, por ter sido criada de forma a reconhecer sempre as suas origens, se mantendo fiel ao seu verdadeiro eu e, principalmente, se sentindo confortável em sua própria pele, Lea contrariou todos os conselhos e abraçou as suas diferenças, as características que a tornam única. Ironicamente, os aspectos apontados como obstáculos para trabalhar na televisão, foram justamente aqueles que fizeram com que ela se destacasse. Ela explica que, enquanto crescia, Barbra Streisand foi – e continua a ser – o seu maior ídolo e a sua grande inspiração e que isso desempenhou um papel de extrema importância em sua formação e autoaceitação. Tamanha influência não passa despercebida a qualquer um que se disponha a contemplar o trabalho de Lea Michele.

Lembre-se de seus modelos de inspiração e os mantenha em mente como referências para tudo o que é possível na vida. Tenha você 15 ou 50 anos, é sempre bom cercar-se de pessoas que você acha inspiradoras e com quem acredita que possa aprender algo de bom”. (Lea Michele, em Brunette Ambition)

Ela também afirma que se incomoda ao ver mulheres de todas as idades minimizando a importância de suas conquistas por receio de serem enxergadas como convencidas e exageradamente confiantes, principalmente porque o mesmo tipo de preocupação não ocorre à homens. Enquanto a palavra “diva” ainda carrega uma conotação negativa ao destoar do velho estereótipo feminino manso e recatado, sua coragem em exibir-se como uma mulher ambiciosa, satisfeita, confortável em seu próprio corpo e plenamente realizada em seu trabalho é algo bastante fortalecedor e que a transforma em uma referência distinta para outras tantas mulheres que ainda tentam se apropriar de seus próprios desejos, respeitando suas particularidades e descobrindo suas reais identidades.

Se encontrar e se aceitar constituem a base do segundo álbum de Lea, Places, lançado no dia 28 de abril. Fugindo da sonoridade pop de Louder, seu antecessor lançado em 2014, o novo trabalho se mostra vulnerável, mais maduro e bastante atemporal, refletindo as mudanças pelas quais a artista passou nos últimos anos. Ela o descreve como um retorno às suas raízes na Broadway e um reencontro consigo, destacando aquilo que ela considera o seu maior trunfo: seu potencial vocal teatral. Depois de anos vivendo na ensolarada Costa Oeste dos EUA, completamente imersa no universo colorido e dançante de Glee, ela diz ter sido essencial se distanciar da dramaturgia para que pudesse se dedicar a descobrir novamente a sua verdadeira voz e dar vida ao novo álbum. Lea faz questão de enfatizar a importância da música tanto como uma forma de expressão artística libertadora, quanto como ferramenta para compartilhar com seu público aquilo que sente, vive e deseja passar adiante. Seu trabalho musical é carregado de sinceridade e Places é, até o momento, onde melhor podemos observar esta característica.

Em contraste com Louder, que nos mostrou uma Lea que parecia tentar encontrar um lugar ao sol no mercado fonográfico, o novo trabalho não reflete este mesmo anseio. Aqui as batidas pop cedem espaço para harmonias de piano e arranjos mais discretos que funcionam como um plano de fundo para vocais poderosos com influência de divas como a já citada Barbra Streisand, mas também de Celine Dion e Adele. “Love is Alive”, a faixa de abertura, é, talvez, aquela em que mais ficam evidentes as origens de Lea, que brilha como se estivesse no palco de um espetáculo, ainda que soe de forma bastante intimista. Segundo a própria artista, a música representa com precisão a pessoa que ela se tornou.

temática do amor que a preenche é o mote de quase todo o álbum, com canções sobre estar apaixonada, se questionar sobre os sentimentos e, claro, os universais corações partidos. “Run to You”, mais uma balada poderosa, vai tratar da saudade que fica após um término de relacionamento e da vontade de deixar tudo para trás e correr de volta para os braços do ex. Já “Getaway Car” vai trazer a história de dois jovens completamente apaixonados e que vivem esse amor de forma bastante intensa. “Sentimental Memories”, mais do que uma música sobre o fim de um amor, é sobre as memórias e a dor da desilusão. “Heavy Love” discorre sobre amar muito alguém e ansiar ainda mais pela pessoa, enquanto “Heavenly” duvida de que o sentimento seja mesmo amor, considerando a possibilidade de ser apenas carência.

Partindo para outros temas, “Proud” é dedicada aos pais de Lea, que estiveram ao seu lado em cada passo de sua carreira, sempre apoiando e acreditando em seus sonhos e capacidade para torná-los realidade. Na letra ela diz que aquilo que mais quer é que eles sintam orgulho dela, o que gera uma forte identificação da parte de quem está escutando.

