CINEMA LITERATURA

Off the Cliff: por que Thelma & Louise foi um filme fora da curva

Muito antes que eu soubesse que história contava Thelma & Louise, o filme já era uma referência conhecida para mim, citada nos diálogos de muitos outros filmes — ou séries, ou livros –, especialmente quando se tratava de personagens femininas. Foi somente no ano passado, com a chegada de seu aniversário de 25 anos, que finalmente parei para assisti-lo e entendi por que era tantas vezes mencionado. Thelma & Louise me pareceu muito diferente, embora naquele momento eu não soubesse dizer exatamente por quê. É sobre esse porquê que Off the Cliff, livro de Becky Aikman, se debruça. Com um subtítulo no qual se lê “como a realização de Thelma & Louise levou Hollywood ao extremo”, o livro narra os bastidores do filme de 1991 para tentar entender por que Thelma e Louise representaram uma pequena revolução desde a época de seu lançamento até os dias de hoje.

Off the Cliff funciona como um grande livro-reportagem contando a história da produção de Thelma & Louise, um road movie de Ridley Scott protagonizado por Geena Davis e Susan Sarandon como duas amigas que viajam para pescar e acabam se tornando fugitivas depois de Louise atirar em um desconhecido que momentos antes estuprara Thelma. O livro segue uma ordem basicamente cronológica para contar a história do filme: desde o momento de frustração na vida pessoal e profissional de Callie Khouri, sua roteirista, até o Oscar de 1992, quando ela ganhou o prêmio de melhor roteiro original. Assim, Aikman narra os diferentes estágios do longo processo necessário para transformar uma ideia em um filme. Há um mundo de pessoas envolvidas e nem todas enxergarão o produto final da mesma maneira, mas fica evidente o quanto todas são essenciais para que o objetivo seja alcançado. Que, nesse caso, era fazer um filme que ninguém quis comprar, que não encontrava o diretor certo, que parecia um pote de ouro no fim do arco-íris para muitas atrizes de alto escalão e que todo mundo quis mudar em algum momento — especialmente sua marcante e inesperada conclusão — antes que ele se transformasse no que é.

Quando Callie Khouri escreveu Thelma & Louise em 1989, ela era uma estreante. Callie trabalhava no meio audiovisual, por trás das câmeras em clipes musicais, e a história que ela decidiu contar, focada em mulheres que se tornam cada vez mais livres, em parte era uma resposta ao que ela via todos os dias no trabalho: mulheres hipersexualizadas servindo como pano de fundo para homens, sempre homens. Por ser novata ela talvez não tivesse dimensão do quanto tudo o que estava fazendo com seu roteiro ia contra os padrões vigentes em Hollywood na época.

Becky Aikman, mais de duas décadas mais tarde, explicita o contexto em que Callie com muito esforço conseguiu vender sua história e vê-la na tela grande. Naquela época, o que estava em alta mesmo eram filmes de ação; e ação, Aikman explica, significava homens com armas. Filmes de Mulheres — filmes menores e mais focados na vida interior das personagens — ficavam reservados à televisão. No cinema, bem mais do que a maioria dos personagens com falas eram homens, e os papéis femininos eram muitas vezes limitantes e arquetípicos. Mulheres representavam mais ou menos 20% das equipes por trás das câmeras. Dos cinquenta filmes de maior bilheteria em 1988, apenas dois foram escritos por mulheres sem uma parceria com um homem. A última vez que uma mulher recebera sozinha o Oscar de melhor roteiro original fora em 1932. A ideia de que Callie ainda por cima dirigisse um filme tão arriscado quanto Thelma & Louise — o que ela inicialmente planejava — era absurda.

Mas por que, afinal, a história de Thelma e Louise era tão arriscada? Aikman dá a seu livro o título Off the Cliff — para fora do penhasco, em tradução literal — em referência à cena final do longa, em que Thelma e Louise se veem cercadas por carros policiais e decidem seguir sua fuga literalmente se jogando de um penhasco em pleno Grand Canyon. Era demais. Era demais terminar em suicídio um filme que já fugia tanto das expectativas do público. Mulheres protagonizavam em média cinco dos cinquenta filmes mais bem sucedidos por ano. Duas mulheres? Menos de dois por ano. Via de regra, homens agiam, mulheres reagiam (a eles). O livro relata que Geena Davis, que viria a ganhar o papel de Thelma, costumava chamar muitos dos papéis disponíveis para mulheres de personagens “boa sorte, querido!” — porque à mulher, afinal, restava a função de dar adeus enquanto o homem ia viver suas aventuras. Durante todo o período de seleção do elenco, o agente de Geena costumava telefonar toda semana para os responsáveis e deixá-los cientes de que ela estava, e continuava, interessada em interpretar fosse Thelma, fosse Louise. Como várias atrizes estavam.

Mas Thelma & Louise não era apenas um filme de protagonistas femininas. Thelma e Louise eram protagonistas femininas vivendo num mundo em que todos os homens eram nada mais que arquétipos. Que escaparam de relacionamentos falidos e faziam coisas que personagens femininas não deviam fazer de maneira alguma: matar (uma única vez, um estuprador, e com tanta consciência do erro cometido quanto remorso), roubar, fugir da polícia, transar com desconhecidos, atear fogo em um caminhão. Eram mulheres cada vez mais livres e distanciadas dos padrões impostos para personagens femininas — porque é claro que personagens masculinos podiam matar, roubar, fugir da polícia, transar com desconhecidas e botar fogo no que quisessem sem que ninguém gritasse com horror que aqueles não eram bons modelos.

