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A vez das mulheres de Game of Thrones?

Não há dúvidas de que Game of Thrones seja um dos maiores sucessos nesta década. Baseada em As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, a série acompanha as aventuras e desventuras de um elenco bastante extenso de personagens, que transitam em um universo onde bruxas, dragões e exércitos de mortos-vivos são uma realidade. 

Embora tenha se tornado um inegável sucesso de público e crítica, reiterado a cada nova temporada, o tempo também foi implacável em revelar as limitações da adaptação, em muito impostas por seus nem sempre muito competentes showrunners, Dan Weiss e David Benioff. À medida que se distanciava do material de origem, Game of Thrones deixava para trás muitas das características que a haviam tornado uma série aclamada em primeiro lugar, desviando personagens e tramas antes construídas de maneira muito sólida. Nesse sentido, talvez a quinta temporada seja, dentre todas as outras, aquela que escancara mais grosseiramente o desgaste dos artifícios utilizados por Weiss e Benioff ano após ano, incluindo os desnecessários estupros de Sansa Stark (Sophie Turner), Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) e Cersei Lannister (Lena Headey). Se a série não deixa de ser uma adaptação, sujeita a reinterpretações e mudanças no texto original, é também verdade que muitas dessas mudanças não são necessariamente positivas ou justificáveis. Como escreve Clarice França, num texto excelente sobre o assunto:

Estamos falando de universos ficcionais, onde podemos colocar magos, elfos e dragões e fazer sentido, ficar plausível e divertido para quem lê/assiste/joga. Por que na cabeça de alguns fãs é mais fácil acreditar em dragões que falam do que num mundo em que uma mulher não seja maltratada a todo momento? Já que não estamos fazendo um relato histórico, podemos criar qualquer coisa, inclusive um mundo que seja mais igualitário.

É claro que a ficção não tem a obrigação de criar mundos perfeitos ou livres de problemas, e muitas são as histórias que se utilizam de um contexto fantástico para falar sobre questões mais próximas da realidade. Mas não é o caso de Game of Thrones, em partes porque a série não parece de fato disposta a propor algum tipo de discussão (embora seja difícil imaginar que o sofrimento, pura e simplesmente, possa ser visto como entretenimento para alguém).

Atenção: este texto contém spoilers

A sexta temporada, no entanto, propôs algumas mudanças nesse sentido. Pela primeira vez, mulheres passaram a efetivamente assumir papéis determinantes dentro da trama — mais ativos, menos passivos — e traçarem caminhos que as levavam a uma posição inédita de autonomia e poder. É difícil saber até que ponto essas mudanças são uma resposta às críticas, uma real mudança de abordagem ou uma apropriação do discurso feminista pelo capitalismo, mas ainda é uma tentativa louvável, embora o caminho não exista sem alguns percalços.

Sansa Stark talvez seja a personagem que exemplifica mais claramente o caso. Tirada de Winterfell para viver o que acreditava ser um conto de fadas, Sansa sofreu, e sofreu muito, durante o período em Porto Real, mas cresceu em igual proporção, ganhando uma das tramas mais ricas e interessantes da série. De uma menina boba e inocente a uma mulher resiliente e sagaz, Sansa se tornou uma personagem notável, mais complexa do que seria possível supor em seus primeiros momentos na série, e que crescia a olhos vistos, em uma constante que poderia levá-la muito longe sem a necessidade de ser vítima de um estupro — que serve muito mais à trajetória de Theon (Alfie Allen) do que a sua própria —, mas não foi isso que aconteceu. Mesmo depois de assumir seu lugar em Winterfell, sendo uma peça decisiva na ascensão dos Stark, em casa depois de tanto tempo, a coroação de Jon Snow (Kit Harington) como Rei do Norte é um lembrete do quão pouco Sansa tem sido creditada por aquilo que alcançou. Não parece provável que ela de fato quisesse ser rainha, mas menos provável ainda parecem ser suas chances de chegar até lá, uma vez que a opção nem mesmo fora cogitada pelos demais.