Heaven help me get through these demons in my mind
All I know is, I will survive
I’m still a believer
Can’t nobody tame this raging heart
Yeah, I’m still a dreamer
I’m fighting my way up to the stars”

“Believer”, “Tornado” e “Anything’s Possible” – que é apontada como o próximo single – têm letras fortes e cheias de motivação, evocando sentimentos de superação e resistência. Para os fãs mais antigos da cantora, é possível sentir novamente a inspiração de Rachel nessas faixas, que trazem traços muito característicos da personagem e também de sua intérprete: ambas são determinadas, sonham alto, acreditam em seus talentos e não desistem.

Por fim, “Hey You” conclui o álbum trazendo a única letra assinada pela própria Lea, que novamente se dirige a Cory Monteith, seu namorado em Glee e na vida real, que faleceu em 2013. A faixa faz referências à “If You Say So”, que fecha seu álbum de estreia, e é como se ela estivesse conversando com ele e contando como está a vida desde a sua partida, enquanto relembra os últimos momentos dos dois. Há saudade e dor, mas também há leveza. Há alegria pelo que viveram e um olhar fortalecido sobre toda a situação ao afirmar que está tudo bem, que ela o perdoa e que o ama.

Seja por meio de suas canções ou da estrela dourada de Rachel Berry, Lea Michele é um constante lembrete de que mulheres podem – e devem! – exibir seus talentos sem se sentirem constrangidas por serem quem são e muito menos se esconderem sob o guarda-sol da falsa modéstia. Lea quer ser especial e, por isso, ela é. Ela sabe que é única e que é justamente isso que a destaca no meio do qual faz parte. No contexto pop musical que estamos vivendo, exaltar as diferenças, abraçar as diversidades e, principalmente, aquilo que faz de você quem você é se mostra bastante válido e necessário. Contudo, a partir de um olhar mais apurado, começamos a notar que vivemos, em partes,  justamente o oposto.

Quando nos deparamos com cantoras que precisam abrir mão de sua autenticidade em prol daquilo que será melhor recebido na indústria musical, somos mais uma vez lembrados de que existe um padrão imposto com o qual é esperado que estejamos de acordo, caso o contrário, seremos os losers desajustados. O reconhecimento de Places pode abrir ainda mais espaço para que outras cantoras encontrem seu nicho e, consequentemente, representem uma multiplicidade de sentimentos, valores e histórias, incentivando meninas e mulheres a serem sempre elas mesmas. Ao remar em direção oposta àquela que tomou em seu primeiro álbum e optar por valorizar mais a sua individualidade, fazendo o tipo de música que quer fazer, ao invés de mirar na aceitação geral, Lea Michele não só demonstra não se importar com o possível rótulo de perdedora, como também o valoriza. Afinal de contas, ninguém será perdedora como ela. Encontrar seu próprio lugar em uma sociedade que a todo instante dita uma uniformização de indivíduos não é uma tarefa fácil, mas é ela que faz com que Lea – e também cada um de nós – seja capaz de valorizar o próprio eu.

Na Broadway, antes de um espetáculo começar, todos recebem o chamado “places, everyone”, com o qual são instruídos a se posicionar. E é justamente dessa expressão que Lea Michele tirou o título de seu novo trabalho. Ela sabe quem é e o que quer. Está pronta e posicionada, apenas aguardando para continuar seu show e entregar um trabalho humano, autêntico e capaz de tocar a essência de quem estiver disposto a escutar e lhe conhecer.

Manu Santos gasta mais dinheiro com livros do que o bom senso recomenda e passa mais tempo do que deveria pensando na vida, no universo e tudo mais. Leva muito a sério saúde mental e hits dos anos 80.

Michelle Borges tem a altura da Stevie Nicks e a idade do Kurt Cobain. É jornalista e nas horas vagas fala de livros na Internet, mas preferia ser caçadora de monstros. Grande entusiasta da pizza.

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1 Comentário

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    Vanessa Bittencourt
    26 de maio de 2017 at 08:48

    Que texto lindo! Eu amei o Places, é mesmo a cara da Lea (e a cara dos fãs da Lea)! Às vezes eu fico sem chão só de lembrar da fase Louder, que era um triste esforço para se encaixar no mais do mesmo (aqueles.clipes.socorro). Essa indústria não é fácil e que bom que a Lea teve a chance de fazer algo diferente agora. Ouço Tornado e Believer todo dia!

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