Ser obrigada a ser um bom modelo é o fardo da personagem feminina. Recentemente, quando Garota Exemplar, um thriller com uma protagonista extremamente calculista e fria, chegou aos cinemas, levantou discussões parecidas. As falhas gigantescas dessas personagens são sempre apontadas e o feminismo — ou falta dele — de suas histórias sempre questionado, mesmo que nenhuma delas tenha se autointitulado ícone feminista. Mesmo que anti-heróis tenham por um bom tempo representado a norma quando pensamos na produção televisiva de prestígio, ou que até mesmo nossos super-heróis mais positivos andem recebendo traços obscuros, é mais difícil vender um filme com personagens femininas que não sejam bons exemplos. Quando defendemos essa produções, não queremos dizer que essas personagens representam todas as mulheres ou que nos inspiramos em suas ações. O que pedimos é que personagens femininas possam ser tão boas, ou ruins, ou cinzas, quanto qualquer personagem masculino — sem que ninguém queira banir o filme dos cinemas. O que pedimos é que existam tantas protagonistas femininas quanto existem mulheres; lá em 2014, no entanto, quando Amy Dunne esteve na tela grande, as mulheres foram 12% de todos os protagonistas. Nesse contexto, ter uma personagem feminina à frente de um filme é sempre uma responsabilidade enorme.

Aikman reporta que nas exibições iniciais do filme para testá-lo com diferentes públicos, um dos pontos que agradaram o público foi justamente ver personagens femininas em papéis não convencionais. Ao longo do tempo, ele se tornou muito significativo para muitas mulheres — não porque fechavam os olhos diante de um assassinato que não fora executado em legítima defesa, mas pelo que elas representavam para além de suas ações:

“Mas para as mulheres que amavam Thelma e Louise, não era tanto sobre o que as personagens fizeram, mas sobre que elas eram: mulheres vivendo suas vidas no cinema para que todos vissem. Mulheres que pareciam mulheres reais e falavam como mulheres reais, mulheres que tinham mais na cabeça do que ‘boa sorte, querido!’. Mulheres que riam abertamente das muito reconhecíveis fraquezas dos homens — e das mulheres também. Que entendiam o que significava se transformar naquela terceira coisa quando estavam juntas, fazendo escolhas — mesmo as ruins — por conta própria”.

Thelma e Louise se tornam tão independentes e passam a viver tão fora do que lhes era socialmente imposto que, ao final, Callie via o cair da beira do precipício como a única saída possível. Ela não via o final da história como trágico, nem mesmo como suicídio: “Mulheres que se libertam completamente das correntes que as restringem não têm lugar neste mundo. O mundo não é grande o suficiente para sustentá-las”, ela afirmaria mais tarde. Não era trágico porque era arte e a arte é capaz de representar situações com significados que vão além da literalidade da vida. Elas deixavam nosso mundo, Callie dizia, para entrar no inconsciente coletivo.

Com muitas dificuldades, com algumas diferenças criativas entre Callie Khouri e Ridley Scott, na maior parte foi a visão singular dela que foi seguida. Mas Thelma & Louise não mudou o cinema. Aikman cita Geena Davis discutindo as afirmações generalizadas de que o sucesso do filme abriria novos caminhos para as mulheres e suas histórias no cinema. Esse argumento voltaria a ser repetido com o sucesso de Um Time Muito Especial, outro longa estrelado por Geena que desafiava os papéis convencionais de gênero. Mas eles foram fenômenos isolados numa indústria ainda profundamente machista. Depois de anos testemunhando e sendo vítima do sexismo na indústria, Geena fundou o próprio instituto de pesquisa para falar sobre como as mulheres vêm sendo representadas na mídia, e os resultados não costumam ser muito positivos. Aikman explica que os diversos blockbusters recentes com protagonistas femininas ainda são vistos, de novo e de novo, como anomalias pelos estúdios. Suas apostas seguras continuam sendo os homens.

Para quem acompanha de perto as discussões sobre mulheres e a mídia, muitos dos fatos, histórias e números que Becky Aikman usa para contextualizar seu livro não serão novidade, e sim velhos conhecidos. Mas ela faz bom uso deles para conectá-los à história que conta, em muitos detalhes, sobre uma dessas “anomalias” Hollywoodianas impossíveis de se ignorar. Sua escrita é acessível e cativante e a leitura do livro, que mistura a linha narrativa principal às reflexões de Aikman sobre o problema maior da mulher no cinema e ao que pensavam ou pensam as pessoas envolvidas na produção do filme, é uma experiência agradável e enriquecedora. Acima de tudo, gosto do modo como ela não tem medo de se posicionar ou de apontar os padrões duplos para homens e mulheres na indústria do cinema, nem as desculpas que Hollywood segue utilizando para continuar tratando nossas histórias como um nicho.

Thelma & Louise não mudou o cinema, mas, como Aikman aponta, por um momento levou Hollywood à beira de um precipício que a indústria ainda tem medo de encarar. Para além dele há todo um mundo de histórias esperando para serem contadas. Callie Khouri contou uma delas, e o resultado foi um filme que entrou para o inconsciente coletivo — exatamente o que ela imaginou para a escolha final de Thelma e Louise.

O livro foi cedido para resenha pela Penguin Press.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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