A morte de Ramsay (Iwan Rheon), em uma rápida comparação, é narrativamente mais eficiente. Diferente do que sugeriam alguns roteiros vazados antes da estreia da temporada, Game of Thrones não fez de Sansa uma assassina, preferindo mantê-la em uma posição superior; a vingança viria, é claro, mas isso não necessariamente significava que ela teria de sujar as próprias mãos. E, como havia feito no passado, é em seus cachorros que Ramsey encontra o próprio fim. Sansa observa os animais se alimentarem daquele que a violentara, impassível, em uma cena pouco óbvia, mas não por isso menos potente.

Game of thrones

O mesmo não pode ser dito sobre Dorne, definitivamente o núcleo mais mal-sucedido de toda a série. Em um desenvolvimento que muito pouco se assemelha aos livros, Game of Thrones transforma os dorneses em uma caricatura, muito mais próxima da caracterização do outro pelo homem branco colonizador do que por suas contrapartes literárias. As próprias Serpentes de Areia, que poderiam ir muito além da vingança vazia que as têm motivado ano após ano, tampouco vão além das frases de efeito. A aliança firmada com Olenna Tyrell (Diana Rigg) pode indicar uma mudança para o futuro do núcleo, mas continua apenas uma especulação e pode não passar de sê-lo.

Enquanto isso, num extremo oposto, há o retorno de Yara Greyjoy (Gemma Whelan), que volta a desafiar os papéis de gênero nas Ilhas de Ferro. Diferente do que acontece no Norte, é Yara quem reivindica o trono em sua terra natal, e não seu irmão, Theon — o que acontece menos por uma questão de política do que pela figura de Yara, nascida e criada nas Ilhas de Ferro, e muito mais familiarizada com seu povo do que Theon. Não deixa de ser positivo vê-la reinar, no entanto, uma mulher que é também lésbica, e não a mulher lésbica unidimensional comum à ficção. Yara é uma mulher complexa, firme, às vezes agressiva, mas também dinâmica, engraçada, e que exerce sua sexualidade com uma naturalidade não exatamente inédita, mas ainda rara — e sua representação seria perfeita, não fosse ela delineada a partir da noção de masculinidade que rege as Ilhas de Ferro. Em sua interação com a prostituta no bordel, Yara age como um dos garotos, como ela também é vista pelos homens que a cercam, emulando o sexismo intricado que, desde criança, havia influenciado sua vida.

A recente aliança firmada com Daenerys, entretanto, abre portas para o desenvolvimento da dinâmica entre elas, que poderia facilmente evoluir para algo mais. Se Game of Thrones nunca foi eficiente em reiterar que a força sempre esteve nas mulheres de seu vasto elenco, Dany e Yara ainda são exemplos que fogem à curva. Embora tracem caminhos muito distintos individualmente, ambas são mulheres que não se contentam em ser submissas, cujo poder vem às custas de seus esforços, e a quem o casamento e a maternidade parecem questões secundárias ou apenas desimportantes (quando essas, em qualquer outro contexto, poderiam ser dilemas práticos de sucessão). Rumo à Westeros, as duas terão a chance de protagonizar cenas intensas de estratégia e batalha, podendo ultrapassar os limites de uma aliança meramente política.

Mas se algumas personagens ganham contornos mais nítidos, o mesmo não pode ser dito sobre Brienne (Gwendoline Christie) e Melisandre (Carice Van Houten), cujos papéis centrais ao desenvolvimento da trama não é suficiente para torná-las personagens completas em si mesmas. Brienne, agora ao lado de Sansa, protagoniza uma bela cena ao lado da jovem Stark, mas não lhe resta muito mais a fazer quando ela está a salvo. Melisandre, por sua vez, parece prestes a ganhar um desenvolvimento mais profundo, mas é apenas uma sugestão que não leva a lugar algum. No primeiro episódio, quando revela sua verdadeira face, Melisandre parece muito cansada, e é difícil entender o que a leva até a Muralha em primeiro lugar. Ela vive um momento singular, marcado, principalmente, pela perda da fé, mas a série não parece realmente interessada em suas questões privadas, fazendo com que só seja importante dentro do espaço de tempo em que fosse responsável pelo retorno de Jon Snow. No fim das contas, nem mesmo a ajuda lhe serve pessoalmente, tornando mais difícil a tarefa de compreender suas reais motivações.

