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Please Like Me: uma realidade nem tão distante assim

Algumas coisas acontecem quando precisam acontecer; começar a assistir Please Like Me foi uma delas. A série australiana produzida e estrelada por Josh Thomas foi, a princípio, uma recomendação dos meus amigos gays. “Se você gostou de Girls e se identificou em muitos momentos, nós conseguimos encontrar isso em Please Like Me”, eles disseram. Para alguém que cresceu com Girls e de fato se viu em muitas das situações vividas pelas personagens, qualquer uma delas, não parecia possível que pudesse ter o mesmo tipo de conexão com uma história centrada na vivência de um jovem homossexual, sendo eu mesma mulher e heterossexual. Please Like Me provou que eu não poderia estar mais errada.

No ar por três anos, entre 2013-2016, totalizando quatro temporadas, Please Like Me conta a história de Josh, um cara de vinte e poucos anos que acaba de terminar com a namorada e se descobre homossexual. Com o apoio da agora ex-namorada, Claire (Caitlin Stasey), e de seu melhor amigo, Thomas (Thomas Ward), Josh precisa ajudar a mãe a lutar contra a depressão ao mesmo tempo que assimila a descoberta da própria sexualidade e tenta fazer com que sua família abrace-a junto com ele. A narrativa é inspirada na vida do próprio criador, que revelou em algumas entrevistas que assistir ao seriado é conhecer mais sobre si mesmo no mundo real. Seu cachorro, John, também se chama John na vida real, e como na série, também é o fiel escudeiro do verdadeiro Josh, ou o Josh longe dos holofotes e da tela pequena, como preferir. Vários aspectos da personalidade do criador são incorporadas ao personagem, construindo um jovem que passa longe do clássico jovem-adulto descolado, tornando-o muito mais real: o personagem gosta de coisas peculiares como relógios, casas cheias de bugigangas e roupas de décadas passadas; gosta de baladas, mas às vezes só quer beber uma garrafa inteira de vinho; e em determinado momento constrói um curral atrás de sua casa onde cria galinhas que possuem nomes de divas pop como Adele, Shakira e Beyoncé.

Situada em Melborne, a série abandona a bolha norte-americana e utiliza como cenário a cidade australiana, lugar em que Josh e Thomas dividem uma casa. Ali, temos contato com novos sotaques, rostos, ruas, praias; a série permite que sintamos os lugares e sua importância dentro da narrativa, parte de uma personalidade própria. O mesmo acontece com o nome dos episódios: todos têm nomes de pratos de comidas ou estão relacionados à comida, de modo geral — o que também revela detalhes do episódio em questão. Em outras palavras, isso quer dizer que, se o nome do episódio é “Parmigiana” (como o terceiro episódio da segunda temporada), então em algum momento esse prato vai aparecer na telinha. Please Like Me faz referência à diversos pratos, das mais diferentes cozinhas — de pasteis de belém a macarrão com queijo trufado —, um detalhe interessante e que também revela o papel da comida no nosso cotidiano; mais do que uma forma de sobrevivência, a comida está, muitas vezes, atrelada a sentimentos, situações, lembranças. 

Em comum com Girls, Please Like Me oferece análises sobre assuntos que também fazem parte das nossas vidas e nos fazem exercitar, dentro da mente, nossas próprias percepções sobre se tornar adulto, pessoas de verdade, nesse mundo. Mais do que isso, todos os dramas apresentados pela série são os mais reais possíveis, o tipo de coisa pelo qual muito gente passou, passa ou que ainda passará. Não somente no que tange a transição entre adolescência e vida adulta ou homossexualidade, mas também assuntos como relacionamentos familiares, amigos e saúde mental, além de contar as histórias de várias mulheres.

As mulheres que fazem parte dessa narrativa estão em idades diferentes, têm rotinas e estilos de vida diferentes; o fator comum que as une é o fato de que todas são extremamente reais. Embora seja centrada na vida de Josh, a série não é somente sobre ele e, arrisco dizer, que é também sobre sua mãe, Rose, (Debra Lawrance) e a importância que ela tem na vida de Josh, além do grito desesperado que dá à sua família enquanto luta contra a depressão.

No episódio piloto, é o pai de Josh (David Roberts), já separado há anos de sua mãe, que avisa que ela estava no hospital após uma tentativa de suicídio. A reação de Josh é bastante realista: o que fazer? o que acontece agora? Sua mãe precisa que ele volte a morar com ela, do contrário não teria o apoio necessário, mas é o máximo de respostas que ele tem por enquanto. Ao longo de toda a série, entretanto, ela fala muito honestamente sobre o que está sentindo, sobre como está sua vida. Em “Scroggin”, sétimo episódio da segunda temporada, Josh e a mãe vão acampar, e é ali que todas as respostas são fornecidas. A conversa franca que eles têm sobre depressão, sobre seu lugar no mundo e como Rose se sente é impactante: não estamos acostumados com isso. Ela vem dizendo a toda sua família, de forma direta ou indireta, que precisa de ajuda. Mas ajudá-la não significa apenas morar com ela, mas estar ao seu lado, abraçar aquilo que ela representa — ironicamente, aquilo que seu filho também precisa quando assume a si mesmo como homossexual.

A morte de pessoas próximas a Rose se tornam gatilhos para ela, que tenta novamente o suicídio durante a segunda temporada da série. Sem sucesso, ela vai para um hospital psiquiátrico, onde passa a tomar vários remédios que a ajudam naquele momento. Mas eles não são eternos, tampouco milagres, e causam muitos altos e baixos em sua vida. Josh, no entanto, não parece ter a real dimensão do problema: embora seja prestativo, em vários momentos ele se coloca a disposição para que a mãe peça ajuda quando precisar de alguma coisa, mas perde o ponto ao ignorar que ela muitas vezes já não tem mais forças para fazer esse pedido.

E não somente Rose, mas outras mulheres da série tem sua sanidade, atitudes e relações colocadas à prova. Claire, ex-namorada de Josh, é julgada pelos amigos por largar tudo e ir morar em outro país. Niamh (Nikita Leigh-Pritchard), ex-namorada de Thomas, ciumenta e abusiva, é humilhada diversas vezes por esse temperamento explosivo. Hannah (Hannah Gadsby) sofre de ansiedade, mas o apoio dos amigos só dura até a página dois, quando ela passa a ser julgada por não gostar de socializar. Tia Peg (Judi Farr) assume a responsabilidade de cuidar de Rose, mas é julgada por ser uma senhora que bebe cerveja no meio da tarde, enquanto Ella (Emily Barclay) é julgada porque não depila as axilas. Não é uma mera casualidade que o termo “julgar” seja tantas vezes conjugado nesse texto. Mas isso só acontece quando falamos sobre mulheres. Josh possui um relacionamento aberto e Thomas, em determinado momento, trai a namorada, mas nada disso abre espaço para que suas atitudes, escolhas e decisões sejam julgadas.

O papel das mulheres em Please Like Me é quase tão forte e importante quanto o enredo central. Como o enredo central sobre homossexualidade, a série é um convite a compreendermos melhor essas mulheres, suas individualidades, além de tentarmos entender pedidos de ajuda que, muitas vezes, estão apenas nas entrelinhas. Se, por um lado, os personagens dentro da série tendem ao julgamento, do outro lado, queremos abraçá-las, acima de tudo porque entendemos. Porque essa realidade é, em alguma medida, também nossa. Vivemos em uma sociedade deturpada; é preciso falar como isso interfere em nossas vidas.

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