Longe dali, Arya Stark (Maise Williams) vive como Ninguém, em uma jornada que se desenvolve lenta e gradativamente. Mesmo que em seu centro esteja a rivalidade entre duas garotas, Game of Thrones traça a dinâmica entre as duas com considerável desenvoltura, se aliando a um cenário em que nada acontece por mero acaso. É ao rejeitar a chance de estar naquele lugar, assumindo sua verdadeira identidade, no entanto, que a trajetória de Arya se destaca e a série consegue… brilhar. Da chance de se tornar Ninguém, ela decide ser apenas Arya Stark, uma garota do Norte, que mesmo de longe nunca esquecera quem era ou qual era o seu lugar. A volta ao lar também possibilita que ela possa finalmente colocar seus planos de vingança em ação — o que, com efeito, não demora a acontecer. Arya muda e isso fica evidente ao matar Walder Frey (David Bradley), na completa ausência de hesitação e na satisfação de vê-lo morto em sequência. Braavos é um divisor na vida de Arya e a menina que retorna a Winterfell não é, e nem poderia ser, a mesma.

Nenhuma trama, porém, é tão interessante quanto aquela desenvolvida em Porto Real. Ver Cersei finalmente sentar no Trono de Ferro, ocupar o lugar que sempre acreditou ser seu, foi, ao mesmo tempo, assustador e extraordinário: porque ela ainda é o mais próximo que Game of Thrones chega de uma vilã, mas é também a primeira mulher a assumir-se como Rainha absoluta de Westeros. Cersei nunca foi uma pessoa agradável, nunca foi uma personagem menos do que controversa, e, no entanto, é em um momento de vulnerabilidade que ela decide coroar a si mesma. É também uma maneira de a série manter viva a teoria de Maggy, a Rã (Jodhi May), em que ela se tornaria a suposta Rainha Louca.

Game of thrones

Cersei sempre foi uma mulher inteligente e ambiciosa, que nunca aceitou as restrições que lhe eram impostas pelo simples fato de ser mulher, e foi a única pessoa capaz de eliminar todos os seus inimigos de modo a garantir seu objetivo final. Cersei navega entre faces distintas — da mãe feroz para a vilã maquiavélica e de imensa frieza, capaz de qualquer coisa pelo poder, até a atormentada por fantasmas do passado ou, por fim, rainha — e é dessa maneira que permanece, sem jamais mudar em função daqueles que a cercam. Se sua reação diante da morte de Tommen (Dean-Charles Chapman), ao contrário da de seus outros filhos, não é tão dramática, ela não diz tanto sobre o conflito particular desenvolvido entre os dois, sobretudo após o casamento deste com Margaery Tyrell (Natalie Dormer), quanto diz sobre Cersei enquanto uma mãe traída pelo próprio rebento, a quem a morte, fosse mais cedo ou mais tarde, já era muito óbvia. Cersei nunca foi uma boa mãe, mas ela sempre fizera mais do que os homens ao seu redor, e possíveis pais de suas crias, estavam dispostos a fazer. Seu amor sempre foi indiscutível, mas é uma vez longe da sombra dos filhos e dos homens de sua vida que ela tem a chance de alcançar suas ambições pessoais. Quanto mais pessoas você ama, mais fraco você se torna, ela diz em determinado momento, e a fala não parece se aplicar tanto a alguém quando se aplica a ela própria.

De modo geral, a sexta temporada de Game of Thrones foi uma das mais consistentes até agora, suprindo muitas das expectativas dos fãs e conseguindo, talvez pela primeira vez, desenvolver praticamente todos os núcleos de forma satisfatória. Nada anula as barbaridades que assistimos nos últimos anos, mas os deslizes cometidos são um lembrete do quanto ainda há para ser melhorado. Em seis temporadas, somente quatro episódios da série foram escritos por mulheres, enquanto outros quatro foram dirigidos por elas — números que já dizem muito por si só. É muito cedo para afirmar que Game of Thrones é uma série feminista e que essas mudanças não são pontuais, mas esse foi o primeiro passo e agora, a esperança que fica é a de que, cada vez mais, a série prove que a força definitivamente está em suas mulheres.

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